sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O Evangelho de João, o Gnosticismo e seu Contexto


Há muita discussão sobre o jogo de influências entre o gnosticismo e o quarto evangelho. Não tenho a pretensão de fechar a questão com este artigo, isso demandaria muita pesquisa; e acredito que a coisa está cercada de tantas possibilidades que não seria possível ser categórico ainda que se leia e se destrinche tudo sobre o assunto. Seriam apenas fontes e evidências, mas as conclusões sempre margearão o campo da especulação. Se no fim das contas ficaremos dependentes de nossos próprios paradigmas que montam as peças desse gigante quebra-cabeça, minha tarefa aqui é apenas a de demonstrar (pelo menos vou tentar!) que há sempre uma interpretação alternativa para qualquer teoria, ainda que formulada com base em fontes ou evidências. Portanto, não estou tentando provar nada, apenas demonstrar que determinadas proposições que “evidenciam” uma influência gnóstica no Evangelho de João ou o propósito de sua autoria podem ser simplesmente uma furada.

Vamos começar a questão pelo propósito da autoria do Evangelho, que está intimamente ligado ao teor gnóstico. Alguns tomam o versículo 31 do capítulo 20 do evangelho como prova incontestável do objetivo do autor: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” O problema é alguns concluem a partir do texto que o objetivo de João era convencer judeus de que o Messias que eles esperavam era o Jesus de Nazaré. Ele queria, portanto, ligar o nome à pessoa.

Qual o problema com essa conclusão? Bem, pode ser que haja uma confusão generalizada entre causa e efeito. Pode ser que algo tenha um efeito que não foi o pretendido inicialmente. Isso é totalmente natural. Se não fosse assim, os eventos “inconsequentes” nunca existiriam! Vamos tomar, por exemplo, o caso de José. Ele foi vendido pelos irmãos, e a causa foi a inveja, o desejo de dar um sumiço nele. O efeito foi se desdobrar em José como governador do Egito, salvando sua família inteira da fome. Se eu olho para o evento final e confundo causa com efeito, eu posso dizer que os irmãos de José venderam-no com o objetivo de fazê-lo governador do Egito para salvá-los mais tarde da fome.

Portanto, podemos perceber que ainda que o Evangelho de João tenha tido algum efeito no convencimento para os judeus de que Jesus era o Messias, isso não determina conclusivamente de que a causa, ou seja, a intenção de escrever o evangelho tenha sido o de convencer judeus a reconhecer que o Messias era o homem Jesus “recém” crucificado. Se o evangelho tem outros propósitos, essa interpretação seria simplesmente uma confusão entre causa e efeito. O próprio versículo não deixa isso claro, e a necessidade de reconhecer que o Jesus histórico é o mesmo Cristo do âmbito da fé, o filho de Deus, não é uma necessidade etnocêntrica, mas de todo aquele que crê, quer seja ele judeu ou gentio.

Há, inclusive, uma variante textual neste versículo que pode arruinar esse tipo de “salto lógico” para concluir que João escrevera seu evangelho para convencer judeus que Jesus era o Cristo. As palavras “para que creiais” apresentam as variantes ἵνα πιστεύητε (presente subjuntivo) e ἵνα πιστεύσητε (aoristo subjuntivo). Portanto, não fica claro se João realmente deseja que seu leitor “passe a crer” ou que seu leitor “continue crendo” após ler o seu evangelho por meio das evidências ali apresentadas na narrativa. Vale a pena comparar com 1 João 5:13: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus.” A intensão de João era encorajar seus leitores a continuar na fé. Por que não seria o mesmo no seu evangelho? Pelo menos posso encontra algum suporte a esse tipo de questionamento do propósito para a redação do evangelho como obra de evangelismo entre judeus no livro “An Introduction to the New Testament”, D. A. Carson and Douglas J. Moo. Segunda edição – 2005, Zondervan - pp. 268-273.

Não dá pra concluir muita coisa a partir desse texto de João 20:30-31. Há a variante textual, o texto não é claro – pelo menos não afirma que o destinatário do evangelho é um judeu a ser convencido, isso é uma conclusão indutiva – e deixa de lado todo um universo de assuntos que podem ser tomados como concorrentes causas da redação do evangelho. Além do mais, por que um evangelho para convencer judeus de que o Messias era Jesus teria uma influência helênica tão forte?

