domingo, 26 de outubro de 2014

Um caso exegético para o calvinismo - Rm 9:6-23


Por Thomas R. Schreiner 


Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas também a Rebeca, que havia concebido de um, de Isaque, nosso pai (pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú. Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum. Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia. Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra. Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece. Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória.” (Rm 9.6-23).

Alguém poderia objetar que o uso paulino deste modo distorce o AT, o que não exclui Ismael das promessas salvíficas. Como réplica eu diria que Paulo emprega Isaque e Ismael tipologicamente e relaciona suas histórias aos propósitos salvíficos de Deus. Além disso, apesar de vozes contrárias, é duvidoso que o autor de Gênesis concebesse Ismael como um portador da bênção pactual da salvação. Ele recebe as promessas de bênção temporal (Gn 17.20; 21.13, 18), mas ele provavelmente foi excluído do pacto salvífico com Abraão. 

Nesta conjuntura eu deveria notar que a seleção de um remanescente de Israel implica a seleção de alguns indivíduos de um grupo maior.

... O “chamado em Paulo” é eficaz, em que o chamado cria o que é desejado. O verso 11 repete a mesma tese. Por que a promessa foi feita antes do nascimento dos gêmeos e não baseada nas suas obras? O propósito é “a fim de que o propósito de Deus quanto à eleição prevalecesse”.

Isto não pode ser frustrado, nem mesmo pelos seres humanos, porque ele não é baseado em suas ações, obras ou escolhas, mas na vontade e na intenção de Deus. É importante notar também que Paulo não contrasta “fé e obras”, mas “o chamado de Deus e as obras”.

O verso 16 reapresenta e esclarece isto ao indicar que a escolha e esforço humanos não são a base sobre a qual a promessa misericordiosa de Deus é recebida. Este verso exclui nos termos mais claros possíveis a noção de que o livre arbítrio é o fator fundamental na eleição divina.

O poder é de dois gumes mesmo na narrativa do Êxodo, efetivando a salvação para Israel e trazendo julgamento para Faraó e o Egito.

Cranfield se perde ao colocar tanto o endurecimento e a misericórdia sob a égide da misericórdia de Deus. O exato ponto do v.18 é que a misericórdia e o endurecimento são antitéticos, e nenhuma indicação é dada de que aqueles que são endurecidos recebem a misericórdia de Deus.

Em qualquer caso, a referência a Faraó aqui deve ser fundamentada no contexto de Romanos... E assim o assunto em questão é o porquê da maioria dos israelitas não serem salvos.

Nem Paulo discorda nos versos 19-23 da ideia de que a vontade de Deus é a causa última do destino de alguém. Ele não resolve o problema ao recuar do seu argumento anterior. Paulo está bem ciente de que alguns se recusam a submeter-se ao que Deus tem ordenado. A resistência da maioria dos israelitas ao evangelho estimulou a escrita dos capítulos 9-11. Além disso, nos versos anteriores a resistência de Faraó à ordem de Deus é notável. No entanto, 9.14-18 indica que a resistência de Faraó foi no fim das contas devido ao endurecimento de Deus.

Se os seres humanos não podem no fim das contas resistir à vontade de Deus, então como nós deveríamos interpretar a resposta de Paulo à queixa no verso 20? Eu já mostrei que ele não nega a premissa: ninguém pode finalmente resistir à vontade de Deus. O que ele nega é a conclusão: Deus, portanto, não pode culpar os seres humanos.

Paulo não depende de qualquer um destes textos especificamente, embora o texto de Romanos 9.20 esteja especialmente próximo a Is 29.16. Paulo adapta a metáfora para os seus próprios propósitos, e reflete uma consciência das tradições bíblicas nas quais a ilustração foi empregada. Não se pode determinar, portanto, a partir dos usos antecedentes da metáfora se Paulo a emprega com referência a salvação individual. A significância da metáfora deve ser recolhida a partir do fluxo do argumento em Romanos uma vez que o uso judaico da metáfora é variado. Só o destino histórico das nações dificilmente responde a questão que provocou a discussão inteira: por que muitos em Israel não são salvos.

