sábado, 11 de junho de 2016

Consagração Cristã - Da apreciação à consagração - Bruce Anstey

Gostaria de falar sobre consagração na vida cristã. Primeiramente, vamos ler o Salmo 116:12: “Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?”. Agora abra em 2 Co 5:14-15 “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”.

Agora vamos ler uma terceira passagem em 1 Pe 4:2-3: “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus. Porque é bastante que no tempo passado da vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borrachices, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias”.

Finalmente, abra em Romanos 12. Por uma questão de contexto, vamos começar lendo a partir do versículo 33 do capítulo 11. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:33-36). 

Agora Romanos 12: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável [aceitável] a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento [vossa mente], para que experimenteis [proveis] qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; Ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria” (Romanos 12:1-8) [JND].

Gostaria de começar respondendo uma questão que está na mente da maioria dos jovens: “O que devo fazer da minha vida?” Acredito que os versículos que acabamos de ler nos dizem exatamente o que devemos fazer com nossa vida: devemos entregá-la ao Senhor e deixar que Ele faça dela uma bênção. A vida é como uma moeda que pode ser gasta da maneira que você quiser, mas uma vez que você a gastou, não poderá gastá-la novamente. As Escrituras insistem que usemos nossa vida – nosso tempo – de forma sábia, porque não podemos revivê-la. Moisés orou, “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios” (Salmos 90:12). Ele tinha noção da brevidade da vida e queria vivê-la de forma sábia. 

O primeiro versículo que lemos no Salmo 116 retrata a resposta natural que deveria vir do coração do povo de Deus quando pensam no que Ele fez para livrá-los da punição de seus pecados. O salmista pergunta o que ele daria ao Senhor de forma a demonstrar a sua apreciação. Espero que nesta tarde você tenha esse desejo. 

A segunda passagem que lemos em 2 Coríntios 5 fala que o cristão tem apenas duas maneiras de viver sua vida – “para Aquele” ou “para si”. Afinal, a escolha quanto à maneira como vivemos é nossa. Apesar de todas as súplicas e alegações que eu possa fazer a você, no final a escolha será sua. Espero e oro para que você tome decisões corretas em suas vidas, no temor do Senhor, e decidam viver para Ele. Esse é o único caminho feliz na vida. 

A terceira passagem que lemos em 1 Pedro 4 indica que temos duas partes em nossa vida. Temos o “tempo passado” e o “tempo que vos resta” de nosso tempo. Não podemos fazer nada de nosso passado, mas podemos fazer algo do resto do nosso tempo. E é sobre isso que eu quero falar com você.

Da Apreciação à Consagração

O que temos diante de nós em Romanos 12 é a questão da consagração da vida do cristão a serviço de Deus. Contudo é importante notar que o assunto não tem início na consagração, mas começa com a apreciação, conforme lemos no final do capítulo 11. Nessa passagem da Palavra de Deus o apóstolo nos encaminha pelos processos de pensamentos que são normais a qualquer cristão sensato, iniciando pela apreciação até a consagração. Vamos observar essa passagem mais de perto.

Apreciação

Nos últimos quatro versículos do capítulo 11 vemos o apóstolo irrompendo numa doxologia de louvor. Ele exulta nas “riquezas”“sabedoria” e “ciência” de Deus. Ele tem todos os motivos para fazer isso. Ao longo dos primeiros onze capítulos da epístola o apóstolo expôs aos santos romanos a graça de Deus em atender às necessidades do pecador. Ele mostrou que a bondade de Deus, o amor de Deus, a misericórdia de Deus e a graça de Deus asseguraram grandes bênçãos espirituais aos crentes, sendo estes perdoados, justificados e reconciliados. Agora, neste ponto da exposição, olhando de volta para tudo o que aconteceu, o apóstolo exulta com o seu coração cheio de louvor e menciona sete grandes atributos de Deus: “riquezas”“sabedoria”“ciência”“juízo”“caminhos”“mente” e o conselho de Deus que assegura aquelas grandes bênçãos. 

É aqui que a consagração na vida cristã começa, com o coração sendo tomado pela apreciação do que o Senhor fez por nós. Assim, é da maior importância que paremos para pensar no quanto o Senhor nos ama e no que Ele fez por nós. Precisamos contar nossas bênçãos. Se fizermos isso, nossos corações jorrarão com apreciação e louvor. O salmista diz: “O meu coração ferve [jorra] com palavras boas, falo do que tenho feito no tocante ao Rei” (Salmos 45:1). É um fato, quanto mais tempo passamos com o Senhor, mais a nossa apreciação por Ele crescerá.

Agora, deixe-me perguntar, você separa um tempo para estar sozinho com o Senhor todos os dias? Deveríamos separar um tempo todos os dias de nossa vida para sentar e meditar n’Ele. Isso resultará em uma resposta de apreciação e louvor a Ele em nossos corações. Ele certamente é digno (Ap 5:9). Além disso, haverá uma profunda mudança que começará a tomar lugar em nossa vida e nos conduzirá à consagração para o serviço de Deus.

Dedicação

Vemos no capítulo 12 que no momento em que da alma do crente jorra apreciação, as reivindicações de Cristo são pressionadas sobre ele. É dito “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo...”. Isso é dedicação. As escrituras dispõem as coisas nessa ordem a fim de nos mostrar que a apreciação nos levará à dedicação. A pessoa cujo coração é elevado em grata apreciação a Deus desejará entregar sua vida a Ele no altar do sacrifício.

Dedicação está intimamente ligada ao senhorio. As duas coisas realmente andam juntas. Quando você entrega a sua vida ao senhorio de Cristo, você está verdadeiramente renunciando ao comando de sua vida e o entregando a Ele. Você deve ter me escutado falar nisso antes, mas existe uma diferença entre ter a Cristo como seu Salvador e tê-Lo como seu Senhor. Uma coisa é conhecer a Cristo como aquele que colocou de lado os seus pecados, outra coisa é tê-Lo como o Senhor da sua vida. Senhorio tem a ver com o reconhecimento da autoridade do Senhor na nossa vida. Reconhecer Seu senhorio significa reconhecer Sua autoridade em nossa vida. É reconhecer que Ele é o único que tem o direito de nos dizer o que devemos fazer em nossa vida, pois na redenção ele tem uma demanda digna sobre tudo o que somos e fazemos (1 Co 6:20). É triste dizer que há muitos cristãos que conhecem a Cristo apenas como seu Salvador. Quando você olha para suas vidas é bem evidente que Ele não é o Senhor deles em um sentido prático.

Esse “sacrifício vivo” que somos exortados a oferecer a Deus é algo individual, não um exercício em grupo. É algo que cada um de nós precisa fazer. Eu não posso fazer isso por você e você não pode fazer isso por mim. É algo pessoal.Este é um dos três sacrifícios cristãos encontrados no Novo Testamento. São eles:

“Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15)

Fazendo o bem e comunicando nossos bens, “pois de tais sacrifícios Deus se agrada” (Hebreus 13:16).

“Apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”(Romanos 12:1)

Como disse, o primeiro versículo de Romanos 12 fala de dedicação. Dedicação significa “abrir mão”. Compare Atos 15:26, onde fala de “...homens que abriram mão de suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.” (JND). Ou seja, devotaram a vida a Deus. (Lv 27:21-28; 2 Sm 8:11) Somos exortados aqui a “abrir mão” ou entregar nossas vidas a Deus para sermos usados para a glória d’Ele. 

