“Agora — sim! — esta é osso dos meus ossos”.

 D’us traz os animais para Adão e, depois, cria a mulher, quando Adão exclama: “​אֶהֱיָה־זֹאת עַצְמִי מֵעֲצָמַי” / 


“Agora — sim! — esta é osso dos meus ossos”.


Vamos juntos nesta jornada maravilhosa.

Espero que vocês possam aproveitar bem estes pequenos estudos. 

Serão em três ou quatro partes, para fixação!


Vamos a primeira parte!


1) O quadro narrativo (peshat) — o que o texto diz


Em Gênesis 2 D’us forma o homem do pó, coloca-o no jardim e “traz” os animais diante dele para que Adão lhes dê nomes. Isso cumpre duas coisas imediatas:

Dá a Adão responsabilidade — domínio (nomear = governar; palavra em hebraico shem tem poder performativo).

Mostra que, apesar de todos os seres, não há ali um socorro (עֵזֶר) semelhante a ele — nenhuma criatura compartilha sua essência moral-personal.


Depois, D’us faz cair Adão em sono profundo, toma uma tzela — geralmente traduzida “costela” — e forma a mulher. 


Ao vê-la, Adão reconhece: “esta é… dos meus ossos” — expressão de identificação, pertença e reconhecimento imediato.



2) Camada rabínica / midráshica — as leituras dos sábios


Os midrashim e comentaristas clássicos oferecem leituras que aprofundam a cena:

Rashi (resumidamente) explica que Adão deu nomes aos animais e viu que nenhum era adequado para ser sua companheira; por isso D’us criou a mulher a partir dele — para mostrar igualdade e proximidade. 


A escolha da tzela indica não inferioridade (não de frente, para não humilhar; não do pó, para não submeter), mas paridade e intimidade.

Midrash (Bereshit Rabbah e outros) enfatiza que D’us trouxe os animais para que Adão percebesse por si mesmo que precisava de um socorro correspondente — foi uma lição prática: o mundo inteiro foi apresentado, e só então a mulher foi a solução. 


Há textos que sublinham que Adão nomeou e, ao nomear, tentou “fazer sociedade” — e só a mulher preencheu o vazio.

Há leituras que dizem: D’us não foi obrigado a “procurar” para Adão; sim, Ele quis ensinar a Adão que o outro não é mero objeto, mas alguém com quem se entra em diálogo — a mulher como partner (companheira) para reciprocidade.



3) Sensibilidade linguística do verso de reconhecimento


A frase hebraica de Adão contém nuances:

“זֹאת עַצְמִי מֵעֲצָמַי” — esta é o meu próprio osso — a repetição e a construção sublinham intimidade ontológica: ela partilha a mesma “substância” (essência) dele.

O termo etzem (osso/essência) aqui funciona mais como “núcleo da identidade” do que como pura anatomia — Adão reconhece uma continuidade de ser.


Esse reconhecimento é imediato e não racional: é uma percepção profunda, quase visceral — o encontro com o Outro que revela a própria identidade.



4) Perspectiva psicológica / antropológica


Na leitura humana:

Adão nomeia o mundo tentando compreender e ordenar a realidade. 


Quando nenhum nome (ou nenhuma categoria) produz identificação, surge o desejo por alteridade que o reconheça.

A criação da mulher responde a uma necessidade relacional: o humano é um ser de relação; o projeto divino inclui sociabilidade e reciprocidade.

O exclamar de Adão é uma experiência de hakarat — reconhecimento — que estabelece a base para intimidade, vulnerabilidade e responsabilidade mútua.



5) Leitura haláchica / ética: igualdade e dignidade


Comentadores clássicos (Ramban, Ibn Ezra) discutem por que não foi tirado do pó (o que poderia sugerir inferioridade) nem criada separadamente (o que poderia sugerir separação em essência). 


A tzela aponta para:

igualdade essencial, pois ela vem da mesma pessoa;

parceria complementar, não subserviência;

lição ética: a relação conjugal deve espelhar reciprocidade e respeito.



6) Profundidade cabalística / mística (sod) — Adam, a alma e a parceira (zivug)


Aqui entramos nas imagens místicas:

Adam Kadmon / Adam ha-Rishon: na cabalá, Adam representa um estado arquetípico da alma humana — uma luz unificada que contém masculino e feminino em potencial. 


A retirada de uma “parte” para criar a parceira é vista como a exteriorização de uma qualidade complementar (pensar em termos de sefirot: Tiferet / Zeir Anpin vs Malchut; ou Binah como receptiva/geradora).

A “costela” como símbolo: tzela tem conotações de “lado” e “apoio” — não algo externo, mas um flanco que sustém. 


No Zohar, a criação da mulher reestabelece canais de fluxo espiritual (o influxo das Sefirot) — ela é tanto suporte quanto receptáculo da presença divina (Shechiná).

A alma gêmea / zivug: textos místicos falam de uma alma que foi “dividida” e busca sua outra metade. 

O encontro é, portanto, reconciliação primordial — conosco mesmos e com o propósito criado. 


Quando Adão reconhece “ossos dos meus ossos”, ele reconhece que a outra possui a mesma centelha divina.

Tikun (reparação): a presença da parceira completa o “sistema” humano para cumprir mandato (imagem de D’us) — procriar, reger a criação em paridade, e manifestar aspectos da divindade por meio da união.


Observação: essas imagens místicas não anulam a leitura ética e histórica; elas a aprofundam em termos ontológicos e escatológicos.



7) Dinâmica do encontro — Adão procurando alguém como ele


O que significa dizer que “Adão também procurava alguém como ele”?

Não é apenas busca de similaridade biológica, mas busca de eco moral e existencial — um sujeito que responda, dialogue e complemente.

Essa procura aparece nas ações: Adão nomeia (procura compreender) e experimenta a solidão quando nenhum ser responde em nível pessoal.

A criação da mulher é resposta divina à “procura”: não é mera satisfação de necessidade, mas realização do projeto humano — viver em comunhão que espelha a comunhão trinitária (na linguagem cristã) ou a união de sefirot (na cabalá).



8) Aplicações práticas e homiléticas (como transformar isso em ensino)



1. Leitura do texto — Gênesis 2:18–23 


Aplicações:

Relações humanas pedem reconhecimento: “sou visto por ti?”.

Nomear o outro é assumir responsabilidade (nomear não é dominar, é dignificar).

Igualdade e diferença: a costela comunica intimidade, não dominação.

A busca do humano: não por cópia idêntica, mas por correspondência de alma.

3. Perguntas para reflexão:

Quais “nomes” você dá à criação — e o que isso revela sobre o seu coração?

Onde você busca reconhecimento? Em que isso se parece com a busca de Adão?

Como a ideia de “osso dos meus ossos” transforma nossa visão de compromisso?


9) Pequena meditação / texto para ouvir o coração (em português, com hebraicos)


D’us formou o homem, e o homem, ao se deparar com a diversidade, tentou dar sentido — pôs nome em cada criatura. 

Nomear foi a primeira oração: uma tentativa de ordenar com voz. 

Mas o nome só encontra repouso quando encontra resposta — alguém que o reconheça.


Quando D’us criou a mulher da tzela, Ele não removeu algo de Adão para empurrá-lo à solidão; Ele devolveu a ele o que havia sido feito para compartilhar. 


Ao exclamar “זֹאת — esta!”, Adão não possessiva; ele reconhece: aqui está a continuidade da minha alma.


Que nossas buscas de companhia carreguem essa profundidade: não a procura por espelho, mas o anelo por um encontro que nos reconheça, nos complemente e nos leve a cumprir o propósito divino juntos.

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