quarta-feira, 28 de março de 2012


O PODER POR MEIO DA FRAQUEZA II – JOHN STOTT


O Chamado para líderes cristãos

É necessário entender o contexto cultural de Corinto, especialmente no que diz respeito à retórica. “A retórica era uma disciplina acadêmica sistemática ensinada e praticada em todo o mundo greco-romano”. ”Na verdade, no século 1º d.C, a retórica tinha se tornado a principal disciplina na educação superior romana.” Nos debates públicos, nas cortes de justiça e nos funerais “a retórica de apresentação e ornamentação” era tremendamente popular como “uma forma de entretenimento público”.

Gradualmente a retórica “tornou-se um fim em si mesma, uma mera ornamentação, com o desejo de agradar a multidão… mas sem conteúdo ou intenção sérios”. Um “sofista” era um orador que “enfatizava o estilo em vez da substância”, a forma, no lugar do conteúdo. O objetivo era o aplauso, a vaidade e a verdade casual. (…) Essa era a situação em Corinto.

26. Porque, vede irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. 27. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; 28. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são; 29. Para que nenhuma carne se glorie perante ele. 30. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; 31. Para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor.
I aos Coríntios cap. 1.26-31

Os coríntios amavam a ambos (a retórica e o sofismo), mas Paulo os rejeitava. Em vez de filosofia humana ele decidiu nada saber, enquanto estivesse com eles, senão a Jesus Cristo e este crucificado (2.2). No lugar da retórica humana, ele foi a eles em fraqueza, temor e grande tremor (2.3), ou seja, “nervoso e bastante trêmulo”. Conseqüentemente ele confiava numa demonstração do Espírito e de poder (2.4).
Temo que essas palavras não seriam uma descrição precisa de muitos evangelistas contemporâneos. Fraqueza não é a característica mais evidente neles. Não. Nos seminários, as aulas de homilética visam incutir autoconfiança nos estudantes inseguros.
(…) Embora, é claro, eu não seja um Spurgeon, talvez possa compartilhar com vocês uma história sobre minha própria experiência. Em 1958, tive o privilégio de liderar uma missão de oito dias na Universidade de Sidney, Austrália. Na última noite, um encontro deveria acontecer no imponente salão de conferências da universidade. Mas contraí o que os australianos chamam de ”wog” (um micróbio), o qual me deixou afônico. Pouco antes da reunião, alguns líderes estudantis me rodearam e um deles leu as palavras de Jesus a Paulo: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois,” prosseguiu Paulo, “mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo… Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (II Co 12.9,10). Então, os estudantes oraram para que essas palavras pudessem se cumprir em mim naquela noite.
O auditório estava lotado. Mas eu apenas pude sussurrar minha fala ao microfone, sempre no mesmo tom, sem capacidade de imprimir personalidade ou de algum modo modular minha voz. Quando chegou o momento do apelo, entretanto, houve uma resposta ávida e imediata. Eu voltei à Austrália dez vezes desde então e, a cada vez, alguém se aproximou de mim, perguntando, “Você se lembra daquele encontro no salão de conferências da universidade de Sidney, quando você estava afônico? Eu me converti a Cristo naquela noite”.
(…) é, “o poder por meio da fraqueza”.
Do livro: O Chamado para Líderes Cristãos/John R. W. Stott; [Marisa K. Alvarenga de S. Lopes]. –  S. Paulo: Cultura Cristã, 2005. pp 42-45