Perceba que súplica não é uma ordem. Ele não diz “Agora eu ordeno a vocês, irmãos...”. Não, ele nos roga, com base na “compaixão de Deus”. Ele quer que consideremos sobriamente o que Deus em sua grande compaixão fez e que respondamos da única maneira lógica: a entrega de nossas vidas à causa de Cristo. Quando pensamos na misericórdia que Deus teve de nós ao nos salvar (Ef 2:4), a única coisa lógica que poderíamos fazer seria entregar nossas vidas a Ele para Seu serviço. A reivindicação da redenção demanda que Cristo deve ter o supremo lugar em nossas vidas. Quando consideramos o custo de nossa redenção, isso deveria nos levar a uma rua de mão única que resultará em uma entrega incondicional de nossa vida.

A palavra “apresenteis” nesse verso está no tempo verbal “aoristo” do grego e significa que o “sacrifício vivo” de nossa vida à causa de Cristo deve ser algo feito“de uma vez por todas”. (Se uma pessoa se desvia em sua alma, e deixa de andar com o Senhor, ela precisa dedicar novamente a sua vida, mas isso não é o cristianismo normal). Quando se fala na entrega de nossa vida à causa de Cristo, essa deve ser uma questão definitiva (de uma vez por todas). Não há como retroceder, é para sempre. Nosso “corpo”, que representa a pessoa em sua plenitude (a orelha, os polegares da mão e pé direitos – Lv 8:24), deve ser colocado sobre o altar do sacrifício e entregue ao Senhor para Seu uso. Isto está em contraste com os sacrifícios do Antigo Testamento. Eles traziam ao altar judaico sacrifícios mortos, mas Deus nos diz para trazermos nossa vida como um“sacrifício vivo”.

Agora talvez você diga: “Eu não estou tão certo de que Deus queira a minha vida. Eu não tenho nenhuma habilidade ou dom especial. Eu realmente não tenho nada para oferecer a Ele”. Amigo, você está olhando para si mesmo, e está com o foco totalmente equivocado. O Senhor não está buscando suas habilidades ou inabilidades, Ele está buscando a sua disponibilidade! Você se fará disponível para Ele? Essa é a questão. Ele fará o resto, como veremos neste capítulo. Um tremendo processo de transformação acontecerá em sua vida e Ele o transformará naquilo que Ele quer que você seja. Você se tornará um vaso para Seu serviço. 

O primeiro versículo de Romanos 12 tem tudo a ver com uma decisão da vontade. Você sabe, em Mateus 16:25 o Senhor nos diz que se perdermos nossas vidas nós a encontraremos, mas aquele que se apega a sua vida a perderá no final. Você pode perguntar: O que isso quer dizer? Ele disse: “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á”. Isso quer dizer que se você retiver a sua vida para seus próprios interesses, ambições e prazeres, mesmo sendo um cristão, você a perderá naquilo que diz respeito à recompensa. Quando chegar à eternidade você não terá nada que resista ao fogo. Assim, sua vida estará perdida, apesar de a sua alma ter sido salva. As coisas que foram feitas para os seus interesses egoístas estarão todas perdidas. Por outro lado, o Senhor disse: “Quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á”. Isso significa que se abrirmos mão de nossas vidas em entrega ao Senhor, nós iremos “achá-la”, no sentido de que iremos descobrir o real segredo e significado de uma vida cristã feliz e frutífera. Paulo falou sobre isso a Timóteo, dizendo: “Para que possam tomar posse daquilo que é realmente vida” (1 Tm6:19 – JND). Existe realmente apenas uma forma de se viver a vida, e esta é vivendo-a 100% para Cristo. Se retivermos algo, isso afetará nosso gozo no Senhor e nossa dedicação não será completa. 

Às vezes dedicação é confundida com consagração. A diferença é esta: Dedicação é colocar algo nas mãos de Deus – nossa vida (versículo 1). Consagração é quando Deus coloca algo em nossas mãos, preenchendo nossas mãos com um trabalho para o Seu nome (versículos 6-8). Isso é o que Deus faz quando dedicamos nossas vidas a Ele. Ele nos consagra para o Seu serviço, dando-nos um trabalho para fazer. Como eu disse, este capítulo tem em vista o serviço a Deus. Mas isso não começa pela consagração, e sim pela apreciação que nos levará à dedicação. 

Também é dito que o sacrifício de nossa vida a Deus deve ser “santo”. Se o que estamos dando a Ele for “santo”, será “aceitável”. Mas se estivermos seguindo adiante com algum pecado em nossa vida, não poderemos dar esse tipo de vida ao Senhor. Afinal, como iríamos achar que uma vida assim seria aceitável? Sua vida é um presente aceitável que você pode dar ao Senhor apenas se for santa.

O que Ele nos tem dado? Muito! O que podemos dar a Ele? Bem, não muito, mas podemos dar a ele “sacrifício de louvor” (Hb 13:15), que é fruto de nossos lábios; podemos dar a Ele coisas de nossas posses materiais que poderão servir como suporte do Seu testemunho na terra (Hb 13:16) e podemos dar a Ele nossos“corpos”, que é o assunto deste capítulo.

Ele diz que é o seu “culto racional”“Racional” poderia ser traduzido como“inteligente”. Esse sacrifício que fazemos para Deus é algo que pode ser raciocinado inteligentemente, ou seja, é possível entender o que estamos fazendo. Novamente, este é um contraste com os sacrifícios do Antigo Testamento. Quando os levitas, no sistema do tabernáculo, eles executavam suas responsabilidades na realização dos sacrifícios, mas não entendiam muito daquilo que estavam fazendo. Eles não compreendiam o que faziam. Alguns devem ter ido a Moisés perguntar: “Por que temos que cortar o sacrifício dessa forma? Por que devemos dispô-lo dessa maneira?” Moisés deve ter tido que responder: “Eu não sei, mas o Senhor nos disse para fazermos dessa forma e é melhor que façamos como Ele pediu”. No cristianismo as coisas são bem diferentes. O Senhor não apenas nos salva e nos coloca ao Seu serviço, Ele também nos dá inteligência no serviço prestado a Ele, de maneira que sabemos por que fazemos as coisas que fazemos. Sabemos por que pregamos o evangelho e por que batizamos aqueles que creem no evangelho.

Separação

Agora passemos a mais um elo da corrente dos exercícios de todo o cristão sensato. Ele diz: “não sede conformados com este mundo”. Isso é separação. Primeiramente nós temos apreciação, a qual leva à dedicação, e agora temos separação. 

Separação é um importante elemento no processo do exercício que leva à consagração da vida cristã. A razão pela qual ela é importante é porque o mundo, seus caminhos, prazeres, princípios e moral estão diretamente em oposição a uma vida entregue ao Senhor. O mundo ensina que você deve se colocar em primeiro lugar, e este princípio é a raiz por detrás da maioria de suas formas de agir. É dito que você deve fazer suas próprias coisas, viver para você e pelos seus próprios interesses. Você é encorajado a sair e a se fazer feliz, a fazer as coisas com esta finalidade. Se você tem um sonho de ser alguém ou de fazer algo neste mundo, faça isso! Mas essas coisas apenas nos conformam com o mundo e seus caminhos, que sempre tem a ver com colocar a si próprio como centro de suas ações. Se buscar fazer a si mesmo feliz for o foco de sua vida, você não ficará satisfeito e também não será útil no reino de Deus. Por outro lado, Deus quer que coloquemos Cristo em primeiro lugar em nossa vida. Esse é o segredo da felicidade. Se parássemos de tentar nos fazer felizes, e tentássemos fazer o Senhor feliz, encontraríamos o que é a verdadeira felicidade. 

