quarta-feira, 21 de maio de 2014

Objeções às Doutrinas dos Decretos e da Predestinação de Deus 2/2


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por Rev. Samuel Falcão


2. A segunda objeção às doutrinas dos decretos e da pre­destinação de Deus é que elas equivalem a fatalismo.

No caso de Paulo e seus companheiros na viagem tormentosa a Roma já vimos que a predestinação não é fatalista. “O fatalismo sus­tenta que todas as coisas acontecem por via de uma força cega, estúpida, impessoal, amoral, que não se distingue de necessidade física e que nos arrasta indefesos pela sua força como um caudaloso rio arrasta um pedaço de madeira”. Predestinação é o decreto inteligente, sábio e soberano de um Deus bom e po­deroso, que tem como desígnio de tudo a revelação de sua gló­ria infinita e a bem-aventurança de seu povo. Segundo o fata­lismo, o homem é irresponsável, visto não ter vontade livre, age como autômato ou máquina. De acordo com a predestinação o homem é agente livre, responsável por seus atos, como vimos na secção precedente. 

“Nossos Padrões não ensinam que “o que tem de acon­tecer, acontece”, e sim que o que Deus decretou e propôs isso acontecerá. A primeira expressão atribui o curso dos acontecimentos a uma necessidade cega, mecânica; a outra o atribui ao propósito inteligente de um Deus pessoal. Uma é fatalidade, a outra é Pre-ordenação, Predestinação, Providência. A Bíblia não diz “o que tem de acontecer, acontece”. Diz: “
Aquilo que está determinado será feito” (Dn.11:36). Diz ainda: “Jurou o Senhor dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, as­sim se efetuará” (Is.14:24). Revela-nos a gloriosa ver­dade de que nossos corações humanos, impressioná­veis, não estão presos nas engrenagens férreas de um Destino amplo e impiedoso, nem no torvelinho louco da Sorte, mas nas mãos onipotentes de um Deus infi­nitamente bom e sábio”. [13] 

“Ninguém pode ser um fatalista coerente. Porque, para ser coerente, precisará raciocinar assim: “Se vou morrer hoje, não me adianta comer, porque de qualquer modo vou morrer. Nem preciso comer, se ainda vou viver muitos anos, porque de qualquer modo viverei. Portanto, não comerei”. Não é preciso dizer, se Deus predeterminou que alguém viverá, também predeterminou livrá-lo da loucura do suicídio por se recusar a comer”. [14] 

3. Uma terceira objeção contra a doutrina da predesti­nação é dizerem que ela anula todos os motivos de sermos dili­gentes.

Esta objeção ignora o fato de que Deus predestina tanto o fim como os meios, como já vimos. O fato de Deus haver ga­rantido que todos os companheiros de Paulo, na viagem tor­mentosa a Roma, seriam salvos, não lhes serviu de razão para não empregarem todos os meios para isso. Algumas pessoas, compreendendo mal o sentido da predestinação, dizem que não é necessário pregar o Evangelho ou orar pelos pecadores, por­que se estes foram predestinados, serão salvos de qualquer mo­do, e se não foram predestinados não adianta pregar nem orar por eles. Esta idéia a respeito da predestinação é tola, porque não sabemos quem são os eleitos, e a ordem de Cristo é pregar a toda criatura. Além disso, até os crentes são exortados a ser diligentes por confirmar sua vocação e eleição (2Pe.1:10). Não que possam modificar o que Deus já decidiu desde toda a eternidade, mas que, para seu próprio conforto, devem viver de tal modo que se convençam de que Deus realmente os cha­mou e elegeu. 

Os frutos práticos do Calvinismo, em toda parte e em todos os tempos, são a melhor resposta a essa objeção. Lede, por exemplo o segundo e o terceiro capítulos do excelente livro do Dr. Egbert Smith “The Creed of Presbyterians” (O Credo dos Presbiterianos) e vereis como é tão sem fundamento esta objeção. O Dr. Temple fez as seguintes observações sobre os que têm crido na predestinação: 

