sábado, 30 de maio de 2015

Terá sido os corvos que sustentaram Elias no deserto?


Poderiam os Corvos Proverem o Sustento de Elias?
1 Então Elias, o tisbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Vive o SENHOR Deus de Israel,
perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha
palavra.
2 Depois veio a ele a palavra do Senhor, dizendo:
3 Retira-te daqui, e vai para o oriente, e esconde-te junto ao ribeiro de Querite, que está diante do
Jordão.
4 E há de ser que beberás do ribeiro; e eu tenho ordenado aos corvos que ali te sustentem.
5 Foi, pois, e fez conforme a palavra do Senhor; porque foi, e habitou junto ao ribeiro de Querite, que
está diante do Jordão.
6 E os corvos lhe traziam pão e carne pela manhã; como também pão e carne à noite; e bebia do
ribeiro.(ARC)
1 Reis 17:1-6
 Diante deste texto, num cenário de escassez que sobreviria aquela região,
claramente vemos a providência divina para o profeta Elias, primeiro
obedecendo ao chamamento do Senhor, depois, a maneira como Deus supriu
suas necessidades, usando animais irracionais como veículo para sua provisão
diária.
 Contudo, ao observarmos criticamente o texto vemos que, o entendimento
que atribuímos ao mesmo nos leva a algumas contestações.
 Primeiramente observemos o profeta em sua condição:
 “ A primeira pessoa a quem a Bíblia chama de profeta (heb. Navi’) foi Abraão
(Gn. 20.7; cf.Sl 105.15), mas a profecia do A.T. recebeu sua forma normativa
na vida e na pessoa de Moisés, que passou a constituir padrão de comparação
para todos os profetas futuros (Dt. 18.15-19; 34.10). Cada característica que
caracterizava o verdadeiro profeta de Deus, na tradição clássica da profecia
veterotestamentária, foi pela primeira vez encontrada em Moisés. Ele recebeu
uma chamada específica e pessoal da parte de Deus. A iniciativa da chamada
específica e pessoal da parte de Deus. A iniciativa da chamada de alguém para
o ofício profético depende de Deus [...] ¹
• Era alguém que tinha estreito relacionamento com Deus, e que se tornava
confidente do Senhor (Am 3.7). O profeta via o mundo e o povo do
concerto sob a perspectiva divina, e não segundo o ponto de vista
humano.
• O profeta, por estar próximo de Deus, achava-se em harmonia com Deus,
e em simpatia com aquilo que Ele sofria por causa dos pecados do povo.
Compreendia, melhor que qualquer outra pessoa, o propósito à vontade e os desejos de Deus. Experimentava as mesmas reações de Deus.
Noutras palavras, o profeta não somente ouvia a voz de Deus, como
também sentia o seu coração (Jr 6.11; 15.16,17; 20.9).
• O profeta buscava o sumo bem do povo, total confiança em Deus e
lealdade a Ele; eis porque advertia contra a confiança na sabedoria,
riqueza e poder humanos, e nos falsos deuses (Jr 8.9,10; Os 10.13,14;
Am 6.8). Os profetas continuamente conclamavam o povo a viver à
altura de suas obrigações conforme o seu concerto estabelecido com
Deus, para que viesse a receber as bênçãos da redenção.
• O profeta desafiava constantemente a santidade superficial e oca do povo,
procurando desesperadamente encorajar a obediência sincera às
palavras que Deus revelara na Lei. Permanecia totalmente dedicado ao
Senhor; fugia da transigência com o mal e requeria fidelidade integral a
Deus. Aceitava nada menos que a plenitude do reino de Deus e a sua
justiça, manifestadas no povo de Deus.
• O profeta era, via de regra, um homem solitário e triste (Jr 14.17,18;
20.14-18; Am 7.10-13; Jn 3– 4), perseguido pelos falsos profetas que
prediziam paz, prosperidade e segurança para o povo que se achava em
pecado diante de Deus (Jr 15.15; 20.1-6; 26.8-11; Am 5.10; cf. Mt
23.29-36; At 7.51-53). Ao mesmo tempo, o profeta verdadeiro era
reconhecido como homem de Deus, não havendo, pois, como ignorar o
seu caráter e a sua mensagem.
 Tendo em vista que, aquele que exercia o ofício profético era diferenciado
de qualquer israelita, em sua condição o profeta tinha como prescrição, não
quebrar os 613 mandamentos da Torá (lei; instrução).
 Então o que levou o profeta Elias a receber este “fast-food” de pão e carne
de animais que eram tidos como impuros nas leis alimentares da Torá?
 “13 Das aves, estas abominareis; não se comerão, serão abominação: a
águia, e o quebrantosso, e o xofrango, 14 E o milhano, e o abutre segundo a
sua espécie. 15 Todo o corvo segundo a sua espécie, 16 E o avestruz, e o
mocho, e a gaivota, e o gavião segundo a sua espécie. 17 E o bufo, e o
corvo marinho, e a coruja, 18 E a gralha, e o cisne, e o pelicano, 19 E a
cegonha, a garça segundo a sua espécie, e a poupa, e o morcego”. Levítico
11:13-19 (ACR).
 As aves que eram consideradas imundas, normalmente têm sua carne
fétida, por se alimentarem de cadáveres em decomposição, “O corvo é
basicamente um animal que se alimenta de carniça e por isso é
cerimonialmente impuro (Lv 11.15; Dt 14.14), mas ataca animais jovens
indefesos (Pv 30.17). Aristófanes em sua obra Birds relata, de forma similar,
que os corvos arrancam os olhos da sua presa. Podem até atacar cordeiros
pequenos mamíferos, pássaros e répteis. Os corvos encontram alimentos
para si e para as crias rapidamente, sem a ajuda do homem (Jó 38.41; Sl
147.9; Lc 12;24)”.2
 nisto, poderia um profeta se alimentar de pão e carne por tais animais descritos como abomináveis? Ou Deus passaria por cima de
seus mandamentos para continuar a demonstrar sua glória?