O mundo quer pensar por nós. Ele quer nos dizer como devemos viver, que tipo de roupa vestir, como deve ser o nosso cabelo, etc... O mundo quer que dancemos conforme a sua música. Aqueles que estão sob sua influência têm a constante necessidade de se amoldar a seu estilo e caminhos. No entanto, o versículo diz: “Não sede conformados com este mundo”. Isso é porque o mundo, em princípio, está em direta oposição à vontade de Deus. Ele precisa ser colocado de lado, pois os interesses e ambições mundanas ficam no caminho do discernimento da vontade de Deus. Isso não será um problema para o coração que foi tocado pelo amor e graça do Senhor. 

Transformação

Na sequência do capítulo é dito: “Mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento”. Isso é transformação. Você pode estar dizendo, “Eu não acho que a minha vida possa ser usada para o serviço do Senhor”. Bem, é aí que entra o trabalho transformador do Senhor. Deus irá nos transformar em algo que Ele poderá usar para Sua glória. Isso é realmente bastante simples: Se você entregar a sua vida a Ele (versículo 1), Ele irá transformá-lo em um vaso que pode ser usado para a sua glória (versículo 2). Ele nos transforma no instrumento de Sua escolha para realizar um trabalho de Sua escolha que no final irá promover Sua glória. 

É interessante notar que no texto grego original há duas raízes diferentes para as palavras “conformados” e “transformados”. A palavra conformados tem um significado de mudança superficial, enquanto que transformados significa uma mudança profunda e radical. Isto significa que o Senhor nos ama da maneira que somos, mas esse amor é tamanho que Ele não nos deixará da maneira como somos. Quando nos devotamos a Ele, Ele se compromete em renovar todo o nosso ser.

Ele nos diz como o processo de transformação acontece: “Pela renovação do vosso entendimento”. Isso nos mostra que nos exercícios que levam à vida cristã consagrada Deus trabalha de dentro para fora. Seu trabalho transformador começa no interior, na “mente”, e reflete em nosso exterior. A transformação toma lugar como resultado de uma mudança de pensamento. O pensamento do mundo é todo errado; ele coloca o EU em primeiro plano. Mas o crente que tem os pensamentos renovados coloca Cristo em primeiro lugar. Precisamos de pensamentos transformados ou renovados. Deus quer que nós pensemos como Ele pensa. Os pensamentos d’Ele são todos no sentido de glorificar seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. A Bíblia diz, “para que em tudo (Cristo) tenha a preeminência” (Cl 1:18). Esse é o grande objetivo de Deus e também deveria ser o nosso. Se nos saturarmos com a Palavra de Deus pensaremos os Seus pensamentos. H. E. Hayhoe costumava dizer: “Leia as escrituras até que você pense na língua das escrituras”.

Assim, o que ele está nos mostrando aqui é que há um motivo inteiramente novo que tem sido trazido à vida do crente e que muda completamente seu objeto e metas na vida. Seu coração foi capturado pelo amor de Cristo e ele está desejoso de entregar suas ambições no altar do sacrifício para que a sua vida seja usada para a causa de Cristo. É um sacrifício nobre que será ricamente recompensado, tanto agora como num dia vindouro.

A partir do momento em que a transformação é colocada em contraste com a conformação a este mundo, fica claro que o que impede o processo de transformação de nossa vida é o mundo – os pensamentos e as ambições mundanas. E é por isso que a separação precede a transformação nessa passagem. Resumindo, ou nós estamos sendo conformados ou estamos sendo transformados. Não existe algo como estar em um estado estático de alma. Nós estamos nos movendo em uma ou em outra direção. Se as ambições do mundo tomaram posse dos nossos pensamentos, talvez seja por isso que esteja ocorrendo tão pouca transformação em nós. Precisamos ser exercitados quanto a essas coisas.

Compreensão

Mudar seus pensamentos quanto às suas metas e ambições na vida o levará à compreensão da vontade de Deus para sua vida. Ele continua dizendo “...para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Ter a glória de nosso Senhor Jesus Cristo como nosso objetivo de vida esclarece diversas coisas que possam ter obscurecido nossa vista. Quando Cristo e Sua glória é nossa razão suprema de viver, começamos a ver as coisas claramente. Enxergaremos o que o Senhor quer que façamos com nossa vida. 

Deus tem um plano para sua vida, um plano que glorificará o Senhor Jesus. Se formos ao Senhor com motivos puros, Ele nos mostrará o que Ele quer que façamos. Ele disse, “Olhai, vigiai e orai; porque não sabeis quando chegará o tempo. É como se um homem, partindo para fora da terra, deixasse a sua casa, e desse autoridade aos seus servos, e a cada um a sua obra” (Mc 13:33,34). Os sacerdotes no Antigo Testamento iam a Arão, o sumo sacerdote, que indicava a cada um o “seu ministério” e seu “cargo” (Números 4:19). Arão é um tipo de Cristo. Assim como Arão dava a cada um o trabalho a ser feito, assim também fará o Senhor, determinando um trabalho para fazermos por amor do Seu nome. 

Essa passagem nos diz que Ele não apenas quer que nós conheçamos a Sua vontade, mas que nós a “provemos”. Parece que todos querem saber qual é a vontade de Deus, mas Ele quer pessoas que queiram fazer a Sua vontade. Ele disse “Se alguém deseja praticar Sua vontade, ele conhecerá da doutrina” (Jo 7:17 – JND). Nós a “provamos” caminhando nela, experimentando-a e descobrindo que cada parte dela é tão boa quanto Deus disse que seria. Provamos por experiência que a vontade d’Ele é “boa, agradável e perfeita”. O fato de Deus ter um plano para as nossa vida significa que Ele tem um novo uso para o nosso corpo. Este já foi uma vez usado como veículo para fazer nossa própria vontade, mas agora nosso corpo deve ser usado para fazer a “vontade de Deus”. 

Fazer a vontade de Deus será algo um pouco diferente para cada um de nós, porque cada um tem um lugar diferente para preencher no corpo de Cristo, como o capítulo passa a mostrar (versículos 4-8). Mas o princípio básico será sempre o mesmo: glorificar o Senhor Jesus. Que feliz privilégio é ter parte na glorificação do Senhor Jesus no mundo. 

Humilhação

No versículo 3 o apóstolo fala de algo mais: humilhação. Ele diz que cada um entre nós não “pense de si mesmo além do que convém”. Descobrir que Deus tem algo para fazermos para a glória do Senhor deveria, naturalmente, produzir humildade no cumprimento do serviço para Ele. Quando consideramos sobriamente que merecíamos ser lançados no inferno, devemos ser humildes em aprender que Deus quer nos usar em seu plano para glorificar a Seu Filho. Isso deveria retirar o nosso orgulho e nos tornar cristãos humildes. Quando Paulo pensou na graça que Deus teve para com ele, lhe usando para pregar “as riquezas incompreensíveis de Cristo” entre os gentios, ele se considerou “o mínimo de todos os santos” (Ef 3:8). Este é o efeito normal da graça de Deus tocando nossos corações. Não deveríamos nos ensoberbecer quanto a isso.