Os versos 22-23 se constroem sobre esta ilustração ao informar ao leitor por que DEUS PREPAROU alguns vasos para a destruição e outros para a misericórdia... O ônus da prova está sobre aqueles que veem uma separação entre o uso do termo no v. 21 e seu uso nos versos 22-23. No último exemplo as referências ao julgamento escatológico e a glória são claras... Tantoorge quanto apoleia se referem frequentemente ao julgamento escatológico em Paulo. Qualquer noção de destino histórico somente certamente parece forçado.

Uma vez que skeue orges refere-se ao julgamento escatológico e skeue eleous à glória escatológica, e uma vez que nenhum sentido contrário evidente pode ser encontrado entre os versos 21 e 22-23, segue-se que os vasos para honra e desonra devem naturalmente significar os salvos e os perdidos respectivamente. A palavra “honra” designa vida eterna em 2.7, 10, onde ele põe em paralelo o termo “glória”. 

De forma semelhante, a escolha de alguém para a honra escatológica e outro para o julgamento da mesma massa indica que aqueles escolhidos não tinham méritos especiais ou distinção que explicassem o fato de serem escolhidos.

Desse modo, a razão de Deus suportar pacientemente os vasos de ira é explicada. A bondade de Deus é sublinhada neste verso, pois a cláusula principal diz “ele suportou com muita paciência os vasos de ira.” A implicação é que teria sido justo para ele destruí-los imediatamente (cf. Rm 3.25-26). Aqueles com quem ele é paciente são skeue orges, pois o julgamento escatológico está em contraste com os skeue eleous no v.23 que experimentarão a salvação escatológica. Nem há qualquer insinuação de que os vasos de ira depois se tornarão vasos de misericórdia, pois o texto diz que eles “são preparados para a destruição”.

Finalmente, a frase participial no v. 22 explica porque Deus suporta com paciência aqueles que experimentarão a sua ira: ele quer “mostrar a sua ira e fazer conhecido o seu poder.” No caso de Faraó Deus demonstrou sua paciência ao não destruir Faraó imediatamente, embora ele tenha resistido à ordem de Deus. Ao adiar o seu julgamento sobre Faraó, porém, Deus exaltou seu nome e exibiu mais fortemente a grandeza de sua salvação e o terror do seu julgamento. A correspondência parece exigir uma interpretação semelhante do v. 22. Deus adia o seu julgamento imediato dos vasos de ira de forma que ele possa revelar toda a extensão do seu poder e ira sobre aqueles que continuamente resistem a sua oferta de arrependimento (Cf. 10.21). A ideia de que Deus suspende uma retribuição imediata a fim de impor um julgamento mais severo mais tarde é atestada em outro lugar na literatura judaica. Isto também responde a objeção observada anteriormente de que Deus não faria os vasos a fim de destruí-los uma vez que nenhum oleiro faz isso. Além disso, o conceito paulino de julgamento escatológico não envolve aniquilação, mas exclusão eterna da presença graciosa de Deus.

A palavra “preparados”, então, denota uma preparação DA PARTE DE DEUS para a destruição em vez de uma auto-preparação. Em qualquer caso, não se pode por recursos exegéticos livrar Deus de decidir o destino dos vasos de ira. Isto também fazia parte de seu plano, e assim a dupla predestinação não pode ser evitada. Não há qualquer base para a ideia de que os mesmos vasos de ira se tornarão depois vasos de misericórdia. O texto exclui isto explicitamente ao descrever os vasos de ira como “preparados para a destruição”.

Agora, o verso 23 nos informa que a demonstração desta ira tem um propósito maior. Quando os vasos de misericórdia percebem a ira temível de Deus sobre os desobedientes e refletem sobre o fato de que eles merecem o mesmo, então eles apreciam de uma forma mais profunda as riquezas da glória e da graça de Deus esbanjadas sobre eles. A misericórdia de Deus é apresentada com clareza contra o pano de fundo da sua ira. Assim, Deus exibe a gama completa dos seus atributos: sua ira poderosa e o esplendor da sua misericórdia. A misericórdia de Deus não seria impressionada na consciência dos seres humanos à parte do exercício da ira. (T. Schreiner, Romans, 497-523).

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Fonte: Triablogue
Tradução: Francisco Alison Silva Aquino
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