segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Caindo de paraquedas - L. E. Struciati



Desejo fazer duas analogias, sendo a primeira, uma breve e introdutória colocação, enquanto a segunda será o corpo e o conteúdo principal de nossa meditação.

Caindo de paraquedas no mundo natural.

Quando um recém nascido é retirado das entranhas de sua mãe, ele sai cru. O bebê nada mais é do que uma massa irracional, sem qualquer tipo de inteligência, conhecimento e sabedoria. Sua mente está vazia, zero quilometro. Esta pequena criatura, irá precisar receber instruções de seus pais, para que possa dentro de algumas semanas, conseguir fazer as coisas mais básicas de seu dia-a-dia, como entender as palavras e seus significados, falar, discernir, andar, se relacionar e etc. A criaturinha será posta sob uma influência paternal, social, politica, cientifica, psicológica e religiosa. Tudo isso será o ponto de partida, o fermento que irá ter um peso significativo, quase irreversível na construção de sua personalidade mental e emocional. Se está criatura, depois de ser concebida por sua mãe, fosse enviada e deixada em um local não civilizado, sem qualquer tipo de contato humano e supondo que ela sobrevivesse ali, ao crescer, o individuo, mesmo possuindo uma capacidade racional, seria totalmente desprovido de todas as características sociais, exatamente pela falta das instruções e influências em que um bebê urbano teria. Ele seria uma espécie de Tarzan. Se uma macaca o criasse, ao crescer ele acharia ser um macaco. O individuo se adaptaria ao ambiente em que foi formada sua personalidade desde sua meninice, passando assim, a agir como qualquer um dos animais daquele local.
Voltemos à realidade social da criança. Com uma idade mais avançada, o menino(a) começa a captar com mais facilidade os valores morais empregado por seus pais. Ele sabe o que pode e o que não pode. O que é e o que não é. O que é bonito e o que é feio. Aquilo que é digno de elogio e aquilo que atraí descontentamento. Depois de ter subido mais um degrau, ele ingressa em uma nova etapa de sua vida, sendo um frequentador escolar. Ali ele aprenderá e receberá uma carga pesadíssima de informações que se alojaram em sua mente. Ao avançar ano à ano, as peças do quebra-cabeça estarão se unindo e o individuo será formado nos moldes dos padrões e valores da sociedade.

Onde eu quero chegar com essa pequena introdução? Quero chegar ao ponto que, ao virmos ao mundo, não possuíamos uma capacidade critica de avaliação para sabermos se aquilo no qual estávamos sendo submetidos, era de fato verdadeiro ou errado, proveitoso ou fútil. Estávamos imunes a tudo e recebíamos todo tipo de instruções completamente submetidos a elas. Nossa mente era vazia. Estávamos começando do zero. Literalmente, caímos de paraquedas em um mundo formado por um sistema ideológico. Caímos, absorvemos e nos envolvemos à tudo o que ela nos ofereceu. Ela nos formou, com algumas variações em comparação a outros indivíduos, porém, foi a base de nossa construção formal.

Caindo de paraquedas na cristandade.