“Tem sido observado frequentemente que a crença na Predestinação não produz, nos que a alimentam com seriedade, o efeito que observadores destacados tendem a antecipar. Comumente supõem que essa dou­trina deve conduzir a torpor moral e espiritual; por­que, se tudo está fixado por decreto divino, que lugar fica para o esforço humano? Não se deve deixar que a Divina Vontade realize seu propósito, como é certo que realizará? Mas a história registra um resultado muito diferente. Sto. Agostinho e João Calvino não foram espectadores indiferentes do drama da ativi­dade divina. João Knox não se contentava em obser­var indolentemente o que a Providência podia fazer que acontecesse na Escócia. Ou, para mencionar um nome mais ilustre, S. Paulo, que teve muito a dizer sobre a passividade do barro nas mãos do Oleiro, não seria ele que aceitasse do seu mestre Gamaliel a dou­trina de que a sabedoria do homem, ante o que en­tende ser um ato de Deus, está em esperar para ver se a história prova essa pretensão. Combateu-a, não acreditando que procedesse de Deus, e “trabalhou mui­to mais do que todos” quando descobriu que estava errado. Saulo, o perseguidor, e Paulo, o missionário são um só na consciência viva de um dever imposto ao homem para que decida e passe a agir”. [15] 

4. Outra objeção é que a Predestinação faz que Deus não seja sincero em oferecer o Evangelho a toda criatura.

Se Ele decidiu escolher alguns para a salvação e deixar os demais em seus pecados, por que então mandou proclamar sua mensagem a todas as criaturas? Em primeiro lugar esta objeção, se vale alguma coisa, aplica-se de igual modo à doutrina arminiana sobre a presciência. Se Deus sabia de antemão que todos não iam aceitar sua mensagem, por que mandou anunciá-la a todos? Dirão os arminianos, “Precisamos pregar a todos porque não sabemos quem são os que Deus previu que aceitarão, e quem os que não aceitarão”. O mesmo podemos dizer da predestina­ção. Nosso é o dever de pregar a todos, porque não sabemos quais foram os que Deus elegeu, nem quais foram os que pre­viu que aceitarão a mensagem de acordo com o ponto de vista arminiano. Predestinar e prever pertencem a Deus, não a nós. 

Deus previu que o povo de Israel não creria na mensagem de Isaias, e não obstante enviou este profeta paira que lhes pre­gasse (Is.6:9-13). Podemos dizer que Deus não foi sincero? O mesmo aconteceu a Ezequiel, “Disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, e dize-lhe as minhas palavras... Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, porque não me quer dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obsti­nada e dura de coração” (Ez.3:4,7). Deixou Deus de ser sincero quando enviou Ezequiel a pregar a um povo que Ele sabia não ia aceitar sua mensagem? Em Mat.23:34,35 lemos: “Por isso eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra”, etc. Esta passagem mostra não somente que Deus não pode ser acusado de falta de sinceridade, por enviar seus mensageiros a um povo que Ele sabe irá rejeitá-los e matá-los, como também mostra que Ele tem um desígnio especial em lhes enviar seus mensageiros, a saber, fazê-los mais dignos ainda de condenação. “Para que sobre vós recaia todo o sangue justo”, etc. Paulo disse, “Graças, porém a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo; tanto nos que são salvos, como nos que se perdem. Para com estes cheiro de morte para morte; para com aqueles aroma de vida para vida. Quem, pois, é suficiente para estas coisas?” (2Co.2:14-16). Paulo não deixava de pregar a quem quer que encontrasse, embora soubesse que para alguns seu evangelho era “cheiro de morte para morte”. Sua pregação re­sultaria de qualquer modo na glória de Deus. “E daí? Se al­guns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a fideli­dade de Deus? De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro e mentiroso todo homem, segundo está escrito: Para seres justi­ficado nas tuas palavras, e venhas a vencer quando fores jul­gado”. (Rm.3:3,4). O fato de Deus saber de antemão que “poucos” seriam escolhidos não foi razão para Ele deixar de ter muitos “chamados” (Mt.22:14). Cristo sabia que o povo de Israel não O aceitaria, mas isto não foi razão para que Ele deixasse de pregar em toda cidade e aldeia daquele povo. E, como vimos, sua rejeição e morte foram incluídas no plano de Deus. 

