quinta-feira, 5 de maio de 2016

A VITÓRIA DECRETADA


Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos; rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”(Gênesis 3.14-15)
Nos capítulos iniciais do livro de Gênesis encontramos o relato da criação. Deus criou o universo, o mundo e todos os seres viventes de forma perfeita (cf 1.1 – 2.3). Ou seja, sem precisar de evolução para se aprimorar, pois o próprio texto diz “segundo a sua espécie” (cf Gn 1.11, 12,24-25).  E para garantir isso o texto diz: “E viu Deus que isso era bom.”(cf Gn 1.10,12,18,21). E Diferente dos animais, o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus (cf 1.26-28; 2.4-25). Ele poderia refletir de modo finito, certos aspectos infinitos do seu Criador. Deveria refletir as qualidades éticas de Deus, como por exemplo: a retidão e a santidade, o seu conhecimento, justiça etc.  Assim o verso 31, que relata a conclusão da criação, diz: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.”(Gn 1.31). Assim como a criação, o homem e mulher eram completos; nenhum aspecto adicional poderia ser acrescentado, eles eram capazes de fazer o que Deus pedia deles, o que Deus ordenava. Eram livres para viver e agir de acordo com a natureza e características de que foram criados.
Aliança com a humanidade
Deus estabeleceu uma aliança com o homem. Ele foi criado não para ser o proprietário do mundo, mas o vassalo do rei. O servo que cuidaria de sua propriedade. Teria ele domínio sobre tudo que Deus criou (Gn 1.26). Deus confiou a ele o cuidado com Sua criação. Assim o Senhor estabelece os “Mandatos da criação” ou “Mandatos da Aliança”. Que são:
1)      Mandato Cultural – O homem e a mulher receberam do Senhor a tarefa de dominar sobre as coisas criadas (Gn 1.26). Todas as formas de vida na terra foram colocadas sob a supervisão do homem e da mulher. Diante dessa responsabilidade, eles receberam o privilégio de usar as plantas, os seus frutos, suas sementes para manter sua vida e energia para realizar as tarefas. Mas esse mandado não se limitaria apenas cuidar das plantas. Deus deu ao homem todo domínio. Assim ele deveria desenvolver uma sociedade, cultivar a terra em todos os sentidos. Deveriam criar uma cultura onde Deus seria glorificado.  
2)      Mandato Social  - Deus criou a humanidade “macho e fêmea”. Isso significa que ela foi criada para se relacionar-se. O homem e mulher, cumprindo cada um o papel estabelecido por Deus, estariam exercendo esse mandato. Eles deveriam povoar a terra criando vínculos de amor um para com o outro e com o próximo.  
3)      Mandato Espiritual  - Eles deveriam ter um relacionamento especial com Deus. Deus caminhava no jardim para se relacionar com seus filhos (cf Gn 3.8). Deus estabeleceu o sétimo dia de descanso para se relacionar com o homem (Gn 2.1-3). Eram livres para adorar a Deus, ter com ele uma intimidade perfeita.
A Queda da humanidade e as consequências (Gn 3.1-7)
O casal vivia em comunhão com o seu Criador; cumpria a sua vontade e determinação. Assim surge Satanás com astúcia e engano para romper as relações entre o Senhor e a humanidade (Gn 3.1). Deus tinha proibido o casal comer da árvore do “conhecimento do bem e do mal”(Gn 2.17). O ato de comer do fruto dessa árvore era, portanto, um ato de desobediência. Ao fazer isso, colheriam consequências “no dia em que delas comeres, certamente morrerás.” (Gn 2.17b). Porém, enganados por Satanás, eles comeram (Gn 3.6-7).
As consequências desse ato foram grandes. Houve aqui a quebra da comunhão com Deus. A separação entre o Senhor Criador e a humanidade tornou-se um fato. Adão e Eva haviam morrido para Deus; sua vontade para eles tinha sido deixada de lado. O fato deles se esconderem de Deus nos mostra essa verdade (Gn 3.8). Seu senso de vergonha e medo foi basicamente em relação a Deus. Não toleravam mais nem mesmo ser vistos pelo Senhor. Como consequência, eles tiveram seus relacionamentos afetados (Gn 3.16); haveria entre o homem e a mulher uma “batalha entre os sexos”. A harmonia íntima foi comprometida pelo pecado e corrompida pelo domínio e submissão forçada. Além disso, a mulher teria como consequência dores de parto para cumprir com o que o Senhor ordenou na criação (Gn 1.28). O trabalho não mais seria da mesma forma, pois agora seria com “suor”. A terra não mais iria produzir como antes. Deus diz “maldita é a terra por sua causa”(Gn 3.17b). Repare que o pecado de Adão trouxe consequências até mesmo para a criação como um todo (cf Rm 8.22).   