Do mesmo modo em que eramos completamente ignorantes à respeito da vida quando chegamos a esse mundo, também caímos de paraquedas na cristandade, quando começamos a nos envolver com ela. A diferença é que não somos mais bebês e não precisamos mais receber instruções básicas a respeitos de coisas naturais do dia-a-dia. Já possuímos e fomos acometidos a diversas teses e experiências pessoais. Também possuímos dentro de nós, algumas ideologias das quais nos apegamos. Essas ideologias são os mastros do barco de nossa vida, que nos dá a direção a seguir. Enfim, quando colocamos os nossos pés nas portas do cristianismo e ao passo que vamos adentrando cada vez mais por seus corredores, admirando tudo ao nosso redor, estamos sendo acometidos novamente por um peso "cultural" já formado, que irá definir uma personalidade religiosa, conforme o que nos for sendo apresentado como verdade.
Como não possuímos um senso crítico fundamentado, e quando somos acometidos por uma espécie de "fé", em nome da fé, nosso senso crítico, por mais errado e teimoso que seja, caí por terra e é subjugado pelas palavras persuasivas do líder que aparentemente é um mestre no papel que exerce. E pouco à pouco, a semelhança da criança recém nascida, que ao evoluir nas etapas da vida, subindo degrau por degrau é formada dentro do peso, influência e do molde social, o novo "cristão" também é formado pelos moldes de seu sistema religioso em que foi acometido. Essa nova perspectiva de vida, essa nova cosmovisão, se apega a nossa mente de tal maneira, que lutamos por ela mesmo que à não vivemos plenamente. Mesmo uma pessoa irregenerada, sem amar ao Senhor, quando acometida a um certo "cristianismo" apostata, ao ser formada e convencida dentro de suas orientações, se posicionará em defesa de sua ideologia e lutará contra aqueles que a atacam, por mais errada que esteja a tese aos olhos externos, em seu cerne pessoal, dentro de seu coração, aquilo é a sua verdade absoluta.

Sabemos que dentro de toda a teoria existente a respeito de um determinado assunto, há outras teorias derivadas que contradizem umas as outras. Dentro do cristianismo não é diferente. A apostasia é o câncer do cristianismo bíblico. Em nossos dias, o cristianismo tomou várias formas e vários nomes. Não é tão fácil assim, achar comunidades, literaturas e cristãos genuínos. A apostasia e suas teses heréticas dominou o cenário religioso mundial. Existe uma caricatura de Deus para todos os tipos de desejos desenfreados. Um deus Aladim, para para os avarentos, com sua teoria da prosperidade. Um deus promissor, para os cansados de sofrer, com sua teoria triunfalista. Um deus ficção cientifica, para os amantes da mitologias e de suas guerras épicas, com sua teoria de guerra espiritual extrema. Um deus 100% amor, para os mimados, com sua teoria universalista. E mil e uma outras teses à mais.

Certamente, quando uma pessoa começa a ingressar na "fé" "evangélica", ela cai dentro de algum desses circos, que não tem nada de fé e não é nada evangélica. E a semelhança do bebê recém-nascido, ela recebe instruções e é formada dentro dessas teses. Com o passar do tempo, elas vão criando raízes e se firmando cada vez mais em seu interior. E por certo, a cada dia mais, fica mais e mais difícil a missão de tirá-la e de desintoxicá-la desse sistema apostata. Quando esse "milagre" acontece e a reformulação começa a ser feita, dificilmente a pessoa que anteriormente esteve afundada na lama da enganação, aceitará por completo toda a nova verdade em que a mesma estará sendo acometida. Tal individuo sempre carregará resquícios e tentará importar para dentro da verdade absoluta, coisas ou pontos da velha teoria apostata inicial. Por fim, feliz é aquele que caí de paraquedas no sistema religioso genuíno. Por mais que não seja regenerado, se um dia passar a ser pela vontade de Deus, mais da metade do caminho já estará sido percorrido e sua mente estará mais aberta a receber e aceitar a verdade de Deus.

Quando uma pessoa recebe instruções derivadas de um sistema religioso, ela se limita apenas as teses internas da mesma, se fechando para as que estão para fora de suas portas. Sua mente cria uma espécie de anti-corpos contra tudo aquilo que vai contra e afronta suas bases. Como que irracionalmente, ela diz: "O diabo está tentando-me e buscando me desviar da "verdade". Sua mente, influenciada pelo medo e pela insegurança, bem como pela persuasão do seu líder, começa criar auto-ideias negativas contra as teses criticas e contradizentes à sua e passa a embalsamar com uma pasta grossa de santidade sua teoria apostata. Ela se afinca, emberna e se tranca dentro daquele mundo, que para si mesma, é único. Todas as outras teses passa a ser um perigo, um monstro, um diabo contra sua vida. E quanto mais alguém tenta convencê-la do contrario, mas ela se apega a essa ideia e mais convicta ela fica a respeito dos perigos que as razões opostas trazem consigo mesmas. Ao ser bombardeada pelas razões opostas, a pessoa ao invés de considerar racionalmente e minuciosamente a questão em si, ela busca se aprofundar mais e mais em sua ideologia imposta à procura de novas justificativas para a mesma. Ela caiu em um poço, a luz do sol está à cima dela; as pessoas jogam cordas e insistem que a única saída e se agarrar a ela, mas a o invés disso, ela pega uma pá e continua cavando, se afundando cada vez mais, achando que está saindo o buraco.

