sábado, 26 de setembro de 2015

Algumas objeções contemporâneas no âmbito do Culto consideradas e refutadas




Hoje, a maior parte das vozes que criticam o sola scriptura aplicado no âmbito do culto (i.é, o princípio regulador) são os que se consideram como verdadeiramente reformados.[60]

Esses apologistas da decadência e da manutenção da situação dominante trazem alguns argumentos interessantes que pensam justificar o abandono generalizado do princípio regulador do culto em favor de uma concepção de culto luterana/episcopal. Com o intuito de aguçar a nossa compreensão quanto ao relacionamento do sola scriptura com o culto bíblico, iremos examinar e refutar tais argumentos.

1. O Argumento da “Falsa Compreensão da Ética e da Adiaforia”

O primeiro argumento utilizado contra o princípio regulador do culto baseia-se numa falsa compreensão do sentido e relacionamento do sola scriptura, do princípio regulador e da liberdade cristã ou adiaforia. Schlissel escreve:

Alguns regulativistas tentarão ampliar seu apelo ao ―princípio encontrado em Dt 12:32 afirmando que ele também se acha em Dt 4:2. Mas esta passagem diz: ―Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá. Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando. Se um regulativista apresentar tal passagem como respaldo à questão do culto, ele se afasta ainda mais do caminho que conduz à luz. Pois essa passagem refere-se a toda a Lei de Deus, não meramente às leis que governam o culto. Muitos poucos regulativistas argumentariam seriamente que a intenção de Deus aqui é proibir Israel de fazer qualquer tipo de coisa em qualquer área da vida que não seja especificamente ordenada na Lei. Suponho que os amish*, que fogem de botões eletrônicos por não os encontrar mencionados na Escritura, poderiam ver mais ou menos favoravelmente esta interpretação, mas estariam totalmente sós ao fazê-lo. Contudo, se 4:2 for citado como apoio para a leitura que os regulativistas fazem de 12:32, é precisamente dessa conclusão que não se pode escapar. Deuteronômio 4:2 é uma regra geral que exige vida conforme a vontade declarada de Deus em sua inteireza. A nota da Bíblia de Estudo NVI (Nova Versão Internacional) é relevante ao tema: A revelação de Deus é suficiente. Deve ser obedecida em tudo que nela há e nada que a adultera ou contradiz pode ser tolerado‖. Não era a intenção de Deus que os recipientes desse versículo (4:2) não fizessem literalmente nada que não estivesse ali mencionado (i.é, não andar de skate, usar eletricidade, dirigir automóveis, ou chupar picolé de limão). Assim 4:2, tomado como um paralelo, demonstra que 12:32 não deve ser considerado em sentido absoluto. Ao se encontrar frases semelhantes usadas pelo mesmo autor no mesmo livro, é preciso uma explicação que justifique a aplicação de sentidos radicalmente diferentes para cada uma delas. Ao se concordar que 4:2, referente a toda a Lei, não deveria ser entendido sem restrições ao proibir acréscimos e subtrações, assim também 12:32 não deve ser entendido como uma regra abstrata e absoluta. Ambos devem ser interpretados nos termos de toda Palavra de Deus, uma Palavra que simplesmente não ensina: se não é ordenado, é proibido.[61]

O discurso de Schlissel é talvez o argumento moderno mais popular contra o princípio regulador. Ele raciocina que Dt 4:2 refere-se a toda lei que regula tudo da vida. Como na vida há muitas atividades que não são rigidamente regulamentadas, que são deixadas à livre escolha do homem (devo usar uma calça azul ou uma cinza?), assim, portanto, passagens praticamente idênticas que provam o princípio regulador, tais como Dt 12:32, devem também ser interpretadas de tal modo que permitam ao homem ampla liberdade na esfera do culto.

O argumento de Schlissel contra o princípio regulador fundamenta-se numa compreensão totalmente equivocada de Dt 4:2, e deve por isso ser rejeitada como não-bíblica. Sua falsa compreensão dessa passagem, e a aplicação dela a área de culto, baseia-se no erro gritante em distinguir entre a ética dada por Deus e as áreas adiafóricas. A afirmação de Schlissel de que Dt 4:2 ―não deveria ser entendido sem restrições ao proibir acréscimos e subtrações é totalmente falsa. Deuteronômio 4:2 ensina que aos homens nada é permitido acrescentar ou subtrair dos mandamentos de Deus. Noutras palavras, Deus é a única fonte de ética para a vida pessoal, familiar, institucional e civil. Os homens não possuem autonomia ética. Não possuem qualquer autoridade para criar absolutos éticos, nem lhes é permitido ignorar ou subtrair da Lei de Deus de qualquer maneira. Rushdoony tem um claro entendimento sobre as implicações de passagens tais como Dt 4:2. Ele escreve:

É preciso reconhecer que em qualquer cultura a fonte da lei é o deus daquela sociedade. Se a lei tem a sua origem na razão do homem, então a razão é a lei daquela sociedade. Se a fonte estiver numa oligarquia, ou numa corte, senado, ou governante, então aquela fonte é o deus daquele sistema... O humanismo moderno, a religião do estado, coloca a lei no estado e assim faz do estado, ou do povo representado no estado, o deus do sistema... Nada é mais mortal e infiel que a noção de que o cristão está livre quanto ao tipo de lei que pode ter... Tanto a lei positiva quanto a lei natural nada podem refletir mais que o pecado e a apostasia do homem: a lei revelada é necessidade e privilégio da sociedade cristã.[62]

Os homens não têm autoridade para dizer que qualquer pensamento, palavra ou obra seja má ou pecaminosa sem o provar por mandamento ou dedução bíblica. O fato de existir na vida muitos aspectos que sejam adiafóricos ou indiferentes[63] (e.g., andar de skate, plantar tomates, passear de bicicleta, etc.) significa que Dt 4:2 não tinha o objetivo de ser rigorosamente entendido? Significa que é permitido aos homens acrescentarem ou subtraírem da Lei de Deus? Não, absolutamente não! Da mesma forma, no culto ordenado ou autorizado, os homens não têm liberdade para acrescentar ou retirar uma vírgula do culto que Deus instituiu. Os homens, entretanto, têm uma grande liberdade em áreas que são circunstanciais ou incidentais ao próprio culto. Os argumentos de Schlissel fracassaram em reconhecer a distinção entre ética e adiaforia, entre as ordenanças de culto e as suas circunstâncias.

Se os oponentes do princípio regulador do culto querem utilizar Dt 4:2 como um texto de prova contra o entendimento reformado de um culto rigorosamente regulado, eles precisam demonstrar que as ordenanças de culto pertencem à esfera da adiaforia. Será que as partes ou elementos do culto que estão delineados na Escritura acham-se na mesma categoria de passear de bicicleta, ou de usar calças azuis em vez de calças cinza, ou plantar tomate Floralou em lugar de tomate Floradel? A resposta é: obviamente não. A adiaforia refere-se a assuntos que são indiferentes à ética (como fazer os ovos no desjejum, cozidos ou mexidos?). Isto é, que envolvam atividades que não são ordenadas nem proibidas, e que, portanto, a decisão para executá-las ou não, não envolve pecado nem violação da Palavra de Deus. Desde que ajam conforme as regras gerais da Escritura, os homens têm total liberdade para realizá-las ou não (i.é, é para a glória de Deus? [1Co 10:31, Rm 4:7-9]; Faz pecar o irmão mais fraco? [Rm 14:21]; Pode ser feito em fé e de consciência limpa? [Rm 14:14, 23]; Posso me envolver nessa atividade sem me tornar seu escravo, por exemplo, viciado em fumo? [1Co 6:12, 10:23]).

As ordenanças de culto não envolvem a liberdade do indivíduo fazer o que deseja e, portanto, não podem ser classificadas na categoria da adiaforia. Estão os cristãos livres para omitir ou acrescentar algo aos elementos do culto religioso conforme lhes aprouver? Pode alguma igreja eliminar legitimamente a Ceia do Senhor e substitui-la por um novo sacramento? Seriam os presbíteros de uma igreja obedientes a Cristo caso substituíssem o batismo em nome do Deus trino por um ritual criado pelo homem? É permitido excluir a leitura da Escritura substituindo-a por um vídeo de Shakespeare ou rock? Seria pecaminoso eliminar a pregação da Palavra de Deus trocando-a por filme, comédia, ou show de variedades, cristãos? É óbvia a resposta a tais questões (não, não, não e não). Se as ordenanças de culto forem enquadradas na categoria da adiaforia, então tudo que se relaciona ao culto público, e até o próprio culto público, é opcional. Além do que, poder-se-ia ter um, nenhum ou vinte sacramentos.

Por serem requeridas pela Escritura, as ordenanças de culto jamais deveriam ser tratadas como adiaforia. Deveriam, ao contrário, receber o mesmo tratamento da lei moral de Deus. As áreas da vida que são adiafóricas não correspondem às ordenanças do culto, mas às suas circunstâncias (e.g., Deveríamos começar o serviço de culto às 10h30 ou às 11h? O carpete do templo deve ser azul ou vermelho? Devemos usar bancada de madeira ou cadeiras dobráveis? etc.). Ironicamente, Dt 4:2, quando compreendido apropriadamente, é um dos textos de prova mais fortes para o princípio regulador do culto, pois este segue logicamente a sola scriptura. O reformador protestante John Knox é da mesma opinião:

A idolatria principal é quando defendemos as nossas próprias invenções como justas à vista de Deus por achar que elas são boas, louváveis, e agradáveis. Não devemos pensar que sejamos tão livres ou tão sábios que possamos fazer a Deus, e à Sua glória, aquilo que pensamos que é apropriado. Não! Deus ordena o contrário, dizendo: ―Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando (Dt 4:2). Cujas palavras não devem ser entendidas apenas como o decálogo ou a lei moral, mas [também] estatutos, ritos e cerimônias, pois Deus requer igual obediência a todas as Suas Leis.[64]

2. Argumento de que “Tudo na Vida é Culto”

Um argumento que está muito ligado ao de Dt 4:2 é o que afirma que tudo na vida é culto, e como na vida há muitas atividades que não estão rigidamente regulamentadas pela Escritura, assim também o culto não está estritamente regulamentado. Embora, como cristãos, tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus (1Co 10:31), e assim devemos viver para o Senhor (Rm 14:7-8) e apresentar os nossos corpos como sacrifícios vivos a Deus (Rm 12:1), a ideia de que tudo na vida é culto e que não existe, portanto, distinção entre o culto público, e atividades como aparar a grama, é absurda. Há várias razões pelas quais podemos considerar como não-bíblico o argumento de que ―tudo na vida é culto.

Em primeiro lugar, há, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, diversas passagens que ensinam e/ou supõem que o culto público é especial e à parte da vida diária.

Salmo 22:22, 25 ―A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; ... De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem.

Salmo 27:4. ―Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo. David Dickson escreve:

Um terceiro motivo de certeza é a consciência do seu propósito de estudar, para obter, pelo uso dos meios [da graça], constante comunhão com Deus, e a consciência do seu desejo mui fervoroso de gozar em companhia da igreja o total benefício dos cultos públicos. Donde aprende-se: (1) A resolução sincera de submetermo-nos a todos os estatutos de Deus e de seguirmos os meios designados para manter comunhão com Ele é uma das marcas saudáveis da fé sólida, e essa consciência serve tanto mais para confirmar a nossa confiança em Deus, se pudermos dizer com o profeta: ―uma coisa peço ao SENHOR, etc; (2) O uso dos meios e o culto da casa de Deus possibilita ver a glória do Senhor e obter conselho e direção para todas as coisas, com consolo e deleite espiritual para as nossas almas; pois nos cultos Davi deleitar-se-ia ao ―contemplar a beleza do SENHOR e meditar no Seu templo; (3) O desejo sincero da comunhão com Deus e o amor às Sua ordenanças deve ocupar o primeiro lugar no coração acima de todos os desejos e deleites terrenos, sejam quais forem: ―uma coisa peço; (4) Não se deve deixar escapar um desejo sincero, mas deve-se persegui-lo resolutamente e recomendá-lo diariamente a Deus: ―e a buscarei, disse ele; e deve-se perseverar nos meios de comunhão com Deus na convivência pública da igreja, ―todos os dias da nossa vida.[65]

Ao aplicar esta passagem aos crentes da nova aliança, Calvino escreveu: ―A Palavra, os sacramentos, as orações em público, e outros auxílios de mesmo tipo, não podem ser negligenciados sem que se despreze pecaminosamente a Deus, que Se manifesta a nós nessas ordenanças como em um espelho ou imagem.[66]

Salmo 84:1-2. ―Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos! A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo! 

Calvino escreve:

Davi queixa-se de ter sido privado da liberdade de ir à Igreja de Deus, de lá professar a sua fé, aperfeiçoar-se em piedade, e adorar a Deus (...) Ele sabia que Deus não havia estabelecido as santas assembleias em vão, e que os piedosos — peregrinos que são neste mundo — necessitam de tais auxílios.[67]

Plummer escreve:

O culto ao verdadeiro Deus sempre teve, em todas a épocas, grandes atrativos para o regenerado.[68]

Salmo 87:2 ―O SENHOR ama as portas de Sião mais do que as habitações todas de Jacó. 

David Clakson escreve:

Mas pode-se argumentar que o Senhor era adorado não apenas às portas de Sião, no templo, mas também nas habitações de Jacó. Não podemos supor que toda a posteridade de Jacó negligenciaria o culto a Deus em suas famílias; sem dúvida alguma que os fiéis que havia entre eles decidiram com Josué: ―eu e a minha casa serviremos ao Senhor. Portanto, desde que havia o culto a Deus tanto num quanto noutro, como pode este culto ser a razão pela qual um deveria ser preferido ao outro? Certamente por nenhuma outra razão a não ser esta: o culto a Deus, às portas de Sião, era público, o culto nas habitações de Jacó era particular. Assim, portanto, em conclusão, pode-se dizer que o Senhor ama as portas de Sião mais que as habitações de Jacó, porque Ele prefere o culto público ao privado. Ele amava a todas as habitações de Jacó, onde quer que fosse adorado em particular, mas amava as portas de Sião mais que todas as habitações de Jacó, porque lá Ele era adorado publicamente. Com base nisso temos uma razão óbvia para fazer a seguinte observação: Deve-se preferir o culto público ao privado. Se é assim para o Senhor, assim deveria ser para o Seu povo. Se assim era sob a lei, assim tem de ser sob o evangelho. Não há dúvida de que existe uma diferença entre o culto público sob a lei e o culto público sob o evangelho com respeito a uma circunstância, a saber, o seu local. Sob a lei o lugar do culto público era sagrado, mas sob o evangelho não temos nenhuma razão para assim considerar qualquer lugar de culto público; e isto ficará claro se perguntarmos quais eram os motivos para aquela santidade legal no tabernáculo ou templo, e se notarmos que nenhuma delas pode ser aplicada a qualquer lugar de culto sob o evangelho.[69]

Eclesiastes 5:1-2 ―Guarda o pé, quando entrares na Casa de Deus; chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal. Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. Basta esta passagem para provar que o culto público é único e especial. Deve haver o solene reconhecimento da presença especial de Deus no culto público e, portanto, muito zelo em ser sincero, reverente, sossegado, consciente, e atento.

Matthew Henry escreve:

Prepare-se para o culto a Deus com uma pausa solene, e gaste algum tempo em sossegar-se, não se aplicando a ele com precipitação, como é dito: apressar-se com os pés, Pv. 19:2. Não permita que a sua mente se disperse aleatoriamente, afastando-se do ofício; não se disponha a gastar seus sentimentos com as coisas erradas, porque no serviço da casa de Deus há trabalho suficiente para todos, e poucos para serem usados... Quando estamos na casa de Deus, estamos de um modo especial diante de Deus e na Sua presença, lá onde Ele prometeu encontrar-se com seu povo, onde os Seus olhos estão sobre nós, e os nossos olhos voltados para Ele.[70]

John Gill escreve:

Tudo o que pode denotar a conversação pura e casta dos verdadeiros adoradores de Deus; porque, assim como os pés são os instrumentos para o caminhar, eles devem ter em mente qual é a conduta e o comportamento dos santos na casa de Deus, onde devem ter o cuidado de fazer tudo conforme a Sua palavra, a qual é lâmpada para os pés e luz para o caminho.[71]

É óbvio, por estas e muitas outras passagens, que a participação no culto público deve ser tratada pelo povo de Deus de modo bem diferente que uma competição esportiva ou um churrasco. 

Frank Smith escreve:

Um dos privilégios do ofício de culto é o de vir à especial presença de Deus e à comunhão com Ele. Tudo aquilo que divergir disso deveria ser claramente proibido. Se estivéssemos na presença da rainha da Inglaterra, não seria próprio do protocolo interromper a audiência com a monarca para conversarmos entre nós. Quão mais importante é não interrompermos a nossa audiência com o Rei dos reis com coisas fúteis centradas em nós mesmos.[72]

Levítico 23:3. ―Seis dias trabalhareis, mas o sétimo será o sábado do descanso solene, santa convocação; nenhuma obra fareis; é sábado do SENHOR em todas as vossas moradas. Depois que Israel foi estabelecido na terra, esta exigência de culto público semanal só poderia ser posta em prática se existissem muitas congregações reunindo-se por toda a terra de Israel. Esses cultos congregacionais descentralizados não conteriam, obviamente, os elementos cerimoniais do culto do tabernáculo ou do templo (tais como o sacrifício de animais).

Matthew Henry escreve:

É uma santa convocação; isto é: ―se estiver ao vosso alcance, santificá-la-ás em assembleia religiosa: não impedindo a tantos quantos possam vir à porta do tabernáculo, nem impedindo que outros se congreguem alhures para oração, louvor, e leitura da lei, como nas escolas dos profetas, enquanto continuava a profecia, e posteriormente nas sinagogas. Cristo, ao reunir-se com seus discípulos duas vezes (e talvez muitas outras vezes) no primeiro dia da semana, estatuiu o sábado neotestamentário como uma santa convocação... Note que os sábados de Deus devem ser observados religiosamente em cada casa em particular, por cada família individualmente, como também por muitas famílias congregadas em santas convocações.[73]

Atos 15:21. ―Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados (cf. Sl 74:8).

Hebreus 10:24-25 ―Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.

Diferentemente das atividades quotidianas como andar de patins, cultivar o jardim e dirigir um carro, o culto público, por não ser opcional, não é uma área que os crentes podem tratar com indiferença. Aqueles que consideram que ―tudo na vida é culto (à semelhança dos que interpretam erroneamente Dt 4:2) confundem completamente a diferença que há entre o culto público, os elementos ordenados deste culto e os assuntos indiferentes ou comuns às atividades humanas e às sociedades. Uma vez que certa atividade seja ordenada e separada por Deus, não podemos tratá-la como opcional ou adiafórica. Cantar louvores a Deus está numa categoria completamente diferente da de plantar tomates, mesmo que ambas sejam feitas para a glória de Deus. 
   
Em segundo lugar, Cristo o rei e cabeça da igreja designou oficias com funções que requerem um uso público especial. ―Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens... E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo (Ef 4:8, 11, 12). A Bíblia faz certas exigências para se pregar, ler as Escrituras e se administrar os sacramentos no culto público. Tais elementos de culto só devem levados a efeito por mestre ou pregador ordenados e não podem ser tratados como atividades indiferentes da vida quotidiana. Se não há distinção entre o todo da vida e o culto público, por que então as ordenanças públicas restringem-se apenas aos oficiais ordenados na igreja? Se tudo na vida fosse culto, então tais regras e distinções seriam desnecessárias.

Em terceiro lugar, quando o apóstolo Paulo discute qual deve ser a conduta dos crentes durante o culto público, ele estabelece regras que pressupõem uma clara distinção entre o culto público e o todo da vida. Por exemplo, as mulheres podem falar num churrasco e podem ensinar as tarefas de casa aos seus filhos, mas estão totalmente proibidas de falar ou ensinar durante o culto público (cf. 1Co 14:34; 1Tm 2:12-14). Quanto à Santa Ceia, Paulo diz aos crentes que devem se portar de modo adequado à mesa do Senhor. Devem examinar a si mesmos e certificarem-se de têm especial consideração por seus irmãos (1Co 11:17-34). Os regulamentos aplicáveis aos sacramentos não se referem, obviamente, ao piquenique local ou à partida de voleibol. Há também um decoro especial para o culto público que é ordenado por Paulo. Os homens não devem cobrir a cabeça, mas as mulheres sim (1Co 11:2-16). Os homens, entretanto, podem usar bonés de beisebol no centro esportivo. Se o todo da vida fosse culto (como afirmam alguns), e por isso o culto não devesse ser rigidamente regulamentado pela Escritura, então as instruções inspiradas do apóstolo Paulo quanto ao culto público seriam supérfluas.

Em quarto lugar, o termo para igreja (ekklesia) denota freqüentemente uma sociedade de cristãos professos que constituem uma igreja local que se reúne para o culto público num local específico (At 5:1; 11:26; 1Co 11:18; 16:19; Rm 16:23; Gl 1:2; 1Ts 2:14; Cl 4:15; Fm 2; Ap 1:11;20. etc.). Hodge escreve:

Deus ordenou que seu povo se organizasse em comunidades eclesiásticas distintas e visíveis, com constituições, leis e oficiais, emblemas, ordenanças e disciplina, com o grande propósito de imprimir visibilidade a Seu reino, de fazer conhecido o evangelho desse reino e de reunir em todos os seus súditos eleitos.[74]

A igreja neotestamentária reunia-se para o culto público no dia do Senhor (At 2:1; 20:7; 1Co 14:23, 26, 34, 35; 16:1, 2). O culto público no dia do Senhor foi ordenando por Deus (Lv 23:3; Hb 10:24-45). É um período de tempo separado da vida quotidiana. O culto público consiste de certos elementos que são autorizados pelas Escrituras (Dt 31:9-13; Nm 8:7-8; 13:1; 1Ts 5:27; Cl 4:16; 1Tm 4:13); oração (At 4:31; 1Co 11:13-15); pregação a partir da Bíblia (At 17:13; 20:8; 1Co. 14:28; 1Tm 4:13; 2Tm 4:2); a administração dos sacramentos (Mt 28:19; 1Co 11:18-34) e o cântico de salmos (1Cr 16:9; Sl. 95:1-2; 105:2; 1Co 14:26; Ef 5:19; Cl 3:16). Seria obviamente inadequado tratar o culto público prestado pela igreja da mesma maneira que as áreas da vida que são indiferentes ou adiafóricas.

Em quinto lugar a Bíblia ensina que há uma presença especial de Deus no culto público. Num sentido especial Cristo está falando ao povo da Sua aliança através da palavra pregada. O povo como comunidade da aliança responde à Palavra de Deus com oração e louvor. A confissão de pecados a Deus inclui tanto os pecados individuais quanto os corporativos. Quando a congregação participa da Ceia do Senhor (o pão e o vinho) como um único corpo, uma bênção especial é recebida de nosso Senhor. Entretanto o participar indignamente da Ceia (e.g., quando se despreza a assembleia da congregação reunida, etc.) envolve sanções pactuais e até mesmo a morte (1Co 11:27-34). Os casos de sérios pecados públicos e excomunhões devem ser anunciados durante o culto público onde Cristo está presente em Sua corte (Mt 18:20), onde o excomungado é entregue a Satanás pelo poder de Cristo (1Co 5:4). A congregação não apenas recebe uma bênção especial pelos meios públicos de graça e presença única de Deus, mas Deus é mais glorificado quando é louvado pela assembleia do corpo de Cristo.

Clarkson escreve:

O Senhor comprometeu-se em estar com cada um dos santos individualmente, mas quando eles estão reunidos em culto público, todos esses compromissos individuais estão conjuntamente unidos. O Senhor compromete-se em deixar fluir, por assim dizer, um fio da sua presença confortadora, revigorante, para cada um dos que o temem, mas quando muitos desses indivíduos ajuntam-se para adorar a Deus esses diversos fios, então, combinam-se numa única torrente. Assim, portanto, a presença de Deus, que, desfrutada em particular, é um mero regato, em público torna-se num rio que alegra a cidade de Deus. O Senhor tem um prato para cada alma que individualmente O serve em verdade; mas quando muitos indivíduos se congregam, há uma grande variedade, uma confluência, uma multidão de pratos. A presença do Senhor no culto público torna-o um banquete espiritual. Assim expressa-se Isaías 25:6. Vê-se que há mais da presença de Deus no culto público, logo, deve-se preferir o culto público ao particular.[75]

Não deve surpreender que Deus esteja, de modo especial, presente no culto público, porque na terra nada se parece mais com a sala do trono de Deus no céu do que o culto público. O céu é descrito na Escritura como um lugar de culto público contínuo onde uma hoste inumerável de anjos e santos contemplam a face de Deus e do Cordeiro (Ap 1:9-12). ―As incontáveis hostes de anjos, e a igreja dos primogênitos, perfazem uma única assembleia universal na Jerusalém celeste, Hb 12:22, 23. São uma congregação gloriosa, e assim juntamente cantam louvores ao que está assentado no trono, e os louvores do Cordeiro, e continuam nesse culto público eternamente.[76]

Dizer que tudo na vida é culto e que o culto público, portanto, não está estritamente regulamentado pela Palavra de Deus é o mesmo que comparar a Ceia do Senhor com o que é comum ou profano. A assembleia pública é um ajuntamento, um momento e um lugar para que Deus se encontre diretamente com o Seu povo. Ele dá a conhecer a lei, e eles, em retorno, o bendizem (...) O culto é algo especial e de natureza dialogal. É também explicitamente ordenado. O fato de estar na presença de Deus significa que existe não apenas princípios gerais a serem obedecidos, mas que os próprios elementos do ato de culto foram escritos de antemão.[77]

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NOTAS:
[60] Um dos maiores problemas que as denominações reformadas têm hoje é a existência de ministros e presbíteros corruptos e desonestos. Há hoje um certo número de homens ordenados que, após terem jurado fidelidade aos padrões de Westminster, trabalham para solapá-los em seus escritos e ensinamento. Há dos que se consideram Reformados que atacam abertamente o princípio regulador, que é um dos pilares da reforma calvinista. Há Conselhos que estão introduzindo muitas inovações no culto público. O objetivo, a longo prazo, de alguns ministros e presbíteros, é uma igreja presbiteriana com culto episcopal construído sobre princípios oriundos de uma liderança eclesiástica. Para tais homens, são apropriadas as palavras de James Begg. Ele escreve: ―se for verdade, deve ser firmemente defendido, e deve ser resistido e descartado todo ato de culto que não pode ser assegurado por divina sanção, e até que seja descartado, o mínimo que um ministro presbiteriano pode fazer, é ser honesto em defesa disso. É pior, e completamente vão, abrir mão de nossas obrigações solenes em favor de afirmações vagas e sem sentido. A posição assumida pela igreja presbiteriana é uma ou outra, ou salutar ou doentia. À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva‘. E a única classe de homens mais inconsistentes e criminosos que os que deixam tal assunto em dúvida, são aqueles que na aceitação do ofício professam defender e manter a doutrina da igreja presbiteriana, mas que, posteriormente, tratam as suas solenes confissões e votos com perfídia e desrespeito... Estamos agora provando isso [o princípio regulador do culto] por causa dos que são oficiais da igreja presbiteriana. Todos eles juraram solenemente, conforme as suas convicções, que estes são os princípios da Escritura que defenderão com o máximo de suas forças. Por causa disso, fazer qualquer outra coisa, fazer qualquer outra profissão, sem abrir mão do ofício que receberam em conformidade com a sua prévia confissão, é simplesmente perjúrio, próprio para trazer desgraça à Igreja Cristã, e para dar aos inimigos da causa motivo de blasfêmia. Todo oficial presbiteriano está tão comprometido quanto nós em manter e fazer valer estes princípios, e não em ser conivente, direta ou indiretamente, com a subversão deles. Vivemos, entretanto, infelizmente, numa era onde violar a trégua‘ não é raro; onde muitos, em vez de seguirem concordemente, conforme os seus votos solenes, parecem fazer da promoção de inovações no culto a Deus uma de suas ocupações favoritas. A Religião está ferida dentro da casa dos que dizem ser seus amigos. Nada mais apropriado para corroer, como um cancro, a fé e a moral da comunidade‖ (Anarchy in Worship [Edinburgh: Lyon and Gemmell, 1875], 10, 12-13.
[61] Steve Schlissel. All I Really Need to Know About Worship I Don‘t Learn From the Regulative Principle (Part IV), Messiah’s Mandate.
[62] R. J. Rushdoony. Institutes of Biblical Law (Philipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1977 [1973]), 4-5, 9-10.
[63] Quanto às áreas da vida que são eticamente indiferentes ou adiafóricas, existem pelo menos quatro princípios bíblicos que precisam ser seguidos. Primeiro, tudo o que fazemos, não importa quão secular seja, deve ser feito para a glória de Deus. ―Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus‖ (1Co 10:31). ―Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor‖ (Rm 14:7-8). Em segundo lugar, algo que normalmente seria indiferente deixa de sê-lo se fizer pecar a um irmão mais fraco. ―É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer‖ (Rm 14:21). Terceiro, qualquer atividade que em si mesma é indiferente deixa de sê-lo se não puder ser praticada em fé com uma consciência limpa. ―Nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura... Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado‖ (Rm 14:14, 23). Quarto, uma atividade que seja normalmente adiafórica deixa de sê-lo se alguém fica escravizado a ela ou sob o seu poder ou controle. ―Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6:12). “Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam‖ (1Co 10:23). Há muitas coisas lícitas, tais como tortas, Big Mac‘s, balas, Coca-Cola e bons charutos, cujo abuso não edifica. Até mesmo o consumo inadequado de arroz integral pode ser pecaminoso.
[64] John Knox. A Vindication of the Doctrine That the Sacrifice of the Mass Is Idolatry in Works, David Laing, ed. (Edinburgh: The Bannatyne Club, 1854), 3:37-38.
[65] David Dickson. Commentary on the Psalms (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1959 [1653-55]), 1:141-142.
[66] John Calvin. Commentary on the Book of Psalms(Grand Rapids: Baker, 1980), 1:455.
[67] Ibid. 3:353-354.
[68] William S. Plummer. Psalms (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1975 [1867]), 794.
[69] David Clarkson. “Public Worship to be Preferred Before Private” in The Blue Banner (Dallas, TX: First Presbyterian Church Rowlett, julho/agosto, 1999), 1.
[70] Matthew Henry. Commentary (McLean, VA: MacDonald, s.d.), 6:1006.
[71] John Gill. Exposition of the Old Testament(Streamwood, IL: Primitive Baptist Library, 1979 [1810]), 4:579.
[72] Frank Smith, ― An Introduction to the Elements of Worship in Worship in the Presence of God, p. 135.
[73] Matthew Henry. Commentary, 1:536.
[74] A. A. Hodge. The Confession of Faith (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1958 [1869]), 312. 
[75] David Clarkson, 3.
[76] Ibid, 6.
[77] Frank Smith. What is Worship? in Worship in the Presence of God, 14-15. David C. Lachman, ao refutar o argumento do ―dom espiritual‖, faz uma importante observação que é relevante à nossa discussão: Muita ingenuidade é exercida na tentativa de se justificar várias práticas de culto. Muitos têm até argumentado que a música é um dom espiritual, pretextando que a lista dos dons espirituais na Escritura não é exaustiva, mas ilustrativa. Mas, geralmente, tais argumentos defendem apenas uns poucos supostos dons, incluindo normalmente realizações como dança, teatro e até mesmo mágica. Além destas e de outras formas similares de entretenimento, jamais alguém sugeriu que o fato de um cirurgião efetuar uma operação particularmente difícil ou de um bombeiro hidráulico desentupir um cano seja parte do culto, por mais talentosos que sejam. Conquanto todas essas coisas possam ser partes legítimas de nossas vidas, a Escritura não sugere em parte alguma que Deus se agrada de qualquer uma delas quando são incluídas como parte do nosso culto. Aquilo que em geral podemos fazer bem em nossa vida para a glória de Deus não tem, por esse motivo, qualquer autorização oficial para que possa ser intrometido no culto a Deus (Christian Liberty and Worship in ibid., 99).

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Autor: Brian Schwertley
Fonte: Sola Scriptura e o Princípio Regulador do culto, pág 63-75. Editora: Os puritanos