quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Predestinação e Livre-Arbítrio(2)
R.C. Sproul


CAPACIDADE MORAL E NATURAL

Jonathan Edwards fez outra distinção que é útil no entendimento do conceito bíblico do livre-arbítrio. Ele distinguiu entre capacidade natural e capacidade moral. A capacidade natural tem a ver com os poderes que recebemos como seres humanos naturais. Como um ser humano, tenho a capacidade natural de pensar, de andar, de falar, de ver, de ouvir, e, sobretudo, de fazer escolhas. Há certas capacidades naturais que me faltam. Outras criaturas podem possuir a capacidade de voar sem a ajuda de máquinas. Eu não tenho essa capacidade natural. Posso desejar voar pelos ares como o Super-Homem, mas não tenho essa capacidade. A razão pela qual eu não posso voar não é devida à deficiência moral no meu caráter, mas porque meu Criador não me deu o equipamento natural necessário para voar. Não tenho asas.

A vontade é uma capacidade natural dada a nós por Deus. Temos todas as faculdades naturais necessárias para fazer escolhas. Temos uma mente e temos uma escolha. Temos a capacidade natural de escolher o que desejamos. Qual, então, é o nosso problema? De acordo com a Bíblia, a localização de nosso problema é clara. É com a natureza de nossos desejos. Este é o ponto focai de nossa queda. A Escritura diz que o coração do homem decaído abriga continuamente desejos que são somente maus (Gn 6.5).
A Bíblia tem muito a dizer sobre o coração do homem. Na Escritura, o coração refere-se não tanto a um órgão que bombeia sangue através do corpo, como à essência da alma, ao lugar mais profundo das afeições humanas. Jesus viu uma conexão próxima entre a localização dos tesouros do homem e os desejos de seu coração. Encontre o mapa do tesouro do homem e você terá a estrada para seu coração.

Edwards declarou que o problema do homem com o pecado está em sua capacidade moral, ou falta dela. Antes que uma pessoa possa fazer uma escolha que é agradável a Deus, ela precisa primeiro ter um desejo de agradar a Deus. Antes de encontrarmos Deus, precisamos primeiro desejar procurá-lo. Antes de escolhermos o bem, precisamos primeiro ter um desejo pelo bem. Antes de escolhermos Cristo, precisamos primeiro ter um desejo por Cristo. O valor e a substância do debate todo apóiam-se precisamente neste ponto: O homem decaído, em si mesmo e de si mesmo, tem um desejo natural por Cristo?

Edwards responde a esta questão com um enfático "Não!". Ele insiste que, na queda, o homem perdeu seu desejo original por Deus. Quando ele perdeu esse desejo, alguma coisa aconteceu à sua liberdade. Ele perdeu a capacidade moral de escolher Cristo. Ou ele tem esse desejo já dentro dele, ou precisa receber esse desejo de Deus. Edwards e todos que abraçaram a visão reformada da predestinação concordam que, se Deus não plantar esse desejo no coração humano, ninguém, deixado a si mesmo, jamais escolherá Cristo. Eles sempre e em todo lugar rejeitarão Cristo porque eles não o desejam. Eles livremente rejeitarão Cristo no sentido de que sempre agirão de acordo com seus desejos.

A este ponto, não estou tentando provar a verdade da visão de Edwards. Para fazer isso, é preciso dar uma olhada de perto na visão bíblica da capacidade ou inabilidade moral do homem. Faremos isso mais tarde. Precisamos também responder à pergunta: "Se falta ao homem a capacidade moral de escolher Cristo, como pode Deus considerá-lo responsável por escolher Cristo? Se o homem nasce num estado de incapacidade moral, sem nenhum desejo de escolher Cristo, não é então culpa de Deus que os homens não escolham Cristo?" Novamente peço paciência ao leitor, com a promessa de que vou retomar estas questões brevemente.

A VISÃO DE LIBERDADE DE SANTO AGOSTINHO

Assim como Edwards fez uma crucial distinção entre capacidade moral e capacidade natural, também Agostinho, antes dele, fez uma distinção similar. Agostinho abordou o problema dizendo que o homem tem um livre-arbítrio, mas lhe falta liberdade. Na superfície parece uma distinção estranha. Como poderia alguém ter um livre-arbítrio e ainda assim não ter liberdade?
Agostinho estava chegando à mesma coisa que Edwards. O homem decaído não perdeu sua capacidade de fazer escolhas. O pecador ainda é capaz de escolher o que ele quer, ele ainda pode agir de acordo com seus direitos. Ainda assim, por serem seus desejos corruptos, ele não tem a liberdade real daqueles que foram libertos para a justiça. O homem decaído está num sério estado de servidão moral. Esse estado de servidão é chamado de pecado original.

O pecado original é um assunto difícil que virtualmente toda denominação cristã tem de enfrentar. A queda do homem é ensinada tão claramente na Escritura que não podemos construir uma visão do homem sem levá-la em consideração. Existem uns poucos cristãos, se é que existem, que argumentam que o homem não é decaído. Sem reconhecer que somos decaídos, não podemos reconhecer que somos pecadores. Se não reconhecermos que somos pecadores, dificilmente fugiremos para Cristo como nosso Salvador. Admitir a queda é um pré-requisito para vir a Cristo.

