O MISTÉRIO DA CRIAÇÃO DA MULHER E A BUSCA DE ADÃO

 

Para Nosso Melhor entendimento:

O Método PaRDeS: Níveis de Entendimento

O termo PaRDeS (que significa "pomar" ou "jardim" em hebraico) é um acrônimo usado na tradição judaica para descrever os quatro níveis de interpretação de um texto sagrado. Pense neles como camadas de profundidade ao ler uma história ou ensinamento.

 

1. Peshat (פְּשַׁט) – Sentido Simples

  • Significado Hebraico: Simples, Superficial.
  • Explicação: É a leitura literal e básica. O texto é entendido exatamente como está escrito, sem buscar significados escondidos. É o entendimento imediato, a "casca" da informação.
  • O que se busca: O que o texto diz diretamente e qual é a narrativa factual e gramatical.

 

2. Remez (רֶמֶז) – Sentido Alusivo

  • Significado Hebraico: Indício, Alusão.
  • Explicação: O texto é interpretado de forma alegórica ou metafórica. Busca-se o significado que está sugerido através de pistas, códigos, ou conexões com outras passagens e números (Gematria).
  • O que se busca: O que o texto está sugerindo ou indicando (as insinuações e significados simbólicos).

 

3. Derash (דְּרַשׁ) – Sentido Homilético

  • Significado Hebraico: Investigação, Busca (Deriva de Drasha, que significa sermão ou homilia).
  • Explicação: É o nível de interpretação que busca extrair uma lição moral, um ensinamento ético ou uma regra de conduta (Halachá) para a vida. É a aplicação da história no dia a dia.
  • O que se busca: A mensagem moral ou lição prática para a vida e a conduta humana.

 

4. Sod (סוֹד) – Sentido Secreto

  • Significado Hebraico: Segredo, Mistério.
  • Explicação: É a interpretação mística e esotérica, geralmente ligada aos ensinamentos da Cabalá. Busca-se o entendimento dos segredos de Deus, da criação e da estrutura do Universo.
  • O que se busca: O mistério profundo ou o significado espiritual oculto do texto.

 

(e temos a CABALÁ (קַבָּלָה) - Vem do hebraico Qabbalah, que literalmente significa "receber" ou "algo recebido".                                                                  Refere-se à tradição mística e esotérica do Judaísmo.                                                                 É um sistema de ensinamentos que visa desvendar os mistérios da natureza do Divino, do universo, da criação e da relação entre Deus e o mundo material.)


Esses quatro níveis são vistos como progressivos: para entender o Sod, é preciso dominar o Peshat, Remez e Derash.

 

O MISTÉRIO DA CRIAÇÃO DA MULHER E A BUSCA DE ADÃO

Bereshit/Gênesis 2:18–23 — Camada Peshat → Remez → Derash → Sod

 

1) Bereshit 2:18 — “Não é bom que o homem esteja só” (nível oculto)

Hebraico

לֹא־טוֹב הֱיוֹת הָאָדָם לְבַדּוֹ
Lo tov heyot ha’adam levado

Tradução

“Não é bom que o homem esteja sozinho.” 


SOD — A Solidão Original não é emocional; é ontológica (estudo do ser, da existência e da realidade)

O Zohar ensina que Adão não estava apenas só; ele estava incompleto.

O termo לְבַדּוֹ / levado = “sozinho” vem da raiz bad, que também significa:

  • separado
  • desconectado
  • dividido do fluxo (segundo o Sefer HaBahir)

A solidão é um estado metafísico:
Adão, em sua forma original, carregava dentro de si masculino e feminino, como explica o Zohar (I, 34b). Era um ser unificado, mas não manifestado.

Adão estava sozinho não por falta de companhia, mas por falta de expressão.
Ele era uma árvore com raízes, mas sem galhos.

 

2) Gênesis 2:19–20 — Os animais são trazidos não para nomeação, mas para REVELAÇÃO

Hebraico-chave

וַיָּבֵא — “ele trouxe”
Vayavê = “conduziu, apresentou, expôs”

Este verbo não é acidental.

 

Midrash — Adão vê pares… e não tem par

Bereshit Rabbah 17:4:

“Adão viu os animais caminhando em pares, macho e fêmea,
e seu coração tornou-se pesado, pois ele não tinha ninguém como ele.”

Ou seja: D’us desperta no homem a consciência da falta.

 

O Mistério da Nomeação

Nomear em hebraico é קָרָא / kará = chamar para fora o que algo é.

Quando Adão nomeia os animais, ele não está apenas descrevendo, mas discernindo.

Cada nome dado:

  • reconhece uma essência,
  • classifica uma função,
  • e revela uma ausência.

Ele percebe tudo, e ao perceber tudo, percebe a si mesmo.

O Ramban comenta:

“O homem nomeou cada criatura conforme sua essência,
mas não encontrou nenhuma que refletisse sua própria essência.”

 

ZOHAR — A dor do espelho vazio

Zohar (I, 35a):

“Quando Adão viu que nenhuma criatura refletia sua luz,
surgiu nele uma saudade indescritível.”