Humildade é algo muito importante no cumprimento de nosso serviço para o Senhor. O discernimento daquilo que acreditamos ser a vontade de Deus para as nossa vida, nos faz querer prosseguir nesse serviço sem muito alarde. Não queremos ser como Jeú, que disse: “Vai comigo, e verás o meu zelo para com o Senhor” (2 Rs 10:16). Ele estava fazendo algo para Deus e queria que todos vissem! Isto foi uma atitude muito arrogante. O princípio fundamental do mundo é chamar a atenção para si, mas isso não tem lugar no serviço de Deus. 

Precisamos ser cuidadosos para não nos colocarmos em evidência no serviço do Senhor. É justamente aquele princípio mundano do “eu” sobre o qual falávamos. Podemos acabar tendo pensamentos orgulhosos sobre nossa importância e isso irá estragar nossa efetividade no ministério. É possível que nos enganemos quanto ao nosso dom. Temos visto alguns que têm sido chamados pelo Senhor para fazer um trabalho em determinado campo, mas parece que isso lhes sobe à cabeça. Começam a se “estender” para além de suas medidas e a se “gloriar no que estava já preparado” no campo de outra pessoa (2 Co 10:16). Por exemplo, alguém pode ser chamado para pregar o evangelho, mas depois de um tempo pode não ficar satisfeito só com isso e querer ensinar também, mesmo não sendo esse seu dom. Isso na verdade é a carne nas coisas de Deus.

O orgulho engana! É possível acharmos que Deus nos chamou para certas coisas em Seu serviço, e descobrirmos que era apenas o desejo da carne. Somos lembrados do rei Uzias, o qual fez algumas coisas nobres no serviço para o Senhor, e isso foi louvável. Mas o seu orgulho tirou dele o que tinha de melhor.“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o Senhor seu Deus, porque entrou no templo do Senhor para queimar incenso no altar do incenso” (2 Cr 26:16). Parece que ele não estava satisfeito em ser o rei, ele queria ser um sacerdote também. Queimar incenso no templo era algo que apenas os sacerdotes tinham autoridade para fazer. O Senhor imediatamente o feriu com lepra em sua cabeça, e ele “se deu pressa” em sair do templo envergonhado. 

O apóstolo diz aqui que devemos considerar “com moderação” o que somos em nós mesmos e o que o Senhor nos tem dado para fazer em seu serviço e não irmos além disso. Devemos nos exercitar em Seu serviço, “conforme a medida da fé” que Ele nos deu para isto. Davi pôde dizer: “Senhor, o meu coração não se elevou nem os meus olhos se levantaram; não me exercito em grandes matérias, nem em coisas muito elevadas para mim” (Salmos 131:1). Fica evidente quando uma pessoa, em seus exercícios, vai além de seus dons. Torna-se visível como um “dedão machucado”, por assim dizer. Pode ser o caso daqueles que são exortadores ao invés de mestres, tomando muito tempo das reuniões de leitura com anedotas e histórias, enquanto que aqueles que poderiam expor a passagem não têm a oportunidade de fazê-lo. Isso é uma vergonha e tudo porque alguns irmãos vão além de seus dons, imaginando que estão dando aos santos comida, quando na realidade não há muita substância no que estão dizendo. Sejamos cuidadosos, muitas reuniões bíblicas têm sido desperdiçadas por conta disso. 

Se estivermos o suficiente na presença do Senhor diariamente, seremos humildes, porque nenhuma carne pode se gloriar na presença d’Ele (1 Co 1:29). Lembro-me do irmão Gordon Hayhoe falando sobre aqueles que dizem “O Senhor me disse isso e aquilo...” Ele disse que seria como se esta pessoa estivesse dizendo que vive tão perto do Senhor que quando o Senhor se comunica com ela, ela sabe sem nenhuma dúvida o que é. Isso é, na verdade, professar uma espiritualidade superior. Novamente, este é apenas aquele princípio mundano de importância própria. Sejamos francos: nenhum de nós tem Urim e Tumim (Êx 29:30) para sermos capazes de dizer definitivamente que temos a mente de Deus em algumas direções que tomamos no serviço do Senhor. O melhor que podemos dizer é que nós cremos ter a mente do Senhor naquilo que fazemos para Ele. Nós confiamos que Ele nos conduziu a isso e avançamos com humildade para cumprir esse serviço.

Consagração

Ter discernido o que cremos ser a vontade de Deus a respeito de nosso serviço para o Senhor levará o cristão devoto a se “entregar” a esse trabalho. Isso é consagração. Consagração significa “encher as mãos” (compare Ex 32:29 e 1 Re 13:33 – ARC). Como disse antes, dedicação é colocar algo nas mãos do Senhor – nossa vida –, mas consagração é o Senhor colocar algo em nossas mãos – um trabalho a ser feito para o Seu nome. Um cristão consagrado é aquele que possui as mãos cheias no serviço do Senhor. 

Se as suas mãos estiverem cheias no serviço do Senhor, você não terá espaço para outras coisas. Você vê isso ilustrado na consagração dos sacerdotes no Antigo Testamento. Em Êxodo 29, após os filhos de Arão terem sido lavados com“água” (vs. 4), aspergidos com “sangue” (vs. 20) e ungidos com “azeite”, Moisésenche as suas mãos com 10 coisas que tipificam Cristo em vários sentidos (vers. 22-24). Se você pudesse ver esses sacerdotes de pé ali naquele dia com aquelas dez coisas em suas mãos, você entenderia imediatamente que eles não teriam espaço para nenhuma outra coisa. Assim deveria ser também conosco! Um cristão consagrado simplesmente não tem espaço para outras coisas em sua vida. “Cristo é todas as coisas” na nova criação (Cl 3:11 – JND).

Nos versículos 4 a 8 o apóstolo mostra que assim como cada membro do corpo humano tem uma “operação” diferente, assim também é no corpo místico de Cristo. A todos nós foram dados diferentes dons adequados ao trabalho que o Senhor tem para fazermos. Alguns nos dirão que eles não têm dons, mas isso não é verdade. A Bíblia nos ensina que a cada um de nós foi dado um dom e que assim, de forma efetiva, podemos ocupar o nosso lugar no corpo de Cristo (Ef 4:7 e 1 Pe 4:10). Muitas vezes não é evidente qual o dom de uma pessoa e isso pode ser porque não há suficiente devoção em sua vida. Darby disse que se houvesse mais devoção (dedicação) haveria mais dons em nosso meio. Ele não estava querendo dizer que os dons vêm por meio da devoção, mas quando uma pessoa se dedica ao Senhor, o seu dom se tornará aparente. Ele se tornará facilmente reconhecível. Nosso problema é que há falta de devoção. 

