sexta-feira, 9 de agosto de 2013

As exigências de Deus para os mestres e suas famílias


Por Frank Brito


“Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te bem depressa; Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. (I Timóteo 3.14-15)

A primeira carta de Paulo a Timóteo foi escrita com o objetivo de instruí-lo sobre como a Igreja deveria ser organizada caso ele demorasse demais para chegar e lidar com o assunto pessoalmente. Ele escreveu a Tito com a mesma intenção:“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam”. (Tt 1.5) Um dos assuntos mais importantes de I Timóteo é a respeito das características pessoas daqueles que são ordenados à posição de liderança na Igreja:

“Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo. Da mesma sorte os diáconos sejam honestos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância; guardando o mistério da fé numa consciência pura. E também estes sejam primeiro provados, depois sirvam, se forem irrepreensíveis. Da mesma sorte as esposas sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo. Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas. Porque os que servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus”. (I Timóteo 3:1-13)

É importante ter em mente que as características que Paulo cita aqui não são exigências de Deus exclusivamente para os que assumem posição de liderança na igreja. Em todas suas cartas Paulo deixa claro que todo cristão deve buscar as características pessoais que ele lista aqui. O motivo pelo qual ele cita essas virtudes não é porque os pastores são os únicos que precisam tê-las, mas porque os pastores, estando em posição de liderança, precisam refleti-las de maneira extraordinária, de forma que sirvam de exemplo para todos os demais. Todo cristão precisa ser honesto, por exemplo. Mas o pastor, estando em posição de liderança, precisa ser um modelo de honestidade para que os todos imitem. O pastor precisa pregar com as palavras, mas também precisa servir de modelo da aplicação prática do que ele próprio prega, para que seja imitado pelos outros, como disse Paulo, “Irmãos, sede meus imitadores, e atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós” (Fp 3:17). Aqueles que pregam, mas não fazem, estão sob a condenação de Jesus Cristo contra os escribas e fariseus: “não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem“ (Mt 23:3).

O propósito deste artigo não é analisar todas as características mencionadas por Paulo, mas somente as características relacionadas à família. As características mais enfatizadas por Paulo para os que almejam a posição de autoridade são relacionadas à vida do homem em família, em seu própria lar. Sobre isso, há muita polêmica em torno da exigência de ser“marido de uma só mulher”. O que isso significa? Paulo não está se referindo a homens que se divorciaram e estão no segundo casamento. Ele está se referindo à poligamia, isto é, ter mais de uma esposa ao mesmo tempo. O pastor não pode ter duas, três ou quatro esposas. Ele pode ter uma só esposa. Alguns erradamente inferem, com base nisso, que essa proibição é somente para pastores e não para os cristãos comuns. Mas como foi dito acima, as características que Paulo cita aqui não são exigências de Deus exclusivamente para os que assumem posição de liderança para a igreja. Assim como todo cristão tem que ser “vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro”, também todo homem cristão só pode se casar com “uma só mulher”. A poligamia foi um erro histórico, pois como disse Jesus, o desejo de Deus para o casamento é conforme a lei que Ele estabeleceu na criação:

“Não tendes lido que o Criador os fez desde o princípio homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão dois numa só carne?” (Mateus 19:4-5)

É provável que os falsos mestres entre os judeus tenham sido a principal motivação para Paulo enfatizar a necessidade monogâmica entre os pastores cristãos. No início da carta, ele escreveu:

“Como te roguei, quando parti para a macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora. Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; querendo ser mestres da Lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Sabemos, porém, que a Lei é boa, se alguém dela usa legitimamente”. (I Timóteo 1:7-8)