Em resumo: tendo desobedecido ao Senhor, Adão e Eva perderam sua posição real, tornaram-se prisioneiros do pecado e de Satanás. Assim em Adão “todos pecaram e carecem da glória de Deus”(Rm 3.23). A humanidade decaída tornou-se realeza destronada e escravizada.  
A promessa do Redentor, a proclamação do juízo e da graça (Gn 3.15)
Teólogos como Gerard Van Groningen, chama esse verso de “proto-evangelho” (primeiro evangelho). Ou seja, o primeiro relato da Redenção. Dirigindo-se a Satanás na presença de Adão e Eva, Deus proclama seu juízo e sua salvação para a humanidade. Deus não abandonou os desobedientes. Deus fez o que fazia antes, andava pelo Jardim. Ele não mudou, ele continuou como antes, conversava com homem e sua mulher. Quem quebrou o relacionamento foi o homem. Assim Deus quer restaurar este relacionamento. O pecado trouxe consequências, mas não eliminou a graça de Deus.
Deus traz a maldição sobre a serpente (Gn 3.14). A ira de Deus estava sobre a Criação, como consequência do pecado de Adão (Gn 3.17b). Porém, a serpente experimentaria a ira de Deus de forma mais completa que todas as outras criaturas. Por ter ela servido a Satanás, carregaria uma carga pesada e humilhante por toda vida. Tanto o mundo animal quanto o mundo humano devem sentir os efeitos da queda do homem em pecado.
            A maldição dirigida a serpente também foi dirigida diretamente à Satanás. Foi uma maldição absoluta. Ambos (Satanás e a serpente) são colocados sob o desprezar de Deus. Para Satanás isso significaria que a ira de Deus estaria sobre ele e contra ele para sempre. O Senhor estabeleceu um grande abismo entre ele mesmo e Satanás, entre os que estão “ao seu lado” e os que estão “ao lado de Satanás”.
            A manifestação da graça de Deus pode ser vista também na expressão: “Porei inimizade entre ti e a mulher”(Gn 3.15a). Deus converte as depravadas afeições da mulher por Satanás. Até então eles estavam servido a Satanás. Mas agora Deus muda isso em guerra. Deus, por amor e graça, preservaria a sua descendência.
            A semente de Satanás seria a humanidade natural que se tornaria inimiga de descendência da mulher. Podemos ver esse exemplo no caso de Caim e Abel (Gn 4). Abel a semente boa, Caim a semente má (cf 1Jo 3.12). Após a morte de Abel, essa semente continuou com Sete (Gn 4.25).
            “... Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”(Gn 3.15b) – Ambos seriam gravemente feridos. Haveria luta, aflição e sofrimento para vencer esta batalha contra a serpente, Satanás (Cf Is 53.12; Lc 24.46,47). A expressão “ferir o calcanhar” é uma referência à crucificação de Jesus. Foi necessário que Jesus fosse crucificado, mas isto, comparado com a sua ressurreição, é apenas um ferimento no calcanhar. Veja a diferença: Um ferimento no calcanhar nunca tem as consequências que tem o ferimento na cabeça. Aliás, no calcanhar é um ferimento, mas na cabeça da serpente, é um “esmagar”. E, cabeça, aqui, representa o poder. É o poder de Satanás que Cristo derrotou na sua ressurreição. Sua ação no mundo em que Deus criou teria um fim.
            A fidelidade de Deus à Sua Aliança
É importante destacar que o Senhor, em toda história Bíblica, confirma essa promessa de Salvação. Com o passar do tempo, o povo de Deus (semente da mulher) e os descendentes de Caim (semente má) se misturaram com casamento misto (Gn 6). Assim o Senhor traz sua ira sobre a humanidade (Gn 6.11-22). Porém reafirma a aliança de Genesis 3.15 com Noé e sua descendência (cf Gn 9). Anos depois o Senhor também reafirma essa mesma aliança com Abrão e seu descendente (Gn 12 – 21­), e continuou com Isaque e sua semente, Jacó (Gn 27). E de Jacó com sua descendência, José (Gn 37 – 50).
            Mais de 400 anos depois, Deus chama Moisés para libertar o seu povo do Egito (Êx 3). Assim Deus continuava fiel a Sua promessa de Gn 3.15. A nação agora teria uma terra onde nasceria o descendente da mulher. Agora, como parte da aliança, Deus estabelece a sua Lei (Êx 20.1-7). Lei esta que direcionaria a nação para realizar a vontade de Deus e estabeleceria o culto e o ensino do Senhor. Após a morte de Moisés, Deus continua reafirmando essa Aliança com Josué, servo de Moisés (Js 1.1-9). E este obedece e toma posse da terra.
