segunda-feira, 3 de julho de 2017

Como lidar com sentimentos de culpa pelo pecado?



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Ultimamente vivi um período difícil no que diz respeito a sentimentos de culpa. Isso exigiu de mim uma busca por respostas nas Escrituras. Tais respostas trouxeram conforto ao meu coração. Assim, resolvi redigir este artigo a fim de compartilhar aquilo que aprendi para que outras pessoas também encontrem na graça alívio para a consciência pesada. Vou discutir alguns versículos e algumas doutrinas que são de grande relevância ao se lidar com sentimentos de culpa.

A TRISTEZA PELO PECADO

É possível perceber entre os cristãos dois exageros diante do pecado. Alguns cristãos se acostumaram com seus pecados, não tem mais esperança de vencê-los e se entregaram a eles. Já não sentem repugnância, nem lamentam seus erros. Cair e recair em pecados tornou-se algo que não os afeta, ou que não os afeta tanto assim. O cristão verdadeiro, por outro lado, entristece-se profundamente mesmo diante do menor pecado cometido e se mostra resoluto em abandoná-lo. Neste ponto é importante olhar para um versículo:

Quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia.” - Provérbios 28.13

O arrependimento verdadeiro é evidenciado por uma firme resolução de não pecar novamente[1]. O cristão não está meramente decidido a pecar menos, nem a esperar que o tempo passe ou que alguma coisa aconteça para que ele pare de pecar. O cristão está decidido a não pecar mais. O verbo para “abandonar” no hebraico é “azab” e tem os significados de “afastar”, “renunciar”, “recusar”, “remover” e “deixar para trás”. [2] Isso não significa que o arrependimento verdadeiro só ocorre quando a pessoa não volta mais a cometer o mesmo pecado, mas sim que só há arrependimento verdadeiro quando a pessoa está decidida a não mais cometer o pecado do qual está arrependida.

No outro extremo estão os cristãos que tem clareza da culpa pelos seus pecados, mas por outro lado, o perdão lhes parece distante e obscuro. Essa tristeza não os leva a abandonar seus pecados, na verdade geralmente tem o efeito contrário. A graça de Deus é tão obscurecida pela tristeza que a pessoa não encontra esperanças de que seu pecado possa ser removido e abandonado. Assim descreveu Spurgeon essa condição:

“A Graça está ali, é verdade, mas o Medo cega a melhor natureza, e fixa seu olhar somente no corpo dessa morte. Olhar para a velha natureza raramente é uma operação prazerosa, especialmente se esquecermos que ela foi crucificada com Cristo. Eu suponho que, se qualquer um de nós pudesse ver o seu próprio coração da maneira como ele realmente é, ele enlouqueceria.” – Charles Spurgeon [3]

As certezas bíblicas sobre o perdão de Deus devem sujeitar nossos sentimentos. Duas passagens bíblicas são de relevância neste ponto:

A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte.” - 2 Coríntios 7.9

No seio da igreja de Corinto havia cristãos cometendo graves pecados. Até mesmo um irmão estava envolvido em um caso incestuoso e precisou ser disciplinado (1 Coríntios 5.1-13). Quando demonstrou genuíno arrependimento, Paulo orientou que a igreja deveria acolhê-lo “para que ele não seja dominado por excessiva tristeza.” (2 Coríntios 2.7). As duras exortações de Paulo produziram tristeza nos coríntios (v.8) e essa tristeza serviu para o propósito de gerar arrependimento (v.9). Esse arrependimento, por sua vez, produziu zelo (v.10). 

Esse objetivo da tristeza pelo pecado também pode ser observado em Salmos 32. Enquanto o pecado não é confessado, o coração do cristão se enche de tristeza (vv. 3,4), essa tristeza leva ao arrependimento e à confissão, de modo que a culpa do pecado é perdoada (v.5), isso, por sua vez, produz alegria (vv.1,2). A ordem que aparece nessas passagens é: (i) tristeza pelo pecado, (ii) confissão e arrependimento e (iii) alegria pelo perdão e zelosa dedicação à Deus. Assim, o sentimento de tristeza cumpre uma função específica – levar ao arrependimento e à confissão do pecado cometido. Após isso não há mais motivo para tristeza, mas sim para alegria. Paulo fala de outro tipo de tristeza diante do pecado, “a tristeza segundo o mundo” que produz remorso e morte. Essa é a tristeza que conduz à falta de fé no perdão de Deus [4]. Os cristãos devem lutar contra sentimentos de culpa e tristeza dessa natureza.

