Que tens, Hagar?

“Que tens, Hagar?”


A história de Hagar não é apenas o relato de uma serva egípcia. 


É uma poderosa revelação do cuidado de Elohim por aqueles que se sentem invisíveis, descartados ou rejeitados.


O título deste estudo nasce da pergunta divina registrada em Gênesis 21:17, quando o anjo de Deus a encontra no deserto:


“Que tens, Hagar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, desde o lugar onde está.”


Essa pergunta não revela ignorância divina, mas convida à restauração da esperança.



1. A Origem e o Nome de Hagar


O nome Hagar (הָגָר – Hagár), em hebraico, está associado à ideia de estrangeira, forasteira ou aquela que peregrina. Sua identidade já carrega a marca do deslocamento.


Segundo a tradição judaica registrada por Rashi em seu comentário sobre Gênesis 16:1, Hagar era filha do Faraó. Ao presenciar os milagres que Deus realizou em favor de Sarai no Egito, o Faraó teria declarado:


“Melhor que minha filha seja serva na casa desta mulher do que senhora em outra casa.”


(Às vezes, o homem vê servidão onde Deus está preparando propósito.)



2. O Conflito no Lar de Abraão


A decisão de Sarai de entregar Hagar a Abrão revela uma tentativa humana de apressar a promessa divina.


“E Sarai disse a Abrão: Eis que o SENHOR me tem impedido de gerar; toma, pois, a minha serva.”

(Gênesis 16:2)


Rashi explica que Sarai esperava ser edificada por meio dessa atitude. 


Contudo, quando Hagar concebe, algo se rompe no relacionamento:


“Vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos.”

(Gênesis 16:4)


Aqui se manifesta um princípio espiritual profundo:


Quando a promessa é buscada fora do tempo de Deus, ela gera conflito em vez de descanso.


O princípio de Hillel


O sábio Hillel ensinava:


“O que é odioso para ti, não o faças ao teu próximo.”


A rivalidade entre Sarai e Hagar revela a fragilidade humana quando a vontade própria se sobrepõe à paciência na promessa.



3. O Primeiro Encontro no Deserto


(Gênesis 16)


Afligida, Hagar foge e vai parar no deserto. É ali, junto a uma fonte, que ocorre algo extraordinário:


“E o Anjo do SENHOR a achou junto a uma fonte de água no deserto.”

(Gênesis 16:7)


Este é o primeiro registro na Torá de uma aparição angelical a uma mulher — e não a uma matriarca israelita, mas a uma serva estrangeira.


Beer-Laai-Roi


Hagar dá um nome ao lugar:


“Tu és Deus que me vê.”

(Gênesis 16:13)


Beer-Laai-Roi significa:

“Poço do Vivente que me vê.”


(Quando todos nos perdem de vista, El Roi nunca desvia o olhar.)


Devemos entender que:


O deserto não é ausência de Deus; muitas vezes, é o palco onde Ele se revela com maior clareza.


“Para onde me ausentarei do teu Espírito?”

(Salmos 139:7)



4. O Segundo Deserto e a Pergunta Divina


“Que tens, Hagar?” (Gênesis 21)


Anos depois, após o nascimento de Isaque, Hagar e Ismael são enviados ao deserto de Berseba.


“E consumida a água do odre, lançou o menino debaixo de uma das árvores.”

(Gênesis 21:15)


O desespero toma conta. Mas Deus intervém novamente:


“E Deus ouviu a voz do menino; e o anjo de Deus bradou desde os céus a Hagar.”

(Gênesis 21:17)


A pergunta divina não é acusação, mas convite:


“Que tens, Hagar? Não temas — porque Deus ouviu.”


(O céu reage quando a dor encontra a fé, mesmo que seja uma fé cansada.)


Então Deus abre os olhos de Hagar:


“E abriu-lhe Deus os olhos, e viu um poço de água.”

(Gênesis 21:19)


A provisão já existia. O que faltava era visão.



5. O Ensinamento de Rashi


Rashi observa que:


“Deus ouviu a voz do menino onde ele estava.”


Isso ensina um princípio poderoso:

Deus julga o homem pelo que ele é hoje, não pelo que outros poderão se tornar amanhã.



6. Conexão com a B’rit Chadashá (Novo Testamento)


Assim como Deus revelou uma fonte a Hagar, Yeshua, o Messias, revela-se como a verdadeira Água Viva:


“Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.”

(João 4:14)


Em João 4, Yeshua encontra outra mulher marginalizada — uma samaritana — junto a um poço. O padrão se repete:


→ Mulher

→ Estrangeira

→ Marginalizada

→ Encontrada por Deus


(Deus continua se revelando àqueles que o sistema ignora.)



7. Resumindo


I. O Deus que Vê

O mundo nos rotula; Deus nos chama pelo nome.


“Antes que te formasse no ventre, eu te conheci.”

(Jeremias 1:5)


II. O Deserto como Altar


Foi no lugar da escassez que Hagar recebeu as maiores revelações.


III. A Provisão Oculta


A fonte já estava ali, mas era necessário que Deus abrisse os olhos.


Como disse Billy Graham:


“A vontade de Deus nunca o levará aonde a graça de Deus não possa sustentá-lo.”



8. Aplicando a Palavra para os Nossos Dias


Muitos hoje se sentem como Hagar:


→ Descartados

→ Invisíveis

→ Sem recursos


A pergunta ecoa novamente:

“Que tens, Hagar?”


Não é uma pergunta de condenação, mas de cuidado.


Deus continua sendo El Roi, o Deus que vê, e El Shaddai, o Deus que provê fonte de vida no meio da aridez.


“Os aflitos comerão e se fartarão.”

(Salmos 22:26)


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