domingo, 1 de junho de 2014

Aplicações práticas das Doutrinas dos Decretos e da Predestinação


Por Rev. Samuel Falcão


1. Estas doutrinas trazem conforto ao crente

É interessante notar que toda vez que Paulo escreveu sobre a predestinação ou eleição ele teve um fim prático em vista. Em Rm. 8:28-30 escreveu sobre este assunto para apresentar uma garantia aos cristãos. Terminou sua intrincada exposição deste assunto em Rm 9-11 com um hino de louvor a Deus e esperança para os homens. “Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos, ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus!” etc. Em Efésios 1, onde desenvolve este mesmo assunto, introdu-lo com uma palavra de louvor a Deus, “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele”, etc.

Jonathan Edwards disse o seguinte sobre o conforto que a doutrina da soberania de Deus traz:

“A doutrina da absoluta soberania e livre graça de Deus em mostrar misericórdia a quem Ele quer mostrá-la; e a de depender absolutamente o homem das operações do Espírito Santo, têm-me parecido como doutrinas suaves e gloriosas. Estas doutrinas têm sido para mim grande delícia. A soberania de Deus sem­pre me tem parecido ser grande parte de sua glória. Muitas vezes tem sido para mim um deleite aproximar-me dEle, adorá-lo, como Deus soberano, e dEle supli­car soberana misericórdia” [1]

Quando contemplamos este mundo, cheio de confusão, pe­cado e sofrimento, somos tentados a perder toda a fé e a nos tornarmos pessimistas e quase que nos tornamos presa de de­sespero. Quando, porém, nos lembramos que Deus está acima de tudo, que Ele é o Soberano dos soberanos, que Ele tem em suas mãos onipotentes as rédeas do governo do universo; quando nos lembramos que nada acontece sem que Ele permita, e que tudo quanto acontece está incluído em seus planos todos sábios, glorio­sos e misericordiosos, readquirimos nossa confiança e alegria, e louvamos o Senhor pelo seu poder e glória. O mal é uma triste realidade. Sabemos, contudo que ele não vai além do ponto permitido por Deus em seu decreto. Sabemos que Deus o controla e que no devido tempo o destruirá. Aquele que é capaz de fazer que, “a ira humana” o louve, e que pode conter o restante dela (Sl.76:10) fará que tudo, inclusive o mal, redunde em sua glória e na felicidade do seu povo.

2. Estas doutrinas resultam na glória de Deus e na humilhação do homem

Pelas doutrinas dos decretos e da predestinação de Deus aprendemos que tudo só depende dEle. Os eleitos não são salvos por serem melhores do que os não eleitos, mas unicamente por causa da graça divina. Não fora a graça de Deus, todos es­taríamos perdidos. O mais das vezes Deus escolhe as piores pessoas para fazer delas monumentos de sua graça, de sorte que no fim toda a glória seja sua. Quando nos lembramos de que tudo que somos e temos recebemos de Deus, vemos que ne­nhuma razão nos assiste para vangloria. (1Co.4:7).

Spurgeon, o grande pregador inglês, disse:

