segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um breve panorama das heresias cristológicas sobre as naturezas de Cristo

Por Francisco Alison Silva Aquino


A história do cristianismo tem como uma de suas principais marcas o surgimento de doutrinas que vão de encontro ao ensinamento bíblico. Já na igreja apostólica do Novo Testamento, nós percebemos facilmente a existência de heresias destruidoras. Em I Jo 4.1-3 nós lemos:

Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. Nisto conheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não é de Deus; mas é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que havia de vir; e agora já está no mundo.” 

Outra passagem do Novo Testamento afirma: “Porque já muitos enganadores saíram pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Tal é o enganador e o anticristo.” (II Jo 7)

Estas passagens demonstram claramente que já no período neotestamentário havia conceitos equivocados a respeito de Cristo. Os textos dizem que alguns afirmavam que Cristo não vira em carne. E foi justamente esse um dos objetivos de João ao escrever essa epístola: enfrentar a heresia gnóstica do primeiro século. Talvez essa tenha sido a heresia mais perigosa que ameaçava a igreja dos três primeiros séculos. 

O gnosticismo (do grego “gnosis”, sabedoria) defende um forte dualismo espírito/matéria. A ideia gnóstica é que enquanto o espírito é “bom”, a matéria é essencialmente “má”. Essa percepção trouxe várias consequências desastrosas para o cristianismo. Uma delas é, que, pela lógica, se a matéria é essencialmente má, logo, Cristo não poderia ter “vindo em carne” (I Jo 4.2), negando assim a doutrina bíblica da encarnação como o cristianismo ortodoxo crê. Além disso, consequentemente, a humanidade de Cristo também era negada.

Franklin Ferreira (2007, p.487) agrupa as heresias antigas sobre as naturezas de Cristo em duas classes: primeira, as negações da humanidade de Jesus Cristo, que seriam o docetismo, o apolinarismo e o eutiquianismo. Segunda, as negações da divindade de Cristo, que seriam o ebionismo, o adocionismo e o arianismo.

O docetismo tem uma forte ligação com o gnosticismo tratado há pouco. O nome docetismo vem do grego dókesis cujo significado é “aparência”. Isto é, os docetas criam que, pelo fato de a matéria ser intrinsecamente má, Cristo não foi plenamente encarnado na carne, pois uma vez que a matéria tem essa característica, o espírito, que é bom, não poderia se envolver com ela. O corpo de Jesus, então, era uma mera ilusão e somente “parecia” que Cristo tinha sido crucificado. 

Um outro ensinamento difundido no século IV por Apolinário, bispo de Laodicéia (310-390), pregava que Cristo era divino mas não humano (apolinarismo). Ele entendia que Jesus Cristo não possuía uma alma racional humana, a alma divina (ou logos) teria tomado o lugar da alma humana. As ideias de Apolinário foram condenadas no concílio de Constantinopla no ano 381.

A última heresia que negava a humanidade de Cristo foi o eutiquianismo. Essa heresia era defendida por um monge de Constantinopla chamado Eutiques. Ele defendia que a natureza divina de Cristo absorveu a natureza humana. Nesse sentido, Cristo teria apenas uma natureza após a união, a divina, revestida de Carne humana. O eutiquianismo, conhecido posteriormente como monofisismo, foi condenado em Calcedônia e continuou exercendo influência sobre Cristãos do Egito, Etiópia, Síria, Armênia e outras regiões. Em oposição ao monofisismo, o concílio de Calcedônia reconhecia o diofisismo (duas naturezas).

A segunda classe de heresias cristológicas é aquela referente aos ensinamentos que negam a divindade de Cristo. São Elas: ebionismo, o adocionismo e o arianismo.

Os ebionistas defendiam uma heresia surgida em Israel no final do primeiro século. O ebionismo parece ter desaparecido conforme a igreja foi se tornando cada vez mais gentílica e menos judaica. O nome é derivado do hebraico “’ebyôn”, que significa “pobre”, “necessitado”, etc. O ensino ebionista era que Jesus Cristo não era Deus, mas somente um profeta extraordinário, o qual se identificava com os pobres (daí o nome), sendo filho natural de José e Maria. Segundo Berkhof (1992, p.43), os ebionistas “negavam tanto a divindade de Cristo como o seu nascimento virginal”.

Outra heresia que negava a divindade de Cristo foi o adocionismo. O ensinamento por trás dessa heresia era que Jesus era simplesmente um homem virtuoso, tão submisso ao Pai que este o adotou como o salvador dos homens. Tal doutrina foi ensinada por Paulo de Samosata, bispo de Antioquia. Segundo ele, Jesus teria sido iluminado por Deus de maneira extraordinária, sendo progressivamente aperfeiçoado até que ele tornou-se Cristo, o filho de Deus com uma posição divina. Porém, filho por “adoção”, não por natureza. Logo, a existência eterna de Cristo com o pai foi negada pelos adocionistas também.

Por último, o arianismo foi a principal heresia dos primeiros séculos da história do cristianismo. Ário foi um bispo de Antioquia que ensinava que Cristo era apenas uma criatura, não o Deus eterno. Uma expressão típica desse movimento era que “houve um tempo quando Cristo não era”. Os debates em torno dessa doutrina resultaram na formulação de uma das mais importantes confissões de fé cristãs: o credo de Nicéia, elaborado no primeiro grande concílio da igreja em 325 na cidade de Nicéia (atual İznik, Turquia).

O surgimento de heresias na história da igreja tem conduzido servos de Deus a debates com o objetivo de definir o ensinamento correto das Escrituras. No entanto, mesmo em meio a tantas controvérsias, o Senhor cuidou de preservar a sua verdade através dos séculos.

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Referências:
FERREIRA, Franklin & Alan Myatt. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.
BERKHOF, Louis. A história das doutrinas cristãs. São Paulo: Pes, 1992.

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Fonte: Bereianos