segunda-feira, 18 de maio de 2015

NEEMIAS 7


Há duas coisas neste capítulo — Primeiro, o governo de Jerusalém, da cidade de Deus, juntamente com a provisão para uma vigilância contínua contra as práticas do inimigo (Ne 7:1-4), e em segundo lugar, a contagem das pessoas segundo a genealogia. (Ne 7:5-73).

Aprendemos a partir do versículo 1 que as portas já tinham sido preparadas "para os portais" (ver Neemias 6:1), e que tudo o que possuía ligação com os muros tinha, portanto, sido acabado (Neemias 6:15). Em seguida, “os porteiros, e os cantores, e os levitas foram nomeados" — uma instrução de muito interesse que é apresentada em poucas palavras. Os porteiros, é quase desnecessário dizer, foram os “guardas dos portões”, aos quais foi delegada a responsabilidade de permitir a entrada apenas daqueles que possuíam permissão legal de adentrar a cidade, e manter fora todos os que não pudessem comprovar a qualificação necessária para estar dentro.Em suma, eles ocupavam uma função das mais importantes, como acontece com os “porteiros” nos dias de hoje. Embora seja verdade, e deva ser insistentemente sustentado, que cada crente — cada membro do corpo de Cristo — tem o seu lugar, por exemplo, na Ceia do Senhor, os"porteiros" da assembleia têm a responsabilidade de observar as evidências de que os que estão ali são realmente o que dizem ser. (Veja Atos 9:26, 27; 1 Pedro 3:15.) Desleixo ou negligência neste sentido tem produzido as mais graves consequências em muitas assembleias, chegando, em alguns casos, a destruir todo o testemunho de Cristo e levando à desonra de Seu santo nome. Essa questão é tão grande importância que deveriam ser encarregados de tal trabalho apenas homens fiéis e de confiança, especialmente em dias de uma profissão de fé que é apenas exterior, quando todos dizem ser cristãos. 

Havia "cantores" também. A função deles pode ser vista em outro lugar."Estes são”, lemos, “os que Davi constituiu para o ofício do canto na casa do Senhor, depois que a arca teve repouso. E ministravam diante do tabernáculo da tenda da congregação com cânticos, até que Salomão edificou a casa do Senhor em Jerusalém; e serviam, segundo o seu ministério, segundo sua ordem.” (1 Crônicas 6:31-32). O salmista faz alusão aos cantores, quando diz: “Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente. (Selá)” (Salmos 84:4). Essa era a ocupação dos cantores — louvando ao Senhor "dia e noite" (1 Crônicas 9:33); uma sombra do serviço perpétuo dos redimidos no céu (Apocalipse 5); um serviço abençoado (se é que isso pode ser chamado serviço), o qual é um privilégio da Igreja antecipado na terra, enquanto se espera o retorno de nosso bendito Senhor. (Ver Lucas 24:52, 53.) Por fim, havia levitas. De seu trabalho é dito que " seus irmãos, os levitas, foram postos para todo o ministério do tabernáculo da casa de Deus”(1 Crônicas 6:48). Tendo sido portões e portas estabelecidos, e os porteiros posicionados em seus devidos lugares, o primeiro pensamento do Senhor é para os cantores, e em seguida, vêm os levitas para executar o serviço necessário em conexão com a Sua casa. A ordem exata da menção dessas três classes é, portanto, instrutiva, e mostra, ao mesmo tempo, quão zeloso era Neemias das reivindicações do Senhor sobre o seu povo, e quão cuidadosamente ele procurou, na sua dedicação ao serviço do Senhor, reconhecer Sua supremacia e render-Lhe a honra devida ao Seu nome. 