Aqui ele atacou aqueles que “querendo ser mestres da Lei, não entendiam nem o que dizem e nem o que afirmavam”. Sem dúvidas, ele estava se referindo aos falsos mestres judaicos, como era o caso dos escribas e fariseus (cf. Mt 15). Na carta a Tito ele deixa isso ainda mais claro ao se referir aos “da circuncisão”“Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” (Tt 1:10-11). O que Paulo estava dizendo, então, é que os mestres cristãos não podiam ser como os falsos mestres entre os judeus. Se os falsos mestres judeus, ao ensinar a Lei, não entendiam nem o que diziam nem o que afirmavam, os líderes cristãos precisavam usar da Lei legitimamente. Nos Evangelhos, somos informados que os falsos mestres judaicos distorciam a Lei para divorciar de suas esposas por qualquer motivo que quisessem (Mt 19:3-7), algo que já havia sido condenado pelo profeta Malaquias (Ml 2:13-16). Por motivos parecidos, os falsos mestres entre os judeus eram polígamos e é provavelmente isso que levou Paulo a enfatizar a necessidade da monogamia entre os pastores cristãos. O testemunho de Justino Mártir, um importante teólogo cristão do segundo século, confirma que esse era um dos grandes motivos de polêmica com os judeus. Em uma de suas mais importantes obras, “Diálogo com o Judeu Trifão”, Justino ataca os líderes judaicos dizendo:

“É melhor que você siga a Deus e não seus mestres imprudentes e cegos, que até o tempo presente permitem que cada homem tenha quatro ou cinco esposas, e se qualquer um ver uma mulher bonita e desejar possuí-la, eles citam as obras de Jacó…” (Justino Mártir, Diálogo Com o Judeu Trifão, Capítulo CXXXIV)

O argumento de Paulo contra a poligamia pressupõe que o desejo de Deus para o casamento é conforme o padrão estabelecido por Deus na criação, conforme lemos em Gênesis 1-2. Este é o pano de fundo para entender tudo o que o Apóstolo ensina no decorrer de suas cartas sobre o casamento. Ele diz que é necessário “que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia” (I Tm 3:4). Isso tem base no padrão estabelecido por Deus na criação, como ele explica aos Efésios:

“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo”. (Efésios 5:22-28)

Feministas frequentemente usam o padrão bíblico de submissão feminina para acusar o Cristianismo de incentivar o machismo. A Bíblia, todavia, condena o machismo tanto quanto condena o feminismo. O feminismo é anti-cristão porque prega a insubmissão da mulher ao homem. Mas o machismo também é anti-cristão porque estabelece a tirania do homem contra a mulher. Como ensinou o Apóstolo Paulo aos Romanos, “as autoridades que há foram ordenadas por Deus” (Rm 13:1). Sendo assim, a autoridade do marido não é ilimitada, mas é concedida por Deus, tendo a obrigação de se conformar às exigências dEle. Por este motivo, “vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja“. O dever do marido é amar sua esposa a ponto de dar a vida por ela, com Cristo deu Sua vida pela Igreja. O argumento de Paulo aqui é baseado na ordem da Criação: “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos“. Por quê? Porque “serão dois numa só carne” (Mt 19:5).

Com base nisso, Paulo, no decorrer de suas cartas, lista diversas obrigações do marido em relação a esposa, como expressão deste amor que o marido deve ter por ela. Aos Coríntios, Paulo fala das obrigações sexuais do casal: “Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência” (1 Co 7:5). A relação sexual é um componente essencial do casamento. Seu propósito não é somente gerar filhos (Gn 1:28), mas também fazer com que o casal tenha alegria e prazer um com o outro. O casal, então, tem a obrigação, da parte de Deus, de buscar fazer um ao outro feliz. Deus leva isso tão a sério que na Lei somos informados que se um homem era recém casado, ele não deveria ir para guerra como soldado. Ele deveria ficar um ano em casa alegrando sua esposa: “Quando um homem for recém-casado não sairá à guerra, nem se lhe imporá encargo algum; por um ano inteiro ficará livre na sua casa para alegrar a mulher, que tomou” (Dt 24:5). A necessidade de alegrar a esposa, então, é imposta por Deus e a relação sexual é um parte dessa obrigação. Aos Efésios, ele diz também que o amor inclui a obrigação de alimentá-la e sustentá-la em suas necessidades (Ef 5:29). Pecam, então, os maridos que negligenciam as necessidades materiais e econômicas da família. Em I Timóteo, ele deixa claro o tamanho da seriedade disso: “Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel” (I Tm 5:8). No contexto, a ênfase é claramente no cuidado material e econômico. Quem nega isso à sua esposa, deve ser tratado pela comunidade como pior do que um infiel. Isso está incluído no que Paulo diz em I Timóteo sobre os critérios para o ministério pastoral quando ele fala contra os “avarentos”. Isso não é tudo. A Bíblia também impõe sobre o homem a necessidade de cuidado espiritual. Aos Coríntios, Paulo colocou sobre os maridos a responsabilidade de ensinarem suas esposas em casa sobre a Palavra de Deus (I Co 14:35). Este tipo de coisa não foi ensinada somente por Paulo. Pedro escreveu: “Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações” (I Pd 3:7). Aqui Pedro diz que Deus leva tão a sério o tratamento que o marido dá a mulher que, caso ele dê um tratamento errado, Deus se recusará a ouvir suas orações.