O ERRO DA AUTOPUNIÇÃO

É comum o ódio pelo nosso pecado se converter em ódio a nós mesmos. A coisa mais difícil é aceitar que Deus graciosamente perdoa os nossos pecados. Sentimos uma necessidade de nos punir pelo que fizemos e fazemos isso nos ferindo com uma tristeza excessiva e desnecessária. Por que fazemos isso? O inciso II do capítulo VII daConfissão de Fé de Westminster pode esclarecer isso:

“O primeiro pacto feito com o homem era um pacto de obras; nesse pacto foi a vida prometida a Adão e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita obediência pessoal.” [5]

Este é o estado natural do homem – estar sob as exigências de um pacto de obras. Todo homem não regenerado está debaixo do pacto de obras e não pode cumpri-lo. Isso certamente é desesperador. Naturalmente os homens sabem que precisam ser severamente punidos. A situação dos cristãos, porém, é outra. Deus estabeleceu com eles um pacto de graça (CFW VII.III), ainda assim os cristãos naturalmente acabam agindo como se ainda estivessem sob um pacto de obras, pois esse é o estado original do homem. É importante dar uma olhada em outro versículo agora:

Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus.” - 2 Coríntios 5.21

Jesus se tornou pecado por nós mesmo sem ter pecado. Isso significa que ele se tornou pecado não ontologicamente, mas sim por imputação, assim como nós nos tornamos justos, não ontologicamente (de fato, continuamos pecadores), mas sim por imputação. Uma ilustração pode esclarecer essa questão: 

Imaginemos uma escola em que os alunos para serem aprovados precisam ter a nota máxima. Pensemos em dois alunos: o aluno A foi tão mal na prova que possui uma nota negativa. O aluno B foi perfeito e possui a nota máxima ( +10). Quando o professor vai declarar quem será e quem não será aprovado, o aluno B pede ao professor que a nota do aluno A seja imputada a ele e que a nota dele seja imputada ao aluno A. Assim, o aluno A é declarado aprovado como se tivesse a nota máxima, enquanto o aluno B recebe a reprovação que deveria ser recebida pelo aluno A por sua nota negativa. É isso que Paulo está dizendo, a nossa nota negativa (nossos pecados) foram imputados a Cristo, o qual pagou a penalidade que nos cabia, enquanto a justiça perfeita de Cristo foi atribuída a nós e, por isso, Deus olha para nós como se nunca tivéssemos cometido um pecado sequer.

Temos duas doutrinas importantes nesse verso. A primeira é a doutrina da expiação (“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado”). Cristo sofreu vicariamente (em nosso lugar) toda ira e punição pelos nossos pecados e assim proveu o pagamento que satisfez a justiça de Deus[6]. Dessa forma, nem mesmo Deus nos pune por nossos pecados, pois nossos pecados já foram punidos em Cristo. Por isso, a autopunição é uma afronta à suficiência do sacrifício de Cristo: “Permitir-nos a auto depreciação, e o sentimento como que de pagar uma penitência para Deus pelo pecado, é uma tortura triste e errônea. É falsa, é uma opressão ímpia”[7]. A correção divina deve ser vista como uma disciplina amorosa e paternal na vida dos crentes, nunca como uma punição por seus pecados (Hebreus 12.7)[8].

A outra doutrina presente no texto é a da justificação (“para que nele nos tornássemos justiça de Deus.”). Somos objetivamente declarados justos com base na obediência perfeita de Cristo e nos apropriamos subjetivamente da justificação através da fé: “nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé” (Confissão de Fé de Augsburgo, artigo 4)[9]. Diante do tribunal de Deus somos vistos como se nunca tivéssemos cometido um só pecado sequer [10]. Isso deve ser suficiente para banir o peso de qualquer culpa de nossos ombros. Não há consciência tão pesada que não possa ser aliviada por Cristo.