O apóstolo dá alguns exemplos do que podemos fazer nesse serviço. Ele menciona sete serviços, mas esta não é absolutamente uma lista completa. Perceba que não são todos os serviços o ministério público da Palavra, alguns têm uma natureza mais privada. Os quatro primeiros têm a ver com ministério público, mas os três últimos são mais privados. Isso nos mostra que o Senhor não chama todo mundo para ser um pregador ou um mestre. Independentemente do serviço que faremos a exortação para cada um é, “Vamos nos ocupar no serviço” (JND). É isso o que consagração realmente é. Tudo isso num dia vindouro será pesado e recompensado adequadamente (I Co 3:12-15).

Todos temos um trabalho a fazer, o qual pode ser pregar ou ensinar, mas também pode ser pastorear, e como é dito aqui, “exercitar misericórdia”. Você pode perguntar o que vem a ser isto. Um irmão certa vez explicou que este é um dom especial com o qual a pessoa se compadece de alguém em aflição. Uma pessoa pode ter um dom especial para consolar o quebrantado de coração. Perceba, é dito “com alegria”. Isso é o que precisam as pessoas que estão abatidas. Alguns têm um dom especial para visitar hospitais ou lugares semelhantes. Eles simplesmente sabem o que dizer e o que fazer. Em outras palavras, eles têm um dom para isso. Todos nós deveríamos ter um coração para o aflito, mas alguns têm um dom especial para confortar pessoas que estão de luto.

O Nazireu

Há no Antigo Testamento uma passagem correspondente a Romanos 12 que ilustra esses princípios por meio de um tipo ou figura. O texto está em Números 6, capítulo que fala sobre o Nazireu. A palavra Nazireu significa “alguém separado ou devotado”.

O capítulo começa dizendo que “se” algum homem ou mulher desejasse dar a vida ao serviço do Senhor o voto de Nazireu seria o meio pelo qual poderia fazer isso (vs. 2). Nazireado não era uma ordenação, mas uma provisão que Deus havia feito para qualquer israelita (homem ou mulher) que voluntariamente quisesse dar a sua vida a serviço do Senhor. O fato de alguém querer fazer isso supõe que em sua alma havia algo forjado pelo poder de Deus que criou tamanha resposta. Isso poderia ilustrar o efeito da apreciação da qual falamos em Romanos 11:33-36 e em Salmo 116:12. 

Se tal fosse o caso, a pessoa deveria se separar “para o Senhor” fazendo o voto de Nazireu (vs. 2). As expressões “para o Senhor” e “ao Senhor” são juntamente encontradas 8 vezes no capítulo. Isso se refere à separação de alguém “para” o Senhor e ilustra o que é dedicação – a apresentação de nossa vida a Ele como um sacrifício vivo, como vemos em Romanos 12:1.

Então o Nazireu deveria separar-se de certas coisas que nos falam do mundo e seus prazeres. Repare na ordem aqui, primeiramente ele deveria separar-se para o Senhor e então das coisas que tipificam o mundo. Semelhantemente, em Romanos 12:2, quando o cristão se dedica ao Senhor é para ele não se permitir ser conformado com o mundo.

Havia três coisas das quais um Nazireu deveria se separar:

- Ele deveria se separar de bebida alcoólica – de “vinho e bebida forte”, “uvas”, “caroços” e “cascas” (versículos 3-4). Aqui se fala dos prazeres intoxicantes do mundo, de suas formas mais suaves até as mais grosseiras. 

- Ele deveria manter a sua cabeça sem ser tocada por “navalha” (vs. 5). O crescimento de seu cabelo tipificava submissão à autoridade do Senhor (compare 1 Co 11:1-16).

- Ele não deveria tocar em “corpo de um morto” (versículos 6 e 7). Um corpo literalmente consiste em muitos membros (mãos, pés, membros, órgãos, etc...), todos reunidos em apenas um grupo. Isto é, portanto, uma boa figura de uma organização de pessoas, seja esta política, social ou religiosa. Um corpo “morto” seria uma organização de pessoas espiritualmente mortas que foi formada por alguma razão política, social ou religiosa. Assim como o Nazireu não deveria tocar nenhum corpo morto literalmente, o cristão dedicado não deve se juntar a nenhuma organização política, religiosa ou social de pessoas espiritualmente mortas deste mundo, independentemente do propósito que ela tenha. 

Números 6 não abrange o processo transformador de Deus, nem a compreensão do que é a vontade de Deus para as nossas vidas, mas toca na necessidade de humilhação. Nos versículos 9 ao 12, a possibilidade de um Nazireu falhar em seu voto é considerada. Se ele tocasse em algum desses itens proibidos, mesmo que por acidente, o seu Nazireado estava acabado. E como reconhecimento externo de que a sua consagração havia sido contaminada, ele deveria rapar sua cabeça. Deus requeria isso porque Ele não queria que uma profissão exterior tivesse continuidade quando já não correspondesse ao interior (Sl 51:6 – JND). Deus abomina a hipocrisia. Exigia-se humildade e honestidade da parte do Nazireu, coisas muito necessárias no serviço ao Senhor. O versículo 12 indica que havia a oportunidade para ele se dedicar novamente ao Senhor. Isso nos ensina que o Senhor pode usar um servo que falhou em seu caminho, quando ele é restaurado. 

Os últimos versículos do capítulo (22-27) são trazidos para mostrar que Deus pode usar um Nazireu para abençoar Seu povo se e quando o sacerdócio (filhos de Arão) falhar. Isso ilustra consagração. Os sacerdotes, como você sabe, eram o meio normal pelo qual Deus abençoava o seu povo (Ml 2:7). O Nazireu, portanto, era o homem reserva de Deus. Ele deveria ser o homem de Deus em um tempo quando “cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Jz 21:25). Isso é visto no registro dos três Nazireus nas escrituras: Sansão, Samuel e João Batista. Eles foram levantados pelo Senhor e usados por Ele em um tempo que tudo falhou exteriormente. 

O que se conclui de tudo isso é que Deus quer que sejamos cristãos Nazireus, certamente que em um sentido espiritual. Mas Ele não vai exigir isso de nós. Isso não é uma ordem. Ele quer que isso seja uma resposta de nossos corações. A Mishna (escritos judaicos dos rabinos) afirma que um Nazireu normalmente se devotava ao serviço do Senhor por 100 dias, apesar de que o Nazireado de alguns, como os dos mencionados, terem sido mais longo. 

Após aqueles dias determinados serem cumpridos o Nazireu retornava para a sua vida normal (Nm 6:13-21). É aí que existe uma diferença com o nazireado cristão. Nossa devoção ao serviço do Senhor deve ser um comprometimento vitalício.

Lemos em Amós 2:11-12 “E dentre vossos filhos suscitei profetas, e dentre os vossos jovens nazireus. Não é isto assim, filhos de Israel? diz o Senhor. Mas vós aos nazireus destes vinho a beber, e aos profetas ordenastes, dizendo: Não profetizareis”. Isto para mim é muito triste. Mostra que Deus estava exercitando os homens jovens entre o Seu povo para serem Nazireus, mas o Seu povo estava em um estado tão baixo que estavam dando a esses jovens vinho para que bebessem. Pense nisso, o próprio povo do Senhor estava desviando do caminho os jovens que haviam sido exercitados. Acredito que isso possa acontecer nos dias de hoje. Talvez jovens irmãos e irmãs possuam o desejo de dedicar suas vidas de forma séria ao Senhor e nós dizemos a eles “Cuidado, não perca o controle, você está ficando um pouco desequilibrado!” Pedimos para que eles se acalmem e não levem as coisas tão a sério. Isso é vergonhoso, realmente é. Deveríamos encorajar qualquer desejo pelo Senhor que encontrássemos entre os jovens, por menor que fosse, e não abafá-lo!