Tendo sido essas coisas arranjadas, ele diz: “Eu nomeei a Hanani, meu irmão, e a Ananias, líder da fortaleza, sobre Jerusalém; porque ele era homem fiel e temente a Deus, mais do que muitos” (Neemias 7:2). Não está claro, a partir das palavras em si, se esta descrição se aplica a Hanani ou Ananias (v. 2.); mas julgamos que seja a respeito de Hanani, pois, ele foi usado, juntamente com outros, para demonstrar a compreensão da condição do remanescente e de Jerusalém, e tal compreensão se tornou, nas mãos de Deus, os meios da missão de Neemias. (Neemias. 1) Nada poderia indicar mais distintamente o olhar simples de Neemias no serviço de seu Mestre. Hanani era seu irmão, mas ele o nomeou para este cargo, não porque ele fosse seu irmão, ou um homem de influência, mas porque "ele era um homem fiel e temente a Deus acima de muitos." É assim, e também pelas direções divinas estabelecidas através do apóstolo Paulo, que o Senhor nos ensina o que deve caracterizar aqueles que tomam a frente entre o Seu povo; e, especialmente, aqueles que ocupam lugares de destaque ou cuidado no governo. Não é suficiente que eles sejam homens com dons, com alguma posição ou influência; mas eles devem ser fiéis — fiéis a Deus e à Sua verdade — e eles devem ser distinguidos por temerem, não aos homens, mas a Deus, agindo como à Sua vista e sustentando a autoridade de Sua Palavra. 

O próprio Neemias deu instruções para o exercício da vigilância e cuidado sobre a cidade em primeiro lugar, os portões não deveriam ser abertos até que o sol estivesse quente. Enquanto houvesse escuridão, ou qualquer indício dela, os portões deveriam ser mantidos fechados contra os"príncipes das trevas deste século” (Efésios 6:12), porque a noite é sempre o momento de sua maior atividade. Em contraste com isso, lemos da Jerusalém celestial que “...as suas portas não se fecharão de dia, porque ali não haverá noite.” (Apocalipse 21:25) ou seja, elas deverão ficar perpetuamente abertas, porque o mal e as forças do mal terão desaparecido para sempre. Em seguida, "...enquanto os que assistirem ali permanecerem, fechem as portas" (Neemias 7:3). Os porteiros não poderiam se ausentar de seus postos nem delegar seus deveres para outros, mas eles mesmos "a postos" deveriam verificar se as portas estavam fechadas e trancadas. Muitas casas têm sido saqueadas porque a porta não tem estado "trancada" e muitas almas têm permitido o inimigo adentrar porque suas várias "portas" não foram mantidas em segurança. No entanto, não era suficiente que as portas de Jerusalém fossem mantidas fechadas. Uma vez que o inimigo estava envolvido, elas também deveriam ser trancadas para que o inimigo fosse mantido fora. Aprendemos com isso a necessidade imperativa de guardar as portas, quer da alma ou da assembleia. 

E assim, em último lugar, "... ponham-se guardas dos moradores de Jerusalém, cada um na sua guarda, e cada um diante da sua casa” (Neemias 7:3). Duas coisas de grande importância são aqui indicadas. A primeira é que nem um único habitante de Jerusalém estava isento da responsabilidade de exercer vigilância sobre os interesses da cidade. Cada um deveria estar em seu lugar de vigilância. O vigia deveria ser devidamente ordenado, e todos deveriam estar disponíveis em seu turno. Em segundo lugar, cada um deveria manter a guarda defronte de sua própria casa juntando as duas coisas, todos estavam preocupados em manter vigilância sobre toda a cidade, mas esta estaria segura se cada um vigiasse a sua própria casa. Isso é evidente, pois se a cabeça de cada família mantivesse o inimigo — o mal — do lado de fora de sua casa, Jerusalém seria preservada em sua separação para Deus. Se cada habitante da cidade agisse assim tornaria a cidade segura como um todo. Como seria bom se esta verdade fosse aprendida na igreja de Deus! A assembleia, assim como Jerusalém, é composta de indivíduos, de muitos chefes de família. Qualquer que seja o vínculo íntimo de união entre os membros do corpo de Cristo e o seu estado, sua condição pública (se é que este termo é admissível), simplesmente reflete a condição de todos. Se, portanto, a disciplina de Deus não for mantida em casa, também não será mantida na igreja. O desleixo em uma esfera produz desleixo na outra. O mundanismo em um lugar produzirá mundanismo também no outro. Por isso o apóstolo escreve, por exemplo, que um bispo deve ser uma pessoa “que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?”) 1 Timóteo 3:4-5.Seria de fato mostra de ousada presunção se aquele cuja casa está em desordem arrogar para si um lugar de governo na assembleia, e tal situação seria o mesmo que levar para a assembleia o mesmo mal do qual sua casa é o palco. Se, por outro lado, a ordem de Neemias fosse atendida — cada um mantendo a guarda e custódia de sua própria casa — a assembleia seria a referência de ordem, segurança e santidade para a glória de Deus. 