O SENTIMENTO DE HIPOCRISIA

Como já vimos, o verdadeiro arrependimento produz zelo, dedicação e alegria. (Salmos 32.1-2; 2 Coríntios 7.10). Tristeza, remorso e culpa excessivos podem nos levar a um sentimento de hipocrisia que nos faça afastar da igreja, negligenciar as orações e nossos deveres espirituais. Podemos nos sentir muito impuros para orar ou fazer algo para Deus. Outras vezes queremos nos esconder de todos pelo sentimento de vergonha e hipocrisia. Um entendimento bíblico do que é hipocrisia pode corrigir isso. Vamos dar uma olhada em outro texto das Escrituras:

“...então você, que ensina os outros, não ensina a si mesmo” - Romanos 2.21

Paulo fala da hipocrisia dos judeus. Eles se orgulhavam de ser o povo da lei (v.17), consideravam-se superiores (v.18) e instrutores iluminados (v.19, 20). No entanto, racionalizavam seus pecados. Diziam-se contra o furto, mas achavam que a desonestidade nas relações comerciais com os gentios não era pecado (v.21). Pregavam que o adultério era imoral, mas escusavam-no com uma doutrina falsa sobre o divórcio (Mateus 19.9). Condenavam a idolatria, mas consideravam correto o uso de artefatos idólatras para fins comerciais e não viam problemas em apropriar-se deles como saque (v.22). Desse modo, os judeus hipócritas davam mau testemunho levando as pessoas a blasfemarem contra Deus (v.24)[11]. 


Assim, um hipócrita é alguém que (i) se orgulha soberbamente de sua santidade exterior; (ii) condena o pecado nos outros, mas não olha para seus próprios pecados (confira: Mateus 7.1-5); (iii) não considera seus comportamentos imorais como pecado, ao invés disso racionaliza-os e arruma desculpas para cometê-los sem que isso lhes afete a consciência e (iv) dão um mau testemunho levando os descrentes a blasfemarem contra Deus. Um pecador verdadeiramente arrependido não se encaixa nessas características e, portanto não deveria deixar que o sentimento de vergonha e hipocrisia prejudicasse seu zelo e sua dedicação a Deus.

DÚVIDAS SOBRE A PRÓPRIA SALVAÇÃO

Todo cristão deve lutar para ter plena certeza da sua salvação de forma que possa servir melhor a Deus. Veja como o Catecismo Maior de Westminster trata essa questão na pergunta 81:

Têm todos os crentes sempre a certeza de que estão no estado da graça e de que serão salvos?
A certeza da graça e salvação, não sendo da essência da fé, crentes verdadeiros podem esperar muito tempo antes do consegui-la; e depois de gozar dela podem sentir enfraquecida e interrompida essa certeza, por muitas perturbações, pecados, tentações e deserções; contudo nunca são deixados sem uma tal presença e apoio do Espírito de Deus, que os guarda de caírem em desespero absoluto.[12]

Calvino escreveu:

“Nós, de fato, enquanto ensinamos que a fé deve ser certa e segura, não imaginamos alguma certeza que jamais possa ser tangida por alguma dúvida, nem uma segurança que não possa ser atingida por alguma inquietude; senão que, antes, dizemos que os fiéis têm perpétuo conflito com sua própria desconfiança. Tão longe está de que coloquemos sua consciência em algum plácido repouso, o qual não seja absolutamente importunado por nenhuma perturbação! Todavia, por outro lado, de qualquer maneira que sejam afligidos, negamos que decaiam e se apartem daquela segura confiança que conceberam da misericórdia de Deus.”[13]

Em momentos de dúvidas quanto à nossa salvação devemos orar a Deus para que nos dê essa certeza (1 João 5.13-15). Um pecador arrependido que sente dúvidas quanto à sua própria salvação não precisa se desesperar:

