sexta-feira, 10 de junho de 2016

“A ADORAÇÃO VERDADEIRA É SERVIÇO AO SENHOR E A NEGAÇÃO AO LOUVOR SELF-SERVICE”





Jorge Fernandes Isah


“Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras.
Servi ao Senhor com alegria; e entrai diante dele com canto.
Sabei que o Senhor é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto.
Entrai pelas portas dele com gratidão, e em seus átrios com louvor; louvai-o, e bendizei o seu nome.
Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade dura de geração em geração” (Salmo 100)


A) UM LOUVOR SELF-SERVICE:

O que você, meu irmão e irmã, compreende por adoração a Deus?

É o ato de se curvar diante de uma imagem?

Respondam, irmãos, sim ou não?

Ou repetir frases como em um mantra ou ladainha?

Sim ou não?

Ou extravasar, como um louco ensandecido (rolar no chão, urrar ou imitar um animal, afastar a consciência), emoções e sentimentos de forma irresponsável, tendo um comportamento leviano e que em nada agrada a Deus?

Sim ou não?

Ou apresentar-se em um formalismo desinteressado, preso em uma rotina, repetitiva e enfadonha, da leitura da Escritura, ou na oração, em que não haja real significado, sem comunhão e relacionamento com Deus?

Sim ou não?

Ou, ainda, promover atividades sem reverência, temor, e nitidamente com vias de satisfazer a carne e não agradar o Espírito?

Sim ou não?

Pois bem, sabemos o que não pode ser adoração, mas estamos cônscios do que ela realmente seja ou representa?

Infelizmente é possível ver, na maioria das igrejas, uma disposição à diversão, à distração, à satisfação da assistência com coisas e atitudes nada santas, cuja finalidade é, de alguma maneira, fazer com que a assembleia se sinta suficientemente confortável, e dentro de uma visão positivista e pragmática sinta-se bem, e queira, nas próximas vezes, voltar àquele lugar que tanto o entreteu.

É duro constatar, mas poucas igrejas, em nossos dias, se dedicam ao verdadeiro louvor, à verdadeira adoração e proclamação do evangelho de Cristo. A busca é por agradar a assistência de tal maneira que ela permaneça confortável em seu estado de autoengano quanto à comunhão com o Senhor. Então, tudo o que poderia ser admitido no culto como uma forma de trazer satisfação ao homem, é aplicado sem qualquer cuidado com aquele que merece toda a honra, glória e louvor. “Pataquadas” são apresentadas como algo espiritual, quando não passam de repetições insonsas e descabidas de tudo a afagar o seu ego.

Quantas vezes ouvimos que determinada igreja não agrada a sicrano e beltrano por que lá ele não se sente bem? Ao ser inquirido sobre os motivos pelos quais a igreja não o satisfazer, se ouve as mais esdrúxulas opiniões:

- O lugar é muito frio. O louvor é chato, não tem instrumentos, e eles cantam aqueles hinos da época da minha avó. Afinal, gosto de um louvor mais “quente”.

Em boa parte das vezes, o que esse crente quer é apenas e tão somente que a igreja seja uma extensão do mundo, e o mesmo apelo que as músicas seculares têm em sua alma, ele a quer sentir ali, como se fosse algo feito para Deus, mas que é exclusivamente para si mesmo, para o seu deleite, e satisfação egoísta.

Não é raro ouvir, também, o testemunho de outros cristãos que não se conformam com uma igreja que pregue o evangelho e trabalhe para a obra do Senhor, e onde não haja atividades extras e à margem do evangelho: uma pelada santa, uma rave santa, um churrasco santo, ou outra coisa colada à expressão santa, a qual é necessária para legitimar, numa tentativa louca, o profano em sacro, como se elas fossem o alicerce, o fundamento, da vida cristã.

Parece que estou a fazer um estereótipo do crente comum, aquele que se move entre o pentecostalismo e o neopentecostalismo; entre a teologia da prosperidade, o G12 e igrejas com propósito; ou seja, a maciça maioria daqueles que se enquadrariam no evangelicalismo moderno. Porém, o que dizer de certo grupo de cristãos, considerados superiores, que fazem uma descarada apologia à bebida, ao fumo, à política, às artes, tudo para “glória do Senhor”? Convencidos de não haver separação entre o mundo e a igreja, entre o santo e o mundano, e de, ao agirem assim, estarem louvando a Deus?

