sábado, 26 de dezembro de 2015

MONERGISMO VS SINERGISMO


Por R.C. Sproul
Uma obra monergística é uma obra produzida isoladamente por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras portuguesas como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística, por sua vez, é um trabalho que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com".
Estou fazendo esta distinção por um motivo. É justo dizermos que o debate inteiro entre Roma e Lutero dependia somente desse ponto em paricular. A questão era a seguinte: A regeneração é uma obra monergística de Deus, ou é uma obra sinergística, que requer cooperação entre homem e Deus?
Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o partido da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo, o passo da regeneração, mediante o qual uma pessoa é  vivificada para que tenha vida espiritual, é obra de Deus e de Deus tão-somente. A iniciativa cabe a Deus, e não a nós.
A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir em nós e sobre nós, é que nós não podemos mesmo cooperar. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.
Dizer a uma pessoa que escolha renascer é como exortar um cadáver a escolher a ressurreição. Tal exortação cai sobre ouvidos surdos.
Quando comecei a pelejar na mente contra o argumento do Professor, fiquei surpreendido ao aprender que esse ensino de sons estranhos não era nenhuma inovação recente da teologia. Descobri o mesmo ensino nos escritos de Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield. Fiquei profundamente admirado de encontrar esse ensinamento no grande teólogo católico medieval Tomás de Aquino.
 Tomás de Aquino é considerado como o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Durante séculos seus ensinos teológicos foram aceitos como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Portanto, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Não obstante,  Aquino insistia que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. É verdade que Aquino falava da graça preveniente (1), mas ele falava sobre a graça que vem antes da fé, que é a graça da regeneração.
A visão destes grandes homens da história cristã tem origem nas Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós  mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos" (Efésios 2:5). Neste versículo, Paulo localizou o tempo em que a regeneração ocorre. A regeneração ocorreu quando estávamos ainda mortos. Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração ao homem. Afirmamos de novo que os homens mortos não cooperam com a graça divina. Os indivíduos espiritualmente mortos não tomam qualquer iniciativa espiritual. A menos que a regeneração tenha lugar, antes de tudo, não haverá possibilidade de fé.
Isso nada apresenta de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A menos que um homem primeiramente nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus ou entrar neleSe acreditamos que a fé antecede à regeneração, então nos opomos, em nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, não somente contra Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino Edwards e outros, mas também faremos oposição aos ensinos de Paulo e do  próprio Senhor Jesus Cristo.

(1)Graça preveniente é uma teologia cristã enraizada em Agostinho de Hipona. Ela é abraçada primeiramente pelos cristãos arminianos que são influênciados pela teologia de Jacó Armínio ou John Wesley.

Por R.C. Sproul; fonte: Livro: “O Mistério do Espírito Santo”, Ed. Cultura Cristã, 1ª Edição; resumo e adaptação pra o blog: rev. Ronaldo P. Mendes