domingo, 7 de dezembro de 2014

A NTLH é legado da Reforma


Gutemberg, ao inventar a imprensa, escolheu a Bíblia para ser o primeiro livro impresso da história. A Bíblia se tornou, reconhecidamente em todo o mundo, o livro mais publicado, mais lido e traduzido para o maior número de idiomas de todos os tempos. Poder-se-ia ainda dizer que a Bíblia tornou-se o livro mais estudado, maior fonte de citações e principal objeto de estudos acadêmicos e devocionais no mundo todo!

Sua origem, quanto à autoria e datação, é um pouco obscura, os relatos mais antigos provavelmente vêm da tradição oral, registrados em escrita em datas muito posteriores. Considerando um cânone mais ou menos estabelecido do Pentateuco por volta de 445 a.C, seu idioma era o hebraico - a língua do povo judeu. Após o exílio babilônico que o povo judeu, autores e donos da história que a Bíblia se propõe narrar, amargou durante o século VI a.C, o Antigo Testamento recebeu uma tradução para a nova língua do povo pós-exilado: o aramaico. Podemos ver isso claramente relatado na própria Bíblia, em Neemias 8:7-8, lemos:


Também Jesuá, Bani, Serebias, Jamim, Acube; Sabetai, Hodias, Maaséias, Quelita, Azarias, Jozabade, Hanã, Pelaías e os levitas explicavam ao povo a lei; e o povo estava em pé no seu lugar. Assim leram no livro, na lei de Deus, distintamente; e deram o sentido[1], de modo que se entendesse a leitura.[2][grifo nosso]

Um povo que deixou de falar a sua própria língua, forçado a adotar o idioma da nação dominadora, precisava manter a fé e a tradição por meio da leitura do livro sagrado na língua que adotaram.

Não muito tempo depois, esse mesmo povo sofreu o domínio de Alexandre o Grande, e o idioma grego se tornou a nova língua do dia a dia. Como apenas uma minoria sabia ler o hebraico e algumas comunidades judaicas só podiam ler o grego, uma nova tradução dos textos sagrados foi necessária. Surgiu, então, a Septuaginta - a tradução da Bíblia hebraica para o grego.

Entre o segundo século antes de Cristo e o quinto século depois, os judeus produziram um conjuntos de escritos conhecidos como Targuns. A Bíblia hebraica era traduzida para o aramaico, parafraseada e expandida. Eliminavam no processo as dificuldades causadas por antropomorfismos e passagens obscuras. Ocasionalmente, acrescentavam comentários ou até correções ao texto hebraico.[3]

Ainda nos primórdios do cristianismo, Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim[4], a língua do novo império dominador: os romanos. Mais tarde, no advento da reforma protestante, Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão[5]. Além de unificar e estabelecer a língua alemã através da Bíblia em alemão, Martinho Lutero assumiu o compromisso, pioneiro entre protestantes, de não só traduzir a Bíblia das línguas originais para o Alemão, mas de entregar ao povo alemão a Bíblia numa linguagem acessível ao povo. Ele desejava entregar uma tradução tão natural e simples que um leitor alemão jamais suspeitaria que Moisés, na verdade, falava hebraico! Ele queria que as pessoas ouvissem a Bíblia falar com elas como uma mãe fala com seu filho, com toda a simplicidade e ternura.

É possível perceber, com breve análise da história da Bíblia, que a tradução do livro sagrado, tanto para judeus como para cristãos, na língua corrente do povo, é fato incontestável. Podemos, portanto, dizer que a tradução da Bíblia para o acesso do maior número de leitores sempre fez parte dos planos da providência divina, para que o maior número de pecadores tivessem livre e facilitado acesso a sua revelação e boas novas de salvação para uma humanidade perdida.

João relata sua visão no livro de Apocalipse, capítulo 7 verso 9, cujo cenário contempla uma multidão de cristãos de línguas diversas.


“Depois destas coisas olhei, e eis uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que estavam em pé diante do trono e em presença do Cordeiro, trajando compridas vestes brancas, e com palmas nas mãos.”

O próprio advento do pentecostes, narrado em Atos dos Apóstolos capítulo 2 versos 4 e 5, que marca o fim do judaísmo e o início do cristianismo, tem o anunciar das maravilhas de Deus em diversas línguas como um fenômeno sobrenatural que aponta para uma mensagem de salvação da parte de Deus sem discriminar, por meio do idioma, quem a recebe com fé. 


“E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. Habitavam então em Jerusalém judeus, homens piedosos, de todas as nações que há debaixo do céu. Ouvindo-se, pois, aquele ruído, ajuntou-se a multidão; e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.”

Como seria possível hoje, diante de tal realidade, aceitar um cristianismo que faz acepção de pessoas, não pelo idioma que falam, mas do nível de erudição que as pessoas têm de sua própria língua? Isso é certamente inaceitável! 

A tradução da Bíblia para a língua do povo faz parte de sua própria história. Foi preocupação constante para a religião judaico-cristã. Os primeiros cristãos leram as cartas do apóstolo Paulo no grego coiné, não era o grego clássico, elitizado, dos poetas e filósofos; a língua receptora das Boas Novas de Jesus Cristo foi o grego comum, o grego do povo! A tradução, para a língua do povo, de forma facilitada, acessível às pessoas comuns, foi o exemplo deixado pelo fundador do protestantismo. Essa preocupação de Lutero deveria ser a missão do cristianismo protestante! 

A Nova Tradução na Linguagem de Hoje, obra realizada pela Sociedade Bíblica do Brasil, pode ser o cumprimento da missão deixada por Lutero, um fruto de seu legado, parte da providência divina. Todavia, encontramos forte oposição dos cristãos protestantes para a aceitação e utilização dessa tradução nas igrejas e seminários. Um país de educação formal deficiente e ainda muito carente de Cristo e seu amor não pode ter uma igreja com sua obra missionária e doutrinária limitada e dificultada pelo preconceito. Precisamos deixar o convencionalismo de lado para valorizar a importância e empregabilidade da NTLH para o evangelismo e desenvolvimento da maturidade cristã no Brasil hodierno.



[1] A NTLH traz: “Eles iam lendo o Livro da Lei e traduzindo; e davam explicações para que o povo entendesse o que era lido." O vocábulo hebraico, além do próprio contexto, sugere que a Lei era traduzida do hebraico para o aramaico para facilitar a compreensão do povo, que deixou de falar o hebraico durante o exílio na babilônia, absorvendo completamente a língua aramaica da Assíria, tendo o hebraico preservado apenas pela elite com maior erudição. As sucessivas dominações e imposições estrangeiras quanto ao uso da língua, primeiro o aramaico e depois o grego com a dominação de Alexandre o Grande e seus sucessores, levou a preservação do hebraico a um estado tão crítico que os massoretas a partir do século VI d.C. precisaram convencionar símbolos para registrar a vocalização das palavras contidas na Bíblia hebraica. A correta pronúncia (vocalização) das palavras, pelo desuso da língua, estava sendo esquecida!
[2] Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição – SBB.
[3] Manual do Seminário de Ciências Bíblicas. Barueri, SP – SBB, 2008, p. 44-45.
[4] Manual do Seminário de Ciências Bíblicas. Barueri, SP – SBB, 2008, p. 47.
[5] Manual do Seminário de Ciências Bíblicas. Barueri, SP – SBB, 2008, p. 49.


André R. Fonseca