domingo, 7 de dezembro de 2014

Carta a uma jovem irma - Theodosia Powerscourt

Carta escrita pela Sra. Theodosia Powerscourt por volta de 1930.
Uma afetuosa advertência a uma jovem irmã 

Querida ____,
Eu não desconheço o que significa desistir de alguém que é muito amado, nem tampouco desconheço a paz que se segue quando a alma ferida se entrega nos braços de amor eterno de Jesus. Apesar do conflito doloroso de desistir dele, isso é algo pequeno e fácil, se comparado com aquilo que ambos irão colher se você não desistir.


Se você se casar com ele, você jamais será capaz, como uma crente, de preencher as elevadas expectativas de felicidade neste mundo, as quais ele espera obter com a união matrimonial dele com você. Você acha que pode andar consistentemente com o Senhor Jesus e com este mundo ao mesmo tempo?
Não se zangue comigo por falar dele como um incrédulo. Se a Bíblia é verdadeira, existe um inimigo enraizado dentro dele, e embora ele possa admirar “a religião de Jesus” a uma certa distância, ele não pode gostar o suficiente para estar em constante contato por toda a sua vida.
As conversões a Cristo baseadas em romances não são confiáveis. Não quero dizer que o Sr.____ seja um hipócrita, porque o amor dele por você o induz a amar tudo o que você ama, sem que haja realidade em seu coração. Oh, pense! Como você irá falar do seu amado Jesus a ele, sem que isso o induza a expressar os mais fortes sentimentos de insatisfação? Pois o seu coração não está completamente envolvido com tudo aquilo com que o dele está.
Acaso seria felicidade matrimonial para você desprezar as ocupações mundanas dele enquanto ele despreza as suas ocupações cristãs? Seria verdadeira felicidade matrimonial que você se alegrasse nas promessas gloriosas enquanto este mesmo gozo seria a sua maior tristeza quando você se lembrasse de que seu marido, mais querido para você que sua própria alma, não tem parte nesse assunto? Seria felicidade matrimonial saber que toda vez que ele sai de casa, ele o faz sob condenação, sem Deus e sem esperança neste mundo? E você consideraria um grande gozo descobrir que sua obediência a ele como seu cabeça a direcionaria a um caminho, enquanto as suas ocupações espirituais com Cristo levariam você a desobedecer a vontade daquele que, justamente, espera que você obedeça?
Pelo que eu ouvi dizer o Sr.____ é um homem dócil e bem intencionado. Mas se você esperou pelo consentimento de seu pai terreno para este casamento, por que não esperar também pelo consentimento de seu Pai celestial? E você não é tola para achar que, porque Deus “pretende” salvá-lo e poderia usar você como meio para isso, você poderia assim desobedecer a vontade de Deus? De quem é o trabalho da conversão? Acaso Deus requer de você que “faça o mal para que Ele faça o bem”?
Você se deu a ele antes que ele conhecesse o Senhor e então esperou que o Senhor ouvisse as suas orações por ele achando que isso seria esperar por uma graça abundante. Mas é realmente presunção e vontade própria que você, com os olhos abertos, se una a ele e então espere que, uma vez que você não se ajustou à vontade de Deus, Deus irá se ajustar à sua. Se os israelitas eram encorajados repetidamente a não se misturar com os gentios para que não aprendessem seu modo de ser e acabassem sendo muitas vezes castigados por seu pecado, não estaríamos nós correndo o mesmo perigo ao tomar um incrédulo como companheiro — aquele que será nosso guia, conselheiro, companheiro, em quem nós depositamos todo nosso cuidado, alegria e tristeza, e a quem prometemos obedecer?
Acaso Salomão, com toda a sua sabedoria, conduziu suas esposas pagãs no bom caminho ou foram elas que o conduziram pelo mau caminho? A natureza humana não mudou! Será que a luz e as trevas têm agora mais comunhão do que tinham quando o apóstolo Paulo escreveu, por divina inspiração, “que comunhão há entre a luz e as trevas”? Por que será que o apóstolo Paulo nos ordenava a casar “somente no Senhor”?
Eu não nego que o Sr.____ possa um dia se tornar um testemunho brilhante para o Senhor, mas se isso acontecer ou não, eu acho que seria uma grande presunção de sua parte, na sua presente condição espiritual, casar-se com ele. Seu argumento a respeito deste assunto é ainda mais estranho. Você se dispõe a andar no fogo e ao mesmo tempo pede para orar por você para que não se queime! Você acharia razoável eu me render à loucura e ao pecado desse mundo e então pedir a você para orar para que eu não caísse em tentação?
O Senhor diz, “se me amardes, guardareis os meu mandamentos”. Abraão teve uma dolorosa prova de fé quando foi chamado a oferecer seu amado Isaque. Teria ele provado seu amor por Jeová se ele tivesse dito, “eu não posso fazer isso, mas se o Senhor o tirar de mim, eu me conformarei”? A prova da fé deve ser mais preciosa do que ouro, deve ser provada no fogo e se provará a si mesma ao abandonar o ídolo, não em se “conformar” com a situação caso lhe seja negado pelo Pai.
Você me diz que já prometeu se casar com o Sr.____. Isto eu considero como uma cilada do mundo. Você fez uma promessa que não tinha direito algum de fazer e, consequentemente, não tem nenhum direito de mantê-la.
O Senhor diz a você, “dá-me o teu coração”. O Sr.____ diz a você “dá-me o teu coração”. O Senhor diz, “se você me der todo o seu tempo, talentos — tudo — sem o coração, de nada adiantará”. O Sr. ____ diz a mesma coisa. Você responde, “eu o darei a ambos”. Mas pare!
Quem é que diz, “podem dois andar juntos sem concordarem”? E quem é Aquele que diz que Ele não repartirá o coração com Belial? “Escolha hoje a quem sirvais”. Oh! Que você possa ser capaz de responder em seu modo de agir, ao invés de meras palavras: “Senhor, Tu sabes todas as coisas; Tu sabes que Te amo”.

Theodosia Powerscourt