A partir disso você pode ver que uma vida consagrada começa com um coração tocado pela apreciação do que o Senhor fez por nós. Isso me lembra daquele versículo que diz “e foram com ele do exército aqueles cujos corações Deus tocara.” (1 Sm 10:26). Minha oração é para que muitos jovens tenham seus corações tocados por Deus e desejosos de seguir o Senhor neste exercício. 

Gostaria de encorajá-lo a investir tempo todos os dias na presença do Senhor e pensar de quê o Senhor o salvou. Pense no que isso custou a Ele. Pense naqueles sofrimentos expiatórios que Ele suportou na cruz. Ele fez isso porque ama você e não queria vê-lo rumando para uma eternidade perdida. Tais meditações produzirão em você uma apreciação por Ele. Isso irá conduzi-lo à dedicação de sua vida a Ele. Você sabe que nunca existiu um cristão que tenha dedicado sua vida ao Senhor e caminhado com Ele, que tenha dito no final de seus dias que desejava não ter feito isso. Existem recompensas no tempo presente para uma vida dedicada. Existe a doçura da comunhão, um profundo senso da aprovação do Senhor e também orações respondidas. Há também recompensas futuras quando Cristo estabelecer o Seu reino publicamente no Milênio. Eu digo que valeria a pena mesmo que o caminho fosse dez mil vezes mais difícil! Você entregará sua vida a Ele hoje? Você não se arrependerá de ter feito isso.

Existe um adesivo de para-choque com a seguinte mensagem “Jesus é o meu copiloto”. Mas você sabe que Jesus não quer ser seu copiloto. Ele quer ser o capitão de sua vida! Eu disse a alguém sobre esse adesivo e ele me disse que viu outro que dizia: “Se Jesus é o seu copiloto, você está sentado no banco errado”

Alguém me disse que o irmão Armistead Barry, que há tempos partiu para estar com o Senhor, foi um adolescente dedicado. Um cristão devotado, e uma vida assim nos mostra que você não deveria esperar até ficar mais velho para entregar a sua vida ao Senhor. Ele trabalhava com seu pai na fazenda, a qual era um pedaço de terra onde para se chegar ao pasto era preciso subir uma encosta íngreme. Um dia, após horas de trabalho, quando já estavam cansados, eles desceram aquele monte rumo à sua casa. Quando eles chegaram ao pé do monte o pai olhou para trás e viu que não haviam fechado o portão e as vacas poderiam fugir. Então, ele voltou a subir aquela encosta íngreme e Armistead disse: “Pai, eu subo lá e fecho o portão”. Seu pai disse: “Armistead, você sempre faz coisas que me agradam”. E então ele correu morro acima e fechou o portão. Quando voltou encontrou seu pai caído de bruços. Ele havia morrido de um ataque cardíaco fulminante. As últimas palavras que aquele garoto ouviu de seu pai foi “Você sempre faz coisas que me agradam”. Ele disse que isso foi algo que o encorajou pelo resto de sua vida. Ele sabia, ao menos, que havia agradado o seu pai, e eu gostaria de acrescentar que ele também agradou a Deus o Pai, pois viveu toda uma vida de devoção ao Senhor.

Será que se o seu pai ou sua mãe morressem, e fossem para junto do Senhor, eles partiriam com o conforto de estarem razoavelmente certos de que você está seguindo adiante para agradar ao Senhor em sua vida? Ou eles partiriam deste mundo com esta dúvida sobre você? Será que diriam: “Eu me pergunto, como meu filho ou minha filha está indo”? É claro que ninguém tem absoluta segurança, pois as coisas mudam em nossa vida, mas poderiam os seus pais terem alguma segurança razoável de que você dedicou a sua vida ao Senhor?

Uma referência pessoal

Não gosto de fazer referências pessoais em público. As escrituras dizem que“Aquele que fala de si mesmo busca a sua própria glória...” (Jo 7:18). Não acredito que possamos falar de nós mesmos sem mostrar, em algum ponto de nossa fala, um aspecto nosso mais favorável, nós somos assim. É por isso que eu evito isso. Mas vou me desviar dessa regra para enfatizar o ponto que estou tentando trazer a você.

Quando eu era jovem, havia um irmão chamado Wayne Coleman com o qual eu procurei seguir ao Senhor. Nós tínhamos 20 anos e nos tornamos mais e mais interessados nas Escrituras. Antes de continuar, gostaria de dizer que é muito bom ter outro jovem com o qual você possa seguir ao Senhor. Vocês podem caminhar juntos e serem de encorajamento mútuo e confiar um no outro. Lembre-se, Jônatas tinha seu pajem de armas o qual o encorajava (1 Sm 14:6-7). De qualquer forma, conforme nos tornávamos mais e mais interessados na verdade, tivemos um exercício de nos reunirmos e orar todas as noites, já que morávamos a uma distância de poucas quadras.

Antes de orarmos nós conversávamos e falávamos sobre muitas coisas. Um dos principais tópicos era a mediocridade na profissão cristã. Achávamos isso nocivo, mas depois pensávamos sobre nossas próprias vidas e concluíamos que não éramos nada melhores. Ele costumava se referir com frequência ao que Sansão havia dito, que se ele perdesse o seu Nazireado, se tornaria como outro homem qualquer. Aquilo simplesmente o aterrorizava. Ele dizia que o que mais temia era ser um cristão medíocre nos padrões apáticos de hoje. Você sabe o que eu quero dizer, ter um pé no mundo e outro nas coisas do Senhor. 

Logo que falamos sobre essas questões, compreendemos por completo que as Escrituras apresentam o cristianismo de uma forma apenas: Ser completamente devotado ao Senhor, sem restrições. Nós costumávamos falar que a única maneira de viver o cristianismo era percorrer todo o caminho ou não percorrer caminho nenhum, pois este é o único caminho verdadeiramente feliz. Nós orávamos sobre isso. Lembro-me de que numa noite nós conversamos por bastante tempo e concordamos que o que deveríamos fazer era dedicar nossas vidas inteiramente ao Senhor, com total entrega. Lembro ainda que a conversa foi mais ou menos assim: 

– Você sabe o que isso custa?

– Sim, eu acho que sei, todas as outras coisas em nossa vida têm que ir embora. 

E estávamos sérios quanto à nossa decisão. Hoje olho para trás e sei que nossa dedicação era cheia de imperfeições, tantas que é embaraçoso contar. Mesmo assim, estávamos sendo sinceros e sérios sobre isso. 

Ele disse:

– Você sabe, precisamos dizer ao Senhor que vamos entregar as nossas vidas inteiramente a Ele! 

Então eu disse:

– OK. 

Nós nos ajoelhamos e oramos em meu quarto. Ele orou primeiro e depois eu orei. Não quero dizer que temos de fazer isso em grupo, pois um pouco antes eu já disse que dedicação é uma coisa individual. Conversamos um longo tempo após isso novamente e concordamos que se realmente fossemos percorrer todo o caminho – e quero dizer todo o caminho mesmo – deveríamos nos desfazer das coisas que não eram para o Senhor. Bem, ele tinha um Jaguar XKE, um carro esportivo com uma longa frente.