5. Outra objeção é que a Predestinação leva Deus a ser parcial e injusto ou fazer acepção de pessoas.

Se todas as pes­soas fossem inocentes, Deus seria injusto e se deixaria levar de respeitos humanos se as tratasse de maneira desigual, salvando umas e condenando as demais. O fato, no entanto, é que todos são pecadores e nada merecem de Deus. Como já foi dito, Deus é misericordioso para com aqueles a quem salva, sem ser in­justo para com aqueles a quem condena, visto como podia ter condenado a todos sem ser injusto. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas, não quer dizer que Ele não distingue pessoas, dando a uns o que nega a outros. Que todas as pessoas não têm os mesmos dons e as mesmas oportunidades é um fato inegável. Sabemos existir muita gente que nunca teve oportunidade de ouvir o Evangelho, e nações inteiras, du­rante séculos, foram privadas desse privilégio. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas quer dizer que Ele não faz distinção por motivo de raça, riqueza, condição social, etc, e também que Ele recompensará cada um de acordo com as suas obras. Veja-se At.10:34, Rm.2:11, Tg.2:9 e 1Pe.1:17. Nenhuma diferença faz entre judeus e gentios; julgará a todos de conformidade com as obras de cada um, visto como não faz acepção de pessoas. Mas nossa salvação não é algo devido aos nossos méritos; procede da graça divina. A este respeito Deus pode dizer o que “o proprietário, respondendo, disse: Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este últi­mo tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt.20:13-15). 

“O Arcebispo Whately dirige este excelente aviso aos seus amigos arminianos: “Gostaria de sugerir uma precaução relativamente a uma classe de objeções que freqüentemente são levantadas contra os calvinistas, objeções deduzidas dos atributos morais de Deus. Devemos ser muito cautelosos no emprego de certas armas, pois podem voltar-se contra nós. É uma ver­dade terrível, porém incontestável, que multidões, mesmo em países cristãos, nascem e crescem em circunstâncias que não lhes proporcionam nenhuma chan­ce provável nem mesmo possível de obterem um co­nhecimento de verdades religiosas, ou hábitos de con­duta moral, mas pelo contrário são até exercitadas, desde a infância, em erros, superstições e grosseira devassidão. Por que tal coisa se permite não há calvinista nem arminiano que possa explicar; mas, por que o Onipotente não faz que morra no berço toda criança cuja impiedade e miséria futuras, se for deixada cres­cer, Ele prevê, é o que nenhum sistema de religião, natural ou revelada, nos capacitará explicar satisfato­riamente”. [16] 

“O decreto divino da eleição não pode ser acusado de parcialidade, porque isto só é cabível quando uma parte tem o que exigir de outra. Se Deus fosse obri­gado a perdoar e salvar o mundo inteiro, seria parcial se salvasse apenas alguns e não todos. Parcialidade é injustiça. Um pai é parcial e injusto se desconside­ra direitos e exigências iguais de todos os seus filhos. Um devedor é parcial e injusto se, no ato de pagar a seus credores, favorece uns às custas dos outros. Nes­tes casos uma parte tem certa reivindicação a fazer sobre a outra. Mas é impossível Deus mostrar parcia­lidade em salvar do pecado, porque o pecador não tem. qual quer direito ou reivindicação a apresentar. “Há”, diz Tomaz de Aquino (Summa, II, LXIII.l), “uma dádiva dupla: uma é matéria de justiça, pela qual a uma pessoa se paga o que lhe é devido. Aqui é possível agir com parcialidade e com respeito hu­mano. Há uma segunda espécie da dádiva, que é uma modalidade de mera munificência ou liberalidade, pela qual se concede o que não é devido. Tais são os dons da graça, pela qual os pecadores são recebidos por Deus. Neste caso respeito humano ou parcialidade fica absolutamente fora de propósito, porque qual­quer um, sem a menor sombra de injustiça, pode dar do que é seu como lhe apraz e a quem lhe apraz: de acordo com Mt.20:14,15, Não me é lícito fazer o que quero do que é meu?”.[17] 

“Sob uma economia de graça, não pode haver, pela natureza do caso, nenhuma parcialidade. Somente nu­ma economia de justiça e de exigências legais é isso possível. A acusação de parcialidade podia com tanto mais razão ser feita contra os dons da providência, quanto contra os dons da graça. Saúde, riqueza e alta capacidade intelectual Deus não deve a ninguém. Ele as dá a uns, negando-as a outros; contudo, em assim fazendo Ele não é parcial em sua providência. A afir­mativa de que Deus é obrigado, seja nesta vida, seja na outra, a oferecer perdão de pecados mediante Cristo a todo o mundo, não apenas não tem apoio na Escritura, como é contrária à razão, visto como trans­forma a graça em dívida, envolvendo o absurdo de que, se o juiz não oferece perdão ao criminoso, con­tra quem lavrou sentença condenatória, não o trata com eqüidade”. [18] 

6. Outra objeção contra a Predestinação deriva de pas­sagens que afirmam que Deus quer a salvação de todos os ho­mens, e de passagens em que se diz dependerem as bênçãos de Deus da aceitação de sua oferta de salvação por parte do ho­mem.

