quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Quão bíblico é o Molinismo? (Parte 2)



Esse será o segundo post de uma série de n partes, onde n>1 e provavelmente n<10 .="" span="">

Nesta curta série, estou considerando a seguinte pergunta: “O quanto será que a Bíblia apoia o Molinismo?”. No primeiro post, eu resumi como eu pretendo abordar a questão, antes de olhar para dois ensinos bíblicos que o Molinismo procura acomodar: (1) a providência divina abrangente e (2) o conhecimento de Deus sobre os contra-factuais de liberdade da criatura. Cheguei à conclusão de que, apesar de a Bíblia, de fato, afirmar (1) e (2), e o Molinismo ser consistente com a Bíblia nesses pontos, o Agostinianismo também é. Logo, o Molinismo não detém vantagem alguma sobre o Agostinianismo com respeito a (1) e a (2). Eu, então, acrescentei:

Se queremos mostrar que o Molinismo possui melhor suporte bíblico do que o agostinianismo (ou vice-versa), então precisamos encontrar alguma proposição p que é afirmada pelo molinismo e negada pelo agostinianismo (ou vice-versa) de forma que p goza de apoio bíblico positivo (isto é, existem textos bíblicos que, segundo a interpretação mais natural e defensável, e sem implorar questões filosóficas, asseguram ou implicam p).

Nos próximos posts eu quero examinar três potenciais candidatos para a proposição p do lado molinista: (1) que o incompatibilismo é verdadeiro; (2) que Deus deseja que todos sejam salvos; e (3) que Deus não é o autor do pecado.



Incompatibilismo acerca do livre arbítrio

Como eu disse no primeiro post, os molinistas estão comprometidos com uma visão libertária do livre-arbítrio, e isso envolve duas reivindicações básicas:
Incompatibilismo: A verdadeira liberdade é incompatível com o determinismo.
Liberdade: Nós fazemos, pelo menos algumas, verdadeiras escolhas livres, i.e., escolhas pelas quais podemos ser considerados moralmente responsáveis.

Em conjunto, essas duas afirmações implicam que o determinismo é falso, mas, como os compatibilistas geralmente concordam que nós, de fato, fazemos escolhas verdadeiramente livres, a primeira reivindicação é o que realmente distingue os libertários dos compatibilistas.


Portanto, a questão que realmente importa aqui é saber se a Bíblia oferece algum suporte para o incompatibilismo. Antes de responder a essa pergunta, no entanto, gostaria de fazer duas observações preliminares. A primeira é esta: Eu argumentei antes que existem diferentes tipos de determinismo e que, em certos sentidos não-triviais, o Molinismo é determinista. O que o molinista realmente rejeita é o determinismo causal, ou seja, a tese de que todo evento é implicado por causas anteriores suficientes. Assim, quando considerarmos a reivindicação incompatibilista no que se segue, devemos entendê-la como a alegação de que a liberdade é incompatível com determinismo causal.

Em segundo lugar, apesar de não haver dúvidas de que os molinistas são comprometidos ao libertarianismo, existe um debate se os agostinianos são comprometidos ao compatibilismo ou não.

Felizmente, não precisamos resolver esse debate aqui. Ou o agostinianismo é consistente com uma visão libertária do livre arbítrio ou não é. Se ele for compatível com o libertarianismo, segue-se que qualquer apoio bíblico a favor do mesmo (se existir) não favoreceria o molinismo sobre o agostinianismo. Se não for, o molinismo teria vantagem somente se a Bíblia oferecesse algum suporte para o incompatibilismo. Mas, como irei argumentar agora, isso não é o que acontece.