Não seria esse um louvor “Self-Service”, ou seja, louva-se a si mesmo e serve-se a si mesmo, em atitude de autoagradecimento, cujo mérito é exclusivamente pessoal, cujo pretexto seria a ilusão de fazê-lo ao Senhor?


B) O QUE É ADORAÇÃO?

A palavra adoração tem o significado de “veneração”, “de curvar-se perante”, algo ou alguém. No AT é comumente utilizada a expressão “shaha”. No NT é expressa pela palavra “proskyneo”, significando “beijar a mão”, “adorar” e “fazer reverência a” e, algumas vezes, também pela palavra “sebomai”. Outra expressão grega para adoração é “latreuo”, significando “venerar publicamente”, “ministrar”, “servir”.

Porém a adoração tem como princípio ou propósito fundamental estabelecer, instituir, um relacionamento entre homens e Deus. Ela nunca será uma mera teoria ou doutrina sem aplicação. A adoração é essencialmente prática, em uma atitude de reverência, cujo adorador se entregará de corpo e alma ao ofício, ao serviço, de estar inteiramente ocupado por e com Deus. É a integral, completa e total, ação de graças, para o Senhor a quem devemos tudo; e em tudo ele deve ser louvado, adorado.

A adoração não é algo que se possa fazer pela metade, muito menos envolve-la em aspectos outros e diversos que não sejam focados e dirigidos ao Deus santo. É a manifestação do nosso amor por ele que primeiro nos amou, nos resgatou, nos tirou da lama e nos vestiu com roupas alvas e limpas. Se em algum momento pensamos em dividir a adoração a Deus com as banalidades da vida, onde esteja misturada a sentimentos e ações a desviar-nos do foco e motivo real do louvor, estamos equivocados, e não compreendemos a real dimensão do que seja adoração.

Primeiro, no texto de meditação desta manhã, lemos sobre o chamado à adoração ser universal. A todos os homens é ordenado adorá-lo; porém, nem todos, ou mesmo a maioria, estão capacitados a fazê-lo, pela grande distante a afastá-los, pelo próprio pecado e inimizade a Deus impedindo que o homem exerça o privilégio da adoração. Alguns o fazem de maneira errônea, seguindo os próprios anseios, pois não conhecem a Deus nem a sua vontade, logo estão impossibilitados de reverenciá-lo de maneira santa. Esses se especializaram em um tipo de culto no qual a idolatria (e idolatria é qualquer coisa, objeto, pessoa ou “paixão” que tenta ocupar o lugar divino, fazendo-se como ele, negando-o) é a imitação, o embuste, da verdadeira adoração. Se o foco da adoração é o relacionamento com Deus, o Deus verdadeiro, ao se criar um outro deus a reverência não se destina a quem a detém digna e legitimamente. Adora-se o que não se conhece, pelo fato de não poder ser conhecido além de uma representação da corrupção da alma humana, e deixa-se de adorar o único Deus conhecível.

Contudo, nem todos podem conhece-lo; mas apenas aqueles chamados pelo próprio Deus, através do seu Filho Jesus Cristo, estão capacitados a adorá-lo em espirito e em verdade (Jo 4.23-24).

Segundo, a palavra “celebrar”, do hebraico “rûa’”, não tem, no texto, relação com festas ou confraternizações, como é utilizada em nossa língua. Não é o mesmo que você participar de um aniversário, uma formatura, ou da festa de fim-de-ano no trabalho. É muito mais do que isso. O seu caráter é completamente religioso, um grito de alegria em resposta à atividade criadora ou libertadora de Deus em favor do seu povo.