“Penso que, para uma pessoa piedosa, a eleição é a dou­trina que mais humilha, de quantos há no mundo — por afastar toda confiança na carne, ou todo apoio em qualquer coisa, exceto Jesus Cristo. Quantas vezes não nos revestimos de nossa justiça própria e nos enfeita mos com as falsas pérolas e jóias de nossas obras e em­preendimentos. Começamos a dizer, Agora, sim, se­rei salvo, porque tenho esta e aquela evidência. Em lugar disso, é uma fé simples, desnuda, que salva. So­mente essa fé nos une ao Cordeiro, independentemen­te de obras, embora seja a fé o que produz tais obras. Quantas vezes nos apoiamos em alguma obra, que não é a do nosso Amado, e confiamos em algum poder, que não é o que vem de cima. Se quisermos que tal poder nos seja tirado, consideremos a eleição. Detém-te, ó minha alma, e considera isto. Deus te amou antes que viesses a existir. Amou-te quando estavas morta em de­litos e pecados, e enviou seu Filho para morrer por ti. Comprou-te com o seu precioso sangue, antes que pu­desses balbuciar seu nome. Podes, pois, envaidecer-te com alguma coisa? 
Não sei de nada que mais nos humilhe do que esta doutrina da eleição. Algumas vezes, procurando enten­dê-la, tenho-me prostrado diante dela. Tenho aberto as asas e à maneira das águias, tenho alçado o vôo na direção do Sol. Meus olhos têm-se fixado nele, minhas asas não me têm falhado, por certo tempo. Mas, ao aproximar-me dele, e só pensando nisto — “Desde o princípio Deus vos escolheu para a salvação” — vi-me ofuscado pelo seu fulgor e cambaleante sob a força des­se poderoso pensamento. E dessa elevação estonteante abateu-se-me a alma, a dizer prostrada e aniquilada, Senhor, não sou nada, sou menos que nada. Por que escolheste a mim? A mim? 
Amigos, se vocês querem ficar humildes, estudem a eleição, pois ela os fará assim, sob a influência do Es­pírito de Deus. Quem se orgulha de sua eleição, esse não foi eleito. E quem se humilha por considerá-la, esse pode crer que foi eleito. Tem toda razão de crer que o foi, visto como um dos mais benditos efeitos da eleição é esse de fazer-nos humildes perante Deus”. [2]


3. Estas doutrinas trazem certeza ao crente

Os que creem na predestinação são os únicos que podem estar certos de sua salvação. Segundo esta doutrina, a salvação depende somente de Deus e, portanto, não pode falhar nunca. De acordo com a doutrina arminiana, a salvação depende, em última instância, da vontade da pessoa e, por isso, pode falhar a qualquer momento. O arminiano nunca estará certo de sua salvação enquanto não entrar no céu, após a morte, e mesmo aí, para ser coerente com sua doutrina, deve admitir a possi­bilidade de nova descaída da graça. Mas a doutrina da eleição inclui a confortadora doutrina da perseverança dos santos, ou me­lhor, na perseverança do Salvador. Ensina a Bíblia ser incerta a salvação do crente? Absolutamente não. João escreveu sua Pri­meira Epístola para que soubéssemos que temos a vida eterna (1Jo.5:13). Vida eterna não é coisa que temos hoje e perdemos amanhã. Neste caso seria vida transitória, jamais eterna. Jesus disse que aquele que crê em Deus tem a vida eterna e não entrará em condenação mas passou da morte para a vida (Jo.5:24). Se tem essa vida eterna, que provém do próprio Cristo, não mais pode morrer. O crente nasceu de novo, e é impossível que uma pessoa assim nascida volte a ficar “por nascer”, isto é, depois que se nasce é impossível retroceder ao estado de antes do nascimento, estado de inexistência. 

Paulo escreveu o cap. 8 de Romanos para dar aos seus leitores uma certeza de salva­rão. “Nenhuma condenação” é o princípio; “Se Deus é por nós” é o termo médio; “Quem nos separará?” é o termo final. Aos perdidos Cristo dirá, “Nunca vos conheci” (Mt.7:23; veja-se 25:12) e isto é uma prova de que em tempo algum pertenceram ao Senhor. Todas as passagens que parecem ensinar a possibili­dade de um crente perder-se, referem-se realmente ao falso crente. Como João disse, “Eles saíram de nosso meio, entretan­to não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo.2:19). O crente pode perder comunhão com o seu Senhor e a alegria de sua salvação, porém não a própria salvação. Confessando seu grande pecado, Davi não disse, “Restitui-me a tua salvação”, visto como não a perdera. Disse, porém, “Restitui-me a alegria da tua salvação” (Sl.51:12), porque essa alegria podemos per­der sempre que caímos em pecado.

