terça-feira, 1 de março de 2016

Martyn Lloyd-Jones sobre o dom de profecia

O Dr. Eryl Davies faz a seguinte afirmação em seu artigo publicado no jornal Themelios, intitulado Dr. Martyn Lloyd-Jones: Uma Introdução: “Embora carismáticos e pentecostais o reivindiquem como defensor dos seus pontos de vista, uma leitura cuidadosa dos escritos de M. L-J deixa claro que eles o entenderam mal”.

Davies fundamenta a sua afirmação (em parte) apontando para uma seção da obraUnidade Cristã, de Lloyd-Jones, na qual o Doutor (como ele era frequentemente chamado) discute a natureza da profecia do Novo Testamento.

Aqui está o que Lloyd-Jones afirmou:

“Podemos dizer, contudo, que o profeta era uma pessoa a quem a verdade era dada pelo Espírito Santo [...] Vinha-lhes uma revelação ou mensagem ou algum discernimento da verdade e, cheios do Espírito, podiam fazer declarações benéficas e proveitosas para a igreja. Certamente está claro que também isto era temporário, e por esta boa razão, que naqueles primeiros dias da Igreja não havia Escrituras do Novo Testamento, a verdade ainda não tinha sido exposta em palavras escritas. Tente imaginar a nossa posição se não possuíssemos estas cartas do Novo Testamento, mas apenas o Antigo Testamento. Era essa a posição da igreja primitiva. A verdade foi dada a ela, principalmente pelo ensino e pregação dos apóstolos, mas ela foi suplementada pelo ensino dos profetas aos quais foi dada a verdade e também a capacidade de falar com clareza e poder na demonstração e autoridade do Espírito. Mas uma vez que estes documentos do Novo Testamento foram escritos, o ofício de um profeta não era mais necessário. Por isso, nas Epístolas Pastorais, que se aplicam a uma etapa posterior na história da Igreja, quando as coisas haviam se tornado mais estáveis e fixas, não há nenhuma menção aos profetas. É evidente que mesmo o ofício de profeta não sendo mais necessário, a chamada foi para os mestres, pastores e outros exporem as Escrituras e transmitirem o conhecimento da verdade. Mais uma vez temos que observar que muitas vezes na história da Igreja o problema surgiu porque as pessoas pensavam que eram profetas no sentido do Novo Testamento, e que tinham recebido revelações especiais da verdade. A resposta para isso é que, na perspectiva das Escrituras do Novo Testamento, não há necessidade de verdades adicionais. Essa é uma proposição absoluta. Nós temos toda a verdade no Novo Testamento, e não temos necessidade de quaisquer outras revelações. Tudo foi dado, tudo o que é necessário para nós está disponível. Portanto, se alguém alega ter recebido uma revelação de alguma nova verdade, devemos suspeitar dele imediatamente [...] A resposta para tudo isso é que a necessidade de profetas terminou uma vez que temos o cânon do Novo Testamento. Não precisamos mais de revelações diretas da verdade; a verdade está na Bíblia. Nunca devemos separar o Espírito da Palavra. O Espírito nos fala através da Palavra, por isso, devemos sempre duvidar e consultar qualquer suposta revelação que não seja completamente consistente com a Palavra de Deus. Na verdade, a essência da sabedoria é rejeitar completamente o termo ‘revelação’, no que nos diz respeito, e só falar de ‘iluminação’. A revelação foi dada de uma vez por todas, e o que precisamos e o que pela graça de Deus podemos ter, e temos, é a iluminação do Espírito para entender a Palavra” (D. Martyn Lloyd-Jones. Christian Unity. Grand Rapids: Baker, 1987. pp. 189-91).[i]

Claramente, a explicação de Lloyd-Jones acerca da profecia do Novo Testamento é contrária à posição continuísta.


Porque o seu nome é levantado muitas vezes por aqueles que defendem uma posição continuísta, a sua descrição de profecia se torna especialmente pertinente na atual discussão sobre os dons.

UPDATE: Alguns comentaristas têm sugerido que Lloyd-Jones estava se referindo apenas à profecia escriturada e, portanto, suas declarações acima não se aplicam à posição continuísta contemporânea. No entanto, este não é o caso. Num parágrafo da introdução da discussão acima, Lloyd-Jones descreveu o tipo de profecia do Novo Testamento ao qual ele estava se referindo:

“No Novo Testamento os profetas geralmente são unidos aos apóstolos, como no segundo capítulo desta epístola: ‘Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele próprio a pedra angular, Jesus Cristo’ (Ef 2.20). Mas, embora estejam junto dos apóstolos, os profetas são obviamente diferentes. Por exemplo, não era necessário que um profeta tivesse visto o Senhor ressuscitado. Na verdade, em geral, ele não precisava ter muitas das qualificações do apóstolo. Essencialmente, um profeta era um homem que falava sob a inspiração direta do Espírito Santo. É claro que, algumas vezes, um profeta era uma mulher. Somos informados no segundo capítulo de Lucas, que Ana era uma ‘profetisa’. De igual modo, é dito em Atos que Filipe, o evangelista, tinha quatro filhas que ‘profetizavam’ (21.9). Existem muitas referências a profetas no Novo Testamento. Por exemplo, em Atos nos é dito que havia vários profetas na igreja de Antioquia, alguns dos quais tinham vindo de Jerusalém (11.27; 13.1). Um deles, chamado Ágabo, profetizou que uma grande fome estava para vir sobre a terra, e ele exortou os cristãos sobre isso. Há um ensino específico sobre os profetas no capítulo catorze da Primeira Epístola aos Coríntios” (D. Martyn Lloyd-Jones. Christian Unity. Grand Rapids: Baker, 1987. p. 188).[ii]

Observe que Lloyd-Jones vê uma distinção entre apóstolos e profetas em Efésios 2.20. Isto vai contra a comum interpretação continuísta desta passagem. Além disso, observe que Lloyd-Jones inclui as filhas de Filipe, Ágabo e até mesmo os profetas congregacionais de 1Coríntios 14 sob a égide da profecia do Novo Testamento que ele está discutindo.


Nada nos comentários de Lloyd-Jones (ao menos nesta seção em particular) sugere que ele abraçou a visão dos dois níveis da profecia do Novo Testamento, que caracteriza a posição continuísta contemporânea.

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Notas:
[i] Publicada no Brasil pela editora PES: D. Martyn Lloyd-Jones. A Unidade Cristã: Exposição sobre Efésios 4:1-16. São Paulo: PES, 1994. pp. 163-166.
[ii] Ibid. p. 163.

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Autor: Nathan Nusenitz
Fonte: The Cripplegate 
Tradução: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima