terça-feira, 1 de setembro de 2015

Cristianismo e Ciência são opostos?




"O homem é um ser pensante. Não é nos bens que busco a minha dignidade, mas no controle de minha mente. Eu não teria mais capacidade mental pela simples possessão de mais terras. Por intermédio do espaço, o universo me contém e, de fato, me absorve como a um simples borrão. No entanto, é por meio do pensamento que eu compreendo o universo". - Blaise Pascal; Cientista, filósofo, teólogo e matemático cristão.

"Graças te dou, Criador e Deus, pois tu me concedeste esta alegria em tua criação e me alegro com as obras de tuas mãos. Vê, pois, que completei o trabalho para o qual fui chamado. Nele, usei todos os talentos que tu concedestes ao meu espírito". - Johannes Kepler; Astrônomo.

Quando tratamos de ciência somos remetidos imediatamente e diametralmente a dedução de que a ciência aniquila a fé; em nosso recorte aqui, o cristianismo. Mas seria isso realmente procedente? Será que um verdadeiro cristão não pode fazer ciência? Será que o cristianismo condena a ciência? Perguntas como essas são comuns, principalmente entre jovens cristãos que estão prestes a escolher um curso universitário. Visto vivermos hoje em um contexto utilitarista e niilista, que muitas pessoas não estudam mais para crescerem em vários aspectos espirituais, intelectuais, culturais; o que temos são pessoas, inclusive cristãos, que escolhem determinados cursos universitários apenas pelo dinheiro e, às vezes, por qualquer outro motivo, e até mesmo sem motivo nenhum. A corrida utilitária tem sido mais disputada do que a São Silvestre. O que diz a história sobre o cristianismo e a ciência? Diz muito! Houveram cientistas cristãos famosos? Sim, e muitos! Ninguém disse isso na escola, não é? Mas iremos examinar, ainda que brevemente, alguns pontos fundamentais em relação ao cristianismo e ciência. Claro que minha intenção aqui não é fazer um opúsculo sobre história da ciência, mas, minha intenção é ajudar jovens cristãos a conhecerem um pouco da história, bem como poder fazer ciência sem que isso não contradiga a nossa fé e glorifique a Deus.

O que é a ciência? A palavra ciência vem do termo latino scientia, que significa conhecimento. A ciência moderna é uma mistura de dedução e indução, de racionalismo e empirismo, que surgiu no século XVI e deu origem ao que conhecemos como a era científica. E o que o cristianismo tem haver com a era científica? Francis Schaeffer nos diz:

Tanto Alfred North Whitehead (1861-1947) como J. Robert Oppenheimer (1904-1967) enfatizaram que a ciência moderna surgiu a partir da perspectiva cristã do mundo. Whitehead foi um matemático e filósofo extremamente respeitado, e Oppenheimer, após tornar-se diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, em 1947, escreveu sobre uma gama de assuntos relacionados a ciência "[...] Whitehead (em seu livro A ciência e o mundo moderno) disse que o cristianismo é a mãe da ciência, em virtude da 'insistência medieval sobre a racionalidade de Deus".[i]

Não há nada mais falacioso do que dizer que a história nega uma proximidade entre o cristianismo e a ciência, a fé não é antagônica a pesquisa científica. É claro que existirá um antagonismo quando os pressupostos da ciência estão na autonomia da razão, no cientificismo e no historicismo. Nos diz D. James Kennedy: "A religião não foi sempre inimiga da ciência? Não! Além do que, muitos estudiosos concordam que a revolução científica, que teve seu grande momento no século XVII, foi originada em sua maior parte pelo cristianismo reformado".[ii]

No campo científico moderno, diferentemente do que muitos dizem e tocam trombeta nos quatro cantos do planeta, existe uma quantidade considerável de cientistas que acreditam na existência de um Criador.

Em 1916 e 1997 realizaram-se dois estudos famosos que servem de base para essa disputa. O psicólogo americano James Leuda conduziu a primeira pesquisa com cientistas, na qual indagava se eles acreditavam em um Deus que se dispõe a se comunicar com a humanidade, ao menos por meio da oração. Quarenta por cento responderam “sim”, 40% “não” e 20% disseram não ter certeza "[...] Alister McGrath, teólogo, com doutorado em biofísica pela Universidade de Oxford, escreve que a maioria dos vários cientistas incrédulos que conhece são ateus por outros motivos e não por causa da ciência que praticam".[iii]

Ainda colhendo depoimentos sobre a importância do cristianismo no desenvolvimento científico, no excelente livro A Alma da Ciência, Nancy Pearcey e Charles Thaxton nos dizem que:

De acordo com o escritor científico Loren Eiseley, o aspecto curioso do mundo científico em que vivemos é justamente o fato de esse mundo existir. Com frequência, os ocidentais pressupõem, de modo inconsciente, uma doutrina do Progresso Inexorável, como se a simples passagem de tempo conduzisse inevitavelmente a um conhecimento cada vez maior, tão certo como uma noz se transforma numa nogueira. De acordo com Eiseley, Os arqueólogos seriam obrigados a nos dizer, porém, que várias grandes civilizações surgiram e desapareceram sem terem desenvolvido uma filosofia científica. O tipo de pensamento conhecido hoje em dia como científico, com sua ênfase na experimentação e na formulação matemática, surgiu numa cultura específica – a Europa Ocidental – e em nenhuma outra.
Eiseley conclui que a ciência não é, de modo algum, “natural” para a humanidade. A curiosidade sobre o mundo é, de fato, uma atitude natural, mas a ciência institucional é mais do que isso. “Ela possui regras que devem ser aprendidas e práticas e técnicas que devem ser transmitidas de uma geração para outra pelo processo formal do ensino”, observa Eiseley. Em resumo, é “uma instituição cultural inventada, que não se encontra presente em todas as sociedades, e não uma instituição que se pode esperar surgir do instinto humano”. A ciência “exige um tipo de substrato único para se desenvolver”. Sem esse substrato “está tão sujeita à decomposição e à morte quanto qualquer outra atividade humana”. 
Qual é esse substrato singular? Eiseley o identifica, de modo um tanto relutante, como sendo a fé cristã. “Numa dessas estranhas permutações das quais a história oferece raros exemplos ocasionais”, diz ele “foi o mundo cristão que, por fim, deu à luz de maneira clara e sistematizada ao método experimental da ciência propriamente dita.”
Eiseley não é o único a observar que a fé cristã inspirou, de várias formas, o nascimento da ciência moderna. Os historiadores da ciência desenvolveram um respeito renovado pela Idade Média, incluindo uma reverência semelhante pela visão de mundo cristã cultural e intelectualmente predominante ao longo desse período. Nos dias de hoje, os mais diversos estudiosos reconhecem que o cristianismo forneceu, tanto os pressupostos intelectuais, quanto a sansão moral para o desenvolvimento da ciência moderna.[iv]

Somente a cosmovisão do cristianismo poderia propiciar o desenvolvimento da ciência de forma institucionalizada. As demais visões de mundo contrariam e impossibilitavam o surgimento e desenvolvimento da ciência como campo de trabalho do conhecimento, somente uma epistemologia cristã foi capaz de dar ao mundo o que conhecemos hoje como ciência moderna.


Ao pensarmos sobre a questão epistemológica, estamos num campo que concerne à possibilidade do conhecimento, da teoria do conhecimento e da realidade do conhecer e empregar esse saber, esse conhecer é inteiramente ligado ao propósito, ao telos, queira ou não, a ciência tem de ter um viés teleológico, tem de ter uma finalidade. Do contrário, não há propósito nem um motivo para o emprego científico. Ninguém faz ciência por nada, ciência obriga necessariamente a mente para uma finalidade de pesquisa. Essa possibilidade de conhecer, só pode ser defendida a partir de pressupostos cristãos. Se existe uma finalidade, existe uma origem, existe um originador, existe um criador. A ciência só tem sentido se é fundamentada em pressupostos epistemológicos, se não se pode conhecer, por que pesquisar?

