sexta-feira, 26 de julho de 2013

Obra de demônios ou da ignorância?

Por André R. Fonseca

Há muitos textos criticando todas as versões bíblicas no site solascriptura-tt.org; com exceção da ACF... é claro! Longe de tratar as coisas como obra de demônios, vamos verificar duas de suas críticas. Será que eles têm razão ou não passam de um bando de ignorantes que não sabem de nada do que falam?

Este artigo é uma resposta ao comentário abaixo:

André, muito bom e claro o seu texto. Eu tinha pensado em comprar uma bíblia da NVI que eu tinha gostado mas fui ver no google sobre essa versão e vi um site que mostra VÁRIOS erros dessa bíblia. Eu fui verificar na bíblia online para comparar a NVI com uma Almeida e percebi esses erros. Olha só esse exemplo que peguei do site: Almeida: At 9:5,6 "E ele disse: Quem és, Senhor? E disse O SENHOR: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. DURO É PARA TI RECALCITRAR CONTRA OS AGUILHÕES. (6) E ELE, TREMENDO E ATÔNITO, DISSE: SENHOR, QUE QUERES QUE EU FAÇA? E DISSE-LHE O SENHOR: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer." Observe que a NVI e o texto crítico omitem aqui que Cristo é "o Senhor", é Deus, devemos-lhe imediata e total obediência! NVI: "Saulo perguntou: 'Quem és tu, Senhor?' Ele respondeu: 'Eu sou Jesus, a quem você persegue. (6) Levante-se, entre na cidade; alguém lhe dirá o que deve fazer'."
Fui ver por mim mesma na bíblia NVI e não vi as palavras citadas acima em maiúsculo.
Veja esse outro:
Almeida: 1 João 4:3 "E todo o espírito que não confessa que Jesus CRISTO VEIO EM CARNE não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo." A NVI aqui anula que Cristo veio em carne, extirpa que Jesus Cristo (mesmo sempre sendo 100% Deus) encarnou literalmente, teve e sempre terá corpo literal e será 100% homem! NVI: "mas todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus. Este é o espírito do anticristo, a cerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo."
Fui ver esse versículo na biblia NVI e não citam mesmo a frase CRISTO VEIO EM CARNE. Se o irmão puder, confira o site:
Esse site é aquele que defende a versão ACF mas o conteúdo do artigo que fala das omissões da NVI e outras versões eu achei muito importante.
Abraços, Deus lhe abençoe!

Para começar a responder as questões “denunciadas” nesse comentário, precisamos entender um pouco da história de como a Bíblia chegou até nós. Como as questões envolvem textos apenas do Novo Testamento, ficarei restrito às explicações para esse conjunto de livros.

A primeira peça deste quebra-cabeça está na intenção dos autores quando escreveram os documentos que compõem o Novo Testamento. Observe que os documentos do Novo Testamento são cartas e evangelhos basicamente. Dificilmente os autores do Novo Testamento tinham a consciência de que seus escritos se tornariam parte do que eles conheciam como Escrituras. Quando lemos o que Paulo escreveu sobre as Escrituras (toda a Escritura é divinamente inspirada...) ele falava da “Bíblia” que existia em sua época: o Antigo Testamento! Isso é bem óbvio! O Novo Testamento como o conhecemos hoje ainda estava em formação e a coleção desses documentos escritos foram reconhecidos como Escrituras apenas no século IV.

Esses documentos foram escritos em material que facilmente se deteriorava com o tempo e manuseio. Copiar o conteúdo de cada um desses documentos para um novo “papel” era necessário para sua preservação. Percebemos que esses documentos foram espalhados pelas comunidades cristãs (as igrejas) e quem quisesse ter o documento para leitura e consulta em sua comunidade precisaria produzir sua própria cópia do documento. Observe que estamos falando de uma época em que não havia máquinas de xérox, digitalizadores de imagem, impressoras e nem mesmo um arcaico mimeógrafo para fazer as cópias. A primeira máquina para imprimir livros só seria inventada quinze séculos mais tarde! Como eles faziam cópias naquela época? A resposta é simples: na mão!

Havia dois métodos para a produção dessas cópias. A primeira, mais simples e barata, a pessoa interessada na cópia do documento, de posse do original, sentava com uma pena e um papel e fazia sua própria cópia. O segundo método, que não custava nada barato, era contratar o serviço de um profissional: o copista. Quando havia a necessidade de fazer muitas cópias de uma só vez, até setenta copistas sentavam numa sala e uma pessoa ditava o documento original para que os setenta copistas tomassem o ditado, produzindo assim setenta cópias do mesmo documento. Mas na realidade de uma igreja perseguida, composta por comunidades pobres, quem poderia pagar o trabalho de 70 copistas? Provavelmente, a igreja em mutirão copiava os documentos usando o mesmo processo de ditado, mas sem a técnica e o controle de qualidade dos profissionais.

Nesta realidade não fica difícil imaginar a facilidade de produção de textos copiados à mão com baixa qualidade. Falha humana é natural, e imagina naquela época quando os copistas não tinham óculos para enxergar melhor, nem corretor ortográfico dos processadores de textos dos computadores para evitar os erros. E se uma cópia com erro era passada adiante e esta era novamente copiada? Multiplicava-se o erro.

Bem, acontece que os textos foram copiados e copiados para sobreviver ao tempo e para a propagação da mensagem escrita deixada pelos apóstolos, Lucas, o autor desconhecido de Hebreus, Tiago e Judas. É natural admitir que nem todos os textos foram copiados corretamente, e essas divergências (erros de cópias) seriam percebidas apenas quando tivéssemos um bom número de cópias de diferentes datas para comparar.

O primeiro a reunir os melhores textos gregos do Novo Testamento disponíveis em sua época foi Erasmo de Roterdão em 1516. Esse conjunto de manuscritos ficou conhecido como Texto Recebido. Mas também é chamado por Texto Majoritário porque sua orientação de escolha de qual cópia do texto grego selecionar como a melhor estava na maior quantidade de cópias convergentes do texto. Essa obra de Erasmo de Roterdão foi a compilação dos textos do Novo Testamento grego utilizado por João Ferreira de Almeidapara a tradução da Bíblia em língua portuguesa, assim como fora também base para a tradução da famosa versão King James.

Acontece que alguns séculos depois muitos outros textos foram descobertos. Esses novos textos estavam melhor preservados e receberam datação muito mais antiga do que os textos de Erasmo. Um novo desafio então surgiu: comparar os textos recém descobertos, que tinham datas muito mais antigas, com os textos deixados por Erasmo. O que os estudiosos perceberam foi que havia muita divergência entre as cópias, e através da análise minuciosa desses textos com suas variantes seria possível descobrir qual era a cópia mais fiel entre elas. Bem, o primeiro pensamento foi: um texto que sofreu menos cópias correu menos riscos de adulteração por falha humana dos copistas. Entendendo como as cópias destes textos eram produzidas nos primeiros séculos seria possível determinar quais tipos de erros os copistas mais cometiam. E assim muitas teorias foram criadas para explicar o porquê dessas divergências entre os novos textos descobertos e os textos de Erasmo. Permita-me citar apenas uma delas:

Já mencionei que muitos copistas poderiam produzir um grande número de cópias através do ditado. No grego há duas letrinhas muito parecidas no som, mas a troca de uma por outra poderia mudar o sentido da palavra. Quem ditava leu uma coisa, mas o copista que tomava o ditado para a cópia ouviu outra coisa diferente. É o caso de Romanos 5:1. Em alguns manuscritos encontramos “tenhamos paz com Deus”, em outros manuscritos consta “temos paz com Deus”. Comparando o que ocorrera no grego com a nossa língua seria ter confundido entre MAL e MAU. É difícil distinguir a diferença entre o L e o U nessas palavras apenas pelo som. Assim como teria sido difícil o copista ter identificado no ditado a diferença em grego entre “temos” e “tenhamos”.

Sabemos também, por análise dos textos, que os copistas, às vezes, tentavam ajustar determinados trechos dos textos copiados, principalmente as citações. E provavelmente foi o que aconteceu com o texto de Atos que você mencionou. Vamos seguir o raciocínio num passo a passo.

1. Lucas registra a história da conversão de Paulo a caminho de Damasco três vezes. A primeira em Atos 9, a segunda em Atos 22:4-11 e a terceira em Atos 26:9-18.

2. Os documentos mais antigos trazem a citação que estaria faltando em Atos 9 somente em Atos 26.

3. Os textos mais recentes, e que sofreram mais cópias, têm o trecho do capítulo 26 repetido no capítulo 9.

A conclusão mais lógica e plausível para explicar essa divergência é admitir que o texto que sofreu mais cópia sofreu uma adulteração. Algum copista achou necessário harmonizar as duas citações. Ele pegou a narrativa mais detalhada em Atos 26 e adicionou o que faltava na narrativa mais breve em Atos 9. Como a NVI segue o texto Crítico, ou seja, o texto resultante da análise crítica de todos os manuscritos já descobertos até hoje, a passagem está como deveria constar no texto original que saiu da pena de Lucas quando ele a escreveu, sem a provável alteração de um copista posterior que intencionou harmonizar as duas narrativas do início e final do livro.

A mesma coisa pode ser dita de 1Jo 4:3. Os textos mais antigos não têm a frase “Cristo veio em carne”; consta apenas nos textos mais recentes, aqueles que sofreram mais cópias e, portanto, correram maior risco de erros nas cópias. Observe que o versículo anterior contém a suposta frase omitida na NVI - “Vocês podem reconhecer o Espírito de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus”. O que provavelmente aconteceu foi um equívoco do copista que dobrou a frase“Cristo veio em carne”. Ele estava copiando o verso 3 e num golpe de vista voltou ao verso anterior, dobrando o final do verso 2 no verso 3.

Observe a histeria desse povo do solascriptura-tt.org. Se a frase “DURO É PARA TI RECALCITRAR CONTRA OS AGUILHÕES” não consta no capítulo 9, posso citar o capítulo 26 onde temos a frase completinha na NVI e está de acordo com os melhor manuscritos. Se não encontramos a declaração da natureza humana de Cristo no verso três de 1Jo capítulo 4, não tem problema, basta ler o verso logo acima.

Acho que a coisa está longe de ser obra de demônios como eles dizem, está mais mesmo para obra da ignorância... da parte deles!

Não só incentivo você a comprar a sua NVI, como também uma NTLH. E se quiser entender mais um pouco sobre esse assunto, recomendo a leitura do livro: PAROSCHI, Wilson. Crítica Textual do Novo Testamento, Editora Vida Nova.

Se ainda não ficou claro, ou se você ainda tem alguma outra dúvida, entre em contato! Aguardo seus comentários abaixo.

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Autor: André R. Fonseca
Twitter: @andreRfonseca