quarta-feira, 8 de junho de 2016

A LEI, O CRISTO E A IGREJA


“23 Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. 24 De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. 25 Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio. 26 Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; 27 porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. 28 Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. 29 E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.”(Gálatas 3.23-29)
A igreja na Galácia foi fruto do trabalho de Paulo (cf 4.13), possivelmente em sua primeira viagem missionária (cf Atos 13 – 14). A carta foi escrita para responder a problemas específicos. A igreja enfrentava uma séria dificuldade com o legalismo religioso.  Não encontramos a palavra “legalismo” na Bíblia; esta palavra é um sinônimo de legalidade ou observância da Lei. No Novo Testamento, o legalismo foi introduzido na igreja cristã pelos crentes oriundos do Judaísmo que, interpretando erroneamente o Evangelho de Cristo, forçavam os gentios a guardarem a Lei de Moisés. E esse era o problema que a igreja da Galácia estava enfrentando. Alguns desses judeus estavam pregando uma distorção do cristianismo (1.6-7). A mensagem desse “outro evangelho” requeria a circuncisão para a salvação (6.12). Já que os gálatas eram gentios incircuncisos, os perturbadores diziam que eles deveriam ser batizados como o costume Moisés (circuncisão cf 2.3-5). O problema é que os gálatas estavam demonstrando interesse por essa heresia. Assim o apóstolo Paulo escreve para dizer que nenhum gentio precisava de circuncisão para pertencer à família da aliança. Eles já tinham a “verdade do Evangelho” (cf. 2.5,14). O apóstolo demonstra um pouco de severidade ao falar sobre esse assunto (ler Gl 3.1-5).
Após falar que o justo vive pela fé e não por obras (3.11), colocando Abraão como exemplo, Paulo fala sobre qual é o objetivo da lei, do Cristo e da igreja. Para os Gálatas a mensagem do evangelho estava se tornando insuficiente, era necessário algo mais. Todavia, o apóstolo coloca tudo em seu lugar. Estavam reduzindo a fé cristã aos aspectos puramente materiais e formais das observâncias, práticas e obrigações eclesiásticas. Mas será que esse problema só ofereceu risco à igreja da Galácia? Não. Ainda hoje Cristo não é suficiente para alguns. Infelizmente a igreja de Cristo corre o risco de pensar que o legalismo religioso é necessário para a salvação. Na carta aos gálatas encontramos uma advertência absolutamente necessária contra esse legalismo religioso.
A lei teve uma função importante (v. 23-25)  
Qual a função da lei? – Ela serviu de “Aio” -  Essa palavra “paidagogós”(grego) de onde vem “pedagogo”, pode ser entendida como “guia” “instrutor”, “professor”- Na antiguidade, as crianças passavam por um “aio”, alguém preparado para dar uma educação e conduzi-las no caminho certo. Essa pessoa (escravo) tinha a função de guia e educador do filho do seu amo. 
Antes que viesse a fé” (v.23a) - Não significa que os que viveram no período da Lei não tinham fé, aqui está falando do Cristo encarnado. A lei como “aio” conduziu todos os seguiram a fé de Abraão a fazerem a vontade de Deus (Gl 3.6-14). Como profissão de Fé na promessa, Deus exigia o exercício de leis cerimoniais que apontavam para Cristo e Sua obra (cf Gn 17.12; Êx 12.5; 20.22-26; Lv 21.1-24). Em Cristo tudo isso se cumpriu, assim não é preciso a circuncisão e nem tão pouco o sacrifício de animais ou de qualquer outro ritual da lei cerimonial. Esses cerimonialismos não mais estão em vigor: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele.” (Lc 16.16)
