As Faces do Pai
As Faces do Pai Reveladas em Yeshua e em Nós
O Enigma de João 14:9
Quando Filipe pede a Yeshua: "Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta", ele expressava o desejo intrínseco do ser humano de contemplar o Invisível. A resposta de Yeshua ecoa através dos séculos:
"Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?" (João 14:9)
Esta declaração muitas vezes gera debates teológicos, mas o seu entendimento profundo não é de uma semelhança física ou literal (visto que Deus é Espírito — João 4:24), mas sim de uma perfeita compatibilidade de caráter, essência e manifestação. Yeshua não estava reivindicando ser o Pai em pessoa, mas afirmando que Ele encarnou perfeitamente as Midot — os atributos e as faces — de Akadosh Baruch Hu (O Santo, Bendito Seja Ele).
1. As Faces de Deus e a Criação
Ninguém pode ver a face essencial do Eterno e continuar vivo (Êxodo 33:20). Por isso, Ele utiliza meios no mundo físico para se revelar à Sua criação de forma sutil e progressiva.
* A Revelação Cosmológica (A Natureza): O universo funciona sob leis perfeitas que expressam a grandeza do Criador. "Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos." (Salmos 19:1)
* "Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que foram criadas..." (Romanos 1:20)
2. As Treze Midot (Os 13 Atributos de Misericórdia)
Para compreender como o ser humano pode "revelar a face" do Eterno, devemos recorrer a Êxodo 34:6-7, onde o próprio Deus proclama Suas Midot (características/faces) a Moisés (Moshé). Essas faces equilibram o universo para que ele não seja destruído pelo rigor estrito (Gevurah).
1. Adonai (Primeiro): A bondade preventiva do Eterno. Ele age com graça antes mesmo de cairmos.
2. Adonai (Segundo): A misericórdia restauradora. Ele não desiste do ser humano mesmo após a falha.
3. El: O poder e a força divina colocados totalmente a serviço da vida.
4. Rachum (Compassivo): Uma compaixão visceral, derivada da palavra rechem (útero); é o amor instintivo e profundo de uma mãe que sente a dor do filho nas entranhas.
5. VeChannun (Gracioso): O favor imerecido. Graça que opera mesmo quando não há justificativa ou mérito.
6. Erech Apaim (Longânimo/Tardio em irar-se): Uma paciência longa e perfeita, que dá tempo e espaço para que tanto o justo quanto o ímpio possam amadurecer e se arrepender.
7. VeRav Chessed (Abundante em Benignidade): Uma bondade avassaladora que transborda muito além do que é estritamente necessário.
8. VeEmet (E em Verdade): A fidelidade absoluta e a verdade que caminha de mãos dadas com a própria misericórdia.
9. Notzer Chessed LaAlafim (Que guarda a misericórdia em milhares): O amor e o legado espiritual que alcançam e protegem até mil gerações.
10. Nossé Avon (Que perdoa a iniquidade): O perdão para os erros cometidos de forma intencional ou por rebeldia interna.
11. VaPesha (E a transgressão): O perdão para a rebelião aberta e consciente contra a soberania divina.
12. VeChataah (E o pecado): O perdão para as falhas cometidas por fraqueza crônica, ignorância ou erro de alvo.
13. VeNaquê (E que purifica/absolve): O equilíbrio perfeito entre a justiça e o perdão absoluto, limpando a culpa do coração arrependido sem anular a retidão do cosmos.
3. O Conceito de Nissaion (O Teste)
O termo hebraico Nissaion (plural: Nissiyonot) significa teste ou provação. Tudo o que confronta as nossas emoções no dia a dia — seja uma crise severa ou uma grande facilidade — é um teste. O teste não serve para que Deus descubra o que há em nós (Pois Ele já sabe), mas serve para trazer para fora o que está oculto e promover uma elevação espiritual da alma.
O Grande Teste de Moisés
Em Êxodo 32:10, após o pecado do bezerro de ouro, o Eterno propõe a Moisés: "Deixa-me, para que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma; e eu farei de ti uma grande nação."
Moisés tinha todas as justificativas lógicas e emocionais para aceitar. O povo era obstinado, murmurador e rebelde. No entanto, Moisés foi aprovado no seu Nissaion porque escolheu operar nas Midot (na face da misericórdia) e intercedeu:
"Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito." (Êxodo 32:32)
Moisés provou ser um líder compatível com o coração de Deus porque refletiu a face do Pai ao invés do seu próprio ego.
4. Yeshua: A Manifestação Plena e o Nosso Chamado
Em Yeshua, os 13 atributos de misericórdia deixaram de ser apenas conceitos lidos nas tábuas e se tornaram carne.
* Na hora da morte, Ele escolheu Rachum (Compaixão): > "E dizia Yeshua: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem..." (Lucas 23:34)
* Diante da nossa demora, Ele manifesta Erech Apaim (Paciência Longa): "O Senhor não retarda a sua promessa... antes, é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." (2 Pedro 3:9)
O Padrão Mais Alto do Reino
No Sermão da Montanha, Yeshua explica que a verdadeira evidência de que alguém se tornou "filho" de Deus é a capacidade de espelhar as Midot divinas diante daqueles que nos fazem mal:
"Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e chuva sobre justos e injustos." (Mateus 5:43-45)
O Vaso Transbordante
Cada ser humano foi planejado para ser um vaso que recebe a luz de Akadosh Baruch Hu. Quando passamos por um teste diário (alguém nos fecha no trânsito, nos ofende ou nos trai) e respondemos com fofoca (Lashon Hará), rancor ou vingança, demonstramos que o nosso vaso ainda contém trevas.
Porém, se estamos cheios do Espírito (Ruach HaKodesh), a única coisa que sairá de nós sob pressão será aquilo de que estamos cheios: Luz, Amor e Misericórdia. Como diz a Escritura:
"Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem." (Romanos 12:21)
Concluindo:
Revelando o Invisível
A afirmação de Yeshua "Quem vê a mim, vê o Pai" não era um privilégio exclusivo e estático, mas o modelo perfeito para toda a humanidade. O Eterno permanece invisível aos olhos carnais; a única forma de o mundo assistir à essência do Criador é olhando para as atitudes dos Seus discípulos.
Quando escolhemos o perdão em vez da retaliação, a paciência em vez da ira, e o amor em vez do julgamento, nós nos tornamos o espelho da face divina no mundo físico. Cada Nissaion é a sua oportunidade de elevar a sua alma e clamar ao mundo, através das suas obras: "Olhe para a minha vida, e conheça o caráter do meu Pai."
Comentários
Postar um comentário