Até onde tenho conhecimento, não há nada na Bíblia que chegue perto de, explicitamente ou diretamente, implicar no incompatibilismo sobre o livre arbítrio, ou seja, que implique que a verdadeira liberdade seja incompatível com o determinismo causal. Na verdade, é difícil até imaginar como seria tal afirmação. Certamente, não devemos esperar que a Bíblia afirme explicitamente que a liberdade (ou a responsabilidade moral) seja incompatível com o determinismo. E seria raciocínio circular argumentar algo como: “A Bíblia ensina que nós fazemos algumas livres escolhas; o determinismo é incompatível com a livre escolha; portanto, a Bíblia implica que nós possuímos um livre-arbítrio não-determinista”. Tal argumento meramente assume o incompatibilismo como uma de suas premissas. A questão é se a Bíblia oferece algum apoio independente a favor dela.

Quando os molinistas (juntamente com outros cristãos que defendem o libertarianismo) são chamados a defender seu ponto de vista sobre o livre-arbítrio, eles raramente apelam diretamente a textos bíblicos pela simples razão de que não existem textos bíblicos que servem para esse fim. Normalmente eles irão apelar para intuições de senso comum sobre o livre-arbítrio ou a um ou mais argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo. Então, a defesa deles se torna algo do tipo: 1 – a Bíblia afirma que podemos fazer escolhas livres (ou seja, escolhas pelas quais somos moralmente responsáveis); 2 – as escolhas livres devem ser libertárias (apelando a intuições e/ou a argumentos filosóficos); portanto, a Bíblia dá suporte ao libertarianismo (ao menos indiretamente).

Esta linha de raciocínio pode ser criticada de diversas maneiras. Em primeiro lugar, a noção de que o libertarianismo é a visão de senso comum sobre livre-arbítrio é altamente questionável. Uma série de estudos têm sido feitos sobre a questão e não estamos nem perto de um consenso. Dependendo de quais perguntas são feitas (e como exatamente essas questões são enquadradas), parece que a intuição de algumas pessoas as inclina para o incompatibilismo e outras inclinam-se para o compatibilismo. Na verdade, parece que muitas pessoas têm intuições conflitantes quando se trata de livre arbítrio e responsabilidade moral.

Quanto aos argumentos filosóficos a favor do incompatibilismo, mais uma vez, o júri não se decidiu. Admito que existam alguns argumentos impressionantes a favor do incompatibilismo, mas também existem respostas, igualmente impressionantes, a esses argumentos. Além disso, existem argumentos filosóficos pesados contra as descrições libertárias(por exemplo, a objeção da sorte e a objeção do “o indeterminismo não ajuda em nada”). Na situação que o debate sobre o livre-arbítrio está atualmente, é justo dizer que o campo está dividido igualmente entre compatibilistas e incompatibilistas. Além do mais, os últimos nem sempre são libertários; entre os incompatibilistas, temos alguns que são céticos, e até mesmo negam, o livre arbítrio.

Em todo caso, tudo isso é (em grande parte) irrelevante. Lembre-se que a questão que estamos considerando aqui é se algum ensinamento bíblico favorece o molinismo quando deparado ao agostinianismo. Apelos a intuições extra-bíblicas ou a argumentos filosóficos, obviamente, não contam como ensinamentos bíblicos!

Há um versículo, no entanto, que muitos libertários têm apontado como dando apoio ao livre-arbítrio não-determinístico:
Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar. (1 Coríntios 10:13)

A sugestão é que o apóstolo Paulo está afirmando (ou, pelo menos, assumindo) alguma versão do Princípio das Possibilidades Alternativas (PPA):

PPA: Uma pessoa é moralmente responsável por uma ação apenas se essa pessoa pudesse ter agido de outra maneira (ou seja, capaz de fazer o contrário).

O argumento é mais ou menos o seguinte: Paulo está dando aos Coríntios (e por extensão, a todos os cristãos) a garantia de que sempre que um crente é confrontado com uma tentação ao pecado, Deus irá garantir que o crente tenha a capacidade de resistir a essa tentação e não sucumbir a ela. Em outras palavras, quando um crente é tentado a cometer algum pecado, Deus irá garantir fielmente que o crente tem a capacidade de fazer o contrário, ou seja, de não cometer o tal pecado. O crente tem, assim, o poder de escolha contrária – ou seja, ele possui um livre arbítrio libertário. (Este argumento assume, razoavelmente o bastante, que o crente é moralmente responsável se ele resistir ou não à tentação).