Adão procura alguém que seja:

  • semelhante
  • diferente
  • complementar
  • espelho
  • expansão da própria alma

Ele procura reconhecimento.

 

3) Gênesis 2:21 — O sono profundo: tardemá

Hebraico

תַּרְדֵּמָה / tardemá

Significados profundos

  • torpor espiritual
  • estado profético
  • suspensão da percepção natural
  • lugar entre mundos (Zohar)

É o mesmo estado em que:

  • Abraão recebe a visão da aliança (Gn 15:12)
  • Samuel recebe revelação (1Sm 26:12 – tardemá divina)

 

A Cabalá diz: o sono profundo é um “desdobramento da alma”

O Ari (Rabbi Isaac Luria) explica que a tardemá é o momento em que:

A alma masculina (zachar) e a alma feminina (nekevá), que estavam unidas, são separadas para que possam se reencontrar frente a frente.

Adão não “perde” algo.
Ele é bifurcado para poder reconhecer.

O pleno não reconhece o pleno.
Mas o dividido reconhece sua metade.

 

4) “Tzela” — não é costela; é lado, dimensão, aspecto

Hebraico

צֵלָע / tzela

Usos da palavra na Torá

  • lado da arca da aliança
  • lado do altar
  • estrutura lateral do Tabernáculo

Ou seja: é arquitetura, não anatomia.

 

Nível profundo: Eva não é “fabricada” — ela é revelada

O Ramban é explícito:

“A mulher estava presente em Adão desde o início,
mas de forma potencial, não manifestada.”

A Cabalá diz:

“A tzela é a parte interior da alma feminina que estava oculta no masculino.”

Eva não é criada depois.
Ela é separada de dentro de Adão, como a luz é separada da luz.

 

5) Gênesis 2:22 — “E D’us CONSTRUIU a mulher” — vayiven

Hebraico

וַיִּבֶן / vayiven
= “edificou, arquitetou, estruturou, formou com inteligência”

 

Midrash — D’us trançou a mulher com sabedoria

O Midrash Rabbah diz:

“D’us a construiu com entendimento (biná),
deu-lhe mais compreensão do que ao homem.”

Isso conecta ao conceito cabalístico: Biná = feminino, a esfera do entendimento profundo.

 

Zohar — A mulher é Malchut sendo erguida

(Sefirá: Emanação (ou Esfera)                                                                de Malchut: do Reino

Tradução Completa:

Emanação do Reino (ou Esfera do Reino)


Contexto na Cabalá: Como mencionado anteriormente, ela representa a manifestação final e a presença de Deus no mundo físico, ou seja, o Reino material em que vivemos.)


O Zohar identifica a mulher com a Sefirá de Malchut:

  • receptividade
  • transmissão
  • manifestação
  • presença divina (Shechiná)

A construção da mulher é D’us erguendo Malchut para que faça unidade com Tiferet (Adão).

 Tiferet(Beleza ou Esplendor) Representa a Harmonia, o Equilíbrio, a Verdade, a Compaixão e a Beleza.


6) Gênesis 2:23 — O grito primordial: “Zot Hapa’am!”

Hebraico

זֹאת הַפַּעַם
Zot hapa’am
= “Desta vez SIM”
= “Agora sim!”
= “Finalmente!”

 

A explosão espiritual do reconhecimento

O Zohar comenta:

“Quando Adão viu a mulher, viu sua própria luz devolvida a ele.”

É o primeiro momento na Torá de reconhecimento ontológico:

“Ela é eu… fora de mim.”

Ele diz:

עֶצֶם מֵעֲצָמַי
Etzem me’atzamai
“Essência da minha essência.”

Observar: Ele não diz “minha propriedade”, mas minha identidade espelhada.

 

7) Profundidade máxima — o ciclo completo em linguagem cabalística

1. Adão criado como ser andrógino

(Zohar e Midrash: masculino+feminino unidos).

2. Solidão = desconexão do feminino interno.

A alma sente a falta do seu outro lado.

3. Nomeação dos animais = processo de autoconsciência.

Ao nomear tudo, Adão percebe o que ele não é.

4. Tardemá = desdobramento da alma.

A alma feminina é retirada para existir em forma separada.

5. Construção = elevação de Malchut.

Eva é erguida, estruturada, revelada.

6. Reconhecimento = Tiferet + Malchut se unem.

A imagem divina se completa na união.

 

8) A mulher não vem para completar o homem emocionalmente — mas espiritualmente

O homem sozinho não é imagem de D’us.
Somente a união dos dois é.

O Zohar afirma:

“O Santo, bendito seja Ele, é revelado apenas onde há união.”

Por isso, a criação da mulher marca o início da revelação plena.

 

9) Aplicação para discipulado (profunda)

1. Solidão é sala de aula de D’us, não punição.

2. A busca pela alma correspondente é espiritual antes de emocional.

3. Relacionamentos verdadeiros começam quando reconhecemos a essência do outro.

4. A identidade é revelada pelo outro, não pela introspecção isolada.

5. Homem e mulher juntos refletem a unidade divina.

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