Ao dobrar-se sobre a pesquisa científica o pesquisador não deve concluir o inverso sobre a lei e a ordem da natureza. Não deve deduzir que o fato de a natureza possuir leis e ordens, isso aponta para o Deus criador, mas o fato de existir e ser necessário o Deus criador é que gera lei e ordem na natureza. O decreto imutável de Deus não deixa de fora nada em sua criação. Nem as leis da natureza, nem a matemática. Até os resultados de cálculos matemáticos estão sob o decreto de Deus. A verdadeira ciência não contradiz o cristianismo, a verdadeira ciência glorifica o Criador. Mas, como falamos anteriormente, se os pressupostos científicos estão errados, a ciência será má. Se os pressupostos estão corretos, a ciência será boa. A verdadeira ciência exulta: Somente a Deus toda glória!

A Teologia Reformada e a Ciência
           
Como já vimos, a reforma protestante deu grande impulso ao pensamento científico, não é nossa proposta aqui analisar e esquadrinhar historicamente o processo de desenvolvimento e contribuições dadas à ciência a partir da reforma, mas somente pontuar esse fato que é de alta relevância ao nosso argumento. É importante notar que as doutrinas defendidas pela reforma foram de grande valia para o desenvolvimento científico, a exemplo disso temos o conceito de desgraça e caridade em Blaise Pascal que pertenceu a um grupo reformista chamado jansenistas que advogavam conceitos calvinistas em sua doutrina.[v]
            
Tanto a doutrina dos mandatos – espiritual, social e cultural, como a doutrina da depravação total foram importantes no pensamento científico. Podemos frisar o mandato cultural que impele o homem a ler a criação e dominá-la como descrito no Gênesis 1.26-30. A reforma protestante foi uma alavanca para o progresso da pesquisa científica que já tinha considerável expressão na idade média como vimos anteriormente. A proliferação do conhecimento por conta da imprensa e da distribuição de livros que agora estavam sendo distribuídos para o povo, isso inicia-se de forma expressiva com os escritos de Lutero e depois dos demais reformadores, embora já tivéssemos algo expressivo com os pré-reformadores.

As Raízes Cristãs da Ciência

A ciência moderna teve uma força motriz cristã, meu apontamento aqui vai para três grandes pensadores: Johannes Kepler, Blaise Pascal e Isaac Newton, que eram cristãos comprometidos e ninguém em sã consciência no mundo científico pode negar a importância e influência desses três homens no desenvolvimento científico. Johannes Kepler cunhou a frase “Pensando os pensamentos de Deus depois dele” e escreveu: “Uma vez que nós, os astrônomos, somos sacerdotes do grande Deus no que se refere ao livro da natureza, nos será de grande benefício refletirmos, não sobre a glória da nossa mente, mas acima de tudo, sobre a glória de Deus”. Pascal, como já dissemos, foi alguém muito importante e sua epistemologia científica estava baseada na teologia calvinista. Pascal, foi matemático, filósofo e um cientista profícuo. Disse Pascal: “A fé nos diz o que os sentidos não percebem, mas sem contradizer suas percepções. Ela apenas transcende sem contradizer”, ela aponta para o conhecimento de Deus dizendo que:

O Deus dos cristãos não é apenas um Deus autor de verdades matemáticas e da ordem dos elementos. Esta é a noção dos pagãos e dos epicuristas [...] Mas o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, O Deus de Jacó, O Deus dos cristãos é um Deus de amor e consolação.[vi] 

Newton é outro nome que queria mencionar, certa vez ele disse em Principia (Princípios Fundamentais): “O belíssimo sistema do sol, planetas e cometas, só poderia provir da vontade e do controle de um Ser inteligente e Poderoso”.