Cabe lembrar que qualquer comemoração nas quais o nosso coração esteja por completo dedicado, como, por exemplo, a paixão por um time de futebol capaz de fazer com que o torcedor se entregue de corpo e alma a ele, já não é uma simples apreciação entusiástica, mas um culto, no qual o “deus” é o time ou o esporte. Nesse caso, o torcedor se transforma em um adorador, com o foco distorcido em um ídolo. Isso pode acontecer em várias de nossas relações pessoais, tais como o trabalho, uma pessoa, uma entidade, uma ideologia e, pasmem, até mesmo em relação a uma igreja. Muitos se tornam em devotos, cegados pelo pecado, e tratam certas denominações ou igrejas como se fossem o próprio Deus. Há uma substituição e uma usurpação onde a igreja se transforma em um ídolo também. Não é difícil encontrar ferrenhos defensores de determinada igreja (no sentido denominacional), da mesma forma que há em relação à ideologia ou uma figura pública, na qual passamos da simples admiração para a veneração, cultuando um ídolo. Nesse ponto, há o que se chama de fanatismo, onde o seguidor ou discípulo não vê os erros, o engano, os desvios, a mentira e o embuste, porque não há mais nele os olhos da razão, mas da devoção. Ocorre uma “lavagem cerebral”; a pessoa perde todo o contato com a realidade e vive em uma segunda realidade, criada pelos “mestres” e aceita integralmente pelos discípulos. É a falsa adoração, posta em um falso deus, ou seja, voltada para um ídolo. Esse estado é chamado na Bíblia de “prostituição”, que nada mais é do que você se entregar para alguém ou algo ilegítimo; neste caso, adorar alguém ou algo que não seja o Deus bíblico, o único merecedor e detentor de adoração. Qualquer objeto de adoração, na qual você estabelece uma relação falsa, estranha e infiel, é uma intimidade aleivosa, traidora, onde se transfere para outro uma relação possível somente com Deus; e quanto mais você se empenha nessa relação, ou relações, mais se parecerá com o ídolo criado. Foi assim, no Éden. Adão e Eva, ao entregarem-se a uma nova relação, substituindo-a pela com Deus, foram seduzidos pela serpente, pecaram, e se tornaram muito mais parecidas com o novo interlocutor do que com o Criador. Houve uma mudança em suas naturezas, e se antes eram a imagem de Deus, essa imagem se corrompeu pelo afastamento de Deus e pela intimidade com o pecado e o inimigo.

A verdadeira adoração é, sobretudo, uma forma de agradecimento, de ação de graças, de reconhecimento do favor e da graça divinas sobre o adorador. Em outras palavras é a expressão máxima de gratidão do homem para com Deus; refletida em seu desejo íntimo, profundo, de ter comunhão, de estar completamente envolvido pelo ser divino; é deseja-lo plena e por completo, apenas e tão somente ele, mais nada ou alguém.

Terceiro, significa renunciar-se a si mesmo. A adoração depreende uma entrega, como já foi dito, tal qual uma oferta integral de si mesmo a Deus, por meio de Cristo; de maneira a não haver espaço para nada além do culto exclusivo ao Senhor. E, então, vem-me a pergunta: sempre que leio as Escrituras, entoo cânticos ou oro, minha mente, meu coração, meu espírito, estão completamente cheios de Deus, ao ponto de não haver espaço para nenhuma distração, para nada interferir na comunhão com o Senhor?

Certa vez, li o relato de um homem que estava com o casamento em crise; pouco se interessava por sua mulher. Ele chegou em casa, após o trabalho e algumas cervejas com os amigos, e sua esposa disse-lhe que tinha algo importante para falar. Enquanto se assentava e ligava a tevê, ele disse a ela que estava cansado, e que não queria ouvir nada importante ou não, naquele momento. Eles poderiam conversar no dia seguinte; não tinha cabeça para mais nada. Ele permaneceu diante da tevê até o sono vir, e cochilar algumas vezes antes de dormir em definitivo.

No dia seguinte, cumprindo o mesmo ritual de chegar em casa, lavar as mãos, sentar-se, ligar a tevê, ele viu um papel debaixo do controle remoto. Ao pegá-lo, observou que era o resultado de um exame de gravidez, indicando que a sua esposa, e ele, esperavam um bebê para dali a oito meses.

Como aquele marido, não estaremos sendo negligentes, dispersos e pouco interessados, em nossa comunhão com Deus? Ao ponto em que a adoração não passa de mera repetição de versos, de um entoar rítmico superficial, sem que a música, as palavras impregnem-nos, atingindo o profundo da alma? Em nossa adoração não estamos mais em corpo do que em espírito? E o corpo anseia poder estar no mesmo lugar do espírito, longe de Deus e sem reverência? O mesmo não acontece quando ouvimos uma pregação, lemos as Escrituras, ou oramos? Até que ponto estamos cem por cento envolvidos com a verdadeira adoração a Deus? Até que ponto ele é uma entre tantas outras coisas, sem ter preeminência sobre elas?

