sexta-feira, 10 de junho de 2016

O mistério da vontade de Deus: o uso de Daniel 2 em Efésios 1.8-10


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Introdução

O que é “mistério”? Atualmente essa palavra está relacionada a algo que transcende o nosso entendimento, estando além da nossa capacidade de explicação, sendo um enigma sem soluções, um problema sem resposta.

Nesse sentido, é comum (e legítimo) teólogos falarem sobre o “mistério da Trindade”, ou sobre o mistério da “união hipostática de Cristo”, ou ainda sobre a “misteriosa providência Divina”, pois ainda que possamos entender essas doutrinas, sabemos que elas infinitamente ultrapassam os limites da nossa cognição, devido ao fato de serem coisas pertencentes ao próprio ser de Deus, que é infinito.

Mas qual o significado do termo “mistério” na Bíblia? Será que é o mesmo dos dias atuais? Embora alguns exegetas aplicam diretamente o significado atual de mistério aos escritos bíblicos, cometendo a falácia exegética do anacronismo semântico, neste artigo demonstrarei que o significado de mistério em Efésios (esp. 1.9) diverge do seu significado atual. Veremos na conclusão que mistério em Efésios 1.9 significa algo que estava oculto no passado, mas que agora é totalmente revelado.

As dificuldades dessa passagem têm causado transtorno a teólogos e exegetas ao longo dos séculos. O propósito deste artigo é demonstrar que o pano de fundo do termo mistério em Ef. 1.9 está em Daniel 2, e que de fato os versos 8-10 fazem uma alusão intencional a Dn. 2, lançando assim alguma luz para a interpretação correta do texto.

O contexto do Novo Testamento: Efésios 1.3-14

Logo após sua tradicional saudação (1.1-2), Paulo passa a louvar ao Deus Trino pela sua obra redentora (1.3-14). A expressão inicial “Bendito seja Deus...” tem suas raízes no Antigo Testamento e na tradição judaica, amplamente conhecida como “Berakah”. Deus é louvado pelas bênçãos espirituais outorgadas ao seu povo, que são tanto identificadas como fundamentadas pelos versos 4-14.

Podemos estruturar essa perícope pela expressão “louvor da sua glória”, que aparece nos versos 6, 12 e 14, onde o foco da obra redentora recai sobre o Pai em 1.4-6, sobre o Filho em 1.7-12 e sobre o Espírito em 1.13-14 (ainda que não seja necessária uma divisão absoluta, pois como o próprio texto deixa claro, em cada etapa salvífica toda a Trindade está envolvida).

Nosso texto está na segunda subdivisão (1.7-12). Paulo fala sobre a redenção e remissão dos pecados que o cristão tem em Cristo (1.7) e isso é concedido pela graça somente. Essa mesma graça nos dá sabedoria e prudência (1.8) que nos capacita a entender o mistério da vontade de Deus (1.9) que consiste em fazer convergir todas em coisas em Cristo na plenitude dos tempos (1.10).

O contexto do Antigo Testamento: Daniel 2

O termo mistério desempenha uma função pivô no livro de Daniel, encapsulando tanto uma forma simbólica de revelação como sua interpretação. Esse mistério diz respeito a um evento no fim dos tempos, que naquela época estava oculto, mas que seria revelado. Essa revelação não seria totalmente nova, antes seria o desdobrar completo de algo cuja extensão do seu significado estava oculta.

O termo aramaico para mistério (rãz) aparece nove vezes no livro de Daniel (Dn. 2.18, 19, 27-30, 47; 4:9 [4:6 MT]). Uma análise completa desses usos vai muito além do nosso espaço neste artigo.

Daniel 2 fala sobre o sonho do rei Nabucodonosor, que ficou perturbado com tal sonho. Nesse sonho, havia uma estátua colossal com partes metálicas diferentes (2.32-33). De repente uma pedra cortada sem auxílio de mãos destrói completamente a estátua e se torna uma montanha que enche toda a terra (2.34-35).