Em seguida segue uma nota a respeito da cidade. "E era a cidade larga de espaço, e grande, porém pouco povo havia dentro dela; e ainda as casas não estavam edificadas"(Neemias 7:4). Este é, sem dúvida, um testemunho do fracasso. A obra de Deus para aqueles dias era construir os muros da cidade, e isso, como vimos, havia sido realizado através da fé e perseverança de Neemias, apesar das dificuldades de todo tipo. A verdade de Deus, pois, agora estava relacionada à manutenção do muro e os três primeiros versos nos revelam a provisão feita para esse fim. Mas Neemias agora nos informa que embora a cidade fosse grande, o povo dentro dela era pouco. Ora, o testemunho em qualquer época reúne — e é certo que o verdadeiro testemunho sempre reúne — a Cristo a quem o testemunho tem como seu centro. Poucos, então, estavam reunidos àquilo que havia sido dado por intermédio de Neemias. A trombeta tinha sido tocada para a convocação da assembleia (Números 10), e pela graça alguns tinham respondido à sua convocação; mas a maior parte do povo, como no início do ministério de Ageu, estava ocupada com suas próprias coisas e não com as coisas do Senhor (Veja Filipenses. 2:21). Além disso, "as casas” — daqueles que estavam reunidos — “não estavam edificadas". Esta primeira responsabilidade tinha sido negligenciada, e seria, portanto, uma fonte permanente de mal. Tão logo os filhos do cativeiro retornaram eles começaram a construir suas próprias casas negligenciando a casa do Senhor; e agora, quando tinha chegado o momento de construir suas próprias casas eles também negligenciaram isso. Tal é o homem e tal é o povo de Deus, pois quando andam como homens nunca estão em comunhão com a mente do Senhor. Os que estão na carne, e esse princípio se aplica ao cristão que é governado pela carne, não podem agradar a Deus. Se alguém perguntar como nos dias de hoje as suas casas devem ser edificadas,: a resposta é que devem estabelecer a autoridade do Senhor sobre todos os membros dessa casa e, especialmente, trazer os filhos na disciplina e admoestação do Senhor. (Efésios 5:22, 6: 1-9; Colossenses 3:18, 4). 

Agora que Neemias já havia dado as instruções necessárias para guardar a cidade da invasão do mal, ele passa à ordenação das pessoas. Mas ele tem o cuidado de deixar claro que este não era seu próprio pensamento. Ele diz: "Então o meu Deus me pôs no coração que ajuntasse os nobres, os magistrados e o povo, para registrar as genealogias...” (Neemias 7:5). Isso nos dá um vislumbre da intimidade de sua caminhada com Deus. Ele é o "meu" Deus. Tal era a relação que tinha com Ele, e somente essa fé e experiência O poderiam reconhecer dessa forma (compare 1 Cr 28:20, 1 Cr 29: 2, 3; Fp 4:19...); e Ele era o Único em cuja presença ele tão constantemente permanecia, que podia discernir imediatamente o pensamento que Ele próprio tinha colocado dentro de seu coração. E o objetivo em vista era examinar o direito do povo de estar no lugar onde estavam. Com o comércio constante entre eles e o inimigo, e as alianças que tinham formado, esquecendo-se de que o Senhor os tinha escolhido dentre todos os povos sobre a terra como Seu povo peculiar, não há dúvida que haveria muitos que não poderiam mostrar a sua genealogia e, portanto, não tinham o direito de ser contados com Israel. Agora que o muro tinha sido construído, e a verdade, portanto, da separação proclamada, essa mistura não poderia mais ser tolerada. Aqueles que ocupassem aquela terra santa, e proclamassem os privilégios abençoados da casa de Deus, deviam ter um título irrevogável, e este é o significado deste próximo passo de Neemias. O trabalho, no seu caso, não foi difícil, pois ele disse: "... achei o livro da genealogia dos que subiram primeiro e nele estava escrito o seguinte...” (Ne 7:5) e por esse registo foi fácil verificar se os que estavam dentro do recinto sagrado dos muros reconstruídos e se aqueles que deveriam solicitar a admissão eram todos de Israel.