sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A expressão da ira

A expressão da ira
“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira”. Efésios 4:26
O ser humano possui uma capacidade infinda de se expressar. A diversidade de nuances e perspectivas produz manifestações tão amplas e surpreendentes de alguns indivíduos que comumente chegam a chocar e romper com determinados paradigmas comportamentais.
De fato, na arte, na cultura, em filosofias de vida, em pensamentos políticos e religiosos considerados revolucionários para um tempo, algumas pessoas chegaram a ser severamente estancadas, reprimidas em nome da manutenção de sociedades uniformizadoras e suas regras tradicionalistas.
Isso acontece em todos os setores sociais e vem ocorrendo com freqüência por toda a história da religião cristã.
Esse tipo de pensamento limitador que vicia as pessoas pode ser notado em questões como a da sexualidade, tratada com ignorância e preconceito, estando quase sempre relacionada a atos pecaminosos e profanos.
Note que tudo o que soa diferente aos ouvidos da sociedade do formol, torna-se tabu, ou seja, uma convenção, normalmente tradicionalista, indeferiu o ato, ou a expressão, fazendo surgir os anormais, os defeituosos, os feios, os esquisitos, os bizarros, os sinistros.
No versículo que citei lá em cima, o apóstolo Paulo parece estar parafraseando o Salmo 4:4, que diz: “Perturbai-vos, e não pequeis…”.
Uma vez eu confessei em meu blog que estava perturbado e fui, naturalmente, considerado endemoninhado. Da mesma forma, quando digo que estou irado, minha casa religiosa é simplesmente incendiada por bíblias molotov, arremessadas por cristãos fundamentalistas, pois estar irado é algo simplesmente descabido para um crente.
Não é o que a Bíblia diz! Ela diz que você pode estar irado, que você pode estar perturbado, que você pode estar sendo tomado de sentimentos passionais – coisas da carne, diriam – sejam eles do ardor do amor ou da raiva.
Vão me falar em domínio próprio, mas acredito que essa virtude esteja presente aqui e é justamente ela que mantém a pessoa dentro dos limites da ira, sem permitir que adentre ao campo do ódio, atravessando fronteiras que corrompam a santidade de seus sentidos.
Mas me parece óbvio que, numa religião que preza tanto pela aparência, para a qual gasta-se enorme esforço, utilizando doses de cinismo, falsidade e mentira (os photoshops da alma), permitir-se irar, permitir-se apaixonar e/ou quaisquer expressões que sejam os reflexos naturais da alma humana, pode ser fatal para a aceitação de alguém perante as convenções.
Eu estou apaixonado! No momento, me permito inclusive a ser incendiado pela ira, dado aos altos níveis de zelo que têm tomado minha psique. Ri muito e me identifiquei demais com um antigo vídeo de uma entrevista do Caetano Veloso, no final dos anos setenta, em que ele responde à provocação de um entrevistador chamando-o de burro. Ele fica repetindo: “como você é burro, nossa que burrice…”.
Honestamente, falta-me coragem, na maioria das vezes, para agir dessa forma. Não é educação, tampouco domínio próprio que me impedem de dizer muito do que sinto, é pura covardia mesmo, medo de transparecer as expressões mais punks que povoam meu interior.
Estou em guerra, contudo, não me vejo menos santo, nem menos pecador do que em outros momentos de minha vida em que declarava a paz aos amados.
Acho que são sentimentos como estes que nos movem em momentos de reformas. Paixão e ira acesas em nosso interior podem ser os temperos fundamentais pra romper com o fleumatismo tirano da alma de alguns acomodados, levando-os ao grito da revolução que cala no interior de todos os que nasceram de novo e contêm a chama do Evangelho acesas dentro de si.

Proponho agora um poema simples
(perdoem a falta de talento, mas é de coração).

Você me viu com a faca na mão e pensou que eu vinha pra te ferir.
Você me ouviu gritar bem alto e achou que não era de bom tom.
Você sentiu o peso da minha mão e se magoou por eu ser assim tão rude.
Você procurou em mim a beleza dos artistas, mas percebeu que eu não era um.

Você tentou achar em mim a riqueza dos felizes e dos prósperos,
mas descobriu que eu era só mais um pobre na multidão.
Você esperou que minhas palavras produzissem resultados,
mas se chocou ao ver que eu não tinha a magia.

Mas com a minha faca eu tentava abrir em seu pescoço
um buraco por onde pudesse respirar.
Quando eu gritava, procurava te fazer voltar à razão.
Quando dei um soco no seu peito, queria fazer seu coração voltar a bater.
Tentando te mostrar que a beleza era algo efêmero,
que dinheiro não é sinônimo de felicidade e
que a verdade é um poder ligado às coisas Eternas e não às passageiras.