Daniel interpreta esse sonho dizendo que as quatro partes da estátua eram quatro reinos (normalmente entendidos como a Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma). O quarto reino será eclipsado pelo eterno reino de Deus, que consumirá todos aqueles reinos (2.44).

Antes de Daniel revelar o sonho a Nabucodonosor, nenhum sábio da Babilônia fora capaz de dizer o sonho e sua interpretação ao rei. Isso irritou Nabucodonosor ao ponto dele decretar a morte a todos os sábios do seu reino. Sabendo disso Daniel junto com seus amigos Ananias, Misael e Azarias oram a Deus a respeito daquele mistério (2.14-18). Deus revela o mistério a Daniel (2.19), e esse O louva com o seguinte hino:
Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque são dele a sabedoria e a força. Ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; é ele quem dá a sabedoria aos sábios e o entendimento aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. Ó Deus de meus pais, a ti dou graças e louvor porque me deste sabedoria e força; e agora me fizeste saber o que te pedimos; pois nos fizeste saber este assunto do rei” (Dn 2.20-23).

O uso de “mistério” no judaísmo


O termo mistério aparece mais de cem vezes nos Manuscritos do Mar Morto, e a maioria faz alusão a Daniel 2 e 4. Mistério traz conotações escatológicas e hermenêuticas para a comunidade de Cunrã. Em suma, como em Daniel, mistério em Cunrã está ligado à destruição do reino do maligno e com o estabelecimento do eterno reino de Deus:
Mas em Seus mistérios... Deus colocou um fim na existência da perversidade... Ele irá destruí-la para sempre” (1QS. 4.18-19, TA).

Nos escritos judaicos apocalípticos, além da ligação com Daniel, mistério está também associado à vinda do Messias (p. ex. 4 Esdras 12.37-38).

Em 1 Enoque (capítulos 46, 52 e 71), os mistérios também têm seu pano de fundo escatológico no livro de Daniel, significando algo oculto que irá ser revelado nos últimos dias.

O uso de Daniel 2 em Efésios 1

Tanto nos melhores comentários de Efésios como nas monografias e obras sobre Efésios, pouca ou nenhuma atenção se é dada a alusão de Daniel 2 em Efésios 1.8-9. Thorsten Moritz (1996) em sua obra sobre o uso do Antigo Testamento em Efésios começa sua análise somente em Ef. 1.20-23, e assim também o faz Frank Thielman (2014). Nossa análise visa preencher essa lacuna nos estudos do NT. 

Segue abaixo, de forma resumida, os impressionantes paralelos entre as duas passagens: 

1. A revelação do mistério é uma dádiva de Deus. Em Daniel, é Deus quem revela o mistério a Daniel (Dn. 2.19), e faz conhecer esse assunto do rei (2.23). Em Efésios, Deus faz conhecer o mistério da sua vontade aos santos (Ef. 1.9). Daniel, em sua oração pela revelação do mistério, clama pela misericórdia de Deus (Dn. 2.18) e Paulo diz que esse conhecimento é “de acordo com a riqueza da graça de Deus” (Ef. 1.7). Portanto,  ambos os textos ensinam que conhecer tal mistério é um dom gracioso que somente Deus pode conceder, o que exclui qualquer mérito (cf. Dn. 2.30) daqueles que receberam essa dádiva (Daniel, Paulo e os efésios, etc) e qualquer pretensão e possibilidade da capacidade humana em conhecer per se

2. Sabedoria e prudência para conhecer o mistério. Ambos os textos (Dn. 2.23; Ef. 1.8) usam a mesma dupla de palavras para descrever como Deus faz conhecer o mistério: Ele concede sabedoria e prudência (σοφίαν καὶ φρόνησιν), que são usadas como sinônimos ou com significados muito próximos.