Ele disse:

– Eu não posso servir ao Senhor com isso, é melhor eu me desfazer dele.

Eu tinha um piano de cauda preto lindo e disse: 

– Eu preciso me desfazer disso também!

Eu não sei de onde tiramos algumas dessas ideias, de qualquer forma nós estávamos agindo seriamente. É bem surpreendente lembrar que tive o retorno de todo o dinheiro que gastei no piano com cem dólares a mais. E quando Wayne vendeu seu Jaguar ele também teve o seu dinheiro de volta, creio eu. Eu penso que o Senhor estava honrando nossa dedicação, mesmo que nela se encontrasse muita imperfeição. 

Eu me lembro de que nas nossas conversas noturnas nós dizíamos: “Se nós vamos percorrer todo o caminho, precisamos aprender a verdade”. Antes disso, um irmão idoso da reunião partiu para estar com o Senhor e os livros de Darby e alguns outros que possuía me foram dados. Eles estavam em meu quarto e nós dissemos: “Vamos precisar ler todos esses livros”. Acho que alguns dos livros também foram dados a ele. Decidimos sair para comprar panfletos da Bible Truth Publishers (BTP) e compramos todos os panfletos disponíveis que ainda não tínhamos. Eu acho que tínhamos grandes ideias. Então, depois de pegá-los dissemos: “Bom, e quanto a todos os livros de ministério que estão disponíveis, nós precisamos deles também!” Havia uma livraria dos irmãos abertos na cidade na qual havia muitos livros dos irmãos, então compramos todos os que ainda não possuíamos e também encomendamos vários da BTP. Estávamos pegando pesado com as nossas carteiras! Eu ainda tenho aqueles livros na minha estante e ainda não li alguns deles! Mas estávamos levando a sério. 

Ele veio até mim um dia e disse:

– Eu acho que se eu ler 40 capítulos da Bíblia por dia poderia ler ela toda em um mês!

Eu me lembro de dizer a ele:

– Por que esperar um mês para ler toda a Bíblia? Por que não ler 160 capítulos por dia? Você poderia terminar de ler tudo em uma semana. 

Depois disso dissemos: “Precisamos pregar o evangelho. Isso é algo que definitivamente precisamos fazer.” Então nós pensamos que deveríamos distribuir folhetos no centro da cidade. Alguns dos folhetos que nós pegamos do salão de reuniões estavam tão desatualizados que achamos que não interessariam a ninguém. Eu me lembro de que um deles tinha o título “Os dois coelhos”. Dissemos: “Não podemos distribuir isso, as pessoas vão rir”. Finalmente encontramos um folheto escrito por Gordon Hayhoe que não estava desatualizado, mas achamos que continha alguns erros. Aqui estávamos nós, dois garotos de 20 anos pensando que Hayhoe não havia escrito seu folheto de forma correta. Então, reescrevemos parte dele. Nunca conte isso para ele, mas nós mudamos algumas coisas. Imprimimos milhares deles – mais de 100 mil – e os distribuímos. Eu sei que soa um pouco arrogante, e provavelmente é arrogante. Nós os distribuímos no centro e após algumas horas nossas pernas estavam doendo, e estávamos prontos para ir embora. Então dizíamos: “Se fossemos realmente devotados, continuaríamos distribuindo!” E então continuávamos distribuindo e nos esforçando.

Ainda durante as nossas conversas noturnas concordamos que deveríamos aprender a pregar. Olhamos um para o outro e dissemos: “Como faremos isso?” E então tivemos a brilhante ideia de pegarmos fitas de bons oradores e aprendermos com eles. Gordon Hayhoe, Albert Hayhoe e Ernie Wakefield estavam entre eles. Eu comprei todas as fitas que eu pude de Gordon Hayhoe – umas cento e trinta! É vergonhoso, mas tentávamos imitar a fala daqueles irmãos. Não sei o que nossos irmãos mais velhos pensavam disso, mas o que eu estou querendo dizer a você a partir disso é que o Senhor está em busca de homens e mulheres sérios. Deus está em busca de um coração dedicado, e mesmo que haja imperfeições na nossa devoção, Ele vai cuidar dessas coisas por meio do processo de transformação. 

Falando em transformação, eu gostaria de dizer que quando você dedica a sua vida ao Senhor, Ele a transforma em algo útil para a Sua glória. Você pode estar pensando que a sua vida seria uma causa perdida, mas quanto maior a dificuldade do material, maior é a glória d’Ele quando, de forma miraculosa, Ele a transforma em um instrumento para o Seu uso.

Somos exemplos do poder transformador de Deus. Devíamos ser os mais improváveis pretendentes para servir ao Senhor. Por exemplo, Wayne era uma pessoa que gaguejava. Ele gaguejava na escola e nas ruas. Naturalmente, você deve imaginar que ele jamais pudesse ser usado para pregar o evangelho. Um dia o irmão Norman Berry veio à cidade e estava tendo reuniões de estudo a respeito do Tabernáculo. Eu imagino que ele estava cansado após ter falado durante todo o dia e então, na tarde do Dia do Senhor, ele disse ao Wayne: “Jovem, você pregaria o evangelho esta noite?” (Nós sabíamos que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria). Agora, preste atenção no que eu vou dizer. Wayne disse: “Si-sii-simm!” E então ele levantou e pregou. E ele não gaguejou nenhuma vez! E ele nunca mais gaguejou desde então! Aí está, o poder de Deus para transformar a vida de uma pessoa que estava desejosa de ser usada pelo Senhor.

Agora, o que vou contar na sequência é embaraçoso para mim. Eu passei por todos os anos no colégio até a minha adolescência mal sabendo ler. Eu não era um bom estudante. Eu podia ler as palavras, mas a minha mente não conseguia nunca ficar focada em um assunto. E lá estava eu com todos esses livros que havia comprado! Meu irmão gostava de jogar Palavras Cruzadas de tabuleiro —Scrabble — comigo porque eu era muito ruim com palavras. Ele formava uma grande palavra no tabuleiro enquanto eu punha uma palavra de três ou quatro letras. Ele sempre vencia. Eu me lembro de ter orado ao Senhor para que Ele me ajudasse a me concentrar para ler os livros de ministério que eu tinha. Eu pedi ao Senhor que me desse uma boa memória para me lembrar das coisas que eu havia lido e que me lembrasse das Escrituras. Posso dizer que, por volta daquele tempo, Deus me deu o poder de me lembrar das Escrituras. Se alguém citasse um versículo eu era capaz de dizer onde ele estava. Eles costumavam me chamar de “concordância ambulante”, até que pedi para eles não dizerem mais isso, porque aquilo ia apenas me ensoberbecer. Eu não tenho certeza de onde isso veio, porque eu nunca fiz nenhum esforço consciente para memorizar as Escrituras. Minha intenção em contar isso é que se Deus pôde nos transformar, Ele pode transformar você! Não permita que as suas inabilidades lhe impeçam de dedicar a sua vida ao Senhor. Não é na sua habilidade que Ele está interessado, mas na sua disponibilidade. 

Alguns de nossos irmãos começaram a pensar no que estava acontecendo. Nós éramos dois caras correndo por aí como João Batista! Tudo o que eu sei é que havíamos de tal maneira lançado nossas vidas na causa de Cristo que as coisas foram acontecendo e elas eram todas boas. Nós estávamos felizes. 