Cada um de nós, individualmente e como igreja, deve pensar no que Deus tem se transformado para nós, e se o temos reconhecido como ele é, merecedor de toda a nossa gratidão, de todo o nosso serviço, de toda a nossa devoção, com ardor e amor; e, ainda assim, sequer poderemos arranhar a excelência de retribuir o quanto ele é merecedor. Mesmo se juntarmos todo o louvor dos santos, em todos os tempos, Deus merece a gratidão infinita, e podemos dar-lhe apenas algo finito, mas que, em sua bondade e amor infinitos, ele o reconhece como tal, sendo o que não é, porque ele é e quis que assim fosse do seu agrado. Logo, muito mais do que sentimentos extravasados, a adoração é um serviço a Deus.

A palavra hebraica para servir é “abhadh”, significando trabalhar, servir, ser escravo. Neste verso, ela é o mesmo que adoração, no serviço religioso, mas não por obrigação, algo árduo e cansativo, mas uma experiência feliz de libertação. Não basta apenas servir, mas há de servir com alegria, gozo, e essa também é uma maneira de demonstrar gratidão, por tudo o que Deus fez e tem feito por nós, pelo seu amor, cuidado, misericórdia e graça infinitas derramadas sobre nós.

É claro que podemos inferir o fato do salmista possivelmente relacionar o servir com toda a vida cristã, indicando o dever de, em todos os momentos, Deus ser reverenciado, adorado; devendo fazê-lo com entrega de coração e alma. Porém, mais diretamente, ele indicava para um louvor verdadeiro e espiritual, quando o povo se reunia no Templo. A música é, na maioria das vezes, uma demonstração de alegria, de felicidade.

Há um velho ditado que diz: “Quem canta seus males espanta”; um sinal de que o ato de cantar implica em uma alma em gozo. E era este o objetivo do salmista, mostrar ao povo que Deus não somente era merecedor de adoração, mas de que a adoração, como expressão máxima de gratidão e serviço, revelava uma alma em íntima comunhão com o seu Senhor; um relacionamento somente possível de se realizar por aqueles amados e chamados por Deus, homens que o conhecem assim como ele é, porque ele se deu a conhecer por eles.

O serviço religioso não deveria se circunscrever apenas ao Templo e, em nosso caso, à igreja, como uma obrigação ou uma prática formal, um rito exterior incapaz de alcançar o interior (ainda que o foco do autor é não dar ao culto exterior uma prática mecânica e gélida). Pelo contrário, ele deveria brotar e crescer de tal maneira que se extravasasse para além da intimidade, de forma a que todos os homens pudessem compreender o real sentido do relacionamento com Deus, de como o adorador é agradecido pelo seu favor, por intermédio da adoração exterior.


C) POR QUE DEVO ADORAR?

O salmista revela os motivos pelo qual devemos adorar com alegria: a gratidão de ter Deus por nosso Deus. Adoramos por não haver outra forma melhor de reconhecer nele tudo o que ele é. O Senhor é Deus, e se não fosse, qualquer outra forma de reverência ou culto, não passaria de idolatria, de perda de tempo. Apenas o Senhor é digno de ser bendito e louvado; ele nos fez e não nós a ele, como muitas religiões se empenharam em fazer através dos séculos. Deus não é uma construção social como os pensadores modernos acreditam; nem é uma ideia humana para aplacar a angústia da própria finitude e fragilidade do homem, da natureza, do cosmos. Muito menos de estar em nosso poder o aproximarmo-nos de Deus, e cultuá-lo como bem entendemos ou consideramos melhor.

Em sua santidade, Deus não aceita nada que seja pecaminoso, vindo de pecadores. Por isso, ele mesmo veio ao mundo para morrer na cruz (maravilhas das maravilhas, ele se deu a si mesmo, o santo e puro, para resgatar transgressoras e impuras criaturas), nos reconciliar consigo mesmo, entregar-se a nós para nos receber em comunhão santa e eterna. Se deu a nós, e por meio de Cristo, nos recebeu como filhos amados. A glória que vimos e recebemos, pela sua graça, transforma-se em adoração, e retorna ao Senhor, em gratidão, como expressão da sua glória. É Deus em tudo, por tudo, por todos. Infelizmente, muitos não se apercebem, cegados pelos seus vícios, pela sua corrupção, incapazes de vislumbrar o esplendor da glória, do abismo imensurável a mantê-los preso no ego autônomo e tolo de não haver Deus (Sl 14.1).

