terça-feira, 18 de março de 2014

As crianças não tem pecado... será?

Todo mundo tenta salvar a cara da criançada; mas, como já levo pedrada de boca fechada, não custa nada (uma pedra a mais ou a menos) dizer o que penso sobre o assunto. A intenção do texto é questionar os argumentos que quase todo mundo usa para defender uma salvação automática para as crianças. Se você convive com a dúvida, porque experimentou a dor de perder um filho, um bebe principalmente... perdoe-me! Não tenho a intenção de agravar sua dor, não quero trazer aflição para sua alma – caso você não tenha se preocupado com isso até o momento. Não estou escrevendo este texto para você e minha preocupação aqui é mais voltada ao refinamento da “retórica” desse tema do que necessariamente o querer tirar doce, quero dizer, salvação da mão das crianças.

Veja, não estou torcendo pela condenação das crianças, só não aceito os argumentos que são usados para defender a salvação delas. O meu desejo é que todas elas estejam lá, gozando da eterna comunhão com Deus. Como creio num paraíso sem Alzheimer, onde vamos lembrar-nos de nossa vida aqui na terra em detalhes, sem deixar escapar nada, e nos lembraremos, também, das pessoas com quem convivemos, penso na alegria eterna de pais que reencontrarão seus filhos! Meu coração deseja o que todos desejam! Mas, para atender o meu desejo, não posso criar uma “soteriologia” vazia de propiciação, sem Cristo. Esse é o primeiro problema. Na ânsia de defender uma salvação para crianças “inocentes”, as pessoas constroem argumentos completamente vazios de soteriologia coerente, aquela que reflete e atende os requisitos para a salvação como apresentados na Bíblia: não há salvação que não seja por meio de Cristo! Dizer que a criança vai para o céu, automaticamente, porque ela não tem pecado é o mesmo que dizer que a suficiência de sua salvação não foi Cristo! E será mesmo que a criança não tem pecado?

Filho de peixe, peixinho é; filho de pecador, pecador é! Toda descendência de Adão nasce manchada pelo pecado. Adão produziu apenas descendentes carnais – vou desenvolver melhor esse pensamento sobre nascer da carne mais adiante. O que importa no momento é destacar alguns textos que apresentam essa condição de pecado ainda na infância. Aponto para três textos-chaves:

1. “Eu nasci em iniquidade, e em pecado minha mãe me concebeu”. Salmo 51:5

Alguns tentam ler o versículo como sendo o pecado da mãe de Davi e não o dele mesmo. Mas não há referência bíblica de que a concepção de Davi tenha sido fruto de pecado, como foi, por exemplo, o caso do filho de Davi com Bate-Seba – temática do versículo, inclusive. Não é possível admitir, a não ser que seja mesmo por puro pretexto, a interpretação do “em pecado” como sendo da mãe e não do filho. O próprio salmo 51 é a confissão de Davi do seu pecado com Bate-Seba, colocando-se como pecador desde o primeiro verso! Ao dizer que pecou, Davi demonstra que sua natureza é pecaminosa desde a sua concepção – o foco do verso quinto do salmo. Ele não está dizendo que seu filho com Bate-Seba nasceu em iniquidade, e em pecado sua mãe (Bate-Seba) o concebeu. Não! Davi está falando dele mesmo e não do seu filho.

2. “O SENHOR sentiu o aroma suave e disse em seu coração: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, pois a imaginação do seu coração é má desde a infância; nem tornarei a ferir de morte todo ser vivo, como acabo de fazer”. Genesis 8:21

3. “Os ímpios se desviam desde o ventre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras”. Salmo 58:3

Em favor da salvação das crianças, alguns apelam para o texto de 2 Samuel 12:23 – "Todavia, agora que está morta, por que ainda jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim”.

https://www.facebook.com/teologiaetcetera?ref=hl
Bem, as pessoas partem do pressuposto que, sendo Davi um salvo, e a criança dada como morta, Davi só poderia encontrar-se com o filho no céu. Se ele está dizendo que se encontrará com a criança que está morta, a criança só pode ter ido para o mesmo lugar para o qual ele também vai. Mas encontramos algumas complicações para esta interpretação. A) O versículo está sendo interpretado por meio de um salto lógico. Para interpretar o versículo dessa forma, você precisar fazer desdobramentos que vão além do texto. B) A compreensão da vida após a morte como a temos hoje é tardia em relação ao texto de Samuel. Naquela época, numa perspectiva de revelação progressiva, a vida após a morte era ainda uma “teologia” muito obscura. Não estava claro que haveria uma “vida” após a morte. Por isso encontramos declarações no Antigo Testamento como: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o com todas as tuas forças, porque na sepultura, para onde vais, não há trabalho, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria” - Eclesiastes 9:10 e “O SENHOR Deus sente pesar quando vê morrerem os que são fiéis a ele” - Salmo 116:15.

Compare o que Davi disse, como registrado em 2 Samual 12:23, com Eclesiastes 9:10:

...Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim.
porque na sepultura, para onde vais...


O entendimento mais direto, sem a necessidade de desdobramentos, para o texto de 2 Samuel é que Davi falava de “mundo dos vivos” e “mundo dos mortos” (sheol, às vezes traduzido por sepultura). Ele estava vivo, a criança estava morta. Ninguém volta do sheol, mas todos vão para lá. Ela não pode voltar a viver, mas ele um dia morreria. Dizer, nesse momento, que Davi já pensava num céu como apresentado por Cristo no Novo Testamento e desenvolvido na teologia paulina seria um atropelo das coisas.

Por último, quero fazer você pensar no seguinte: recebemos a condenação pelo pecado que cometemos ou pela natureza pecaminosa que herdamos de Adrão? É preciso cometer o ato de pecar para ser condenado? Acredito que estas perguntas foram respondidas indiretamente na conversa de Jesus com Nicodemos em João, capítulo 3.

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.” João 3:5-6

Jesus e Adão são colocados em contraste, são opostos, no evangelho de João e na teologia paulina. Adão deu origem a descendentes da carne; Jesus, a descendentes espirituais. Adão gera descendentes condenados, Cristo, descendentes justificados.

Romanos 5:14 - "No entanto, a morte reinou de Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, que é figura daquele que havia de vir."

1 Coríntios 15:22 - "Pois, assim como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados."

1 Coríntios 15:45 - "Assim, também está escrito: Adão, o primeiro homem, tornou-se ser vivente, e o último Adão, espírito que dá vida."

Se Jesus afirma que os nascidos da carne são carne e que este nascimento da água e do espírito é posterior ao nascimento da carne, sem o qual não será possível entrar no reino de Deus, a criança também não poderá entrar no reino de Deus sem que antes tenha um nascimento da água e do espírito. Qualquer criança que vem ao mundo é nascida da carne, e ter nascido somente da carne não é garantia de entrada no reino de Deus, pelo contrário, é impedimento!

Não acabe a este texto explorar as justificativas plausíveis para a salvação infantil. A solução para o problema fica para outro artigo. Meu objetivo era somente apresentar as dificuldades de interpretação de alguns textos-chaves e deixar claro por que não compro a ideia de defesa de uma salvação automática para as crianças tão facilmente. Pelo menos, não com esses argumentos...


Autor: André R. Fonseca