4. Estas doutrinas fornecem maior confiança ao pregador

É mais provável que um pecador creia e se arrependa, se a fé e o arrependimento dependerem inteiramente do poder regenerador do Espírito Santo, do que se dependerem em parte da força de vontade desse pecador. E é mais provável ainda, se dependerem inteiramente desse poder. O crente sabe que, se sua fé e arrependimento fossem deixados, em parte ou de todo, à sua própria iniciativa, não chegaria a crer nem a se arrepender, visto ser tenazmente inclinado ao pecado, gostar dele e aborrecer a confissão humilde do mesmo e não querer lutar contra ele. 

“A luz do mesmo princípio, é mais provável que o mundo de pecadores chegue à fé e ao arrependimento, se isto depender inteiramente de Deus, e não de todo ou em parte da vontade letárgica, volúvel e hostil do homem. Se o êxito do Espírito Santo depende da as­sistência do pecador, Ele pode não ter êxito algum. Mas se o seu êxito depende inteiramente dEle mesmo é certo que terá êxito. É melhor confiar a Deus tão imenso bem, a salvação da grande massa do gênero humano, do que confiá-lo a este, seja de todo, seja em parte. Dizem as biografias de ministros e missionário bem sucedidos que quanto menos faziam depender seu êxito da vontade dos pecadores, tanto mais pregavam e tanto mais vitórias contavam em sua pregação.” [3]

Vamos concluir com palavras do grande teólogo Dr. Robert Dabney:

“A doutrina da predestinação é de todo edificante. Dá lugar a humildade, porque não deixa ao homem base para reclamar para si nenhum crédito quer da origem, quer do prosseguimento de sua salvação. Lança um fundamento de esperança tranqüila, pois mostra que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento”. Deve fazer que os corações transbordem de amor e gratidão, visto revelar o imerecido e eterno amor de Deus por pessoas indignas... Devemos aprender a en­sinar e a considerar esta doutrina, não de um ponto de vista exclusivo, mas inclusivo. É o pecado que impede ò favor de Deus, e leva à ruína. É o decreto de Deus que restaura, remedeia e salva a quantos se salvam. O que o mundo tem de pecado, de culpa ou miséria, de desespero, procede inteiramente da transgressão do homem e de Satanás. O que de redenção, de esperança, de conforto, de santidade e bem-aventurança vem mo­dificar esse panorama triste, provém do decreto de Deus. O decreto é a fonte de benevolência para com o universo; o pecado voluntário é a fonte dos sofrimen­tos. Deve ser malsinada a fonte da misericórdia por­que, embora ponha em circulação toda a felicidade que existe no universo, é limitada em sua correnteza?” [4]

Chegamos ao final desta tese. Ninguém tem maior cons­ciência da imperfeição dela do que seu próprio autor. Sabemos que ninguém no mundo é capaz de resolver os problemas que este assunto apresenta, contudo não precisamos ficar aturdidos em face destes e de outros problemas de teologia. Deus é infi­nito e nós somos finitos. Não podemos compreendê-LO, não po­demos explicar Seus mistérios. Basta-nos saber que Ele nos ama e proveu um plano de salvação para a humanidade, plano tão simples que até as crianças podem compreendê-lo. Sabemos que o nosso dever é confiar em Deus e amá-LO, amar ao próxi­mo e dele nos compadecer; servir a Deus e ajudar aos homens, proclamando a todos o grande amor de Deus e seu plano de salvação. E com relação aos mistérios que cercam até os mais simples fatos deste mundo, deixamo-los nas mãos de Deus e descansamos na certeza de que Ele conhece tudo. Sabemos que “às coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus; po­rém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt.29:29).

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Notas:
[1] Jonathan Edwards, apud “Determinism in the Theological System of Jonathan Edwards” (these) do Dr. John Newton Thomas, p. 98.
[2] Charles Spurgeon, Sermão sobre a Eleição, Sermons, Vol. II, pp. 83, 84.
[3] William G. Sheed, Op. Cit., Col. 1, pp. 461, 462.
[4] R. L. Dabney, Op. Cit., p. 246.

Fonte: FALCÃO, Samuel. Escolhidos com Cristo. 5º Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pgs.: 148-152