“Há pessoas que não sentem fortemente a fé viva em Cristo, nem confiança firme no coração, nem boa consciência, nem zelo pela obediência filial e pela glorificação de Deus por meio de Cristo. Apesar disso elas usam os meios pelos quais Deus prometeu operar tais coisas em nós. Elas não devem se desanimar quando a reprovação for mencionada nem contar a si mesmos entre os reprovados. Pelo contrário, devem continuar diligentemente no uso destes meios, desejando ferventemente dias de graça mais abundante e esperando-os com reverência e humildade. Não devem se assustar de maneira nenhuma com a doutrina da reprovação os que desejam seriamente se converter a Deus, agradar só a Ele e serem libertos do corpo de morte, mas ainda não podem chegar no ponto que gostariam no caminho da piedade e da fé. O Deus misericordioso prometeu não apagar a torcida que fumega, nem esmagar a cana quebrada. Mas esta doutrina é certamente assustadora para os que não contam com Deus e o Salvador Jesus Cristo e se entregaram completamente às preocupações do mundo e aos desejos da carne, enquanto não se converterem seriamente a Deus.” – Cânones de Dort 1.16[14]

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acredito que as questões consideradas neste artigo são de grande relevância para se lidar com sentimentos de culpa e seus efeitos. O cristão deve ter em mente que nesse mundo ele progride gradualmente num processo de santificação. Cada cristão enfrenta uma luta diária contra suas tendências pecaminosas. Esse processo, embora seja de progresso, não é linear, de modo que cristãos genuínos podem cair mesmo em pecados graves nessa caminhada. Sempre que fracassar, o crente deve buscar o reconfortante e gracioso perdão aos braços do Pai e estar decidido a abandonar seus pecados (Hebreus 4.14-16; 1 João 1.9; 2.2; Provérbios 28.13). É dever e responsabilidade de todo crente fazer morrer tudo o que pertence à sua natureza terrena (Colossenses 3.5). Finalizo com uma declaração da Confissão de Fé de Westiminster:

“O mui sábio, justo e gracioso Deus muitas vezes deixa por algum tempo seus filhos entregues a muitas tentações e à corrupção dos seus próprios corações, para castigá-los pelos seus pecados anteriores ou fazer-lhes conhecer o poder oculto da corrupção e dolo dos seus corações, a fim de que eles sejam humilhados; para animá-los a dependerem mais intima e constantemente do apoio dele e torná-los mais vigilantes contra todas as futuras ocasiões de pecar, para vários outros fins justos e santos”. (CFW V.V)[15]

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Notas:
[1] Joel Beeke – A doutrina da eleição – o arrependimentohttp://www.os-puritanos.com/single-post/2015/12/01/O-Arrependimento-%C2%BB-Joel-Beeke
[2] Bible Hub: http://biblehub.com/hebrew/5800.htm
[3] Charles Spurgeon – Lançai for a o medo:
https://www.projetospurgeon.com.br/2012/01/lancai-fora-o-medo/
[4] Augustus Nicodemus – Arrependimentohttps://www.youtube.com/watch?v=ODJrUrslZfs
[5] Confissão de Fé de Westminsterhttp://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm
[6] Louis Berkhof (2012). Manual de doutrina cristã. São Paulo: Cultura Cristã, p. 63.
[7] Paul Maxwell – 7 Coisas a se fazer depois de olhar pornografia:
http://reformados21.com.br/2016/07/18/7-coisas-a-se-fazer-depois-de-olhar-pornografia/
[8] Franklin Ferreira & Alan Myatt (2007). Teologia Sistemática - VIDA NOVA, p. 624.
[9] Confissão de Ausburgo
http://www.monergismo.com/textos/credos/confissao_augsburgo.htm
[10] Stephen Kaung – Vendo Cristo no Evangelho:
http://www.preciosasemente.com.br/artigo.php?id=154&secao=1
[11] Augustus Nicodemos – A Hipocrisia e Seus Efeitoshttps://www.youtube.com/watch?v=HLSN6cAPMlk&t=39s
[12] Catecismo Maior de Westminster:
http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm
[13] João Calvino. Institutas III.II.17, pp. 41-42:
http://www.protestantismo.com.br/institutas/joao_calvino_institutas3.pdf
[14] Cânones de Dorthttp://www.monergismo.com/textos/credos/dort.htm
[15] Confissão de Fé de Westminsterhttp://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm

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Autor: Bruno dos Santos Queiroz
Divulgação: Bereianos