O Evangelho de Mateus tem todas as qualidades que precisamos encontrar para tomá-lo como um documento escrito por um judeu para convencer judeus. Mas o evangelho de João é helênico demais pra isso. Alguns até alegam que os destinatários de João eram os judeus da diáspora, portanto, completamente helenizados. Pode até ser que sim, mas outra vez poderíamos estar simplesmente confundindo causa com efeito. É possível que o evangelho tenha tido impacto maior entre os judeus helenizados da diáspora, mas isso seria um efeito e não a causa. Uma das principais alegações contra esse entendimento é o tom “esculachatório” do autor quando se trata dos judeus. Eles nunca são pintados como os mocinhos; a salvação sai das mãos deles e vai para os gentios; parece que a esperança vai para os gentios, e para os judeus só resta desesperança porque estes rejeitaram o messias; e as acusações contra os judeus são sempre muito graves. Uma característica peculiar desse evangelho é chamar os grupos (escribas e fariseus, por exemplo) de judeus. Seria, no mínimo, uma tática evangelística bem incomum...

A presença helênica no quarto evangelho é tão evidente que este se tornou o evangelho dos gnósticos. Tudo vem muito bem a calhar. O Evangelho de João parece dar as mãos aos filósofos gregos com o apelo ao logos divino e outras coisas mais, além das afirmações quanto às naturezas divina e humana de Jesus, um prato feito para os gnósticos e docetistas. E aqui encontramos outro problema.

Muitos dos evangelhos apócrifos têm origem em comunidades gnósticas, e as bases para as crenças gnósticas são tão presentes no quarto evangelho que alguns especulam que o seu autor era também gnóstico. Embora algumas evidências possam apontar para o uso do Evangelho de João por gnósticos de Alexandria e Éfeso, não podemos simplesmente aceitar que tal evidência encerre a questão quanto à influência gnóstica do livro. Seria novamente uma confusão entre causa e efeito. Se a utilização do livro por certa comunidade ou grupo religioso aponta para a sua causa (propósito de sua autoria) então poderíamos alegar que o autor do quarto evangelho era kardecista. Não é porque o kardecismo estrutura suas bases com porções extraídas e citadas do Evangelho de João que acreditaremos tão ingenuamente que a intenção do autor do evangelho era dar suporte às doutrinas de Allan Kardec. O efeito é notório, mas isso não configura a causa! Portanto, não é porque encontramos certos documentos do gnosticismo de Alexandria e Éfeso adotando o texto de João como fonte para suas “doutrinas” que concluiremos que o autor do evangelho era igualmente gnóstico. Aqui, também encontro suporte pelo menos na obra do R. N. Champlin:

“E assim, se por um lado, alguns dos termos favoritos do gnosticismo tenham sido «conhecimento.., «fé», «saber», «crer», -sabedoria» e «verdade.., por outro lado, esses vocábulos também foram constantemente usados pelo autor do evangelho de João. E, apesar de ser historicamente demonstrável que certos grupos gnósticos de Alexandria e de Éfeso apreciaram especialmente o evangelho de João, contudo, não existe qualquer conexão vital entre os dois; parece bastante certo que, na realidade, o evangelho de João foi escrito como refutação das idéias gnósticas básicas, em vez deter sido um reflexo das mesmas.” (Encliclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, volume 3, pp. 570 - Editora Hagnos.)

Para encerrar este artigo, volto à introdução. Se a autoria do Evangelho de João pode ser defendida como aquela que nada tem que ver com influência gnóstica, antes poderia ser um documento escrito para combater um gnosticismo embrionário no primeiro século, por que há a preferência de alguns de sempre partir para o caminho da dúvida, por que a preferência por aquilo que pode minar a fé na pureza de revelação divina do evangelho? Por que a insistência de virar o evangelho do avesso para dizer justamente o contrário do que ele está afirmando? Afinal, há fundamento para defender a tradição, e as teorias da dúvida quanto autoria e conteúdo são realmente duvidosas – acho que consegui demonstrar por simples argumentação lógica que elas não são assim tão incontestáveis para fechar a questão e negar a tradição. Como se realiza a escolha do que defender? Será a fé, a falta dela, o ser fundamentalista ou liberal?



Autor: André R. Fonseca