Existem, no entanto, vários problemas neste apelo a 1 Coríntios 10:13:

1. Existe uma discussão (mesmo entre os libertários) sobre a veracidade do PPA (e, de fato, sobre qual versão do PPA é verdade, pois existem variações da versão básica mencionada acima). Alguns defensores do libertarianismo argumentam que a condição sine qua non do livre-arbítrio libertário não é o PPA, mas sim alguma outra condição, como a condição da “fonte final” (ou seja, uma pessoa faz uma livre escolha somente se ela é a “fonte final” dessa escolha). Assim, mesmo que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, não seria uma consequência lógica que o verse também desse suporte ao libertarianismo.

2. Não somente existem libertários que rejeitam o PPA, como também existem alguns compatibilistas contemporâneos que o endossam (ou, pelo menos, uma versão  compatibilista do PPA). Existem maneiras de entender as frases “poderia ter agido de outra maneira” e “capaz de fazer o contrário ” que são consistentes com o determinismo causal. Assim, ainda que 1 Coríntios 10:13 desse suporte ao PPA, isso não seria garantia de que desse suporte apenas à versão incompatibilista do PPA. Claramente, o que Paulo diz no texto não é detalhado o suficiente para distinguir a compreensão compatibilista da libertária do termo “capacidade” (crucial ao texto).

3. Observe duas coisas sobre as declarações de Paulo no verso: Em primeiro lugar, elas são dirigidas especificamente aoscrentes, e não para todos os seres humanos (veja o 1 Cor. 10: 1). Em segundo lugar, eles indicam que Deus proverá, ativamente, algo para os crentes (algo que eles não teriam de alguma outra maneira no curso normal dos acontecimentos). Então, se essa garantia de Paulo realmente implica uma visão libertária do livre-arbítrio, implica também que a liberdade não-determinista é algo que Deus vai ativamente (de forma sobrenatural?) conceder aos cristãos quando esses enfrentarem as tentações. Mas isso não é suficiente para o molinista. Pois, de acordo com o mesmo, todos os seres humanos têm uma liberdade não-determinista durante o curso normal dos acontecimentos (já que a liberdade não-determinista é para eles uma condição necessária para a responsabilidade moral). Ao final das contas, uma leitura libertária de 1 Coríntios 10:13 vai contra os pressupostos básicos da Molinismo.

Então aqui está a conclusão. 1 Coríntios 10:13 não oferece apoio claro a uma visão incompatibilista do livre arbítrio. Há maneiras simples e consistentes com o compatibilismo de entender essa garantia paulina. Na realidade, a única maneira de sair com uma noção de livre-arbítrio não-determinista a partir desse texto é ao adicionar vários argumentos filosóficos a ele (de que o PPA é o princípio distintivo do libertarianismo, de que as versões compatibilistas do PPA são inadequadas, etc.) e, mesmo assim, o verso não vai levar ao libertarianismo “para todos” como proposto pelo Molinismo.

Eu não estou ciente de qualquer outro texto ou ensinamento bíblico que ofereça algum apoio direto a favor do incompatibilismo sobre o livre arbítrio. Concluo, portanto, que não há tal apoio. No próximo post desta série, vou considerar se o ensino bíblico de que Deus deseja que todos sejam salvos favorece o molinismo sobre o agostinianismo.

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Nota: Para algumas críticas incisivas do apelo molinista/arminiano a 1 Cor. 10:13, veja os seguintes posts de Steve Hays:

Molinismo e 1 Cor 10:13 (Traduzido por Alison Aquino)

Rota de Escape (em inglês)
Escolha contrária (Traduzido por Alison Aquino)
Contrafactuais e escolhas contrárias (em inglês)
Eterna Insegurança (em inglês)

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Autor: James Anderson
Fonte: Analogical Thoughts
Tradução: Erving Ximendes