Avançando um pouco na história, chegamos no tempo dos reis. Aqui os teólogos chamam de “aliança do Reino”. E o rei que o Senhor levantou e reafirmou sua aliança foi Davi (1Sm 16; 2Sm 7). O reinado de Davi era sinal de que a Semente da mulher viria como Rei. Teria poder e domínio sobre os povos. Depois da morte de Davi, Salomão, seu filho,  seria o sucessor (2Cr 7.11-22). Depois de Salomão os reis que andassem nos caminhos de Davi e Salomão, guardando os preceitos e os ensinos da Lei de Moisés (cf 1Rs 2.3-4), estariam realizando a vontade de Deus e preservando a linhagem.
            Jesus, a semente da mulher que ferirá a cabeça da Serpente
No Novo Testamento lemos assim: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.”(Mt 1.1). Jesus é o descendente de Davi. É aquele que reinaria eternamente em seu trono (cf 2Sm 7.13). Jesus também é filho de Abraão. Para Abraão Deus prometera uma descendência, um povo. Em Cristo essa promessa é cumprida. As promessas tanto para Abraão quanto para Davi tem como base Genesis 3.15. Jesus como Rei soberano, que pisaria a cabeça da serpente para libertar seu povo.
            Como consequência do pecado, o homem está morto (Gn 2.17; Rm 5.12, 6.23). Ele se tornou escravo do pecado (Jo 8.34). Para resgatá-lo da morte e do pecado somente alguém sem pecado. Assim, para a nossa redenção, foi necessário que Cristo pagasse o preço para nos libertar (Hb 9.22). E esse preço foi o Seu sangue derramado.
O sofrimento de Cristo na cruz é muito maior do que a dor física. É mais do que a morte humana; é uma expiação. Cristo é o Cordeiro pascal. Ele sofreu a ira de Deus derramada contra o pecado. O peso da transgressão de Adão estava sobre ele: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”(Is 53.5). Mas a crucificação não era derrota, ele foi apenas ferido no calcanhar (cf Gn 3.15). Ele venceu a morte (cf Jo 20.1-10).
Na cruz, o Senhor Jesus já alcançou a vitória (Cl 2.13-15). Mas pisará definitivamente a cabeça da Serpente na sua segunda vinda: “O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e enxofre, onde já se encontram não só a besta como também o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos.”(Ap 20.10). Em romanos vemos a declaração: “E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás...” (Rm 16.20). O salmo 110, uma das passagens mais citadas no Novo Testamento, descreve o triunfo do descendente da mulher: “Ele julga entre as nações; enche-as de cadáveres; esmagará cabeças por toda a terra.”(Sl 110.6).
Totalmente libertos do pecado
Visto que Adão fracassou, finalmente o descendente da mulher seria o Adão celestial (cf Rm 5.12-19; 1Co 15.45-59). Este libertaria completamente o Seu povo do pecado. Nós somos libertos e não há nada que possa nos condenar (Rm 8.1). No entanto, ainda não somos perfeitos: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é.”(1Jo 3.2). Assim, só seremos livres completamente, na volta de Cristo. O apóstolo Paulo declarou essa verdade aos coríntios dizendo: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.”(1Co 15.51-53). A morte será derrotada (1Co 15.26).
            A criação será liberta
            Em Gênesis vimos que o pecado de Adão trouxe a maldição sobre a terra: “E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida.”(Gn 3.17). Mas essa condição que se encontra a criação não é a condição final. A criação inteira tem um destino planejado por Deus. E isso será cumprido. Assim como cumprirá a sua promessa sobre nós: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.”(Rm 8.19-21). A missão da Semente da mulher é tanto resgatar o seu povo, pisando a cabeça da serpente, quanto libertar a criação da maldição do pecado de Adão. Textos como de Isaías declaram essa verdade:
“Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas... Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus; porque morrer aos cem anos é morrer ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado.Eles edificarão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão o seu fruto. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque a longevidade do meu povo será como a da árvore, e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras das suas próprias mãos... O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o SENHOR.” (Is 65.17,20-22, 25).
            Quando Cristo voltar tudo isso se cumprirá. Ele nos dará novos corpos, seremos remidos completamente do pecado. Também a criação será liberta da maldição. Seremos perfeitos, assim habitaremos em uma terra perfeita. Assim também reafirmou o apóstolo Pedro:
“Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas.Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão.Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.”(2Pe 3.10-13, cf Ap. 21.1).
Assim aguardamos a volta do nosso Senhor Jesus. No entanto, mediante a fé, podemos experimentar, em parte, essa futura bênção em Cristo: “Eis que as primeiras predições já se cumpriram, e novas coisas eu vos anuncio; e, antes que sucedam, eu vo-las farei ouvir.”(Is 42.9). Não há o que temer; esta vitória já está decretada. E como sabemos Deus não mente, ele cumprirá com toda sua Palavra. Nós podemos confiar completamente nas promessas de Deus. Temos a certeza de que e ouviremos a manifestação da glória do Senhor. Esse momento cumprirá o que Paulo escreveu aos Coríntios: “...Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”(1Co 2.9).
“... Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap. 22.20)

Por Rev. Ronaldo P. Mendes