Buscando o caminho verdadeiro.

A proposta acima é auto-centrada no conceito pessoal. Não é nada sábio ser guiado por esse leme. Precisamos de um guia fixo e inabalável. As Sagradas Escrituras. Precisamos também das instruções teológicas para entender melhor o conteúdo bíblico. A palavra Teologia causa arrepios e náuseas aos públicos supracitados acima. Ela é algo de total desprazer e ojeriza. Dizem ele: "Não precisamos de doutrinas de homens. A Bíblia nos basta". Em minha analise, tal frase revela uma completa arrogância por parte daqueles que a expressam. Além de, é claro, evidenciar uma ignorância à respeito do que é a Teologia em si mesma. Creio que, sem sombra de dúvidas, ser a falta dessa instrução teológica, a causa mais evidente de tanta apostasia e erros interpretativos das Sagradas Escrituras. A Teologia não é doutrinas de homens. A Teologia é a sistematização das Sagradas Escrituras (da própria Palavra de Deus). Essa sistematização se dá pelo fato de que as Escrituras não foram escritas todas de uma só vez, por um mesmo autor e dentro de uma mesma cultura politica e religiosa. Não! Ela foi escrita em diversas eras, dentro de diversos terrenos, acometidos por diferentes pesos culturais. Tudo isso exerce um grande peso na hora de se interpretar o que esta sendo lido. Outro ponto! A Teologia sistematiza as doutrinas! A Bíblia não foi escrita assim: Livro da justificação; Livro da Expiação; Livro dos Atributos de Deus; Livro da Trindade; Livro da Justiça; Livro Eclesiológico; Livro Cristológico e etc. De maneira alguma. As Escrituras estão organizadas com os livros da Lei, livros históricos, livros proféticos, livros poéticos e etc. Ou seja, as doutrinas, em suas diversidades, não estão compiladas em um mesmo texto ou trecho. Não, elas estão distribuídas pelas páginas de toda a Escritura. A Teologia investiga e as uni, facilitando e dando maior profundidade no entendimento das mesmas.
 A Teologia também possuí seu peso histórico! Durante toda a história da Igreja, desde sua era pós-apostólica até o século passado, onde não vivemos, houve vários surgimentos de seitas e heresias sem fim, que ameaçavam a extinção da verdade. Homens piedosos no passado, levantados por Deus em defesa de sua causa, combateram arduamente tais erros e ergueram uma torre forte, das quais deveríamos nos abrigarmos contra os perigos da falsa doutrina. Falsas doutrinas essas, que há muito tempo já foram refutadas, que hoje predominam em nossa geração. Ah, se tais pessoas pudessem ler suas razões de boa fé e sem preconceitos. Saberiam que navegam em um rio cheio de crocodilos, cujas águas já foram condenadas à tempos. Veriam em sua margem uma placa escrita: Perigo! Crocodilos.

Bom, sabemos que existem várias espécies de teologia. E agora, como saber qual é a correta então? O primeiro passo é possuirmos humildade! Sermos neutros na hora de investigar as razões de ambas as partes em estudo. Não adotar uma tese e se trancar dentro desse quarto escuro, frio e incerto! Ter a Palavra de Deus como Juiz máximo e não nossas ideologias pré-concebidas. Ter a consciência de que podemos ter caído de paraquedas em uma cultura religiosa herética e apostata. Nos permitir e buscarmos ser instruídos por meio de outras literaturas instrutivas. Orar!