Consideremos primeiro a objeção baseada em passagens que afirmam que Deus quer a salvação de todos os homens. Em Ezequiel 33:11 lemos, “Tão certo como eu vivo, diz o Se­nhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva”. Em 1Tm.2:3,4 Paulo diz, “Deus nosso Salvador... deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. E Pedro, em sua Segunda Epístola 3:9, diz, “O Se­nhor... é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. 

Tais passagens simplesmente falam da benevolência de Deus, seu desejo de que todos sejam salvos. Temos de distinguir entre desejo e propósito. Deus não deseja ou não ama o pecado, mas decretou permiti-lo, embora o odeie e a todas as suas conseqüên­cias. Ele não deseja o sofrimento de suas criaturas, porém por certas razões que não podemos alcançar, Ele permite que mi­lhões de criaturas humanas sofram toda espécie de agonia física e moral, em conseqüência de guerras, terremotos, inunda­ções e doenças. Em sua onipotência Ele podia evitar todos estes sofrimentos, nos quais nenhum prazer, tem, mas por certas ra­zões que Ele não revela, decidiu não evitá-los. De semelhante modo, embora seja onipotente e não deseje a morte eterna do homem, Ele não salva a todos os membros da raça humana. As razões disso não conhecemos, porém devem ser sábias e jus­tas. Não somos melhores do que os anjos, porém Deus proveu um plano de salvação para nós, e nenhum para os anjos caídos. Significa isto que Ele tem algum prazer na perdição deles? 

“A palavra “vontade” usa-se em diferentes sentidos na Escritura e em nossa própria conversação diária. Algumas vezes usa-se no sentido de “decreto”, ou “propósito” e outras vezes no sentido de “desejo” ou “anseio”. Um juiz justo não deseja que alguém seja enforcado ou sentenciado a prisão, contudo ao mes­mo tempo quer (pronuncia sentença, ou decreta) que a pessoa culpada seja punida dessa forma. No mesmo sentido e por suficientes razões uma pessoa pode querer ou resolve mandar amputar um membro seu, ou extrair um olho, tanto quanto pode não querer isso”. [19] 

“Deus pode manifestar grande e imerecida compaixão por todos, usando para com eles de graça comum e chamando-os externamente, e pode limitar sua com­paixão, se quiser, a algumas pessoas, usando para com elas de graça especial e chamando-as eficazmente. Pode apelar a todos para que se arrependam e creiam, e pro­meter salvação a todos quantos queiram fazer isso, e ainda assim não inclinar tais pessoas a fazê-lo. Nin­guém dirá que uma pessoa é insincera por oferecer um presente, se com o oferecimento não provoca a dispo­sição de aceitá-lo. E de Deus ninguém deve asseverar tal. Deus sinceramente deseja que o pecador ouça seu chamado externo e que sua graça comum alcance êxito neste particular. Deseja sinceramente que todos quan­tos ouvem a mensagem: “Vós que tendes sede, vinde às águas; sim, vinde e comprai vinho e leite, sem di­nheiro”, venham exatamente como estão, e espontanea­mente, “porque tudo está preparado”. O fato de Deus não ir além desse desejo, com relação a todas as pes­soas, e vencer a aversão delas, este fato não contradiz o mesmo desejo. Ninguém afirma que Deus deixa de ser benevolente para com todos pelo fato de conceder mais saúde, riqueza e pujança intelectual a uns do que a outros. E ninguém deve dizer que Ele não é miseri­cordioso para com “todos" pelo fato de conceder mais graça a uns do que a outros. A onipotência de Deus é capaz de salvar todo o gênero humano, e à nossa visão estreita parece estranho que Ele não o faça. Mas seja como for, é falso dizer que se Ele não exerce todo o seu poder, é desumano para com os que abusam de sua graça comum. Esse decreto de paciência e longanimidade que Deus manifesta para com os que o resis­tem, e esse grau de esforço que Ele emprega para convertê-los, é verdadeira misericórdia por suas almas. E o pecador que tem frustrado essa benevolente aproxi­mação de Deus. Milhões de pessoas, através de todas as eras, têm repelido a misericórdia divina, manifesta na chamada externa, e têm-na anulado. Alguém que tenha recebido graça comum, tem sido objeto da compaixão divina sob este aspecto. Se resiste a ela, não pode acusar a Deus de falta de misericórdia, porque não lhe concede maior misericórdia sob a forma de graça regeneradora. Um mendigo, que desdenhosamente recusa aceitar cinqüenta dólares, que alguém, de boa vontade lhe oferece, não pode insultá-lo se, em face da recusa, esse alguém não lhe dá cem dólares. Todo pecador que se queixa de Deus não o contemplar na concessão da graça da regeneração, depois de haver abusado da graça comum, diz virtualmente ao Altíssimo e Santo, que habita na eternidade, “Uma vez já tentaste converter-me do pecado; agora tenta outra vez, e com mais vigor”.[20] 

