Há duas maneiras de descrever o mundo que Deus escolheu. A primeira aponta para o mundo em termos ideais, isto é, o mundo como Deus deseja que o mundo seja. Mais ou menos como um menino diante de muitos brinquedos, escolhendo aquele que melhor lhe convém, geralmente o maior, o mais bonito, o que aparenta a possibilidade de ser mais emocionante. Nesse sentido, o mundo que Deus escolheu poderia ser descrito com adjetivos como adorador, solidário, justo, puro, fraterno, abençoador, verdadeiro, compassivo, doador. Muitas figuras poderiam ser usadas para descrever esse mundo ideal. Os profetas falaram de pais convertidos aos filhos e filhos convertidos aos pais, armas transformadas em artefatos de jardinagem, bestas feras selvagens convivendo com animais domésticos, reis e juízes defendendo o direito dos pobres, o deserto se abrindo em flores, as praças abrigando crianças para brincadeiras de roda e idosos compartilhando memórias e entoando canções de esperança, e muitas outras, uma mais linda que a outra, sempre apontando para o reino de Deus, inaugurado na história e consumado na eternidade. Mas há outra maneira de descrever o mundo que Deus escolheu: o mundo em seu estado real, longe do ideal, mas nem por isso rejeitado, descartado, desprezado, mas escolhido, abraçado, acolhido, assumido com amor sacrificial e definitivo. Nesse sentido, aprendemos no Evangelho que Deus nos amou primeiro, e nos amou quando éramos ainda pecadores. Deus escolheu o mundo que o rejeitou, escolheu o mundo que deu as costas ao seu amor, que ignorou seu propósito, seu desígnio, design. Deus escolheu o mundo feio, sujo, imperfeito, injusto, maculado pela ganância e pela vaidade da fera humana que pôs tudo a perder e levou consigo tão bela criação. Martinho Lutero resumiu bem essa singularidade do amor divino ao afirmar que “o amor de Deus não se destina ao que vale a pena ser amado, mas cria o que vale a pena ser amado”. Antes de se tornar amável, tudo deve ser amado. Deus amou o mundo. Deus escolheu o mundo. Deus escolheu amar o mundo. Fonte: IBAB |
O Evangelho de João, o Gnosticismo e seu Contexto
Há muita discussão sobre o jogo de influências entre o gnosticismo e o quarto evangelho. Não tenho a pretensão de fechar a questão com este artigo, isso demandaria muita pesquisa; e acredito que a coisa está cercada de tantas possibilidades que não seria possível ser categórico ainda que se leia e se destrinche tudo sobre o assunto. Seriam apenas fontes e evidências, mas as conclusões sempre margearão o campo da especulação. Se no fim das contas ficaremos dependentes de nossos próprios paradigmas que montam as peças desse gigante quebra-cabeça, minha tarefa aqui é apenas a de demonstrar (pelo menos vou tentar!) que há sempre uma interpretação alternativa para qualquer teoria, ainda que formulada com base em fontes ou evidências. Portanto, não estou tentando provar nada, apenas demonstrar que determinadas proposições que “evidenciam” uma influência gnóstica no Evangelho de João ou o propósito de sua autoria podem ser simplesmente uma furada. Vamos começar a questão pelo propósito d...
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