Aos que são ovelhas do seu pasto e povo seu, não resta outra constatação a fazer senão a de que adoramos a Deus porque simplesmente ele é o Senhor. E todas as virtudes e maravilhas encontram-se nele, que as distribuiu generosamente entre os seus. Louvá-lo e glorifica-lo não pode ser por nenhum outro motivo a não ser o desejo entranhável na alma de querer ser dele e de mais ninguém, nem de nós mesmos. A satisfação encontra-se nele, somente nele, e isso nos faz desejar ainda mais conhece-lo, tal qual ele nos conhece. Adoração, também, é a busca incessante e obstinada de conhecer mais e mais a Deus, para ser, na mesma proporção do conhecimento, mais íntimo.


D) A VERDADEIRA ADORAÇÃO:

Sabendo que o alvo do crente é a adoração verdadeira ao Deus verdadeiro, e qualquer coisa diferente disso não é adoração. O Senhor merece toda a nossa honra e louvor, e não o fazer, ou fazê-lo equivocadamente, significará a incompreensão e o desconhecimento de quem ele é e de quem nós somos. Ninguém pode se arvorar a ser adorado sem incorrer em usurpação da glória divina; e ninguém ficará impune a isso.

Sendo assim, listarei alguns aspectos fundamentais da verdadeira adoração:

1) Como disse anteriormente ninguém poderá adorar, em espirito e em verdade, se não for resgatado, regenerado por Deus. Em João 4, o Senhor Jesus tem um diálogo revelador com uma samaritana. Os irmãos sabem que judeus e samaritanos tinham uma rivalidade histórica, ao ponto de se considerarem inimigos naturais. A parábola do “bom samaritano”, deixa claro que, aos judeus daquela época, a atitude do viajante de socorrer o judeu ferido, era algo impensável.

Portanto, o fato de um judeu, o Cristo, conversar com uma mulher samaritana, era algo igualmente estranho, para não dizer inadmissível.

A parte mais importante do nosso estudo, refere-se aos versos 21 e 24, nos quais o Senhor diz:

“Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”.

Ora, a ideia que se tem é a de que Cristo estava negando a adoração naquele monte e em Jerusalém, como algo falso; mas não é isso. A expressão “verdade” aqui não se contrapõe à mentira ou falso, mas a uma atitude efetiva, real, completa. Ele não nega a validade de se adorar em Jerusalém e no monte, como uma forma terrena, asseverando uma adoração celestial, não negando aquela, mas afirmando esta.

Conhecedor de todas as coisas, ele sabia que, em breve, a adoração, como os judeus a conheciam, estava prestes a se inviabilizar, pois seriam espalhados pelo mundo, seu Templo seria destruído, e, a partir de então, não haveria mais Jerusalém como o lugar de adoração, mas ela se daria em qualquer local, em qualquer parte do mundo.

Ele faz uma distinção entre a adoração terrena e a celestial, no sentido de não estar mais limitada a um lugar, a uma forma, ainda que se realize em lugares e dentro de uma ordem, mas na efetivação do louvor dirigido ao Pai na plenitude do Espírito, seja aqui ou acolá, seja por uma ordem religiosa ou não.

Contudo, o cerne da questão está não na adoração em si mas em quem se adora. Ele afirma textualmente que os samaritanos adoravam o que não sabiam, não conheciam, e de que a verdadeira adoração era a devotada ao único salvador, o Cristo. Não é possível qualquer forma de adoração se o Cristo não for o centro, o alvo, do louvor e da ação de graças. Sem ele qualquer forma de veneração é não apenas falsa, mas repulsiva e afrontosa a Deus. Mesmo os incrédulos louvam, à sua maneira, a Deus; e por não o conhecer, erram, e sua adoração é uma perversão da verdade.

Todos os homens deveriam, em princípio, reconhecer o verdadeiro louvor a Cristo, sem o qual nenhuma adoração é possível, é real. Sem ele, ela não passará de uma farsa, de um engodo; negá-lo é não ser adorador, mesmo que se suponha um. Estando o homem em pecado, em inimizade com Deus, nenhuma adoração é aceitável, antes é rejeitada por ele.

Então, é necessário ao homem ser transformado por Deus, ter os seus pecados perdoados, para adorar corretamente. Sem a regeneração, pelo arrependimento e a fé; sem a mente de Cristo; sem a comunhão com o Espírito, nenhuma adoração é verdadeira, apenas uma cópia distorcida e maligna do louvor santo.