 Vamos agora a alguns argumentos que nos levam a esses
questionamentos:
 A Bíblia original, a Torá, que os judeus consideram ter sido escrita na
época de Moisés, cerca de 3.300 anos atrás, foi redigida no hebraico dito
"clássico". Embora hoje em dia seja uma escrita foneticamente
impronunciável, devido à inexistência de vogais no alfabeto hebraico
clássico, os judeus têm-na sempre chamado de הקודש לשון, Lashon
haKodesh ("A Língua Sagrada") já que muitos acreditam ter sido escolhida
para transmitir a mensagem de Deus à humanidade. Essa língua é
composta apenas por consoantes, as vogais foram acrescentadas mais
tarde para preservar o som das palavras.
 O substantivo corvos em seu sentido original era escrito da seguinte
forma: עורבים (Orbim), ao ser acrescentado os sinais massoréticos (vogais)
para entoar o som da palavra seria escrito assim: (Orbim), no singular
a palavra corvo é עורב 3
 (Oreb), no plural (como já vimos) é עורבים (Orbim), a
terminação ים. (im) no hebraico indica que a palavra está no plural.
 A palavra Horebe do monte Horebe península do Sinai significa no
hebraico: Horebe (Orev) Corvo, segundo J. D. Douglas (Novo Dicionário
Bíblico). Um príncipe medianita do exército que foi derrotado por Gideão. 2.
A rocha de Horebe, assim chamada por causa do príncipe acima e
relembrada devido à grande derrota sofrida pelos midianitas (Jz 7.25; Is
10.26). Os efraimitas cortaram a retirada do inimigo nos vaus do Jordão,
presumivelmente não longe de Jezreel (Betebara pode ter sido um vau
chamado de Arabá, a cerca de 19 km ao sul do mar da Galiléia)4
. A final o
que é Arabá na geografia de Israel? A resposta é muito simples é toda a
área localizada entre Israel e a Jordânia que esteja localizada abaixo do
nível do mar dos oceanos. [...] O Arabá prossegue quando o Rio Jordão sai
do Mar da Galiléia e vai em direção ao Mar Morto.[...] Boa parte da região ao
sul do mar também pertence a Arabá.4

 A mesma palavra no hebraico עורבים serve para definir Horebe como
também a corvos. Vejamos, no processo de transliteração das Escrituras o
substantivo עורבים depois de acrescido dos massoréticos (vogais) ficaria
assim:
*Observe o pequeno detalhe dos sinais massoréticos circulados, o que diferenciava uma
palavra da outra.
rbim` :עורבים : (Orbim) corvos .
 : (Orebim) habitantes ou comerciantes que viviam na região de
Arabá. Sua raiz hebraica significa “seco”, “queimado”, e portanto “terra
desolada”, é usada para descrever as estepes (tipo de vegetação do
deserto) (Jó 24.5; 39.6; Is 33.9; 35.16; Jr 41.43).
 Esses Orebim comerciantes ou árabes são citados em Ez. 27.27 ; II Cr
21.16; Ne 4.7, podem ser também cidadãos de Arabá, perto de Bete-Mar (Js
15.6; 18.18).
 “O ribeiro de Querite (Querite ficava fronteira ao Rio Jordão) onde Elias foi
levado deve ser encarado como monte Hor5
, a única referência que temos
deste monte é que ele ficava próximo de Cades-Barnéia (sul de Israel)”.
 Portanto, a chance de um erro transliteração e tradução da Bíblia do
hebraico para o grego (Septuaginta) é muito grande, pois, dado que o que
diferenciava Orbim de Orebim eram apenas os sinais massoréticos, já que
se esses sinais não forem acrescentados como eram na sua forma original,
tem-se a mesma palavra, mas com sentidos diferentes, sendo עורבים
traduzido para português (ou qualquer outra língua) como corvo ou
comerciantes (povo que vivia naquela região).
 Nisto, um profeta eminente como Elias dificilmente receberia um alimento
de um corvo, tido como animal impuro e visto não só por ele, mas aos olhos
de qualquer israelita comum como abominável, vale lembrar que o meio de
transporte do corvo não se assemelharia a embalagens que temos hoje. A
maior possibilidade do sustento ao profeta se dá a um povo que vivia ou
transitava naquela região, usado por Deus para a provisão diário de pão e
carne para o mesmo. Entretanto, ressaltamos que o importante não é o
meio que o Senhor usou para suprir as necessidades do profeta, mas, que
as suas necessidades foram supridas pelo Senhor.

(Érik Basso dos Santos. Expressões Publicadas )


Referências bibliográficas:
1 DOUGLAS, J. D. Novo Dicionário da Bíblia. 3 ed. rev. Ed. Vida Nova, 2006.
São Paulo, pág. 1092, 1093.
2PLEIFFER, Charles F. VOS, Howard F. REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. 7
imp. CPAD, 2010. Rio de Janeiro, pág. 125.
3HATZAMARI, Abraham. SHOSHANA, More-Hatzamari. 2 edição, 1995. Grupo
Editorial Aurora Ltda. Tel Aviv, Israel. Pág. 69.4ABREU NETO, Francisco de. Geografia Bíblica Sistematizada. A. D. Santos
Editora. Curitiba 2013, pág. 111.
5ABREU NETO, Francisco de. Geografia Bíblica Sistematizada. A. D. Santos
Editora. Curitiba 2013, pág. 87.