domingo, 12 de julho de 2015

Pequeno Excerto da Obra A Doutrina Protestante das Escrituras, de Cornelius Van Til



PEQUENO EXCERTO DA OBRA THE PROTESTANT DOCTRINE OF SCRIPTURE [A DOUTRINA PROTESTANTE DAS ESCRITURAS], DE CORNELIUS VAN TIL


1. A NECESSIDADE DA REVELAÇÃO NATURAL

A fim de apresentar a inter-relação existente entre a revelação de Deus nas Escrituras e Sua revelação na natureza, devemos primeiramente tratar da necessidade da Revelação Natural. É costume apresentar a necessidade da Revelação Sobrenatural devido ao fato de não existir, em toda a extensão da natureza, nenhum tipo de revelação a respeito da graça. Contudo, é igualmente verdadeiro que a revelação da graça operar-se-ia num vácuo caso não se operasse na natureza, revelando, assim, a Deus. É impossível reconhecer o sobrenatural por aquilo que é, a menos que o natural também o seja: ambos devem ser reconhecidos mediante a luz da revelação sobrenatural de Deus. Tudo aquilo que o homem faz em relação à natureza, ele o faz como uma forma de manutenção ou de transgressão do pacto de graça que Deus estabeleceu com o homem. Dessa forma, tanto o cientista no seu laboratório quanto o filósofo em seu estudo estão lidando com seus materiais, quer como mantenedores do pacto ou como seus transgressores. Todos os atos do homem, todos seus questionamentos, todas suas afirmações – de fato, todas as suas negações em qualquer domínio de seus interesses, são pactualmente condicionadas.

2. A AUTORIDADE DA REVELAÇÃO NATURAL

Naturalmente, se, de fato, todos os atos humanos realizados tanto no que concerne à natureza quanto às Escrituras são pactualmente condicionados, isso se dá porque Cristo se comunica com o homem de forma ubíqua, e Se comunica sempre com absoluta autoridade. O cientista pode ou não reconhecer este fato. Se ele não é um cristão, ele há de argumentar que o fato de Cristo possuir autoridade, uma absoluta autoridade no que diz respeito ao seu procedimento científico, é algo que destrói totalmente a própria ideia de ciência. Ele há de argumentar que a ideia de ciência pressupõe liberdade por parte do cientista para conceber quaisquer hipóteses que julgue se encaixar aos fatos. Qualquer autoridade absoluta – como aquela mencionada anteriormente – também exclui (no raciocínio do cientista) a ideia de que as palavras de Cristo podem e devem ser testadas pelos fatos e pela ordem dos fatos, isto é, pelas leis naturais já conhecidas pelos homens, a partir de seus experimentos e experiências prévias. “Suponha”, o cientista talvez diga, “que eu tenha de trabalhar sob a absoluta restrição da ideia de uma Providência redentora e soberana de Deus, tal como ensinado pela Bíblia – isto seria contra a ideia de um universo absolutamente aberto. Assim, minha hipótese teria que ser de uma natureza tal que esteja em total concordância e mesmo subordinada à ideia dessa Providência soberana. Isso excluiria quaisquer novidades e descobertas na ciência. Tudo já estaria de antemão fixado. Por outro lado, a ideia de uma Providência redentora que abarcasse todas as coisas exigira, de minha parte, a aceitação, de bom grado, da possibilidade de Deus, arbitrariamente, Se manifestar na ‘unidade’ da natureza que a ciência descobriu mediante árduos esforços, e, dessa forma, destruísse essa ‘unidade’ com inserções miraculosas. Teríamos, então, que aceitar que todos os fatos com os quais lidamos são, essencialmente, criações arbitrárias de Deus. Portanto, teríamos que interpretar a ideia de ‘lei’ científica como sendo subserviente àquela lei do relato bíblico acerca do pecado e redenção, a qual é controlada pelo fiat do Deus soberano. Isso não pode ser assim, e, portanto, não aceitaremos tal coisa!

Dito de outro modo, a metodologia científica que não é definitivamente baseada sobre a história redentiva da Bíblia é baseada, na verdade, sobre a suposição de que, de um lado, o universo deve ser totalmente aberto e, de outro, que ele deve ser totalmente fechado. Aludindo a essa ideia, Morris Cohen diz que a ciência necessita tanto da ideia do universo aberto quanto da ideia do universo fechado, mas delas necessita não como elementos constituintes, antes, como conceitos que se limitam reciprocamente.

Caso o homem não possua a autoridade de Cristo no campo da ciência, ele passa a considerar a si mesmo como a autoridade definitiva, como a retaguarda de seu esforço. A controvérsia entre aquele que guarda o pacto e aquele que o quebra nunca se dá, exclusivamente, a respeito de um fato particular ou a respeito de certo número de fatos. É sempre, e ao mesmo tempo, sobre a natureza dos fatos. Além disso, atrás do argumento a respeito da natureza dos fatos, há ainda o argumento sobre a natureza do homem. Por mais restrito que o debate entre o crente e o cético possa ser a qualquer momento, em última análise há sempre duas cosmovisões em desacordo entre si. De um lado, é um homem que vê a si mesmo como incapaz de encontrar uma interpretação inteligível da experiência sem referência a Deus como seu Criador e a Cristo como seu Redentor. De outro lado, é o homem que está certo de que ele não pode encontrar qualquer interpretação desse tipo. Ele supõe que reside junto a ele o poder de fazer um juízo universal negativo acerca da natureza de toda a realidade.

Consequentemente, o cientista que é um cristão possui o dever de mostrar ao seu amigo e colega que não é cristão que, a menos que este último esteja disposto a se posicionar a partir da narrativa cristã com respeito ao mundo que tem sido redimido por meio de Cristo, não há nada para ele, a não ser o fracasso. O labor científico é totalmente ininteligível a não ser que seja francamente baseado sobre a ordem disposta no universo de fatos criados por Cristo, o Redentor.

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Autor: Cornelius Van Til
Fonte: WTSBooks
Tradução: Fabrício Tavares
Divulgação: Bereianos