Consideremos agora a objeção que se baseia em passagens que ensinam que as bênçãos de Deus dependem de o homem aceitar a oferta divina do Evangelho. Uma ou duas passagens bastam. 

Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o en­quanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compade­cerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em per­doar” (Is.55:6,7). “Tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós outros, diz o Senhor dos Exércitos” (Mal.3:7). 

A resposta para esta objeção é ainda a seguinte: Deus tanto predestina o fim como os meios. O fim é a salvação dos eleitos; os meios, a pregação do Evangelho. Deus salva pela fé, e a fé — embora seja uma dádiva de Deus — “vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm.10:17). Na rege­neração Deus não trata o homem como se este fora uma pedra ou um pau. Trata-o como pessoa. No momento em que Deus lhe muda o coração, o homem se volta para Ele imediatamen­te, e segue-O voluntária e espontaneamente. Tratando o ho­mem como uma personalidade, Deus apela a todas as faculda­des dele, a saber, inteligência, emoções e volições. Nascemos de novo ou somos regenerados “pela palavra de Deus” (1Pe.1:23), isto é, por essa palavra aplicada aos nossos corações por seu Espírito. A Palavra é o instrumento; o Espírito é o Agente. O instrumento tem de convir ao seu objetivo — daí os apelos e solicitações das Escrituras que o Espírito usa para converter pecadores. Lemos que todos quantos estão nos túmulos ouvi­rão a voz de Deus (Jo.5:28). Significa que ouvirão essa voz quando ainda mortos nos túmulos? Absolutamente não. Deus há de primeiro fazê-los reviver, para que possam ouvir-LO. O mesmo sucede aos espiritualmente mortos. “Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me en­viou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem, viverão” (Jo.5:24,25). Todos os homens são espiritualmente mortos e não podem ouvir e vir até que Deus lhes dá vida. Quando, porém, Deus pelo poder do seu Espírito lhes dá vida espiritual, eles ouvem, compreendem e obedecem à sua voz. E esta voz tem de ser inteligível e diri­gida às faculdades do homem de maneira adequada. Lembre­mo-nos do caso de Lídia. A Bíblia diz que Deus lhe abriu o coração “para atender às coisas que Paulo dizia” (At.16:14). A mensagem de Paulo naturalmente era clara, inteligível, diri­gida a todas as faculdades dos seus ouvintes, de sorte que quan­do Deus abria o coração de algum deles, esse podia compreen­der, receber e entregar-se a ela. Temos aqui a razão dos muitos apelos, convites e solicitações de que a Bíblia está cheia, desde o primeiro que soou no Gênesis, “Onde estás?” (Gn.3:9), até o último no Apocalipse, “Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap.22:17). 

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Notas:
[13] Egbert Watson Smith, The Creed of Presbyterians, pp. 166, 167. 
[14] Loraine Boettner, Op. cit., p. 307. 
[15] William Temple, Nature, Man and God, preleção XV, “Divine Grace and Human Freedom”, p. 378. 
[16] A. A. Hodge, Op. Cit., p. 227. 
[17] William G. T. Shedd, Op. Cit., Vol. I, p. 425. 
[18] William G. T. Shedd, Op. Cit., Vol. I, p. 426. 
[19] Loraine Boettner, Op. Cit., pp. 287, 288. 
[20] William G. T. Shedd, Calvinism: Pure and Mixed, pp. 49-51.

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Fonte: FALCÃO, Samuel. Escolhidos com Cristo. 5º Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. pgs.: 131-145