Mas Paulo, ao falar das exigências de Deus para a família, não fala somente da relação do homem com sua esposa. Ele fala também da relação do homem com seus filhos. Assim como o casamento humano é análogo ao casamento entre Cristo e a Igreja, a paternidade humana é análoga à paternidade de Deus. É importante entender a distinção entre uma coisa e outra. Tanto a esposa quanto os filhos são sujeitos ao marido. Mas não da mesma maneira. Pais têm determinados direitos sobre seus filhos pelo fato de serem seus pais e o casal tem determinados direitos sobre o outro pelo fato de serem marido e mulher. Deus, por exemplo, dá ao marido o direito de se relacionar sexualmente com a esposa, mas ele não tem o direito de se relacionar sexualmente com os filhos (Lv 18:7), o que é uma abominação. Da mesma forma, Deus dá aos pais o direito de açoitar os filhos por desobediência (Hb 12:6-8), mas jamais deu o mesmo direito ao marido em relação a esposa. O pai que, com sabedoria, bate nos filhos desobedientes é um pai zeloso pela educação de seus filhos. Todavia, o marido que bate em sua esposa é um tirano, faz uso de uma autoridade que Deus nunca lhe deu e, portanto, cai na condenação do Apóstolo Paulo contra o “espancador” (I Tm 3:3). Segundo a Lei de Deus, deveriam sofrer o mesmo nas mãos dos magistrados civis (Lv 24:40). Tanto a esposa quanto os filhos são sujeitos ao marido, mas dentro dos limites de autoridade estabelecidos por Deus. Aqueles que excedem estes limites, em relação aos filhos ou em relação à esposa, contrariam a vontade de Deus.

Deus criou a relação entre pais e filhos para ser um espelho da relação entre as três pessoas da Santíssima Trindade. A obediência que os filhos devem ter aos pais é análoga à obediência de Cristo a Deus-Pai e ao Espírito, por meio de quem foi concebido (Sl 40:7-8; Mt 4:1, 26:39-42; Jo 5:30, 6:38;Fp 2:8; Hb 10:7). O amor que os pais devem ter pelos filhos e que os filhos devem ter pelos filhos é análogo ao amor de Cristo por Deus e de Deus por Cristo (Jo 3:35, 5:20, 15:9). A Bíblia é clara que “os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão” (Sl 127:3). “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra” (Gn 1:28) é o primeiro mandamento de Deus ao homem registrado na Bíblia. Também foi o primeiro mandamento dado a Noé depois que ele saiu da arca (Gn 9:1).

Em resumo, o argumento de Paulo é que a relação que um homem tem com a própria família – sua esposa e filhos – é um dos principais testes para saber se um homem tem condições de assumir o ministério pastoral. As exigências não restringem aos mestres. São para todos os cristãos. Mas os mestres são um modelo para todo o povo e, portanto, precisam manifestar essas características de maneira extraordinária. E ai daqueles que não demonstram. “Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo” (Tg 3:1).