Outra grande citação de Newton, esta contra o ateísmo dizia o seguinte:

O ateísmo é completamente sem sentido. Quando olho para o sistema solar, vejo a terra na distância correta do sol para receber a quantidade de luz e calor apropriadas. Isso não acontece por acaso.[vii]

E, por fim, Michael Faraday. Ele deu uma das maiores contribuições na área da eletricidade. Faraday descobriu a indução eletromagnética e inventou o gerador. Francis Schaeffer menciona que Faraday pertencia a um grupo de cientistas cuja posição era: “Onde as Escrituras silenciam, nós silenciamos”.[viii]

Chegando ao fim de nosso breve passeio na história da ciência, reproduzo a lista de cientistas criacionistas, descrita por D. James Kennedy em que nos mostra uma pequena parte da influência do ensino bíblico da criação reconhecido na ciência, ainda que não seja regra todo criacionista ser crente na Bíblia, de qualquer forma temos aqui um pressuposto ancorado no Deus Criador.


        Cirurgia anti-séptica – Joseph Lister

        Bacteriologia – Louis Pasteur
        Cálculo e Dinâmica – Isaac Newton
        Mecânica celestial – Johannes Kepler
        Química – Robert Boyle
        Anatomia comparativa – Georges Cuvier
        Ciências da computação – Charles Babbage
        Análise dimensional – Lord Rayleig
        Eletrônica – John Ambrose Fleming
        Eletrodinâmica – James Clerk Maxwell
        Eletromagnetismo – Michael Faradey 
        Energética – Lord Kelvin
        Entomologia de insetos vivos – Henri Fabre
        Teoria de campo – Michael Faraday
        Mecânica dos fluidos – George Stokes
        Astronomia galáctica – William Herschel
        Dinâmica dos gases – Robert Boyle
        Genética – Gregor Mendel
        Geologia glacial – Louis Agassiz
        Ginecologia – James Simpson
        Hidrografia – Matthew Maury
        Hidrostática – Blaise Pascal


Só para citar alguns nomes. Voltamos a pergunta do nosso título – Cristianismo e Ciência são opostos? Não. O cristianismo se opõe a falsa ciência, que baseia-se em falsos pressupostos e, consequentemente, numa epistemologia incoerente com a realidade. Somente o cristianismo pode explicar a realidade, somente a Bíblia pode conduzir o homem à verdade. Por isso, um trabalho científico que desenvolve pesquisa no campo da filosofia natural, precisa ter uma sólida base na revelação especial de Deus, a Bíblia, e dobrar-se ao Deus criador e soberano sobre céus e Terra. Concluo com a famosa frase de um cientista cristão:



"Pensemos os pensamentos de Deus depois dele". - Johannes Kepler


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Notas:

[i] How should we the live?, Old Tamppan: Fleming H. Revell, 1976, p.132.
[ii] E se Jesus não tivesse nascido, São Paulo – SP: Editora Vida, 2001, p.125.
[iii] Fé na era do ceticismo, São Paulo – SP: Editora Vida Nova, 2015, pp. 118,119.
[iv] A alma da ciência, fé cristã e filosofia natural, São Paulo – SP: Editora Cultura Cristã, 2005, pp.15,16.
[v] Havendo interesse da parte do leitor sobre a epistemologia pascaliana, poderá encontrar um excelente estudo sobre o tema no ensaio sobre epistemologia pascaliana do filósofo Luiz Felipe Pondé – Conhecimento na desgraça, editora Edusp.
[vi] Citação extraída do livro E se Jesus não tivesse nascido, São Paulo – SP: Editora Vida, 2001, p.135.
[vii] Ibid., p.136.
[viii] Ibid

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Autor: Thomas Magnum
Fonte: Electus