Quando o irmão John Kemp ouviu sobre isso, ele veio e disse que nos levaria para pregar na rua. Nós pensamos que isso era algo para os dias passados, pois vivíamos na era hippie e achávamos que isso não funcionaria. Mas saímos às ruas e pregamos, e eis que aquilo atraiu uma multidão! As pessoas realmente paravam e ouviam. John ficou surpreso. As pessoas estavam ouvindo, mas havia também pessoas nos importunando. Mas eu digo que nos sentimos como os cristãos devem se sentir. Nós sentimos o vitupério de Cristo e estávamos felizes. Confesso que não trocaria de lugar com ninguém deste mundo, independente de quem fosse, pelo gozo que tive em seguir e servir ao Senhor. 

Nossa dedicação saiu do controle de tal forma que, baseados em Jeremias 16 e 1 Coríntios 7, decidimos que não iríamos nos casar. Achamos que se fossemos percorrer todo o caminho, deveríamos ser celibatários como o apóstolo Paulo. Sou grato por alguém ter nos aconselhado a desistir desse pensamento, e espero que a nossa consagração seja um pouco mais equilibrada hoje. Aqueles foram dias felizes. Houve falhas e imperfeições, mas foram dias felizes. 

Agora, deixe-me perguntar: Será você alguém que tem o desejo de entregar suas vida nas mãos do Senhor e dizer ‘Ok, Senhor, faça da minha vida o que Lhe agrada’? Entregue sua vida a Ele. O tempo de fazer isso é agora, enquanto você ainda é jovem. Não espere até se tornar uma mulher ou homem mais velho, porque provavelmente não fará isso. Dê a Ele a flor de sua vida, não as folhas caídas. Você será feliz. E melhor que isso, você O fará feliz. Você não quer fazer o Senhor feliz? Hayhoe costumava nos dizer que cada um de nós está preparando um presente para ser dado ao Senhor Jesus um dia, e isso é a nossa vida. Sua vida é como um presente que você está preparando para o Senhor. Todos os dias você está fazendo algo rumo ao produto final que será entregue a Ele. Naquele dia que há de vir, no tribunal de Cristo, estaremos lá em pé e quando os nossos nomes forem chamados daremos um passo à frente e vamos presentear-Lhe com os resultados de nossas vidas conforme foram vividas aqui. Algum dia meu nome será chamado e eu darei a Ele aquele presente. Ele o abrirá e eu olharei para sua face e verei sua reação. O que ele sentirá quando abrir aquilo e tudo ali for“madeira, feno e palha”? (1 Co 3:12). Se eu tiver vivido minha vida para mim mesmo, não haverá nada lá para Ele. Agora eu sei que nós todos iremos receber o sorriso de Sua aprovação. As Escrituras dizem, “Então cada um receberá de Deus o louvor” (1 Co 4:5). Ele encontrará algo para nos louvar naquele dia. Mas você não gostaria de trazer gozo ao Senhor Jesus? Quando você pensa nisso, nós não podemos dar muito a Ele. Ele tem tudo em Suas mãos. “Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas” (Sl 50:10). Mas nós podemos fazê-lo feliz dando a Ele o louvor de nossos lábios e entregando as nossas vidas.

A minha preocupação ao tratar deste tema era que viéssemos a ficar empolgados, mas que tudo se dissipasse no final. Antes de tocar neste assunto revirei meus pensamentos para saber se era isso que devia tratar, pois não queria meramente tocar um tambor e passar uma mensagem motivacional. Não iria querer simplesmente agitar a sua carne nas coisas de Deus, porque isso não duraria. Seria exatamente como um homem que puxa as suas meias para cima, pois elas voltariam a descer novamente em pouco tempo.

Não quero que isto seja como uma cena que um velho homem viu enquanto sentado em uma cadeira numa parada de trem. Era um local parecido com uma estação onde eles normalmente não param, mas apenas lançam do trem alguns pacotes de correspondências. Assim que ele se sentou lá viu uma folha de jornal estirada perto do trilho. Depois viu um trem vindo de longe. Quando o trem se aproximou da estação, ele viu o vento levantar o jornal no ar e o papel voou alto. Ele deu voltas e voltas no ar. Conforme o trem se foi, o homem percebeu que o jornal, caindo lentamente, foi parar no mesmo lugar em que estava antes. Este é o meu receio. Podemos ficar empolgados com todas essas coisas e elas não terem efeito nenhum em nós no final do dia. 

Para que nossos exercícios sejam sustentados temos de entrar na presença do Senhor. Outro versículo que o Wayne sempre citava, e ainda o faz, é “sendo já perigosa a navegação, pois, também o jejum já tinha passado” (At 27:9). O “jejum”é um tempo de exercício perante o Senhor. Eu oro ao Senhor que isso não venha a acontecer aqui, para que não deixemos o “jejum” passar. Não permita que o exercício passe. Segure firme nele, e leve este exercício a sério na presença do Senhor. Sabemos que existe um inimigo rondando e que ele tentará levar esse desejo embora. Não permita que isso aconteça. 

Em 1 Reis 20 lemos sobre Ben-Hadade, uma figura do inimigo de nossas almas, o diabo. Ben-Hadade se levantou contra a terra de Israel, e o que ele queria? Ele lhes disse que as suas casas eram dele, suas posses e seus filhos, “os melhores de teus filhos”. Ele coloca sua reivindicação sobre eles, e Satanás está colocando sua reivindicação sobre os nossos jovens também. Perceba que ele queria os “melhores” particularmente. São aqueles que podem contribuir de alguma forma com o mundo, que ele quer especialmente. Se você possui algum talento ou habilidade, se você é inteligente, bonito, etc., então você é o tipo de pessoa que o inimigo quer. 

De qualquer modo, o que acontece mais adiante no capítulo é que um profeta foi até o rei de Israel e disse que o inimigo deles não venceria a batalha. Ele seria derrotado. O rei perguntou a ele como isso seria feito e o profeta disse: “Pelos moços dos príncipes das províncias” (1 Re 20:14). Isso não é incrível? Justamente os que o inimigo estava reivindicando, Deus estava preparando para usar no livramento de Seu povo! Se os santos reunidos ao nome do Senhor serão livrados das incursões do inimigo e o testemunho levado adiante, isso ocorrerá por meio dos “moços”. É a próxima geração. É você, jovem! Nós precisamos de você na linha de frente nessa batalha espiritual para dar continuidade à verdade de estar congregado ao nome do Senhor, não apenas em princípio, mas também em prática. Para tanto serão necessárias pessoas dedicadas. 

Que o Senhor mova o seu coração para dedicar a sua vida à causa de Cristo e provar o alegre gozo de viver para Ele. Você nunca conseguirá ir longe demais nas coisas de Deus! Você sempre encontrará pessoas que dirão que você está um tanto fanático. Dizem que a definição de “fanático” é alguém que é mais entusiasmado que você a respeito de algo, eu acredito nisso. Bem, então deixe os outros nos chamarem de fanáticos! Essa é a única forma de ser. Eles acusaram Paulo de estar “fora de si”, mas ele explicou que isso era porque “o amor de Cristo o constrangia” a não viver para si mesmo, mas para Aquele, que morreu por ele (2 Co 5:13-15). 

Bruce Anstey