É triste ver que, ainda hoje, muitos querem viver sob a lei e costumes judaicos. E muitos têm abandonado a graça de Deus por misticismos e cerimonialismos religiosos. Alguns cristãos têm trazido para dentro da igreja elementos do judaísmo do Antigo Testamento, como se esses costumes fossem superiores. É comum ver em algumas igrejas o uso de candelabro de Israel, veneração a Arca da aliança, óleo de Israel, água do rio Jordão, a guarda do Sábado e as festas de Israel. E não somente isso, outros pensam que para uma oração ser poderosa é preciso orar no “alto do monte Sinai”. Tais práticas são infiltradas às vezes de forma sutil, como por exemplo, pastores que defendem a adição de pães sem fermento, ou pães asmos na santa ceia.  Na verdade isso tem acontecido com um objetivo: Negar a suficiência do nosso Senhor Jesus Cristo. John McArthur em seu livro “A nossa suficiência em Cristo” nos diz: “O legalismo é uma ameaça à igreja de hoje… há muitas pessoas cuja certeza de salvação está baseada em suas atividades, ao invés de confiarem no Salvador Todo-suficiente”. A tendência do coração pecaminoso do homem é achar que pode contribuir no plano de salvação. Não, o que a Bíblia diz é que devemos apenas crer!  
Cristo o cumpridor da Lei (v.25-27)  
Tendo vindo a fé (v.25) – A obra de Jesus é perfeita, e ela nos tira o fardo da lei. Nós não poderíamos cumprir a Lei. Quando Cristo veio a função da lei cerimonial acabou. Ninguém foi salvo por cumpri-la, pois o homem é pecador. Somente alguém sem pecado poderia fazer isso: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.”(2Cor 5.21).  O pecado do homem foi tão grave que era preciso derramar sangue para haver perdão (Gn 3; Hb 9.22) - Mas somente Cristo poderia fazer isso, pois ele é o Filho de Deus, sem pecado algum.
Com Cristo somos filhos de Deus (v.26-27)  - O filósofo e escritor cristão, irlandês Clive Staples Lewis  (C.S.Lewis) disse: “O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus."(1) – É a verdade bíblica. A lei como aio nos leva a Cristo e Ele cumpre essa lei perfeitamente.
Ninguém é salvo por obras da Lei: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Ef 2.8) – Não significa que não devo observar a lei, devemos sim, mas não para ganharmos a salvação, porém para aprendermos como devemos nos apresentar diante de Deus. A lei nos mostra quem somos diante de Deus. O Senhor Jesus cumpriu toda a lei cerimonial assim quem crê nele não precisa de sacrifício.
 A igreja não se limita aos judeus (v.28-29)   
Jesus removeu a parede que separava o judeu do gentio: “sois filhos de Deus”(v.26) – Por Jesus ter cumprido a lei, Paulo diz que sendo assim: “…não pode haver nem judeu nem grego” (v.28) – Este povo judeu e grego é “batizado” em Cristo (v.27), Paulo não está falando do batismo físico, mais sim da transformação interna do Espírito Santo, sendo assim a circuncisão não tem nenhum valor para pertencer a igreja de Cristo.
A promessa a Abraão era: “… em ti serão benditas todas as famílias da terra.”(Gn 12.3) – E essa promessa se cumpre em Cristo. Só nele as famílias da terra são “felizes”. Somos a igreja do Senhor planejada por Deus desde os tempos antigos. Essa igreja não é feita de judeus somente, mas de vários povos. Não nos limitemos a nós mesmos; falemos de Cristo ao mundo para que as pessoas vejam a graça de Deus em nós. 
Conclusão: A lei, o Cristo e a Igreja.  A lei cerimonial teve a sua função; apontar para Cristo.  E Ele cumpriu perfeitamente essa lei, pois Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf Jo 1.29). A igreja não se limita aos judeus e muito menos a nós. Precisamos anunciar as boas novas de Cristo sem legalismo ou ociosidade. É importante ressaltar que a Lei moral de Deus deve ser sim observada porque ela nos ensina viver para a glória do Senhor (Êx 20.1-17), mas a lei cerimonial de Israel e todos os seus costumes não, pois Cristo nos libertou.    
(1)   Cristianismo Puro e Simples – Ed. Martins Fontes

Por Rev. Ronaldo P Mendes