sábado, 26 de dezembro de 2015

O Papel de Satanás na Queda


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Após um considerável número de anjos terem pecado e tornados em demônios, o diabo conspirou para a queda de Adão e Eva, a fim de impedi-los de glorificar a Deus, O qual odiava com ódio aterrador, visto que Ele rejeitara os demônios, excluindo-os eternamente da graça.

O diabo primeiramente atacou Eva quando ela se encontrava sozinha, provavelmente postada perto da árvore do conhecimento do bem e o mal. Ali ele a enganou, e Eva, tendo sido ludibriada (embora não consciente disso), também enganou a seu marido, Adão. Ora, o primeiro homem não foi enganado devido ao amor que nutria por sua esposa, mas, sim, por seu (de Eva) logro, e somente então os olhos de ambos foram abertos (Gn 3:7). O diabo foi, portanto, a causa sugestiva da Queda, e por isso é chamado de “homicida desde o princípio” e “mentiroso” (João 8:44).

Para alcançar seu objetivo, Satanás se valeu de uma serpente, considerando-a um instrumento apropriado para ele. Ele falou a Eva por meio da serpente. Destarte, não estava invisível quando falou, nem simulou uma voz. Ele não se comunicou pessoalmente com a alma de Eva, mas lhe dirigiu a palavra por meio da serpente, da qual havia tomado posse. Não se deve ver essa questão como uma metáfora, nem uma parábola ou ilusão. De semelhante modo, o diabo não se valeu de uma simples aparência de serpente; trata-se de história genuína – um evento que efetivamente aconteceu. Tanto o diabo quanto a serpente estiveram ativamente envolvidos neste fato. Tratava-se de uma serpente, no verdadeiro sentido da palavra, isto é, um animal real – o que é evidente a partir dos seguintes pontos:  

(1) Da própria narrativa: “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3:1)

(2) Também do verso 14, no qual isto é afirmado com relação à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos”. Não se pode negar que a serpente era uma criatura irracional, e, portanto, incapaz de proferir um discurso inteligente e inteligível. Desse modo, é certo que uma criatura racional falou por meio da serpente, e que tal criatura inteligente era má e pecaminosa. Consequentemente, não poderia ser ninguém mais a não ser o diabo, que, por essa razão, é frequentemente chamado, nas Escrituras, de “serpente”, “dragão” ou “a antiga serpente”. “Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás” (Ap 20:2). Foi ele quem enganou Eva: “…Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia...” (2 Co 11:3). Sua cabeça foi pisada por Cristo, “que, por sua morte, destruiu aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hb 2:14)

Visto que Moisés narra de maneira extremamente concisa os eventos do primeiro mundo (isto é, o mundo antes da Queda), o método através do qual se efetuou o engano não foi documentado. Destarte, toda conjectura neste caso é apenas especulação vazia, tais como a indagação se o diabo falou com Eva em apenas uma ou em várias vezes ocasiões; se ele lidou com Eva de uma maneira diferente; se veio como um mensageiro de Deus, declarando que o tempo da provação do casal havia chegado ao fim, e, portanto, estavam então livres para comer do fruto; se ele veio como amigo e mestre para aconselhar e apresentar os benefícios resultantes do comer da árvore; ou se o diabo veio como um inimigo de Deus, desejando privá-la daquilo que lhe traria felicidade e a tornaria semelhante a Deus. Tudo isto são conjecturas. É também possível que o diabo tenha apresentado outros pretextos ou argumentos lógicos enganosos. É melhor nos calarmos quanto a essas questões e outras questões similares do que desencaminhar o leitor com aquilo que apenas aparentemente é racional. Aquilo que não aprouve ao maior e mais sábio Mestre nos revelar, não devemos almejar conhecer. Este é um exercício seguro por meio do qual podemos nos afastar de várias tentações.

Estou convencido de que Eva estava bem ciente do fato de que animais, incluindo evidentemente a serpente, não possuíam intelecto racional nem eram dotados de linguagem. Embora ela desconhecesse a queda dos anjos, não obstante, ela poderia ter deduzido que aquele acontecimento (a fala da serpente) não era algo comum. Estou convencido de que se permitiu a Eva anelar por um nível maior de conhecimento e comunhão com Deus, já que isso lhe fora prometido no pacto das obras. Também lhe foi permitido aspirar por um conhecimento mais profundo com relação ao reino da natureza, que ela poderia obter por meio da experiência – assim como a multiforme sabedoria de Deus pode ser conhecida aos anjos por meio da igreja (Ef 3:10).

Estou convencido de que ela não comeu ignorantemente da árvore, antes, sabia muito bem que não lhe era permitida comer dela nem tocá-la. Tendo desejo de crescer no entendimento, Eva foi seduzida a comer da árvore. Não foi coagida, mas fez isso por sua própria vontade. Num primeiro momento, Eva não teve consciência desse logro, mas se tornou consciente disso apenas após ter enganado Adão. Ademais, Adão não foi o primeiro a ser enganado, nem foi enganado pela serpente, mas, sim, como diz o Apóstolo em 1 Timóteo 2:14, enganado por uma Eva enganada – e logo em seguida a ela. Estou convencido de que se Adão tivesse se mantido firme, Eva teria que sofrer sozinha o castigo.

Contudo, dado que Adão também pecou, toda raça humana se tornou culpada, como Paulo disse: “assim como por um só homem o pecado entrou no mundo...” (Rm 5:12). Ele não se refere somente ao pecado de Eva, mas ao pecado de toda raça humana, que se compreende plena e completamente em Adão e Eva, os quais eram um só em virtude de seu casamento. Na verdade, Paulo se refere especificamente ao pecado de Adão, que era o primeiro homem, a primeira e única fonte, tanto de Eva quanto de toda raça humana.  

O comer dessa árvore não foi um pecado menor, ainda que o ato de ingestão do fruto em si seja uma questão de somenos importância. Pelo contrário, foi um crime hediondo no qual se inclui a transgressão de toda a lei. Tratou-se de uma violação do amor, obediência e da aliança, resultando na perdição de si mesmo (Adão) e de seus descendentes. Esse pecado é agravado pelos seguintes fatos: 
(1) Foi cometido contra o próprio Deus, que o primeiro casal conhecia em Sua majestade e glória – o Deus que, mediante sua bondade multiforme, os uniu a Si mesmo;
(2) Foi cometido por uma pessoa santa que tinha a habilidade necessária de se abster disso, e de resistir a toda tentação;
(3) Ora, abster-se de comer dessa única árvore configurava-se como uma exigência mínima e exequível, visto que o casal possuía tudo em abundância naquele belo jardim;
(4) A felicidade ou condenação de si mesmo e de seus descendentes dependia disso. Destarte, em Romanos 5, o comer do fruto é corretamente denominado de “pecado” (Rm 5:12), “transgressão” (Rm 5:14), “ofensa” (Rm 5:15) e “desobediência” (Rm 5:19).

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Autor: Wilhelmus à Brakel
Fonte: The Christian’s Reasonable Service
Tradução: Fabrício Tavares

Divulgação: Bereianos