terça-feira, 4 de março de 2014

A bondade e a severidade de Deus


Por Loraine Boettner


Uma pesquisa sobre a queda e os seus desdobramentos é um trabalho humilhante. Prova ao homem que todas as suas alegações de bondade são infundadas, e mostra-lhe que sua única esperança está na soberana graça de Deus Todo-Poderoso. A "graciosamente restaurada habilidade" de que os Arminianos falam não é consistente com os fatos. As Sagradas Escrituras, a história e a experiência Cristã se nenhuma forma avalizam tal como sendo uma visão favorável da condição moral do homem como o sistema Arminiano ensina. Ao contrário, cada um deles nos proporciona um quadro pessimista de uma corrupção horrível e de uma inclinação universal para o mal, a qual somente pode ser ultrapassada pela intervenção da divina graça. O sistema Calvinista ensina uma queda muito mais profunda no pecado e uma muito mais gloriosa manifestação da graça redentora. Dessas profundezas o Cristão é levado a desprezar-se a si mesmo, largando-se incondicionalmente nos braços de Deus, e permanecer na graça imerecida, somente a qual pode salva-lo.

Nós deveríamos ver a piedade de Deus e também a Sua severidade nas esferas espiritual e física. Em toda a Bíblia, e especialmente nas palavras do próprio Cristo, os tormentos finais dos maus são descritos de tal maneira a mostrar-nos que são indescritivelmente horríveis. No Evangelho de Mateus somente, vemos nas passagens 5:29,30; 7:19; 10:28; 11:21-24; 13:30,41,42,49,50; 18:8,9,34; 21:41; 24:51; 25:12,30,41; e 26:24. Certamente uma doutrina que recebeu tal ênfase dos lábios de Cristo, Ele mesmo, não pode passar em silêncio, embora tão desagradável que possa ser. No próximo mundo os perversos, com todas as barreiras removidas, mergulharão de cabeça no pecado, na blasfêmia e nas ofensas a Deus, piorando e piorando enquanto afundam cada vez mais no buraco. Castigo sem fim é a recompensa de pecado sem fim. Mais ainda, a glória de Deus é tanta enquanto Ele castiga o perverso, como é quando Ele recompensa o justo. Muito da negligente indiferença para com o Cristianismo nos nossos dias é devida à falha dos ministros Cristãos em enfatizar estas doutrinas que Cristo ensinou tão repetidamente.

No âmbito físico nós vemos a severidade de Deus em guerras, fome, enchentes, desastres, doenças, sofrimentos, mortes, e crimes de toda espécie que avassalam tanto justos como injustos da mesma forma. Tudo isso existe num mundo que está sob o completo controle de Deus, que é infinito nas Suas perfeições.

"Considera pois a bondade e a severidade de Deus..." [Romanos 11:22]. O Naturalismo não faz justiça a nenhum desses. O Arminianismo magnifica o primeiro, mas nega o segundo. O Calvinismo é o único sistema que faz justiça a ambos. Somente este sistema adequadamente estabelece os fatos com relação ao eterno e infinito amor de Deus, que O levou a propiciar redenção para o Seu povo, mesmo com o grande custo de mandar o Seu Filho unigênito para morrer numa cruz; e também com relação ao terrível abismo que existe entre o homem pecador e o Deus santo. É verdade que "Deus é Amor", mas juntamente com esta verdade também há que ser colocada outra, que "...o nosso Deus é um fogo consumidor" [Hebreus 12:29]. Qualquer sistema teológico que omita ou que não enfatize alguma dessas verdades será um sistema mutilado, não importa o quão plausível ele possa soar aos homens.

Esta doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total) do homem é terrivelmente pesada, severa, proibitiva. Mas deve ser lembrado que nós não temos a liberdade para desenvolver um sistema teológico que satisfaça a nossa vontade. Devemos considerar os fatos como os encontramos. Tais exibições do verdadeiro estado da raça humana são, é claro, geralmente ofensivas ao homem não regenerado, e muitos têm tentado encontrar um sistema de doutrinas que seja mais agradável á mente popular. O estado do homem caído é tal que ele prontamente dá ouvidos a qualquer teoria que faça-o mesmo que parcialmente independente de Deus; ele deseja ser o mestre do seu destino e o capitão da sua alma. O estado de perdição e de ruína do pecador precisa ser constantemente mostrado a ele; pois até que a ele seja feito sentir tal estado, ele nunca buscará ajuda, onde somente tal ajuda pode ser encontrada. Pobre homem! Verdadeiramente carnal e com a alma sob o jugo do pecado, não somente sem nenhum poder mas também sem inclinação para mover-se na direção de Deus; e o que é ainda mais terrível, numa presunção real, blasfemosamente rival do Grande Jeová.

Esta doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total), ou do Pecado Original, foi tratada com alguma extensão, de maneira a estabelecer a base fundamental sobre a qual se encontra a doutrina da Predestinação. Este lado do quadro é negro, na realidade muito negra; mas o suplemento é a glória de Deus na redenção. Cada uma dessas verdades deve ser vista na sua verdadeira luz, antes que a outra possa ser verdadeira e adequadamente apreciada.

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Fonte: A doutrina reformada da predestinação, Loraine Boettner. p. 55-57.