2) Deus só pode ser adorado se a alma do homem estiver apenas nele. Engana-se quem acredita que pode “acender uma vela para Deus e outra para o diabo”, como os antigos diziam. O coração tem de estar apenas focado no Senhor, sem distrações, sem subterfúgios, sem esquemas que visem dividir a sua glória entre ele e os ídolos. Novamente, o erro dos samaritanos era não conhecer a Deus, mas também dividir a adoração com outros deuses (2 Rs 17.28-41). A adoração requer completo e íntimo relacionamento com o único a merecê-lo: O Senhor!

Quando nos entregamos às paixões, sejam elas quais forem, o futebol, o trabalho, a esposa ou esposo, os filhos, a ideologia, criamos um ídolo, e fazemos dele objeto de veneração. Qualquer coisa, pessoa ou entidade, que ocupe o lugar exclusivo de Deus no coração, é a negação de todo o bem e favor divinos, e um desvio da alma na direção da ingratidão. Adorar outro ídolo é não reconhecer o bem recebido, o favor concedido; é traição, a forma mais profunda de adultério, de infidelidade, a qual é entregar-se a alguém ou algo ilegítimo, quando a entrega deveria ser ao legítimo detentor de adoração.

Apenas Deus deve satisfazer o coração do homem, e somente ele o pode.

3) A adoração está intimamente ligada ao conhecimento divino. Quanto mais o conhecemos, mais somos capazes de adorá-lo. E só o conhecemos, principalmente, pela sua revelação especial, as Escrituras Sagradas. Aprouve a Deus revelar-se de duas maneiras aos homens:

a) Pela Criação, na qual podemos ver a grandiosidade do Senhor, capaz de fazer um universo maravilhoso, diversificado, belo e funcional. O poder de Deus fica patente nas obras da sua mão. Podemos perceber a sua bondade e generosidade em cada aspecto da criação.

b) Pela revelação especial, a qual Deus se faz conhecer em detalhes. Nela podemos compreender muitos dos seus atributos que não ficam evidentes na Criação, tais como o amor, a misericórdia e a sua graça derramada sobre o seu povo.

c) Através da oração reconhecemos em Deus o pai cuidadoso, que não somente nos ouve, mas nos conforta, fortalece, e nos molda à semelhança do seu filho Amado.

Portanto, sem o conhecimento de Deus, e o desejo entranhável de conhece-lo mais e mais, não há comunhão, nem intimidade, muito menos é possível haver adoração.

4) Sendo a lei de Deus a sua vontade expressa para o homem, não há como adorá-lo sem observar os seus mandamentos. O Senhor Jesus disse:

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14.21).

O amor é também uma forma de adoração. Se atentarmos para o ensino bíblico veremos que tudo em nossa vida deve estar direcionado para o louvor e a glória de Deus. A obediência é nos colocar em posição de submissão e dependência a Deus, pois quanto mais íntimos do Senhor, mais reconhecemos a nossa fragilidade e insuficiência, e somos atraídos por sua benignidade, pelo seu amor. Como o amor é prático e não apenas uma construção teórica, amamos quando nos entregamos completamente ao alvo do nosso amor; então, obedecemos porque o amamos, e o amamos porque somos obedientes.


E) CONCLUSÃO:

Por muitos anos servimos a nós mesmos, ao pecado, ao inimigo de nossas almas, e não encontramos a paz, o gozo e a alegria verdadeira. Tudo foi um simulacro, uma cópia mequetrefe, tal qual um produto vendido como se fosse igual ao original, aparentando ser original, mas deformado em sua concepção e incapaz de atingir o objetivo, de realizar o que o verdadeiro faz. Em tudo ele se assemelha ao autêntico, contudo, guarda em si mesmo a marca da farsa, do engano, da ilusão.

Assim são os prazeres mundanos, que nos ludibriam, vendendo uma ideia de serem capaz de nos satisfazer, mas em sua funcionalidade nos trará apenas prejuízo e dor de cabeça. Nada pode substituir a Deus; e se o homem se dedica a buscar a alegria e o contentamento nas coisas etéreas e transitórias, engana-se. Somente o Deus infinito pode dar ao homem, mesmo finito, o júbilo perene. De forma que nele, e apenas nele, se pode receber, como dádiva preciosa, a plenitude da satisfação. Deus é quem nos apraz integralmente, e é nele que encontramos a razão da adoração. Só o adoramos porque ele é quem é, e porque quis se revelar a nós, para nos arrebatar, em toda a sua glória, ao perfeito e sublime louvor e veneração.