3. Doxologia como resultado da revelação do mistério. Tanto o hino de Daniel 2.20-23 como a doxologia de Paulo (Ef. 1.3-14) começam com o “berakah” (Bendito seja [Εὐλογητὸς em Ef. 1.3]). No fim do Hino de Daniel, ele dá graças e louvor (ἐξομολογοῦμαι καὶ αἰνῶ) pela sabedoria e força (σοφίαν καὶ φρόνησιν) que permitiram a ele saber o significado do sonho do rei. Da mesma forma, Paulo termina essa seção (e cada uma das três) com a expressão “para louvor da sua glória” (εἰς ἔπαινον τῆς δόξης αὐτοῦ). Em ambos os textos Deus é glorificado pela revelação do mistério.

4. O mistério como um evento escatológico. Em Dn. 2.28 lemos: “... mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios; ele, pois, fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de suceder nos últimos dias (ἐσχάτων τῶν ἡμερῶν)”. Os pensamentos do rei se voltaram às coisas futuras (Dn. 2.29, 45). Da mesma maneira, Paulo ensina que o mistério, que é a convergência de todas as coisas em Cristo (1.10), ocorre na “plenitude dos tempos” (πληρώματος τῶν καιρῶν).

5. O mistério como a vinda do reino escatológico de Deus. Em Dn. 2.44-45 temos: “... mas, nos dias desses reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; nem passará a soberania deste reino a outro povo; mas esmiuçará e consumirá todos esses reinos, e subsistirá para sempre. Porquanto viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, o grande Deus faz saber ao rei o que há de suceder no futuro. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”. Como vimos, o ponto alto da interpretação do sonho do rei por Daniel é a destruição dos reinos terrenos e o estabelecimento do reino de Deus. Para Paulo, o mistério é a “convergência” de todas as coisas em Cristo. Há um incansável debate sobre o significado da palavra “convergir” (ἀνακεφαλαιώσασθαι). Ela pode significar: 1. “Resumir”, um argumento de uma fala por exemplo (esse é o sentido do seu uso em Rm. 13.9), reunir todas as partes em um todo coerente, ou; 2. Encabeçar, trazer sob um cabeça. Essa variação é devido ao debate sobre a raiz da palavra, que pode ser tanto “Kephali” (cabeça) como “Kephalaion” (ponto principal, sumário). É possível que ambos os significados estejam em vista em Ef. 1.10. Deus une todo o universo sob a autoridade do seu Rei Messiânico, Jesus. Isso é explicado em 1.20-22, onde Paulo diz que Jesus está à destra de Deus, acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se possa nomear em todas as eras, e que todas as coisas estão sujeitas debaixo dos pés de Cristo. Embora esse propósito seja completamente alcançado na consumação, ele já teve inicio na primeira vinda de Jesus.

Conclusão

Os cinco paralelos acima demonstram claramente a alusão intencional que Paulo faz de Dn. 2 em Ef. 1.8-10. E o ponto é: No fim dos tempos (que iniciou na vinda de Cristo), Deus graciosamente concede sabedoria a seu povo para entenderem o mistério doclímax de seu plano redentor na história, que é a união e sujeição de todas as coisas a Cristo Jesus. Se analisarmos todos os usos de mistério do NT, podemos chegar a duas conclusões: 1. A revelação do mistério é o início do cumprimento das profecias do AT e; 2. Esse cumprimento é inesperado do ponto de vista do AT. Assim, a vinda do Messias Jesus inaugura o reino escatológico de Deus (Dn. 2). Entretanto, o elemento inesperado (no tempo de Daniel) é que Deus sujeitou todas as coisas, até mesmo os espíritos malignos (e não somente os reinos térreos) a Jesus, e que aquela pedra que vira uma montanha e enche toda a terra, pode ser entendida como as boas novas da vinda do Messias e seu reino que é proclamada em toda a terra, fazendo com que pessoas do mundo todo (e não somente os judeus) façam parte do reino escatológico de Deus (esse é o provável sentido de mistério em Efésios 3).

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Autor: Willian Orlandi
Divulgação: Bereianos

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