quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Repentistas do púlpito


É comum encontrar pregadores que não preparam sermão, deixam a coisa inteiramente por conta do Espírito, da unção, do repente. Há também os repentistas que gostam mesmo de perder tempo, porque dedicaram-se no preparo do sermão durante a semana por algumas horas e mudam tudo cinco minutos antes de subir ao púlpito.

Já observei que é típico desse pessoal dizer que a mudança do sermão aconteceu aos 45 do segundo tempo e que a entrega da Palavra foi uma bênção, o poder de Deus verdadeiramente se manifestou, pessoas foram tocadas e blá blá blá. Pode até ser, mas custo a acreditar!

Se o Espírito está com o pregador repentista para entregar a ele uma mensagem poderosa no momento da pregação, por que não estaria com ele antes para entregar a mensagem no momento de preparo do sermão? Ou ele nega a onisciência do Espírito para conduzi-lo na mensagem que deveria ser pregada naquela noite em particular ou o Espirito sobre ele é assim meio no estilo de Saul, entre e sai... Estranho, não é!?

Se o Espírito que está com ele no púlpito é o mesmo que permanece com ele, conduzindo-o em tudo, nos momentos entre púlpitos, só posso mesmo crer que é o fator emoção a causa da mudança no sermão. A mesma emoção que envolveu o pregador repentista antes do púlpito, durante a parte inicial do culto, é também responsável pela avaliação dele da eficácia do repente improvisado.

Nosso estado de espírito influência nossa percepção do mundo. Para uma pessoa deprimida, tudo está ruim; para uma pessoa eufórica, tudo está uma beleza! Outro efeito da histeria emocional do repentista é a sua influência sobre a audiência. Um animador de auditório deve ser eufórico para contagiar as pessoas. Coloque o Spock na frente do auditório e espere a interação da plateia... Nada!

Se o repentista já foi arrebatado pela emoção, é evidente que ele estará mais apto a envolver seus ouvinte, colocando-os no mesmo nível de excitação emocional, e a predisposição natural da plateia para essa “empatia eufórica” com o animador de auditório é fato já muito bem conhecido e explorado! Se assim não fosse, não seria tema de estudo de quem trabalha com teatro, comédia, apresentadores de show de auditório, etc. Converse com um dublador de filmes por cinco minutos e entenda a dificuldade da dublagem de harmonizar a cena com tom emocional da fala do personagem dublado. Se toda a cena é de completa euforia, e o dublador fala como quem acaba de enterrar o pai, a emoção é perdida. Se o filme é um drama e convidam um comediante inveterado para dublar todas as falas com ar jocoso, a angústia do drama vira um deboche para a percepção dos ouvintes. Quem poderá chorar e envolver-se com o drama dos personagens assim? Ninguém!

Não é verdade também que uma das grandes armas dos ilusionistas é envolver sua audiência emocionalmente. Verdade ou não? Se o mágico não souber arrebatar as emoções de sua plateia, certamente não conseguirá iludir ninguém!

Há verdadeiros homens de Deus por aí que são usados para falar coisas grandiosas no momento certo. Aquela palavra para qual não houve preparo, e Deus, por misericórdia, usa o vaso para entregar uma Palavra eficaz para sua Igreja. Mas esses casos são raros... Estou cansado de ouvir mensagens vazias em nome da emoção.




Autor: André R. Fonseca