É possível admitir que somos decaídos sem abraçar alguma doutrina de pecado original, mas somente com severas dificuldades no processo. Não é por acaso que quase todo o Corpo de Cristo tem formulado alguma doutrina de pecado original.
Neste ponto, multidões de cristãos discordam. Concordamos que precisamos ter uma doutrina de pecado original, mas aí permanece grande discordância quanto ao conceito de pecado original e sua extensão.
Vamos começar declarando o que o pecado original não é. O pecado original não é o primeiro pecado. O pecado original não se refere especificamente ao pecado de Adão e Eva. O pecado original refere-se ao resultado do pecado de Adão e Eva. O pecado original é a punição que 

Deus dá pelo primeiro pecado. É alguma coisa assim: Adão e Eva pecaram. Esse foi o primeiro pecado. Como resultado do pecado deles, a humanidade foi mergulhada em ruína moral. A natureza humana experimentou uma queda moral. As coisas mudaram para nós depois que o primeiro pecado foi cometido. A raça humana tornou-se corrompida. A corrupção subseqüente é o que a Igreja chama de pecado original. O pecado original não é um ato específico de pecado. É uma condição de pecado.
O pecado original refere-se a uma natureza de pecado a partir da qual fluem atos pecaminosos. Novamente, nós cometemos atos pecaminosos porque nossa natureza é para pecar. A natureza original do homem não era para pecar, mas, depois da queda, sua natureza original mudou. Agora, por causa do pecado original, temos uma natureza decaída e corrompida.

O homem decaído, como a Bíblia declara, é nascido no pecado. Ele está "debaixo" do pecado. Pela natureza, somos filhos da ira. Não nascemos num estado de inocência.
John Gerstner uma vez foi convidado a pregar numa igreja presbiteriana. Ele foi saudado à porta pelos presbíteros, que lhe explicaram que a ordem de adoração para aquele dia incluía a administração de batismo infantil. O Dr. Gerstner concordou em dirigir o culto. Então um dos presbíteros explicou uma tradição especial da igreja. Ele pediu ao Dr. Gerstner que oferecesse uma rosa branca aos pais de cada bebê antes do batismo. O Dr. Gerstner perguntou sobre o significado da rosa branca. O presbítero respondeu: "Nós oferecemos a rosa branca como símbolo da inocência do bebê perante Deus".
"Entendo", disse o Dr. Gerstner. "E o que simboliza a água?"

Imagine a consternação do presbítero quando tentou explicar o propósito simbólico de lavar o pecado de inocentes bebês. A confusão de sua congregação não é exclusiva dela. Quando reconhecemos que bebês não são culpados de cometer atos específicos de pecado, é fácil saltar para a conclusão de que são, portanto, inocentes. Este é um largo salto teológico sobre uma pilha de espadas. Embora o bebê seja inocente de atos específicos de pecado, ele ainda é culpado pelo pecado original.

Para entender a visão reformada da predestinação é absolutamente necessário entender a visão reformada do pecado original. Os dois assuntos sustentam-se juntos, ou caem juntos.
A visão reformada segue o pensamento de Agostinho. Agostinho elucida o estado de Adão antes da queda e o estado da humanidade depois da queda. Antes da queda foram concedidas a Adão duas possibilidades: Ele tinha a capacidade para pecar e a incapacidade para não pecar. A idéia de "incapacidade para não" é um pouco confusa porque, em nossa língua, é uma dupla negativa. A fórmula latina de Agostinho era non posse non peccare. Colocado de outra maneira, significa que, depois da queda, o homem era moralmente incapaz de viver sem pecar. A capacidade de viver sem pecar foi perdida na queda. A incapacidade moral é a essência do que chamamos de pecado original.

Quando nascemos de novo, nossa servidão ao pecado é aliviada. Depois que somos vivificados em Cristo, novamente temos a capacidade para pecar e a capacidade para não pecar. No céu, teremos a incapacidade
para pecar.

  
Vamos ver isto no quadro seguinte:

  
O homem antes
da queda
O homem
depois da queda
O homem
renascido
O homem
glorificado
capaz de pecar
capaz de pecar
capaz de pecar

capaz de não
pecar

capaz de não
pecar
capaz de não
pecar

incapaz de não
pecar





incapaz de pecar

O quadro mostra que o homem antes da queda, depois da queda e depois de renascer é capaz de pecar. Antes da queda ele é capaz de não pecar. Essa capacidade, a capacidade de não pecar, é perdida na queda. É restaurada quando a pessoa nasce de novo, e continua no céu. Na criação, o homem não sofreu de incapacidade moral. A incapacidade moral é um resultado da queda. Colocando de outra maneira, antes da queda o homem era capaz de refrear-se de pecar; depois da queda, não é mais capaz de refrear-se de pecar. É isso que chamamos de pecado original. Esta incapacidade moral ou servidão moral é vencida através do renascimento espiritual. O renascimento libera-nos do pecado original. Antes do renascimento ainda temos um livre-arbítrio, mas não temos esta liberação do poder do pecado, que é o que Agostinho chamou de "liberdade".

A pessoa que é renascida ainda pode pecar. A capacidade de pecar não é removida até que sejamos glorificados no céu. Temos a capacidade de pecar, mas não estamos mais sob a servidão do pecado original. Fomos libertados. Isto, é claro, não quer dizer que agora vivemos vidas perfeitas. Ainda pecamos. Mas não podemos dizer que pecamos porque isso é tudo que nossa natureza decaída tem poder para fazer.