segunda-feira, 8 de julho de 2013

Os dias da criação foram literais?


Por Filipe Machado


Para os cristãos, a Bíblia é a fonte de todo o saber no que concerne à revelação de Deus. O crente não possui qualquer dúvida sobre a Bíblia Sagrada ser a única palavra registrada do Senhor ao Seu povo. A Escritura serve como parâmetro para averiguar, literalmente, todas as ciências e filosofias que este mundo cria. Nada que algum homem afirme pode ser contrário à Palavra. Nem mesmo afirmações sobre a física podem ser contrárias à Bíblia, como, por exemplo, se alguém insinua ser a física algo não criado, tal sentença deve ser rejeitada, afinal, foi Deus quem a criou assim como a matemática, a biologia, a química e tudo o que existe - "E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele" (Cl 1.17).

Ao lermos o relato da criação, registrado nos dois primeiros capítulos de Gênesis, encontramos algumas peculiaridades que nos são diferentes à maneira habitual de enxergarmos as coisas. Um destes pontos é o fato da narrativa relatar que as plantas foram criadas antes do Sol, isto é, vieram à existência no terceiro dia (Gn 1.11-13), enquanto o Sol e os demais luminares passaram a existir somente no quarto dia (Gn 1.14-19). Todavia, lemos que a luz veio a existir no primeiro dia (Gn 1.3). Como as plantas poderiam viver sem o sol, uma vez que aprendemos serem elas praticantes do processo de fotossíntese? Como explicar o haver de luz, mas sem o Sol?

O reformador João Calvino, brilhantemente comentou e respondeu este dilema: "Mas o Senhor, para que a si reivindicasse o pleno louvor de tudo isso, não só quis que, antes que criasse o sol, existisse a luz; mais ainda: que a terra fosse repleta de toda espécie de ervas e frutos (Gn 1.3, 11, 14). Portanto, o homem piedoso não fará do sol a causa quer principal ou necessária destas coisas que existiram antes da criação do sol, mas apenas o instrumento de que Deus se serve, porque assim o quer, já que pode, deixado este lado, agir por si mesmo com nenhuma dificuldade" (grifo meu). [1]

Existe, todavia, outra dúvida que costuma suscitar indagações entre os cristãos: os dias da criação foram literais? Quer dizer, Deus criou o Universo e tudo o que nele há em 7 dias como nós contamos hoje em dia?

Muitas teorias, livros e palestras são feitos com o intuito de "debater" sobre este assunto. Há, entretanto, com o devido respeito aos escritores e demais que se debruçam em pesquisar sobre este fato, em não se perder grandioso tempo se pesquisando ou se digladiando acerca de qual seria a interpretação correta, pois a Bíblia pode conter somente uma interpretação correta para todas as coisas. Afirmamos isso porque há, na Escritura, uma espécie de "chave" magnífica que responde toda e qualquer dúvida, que elimina toda a discussão e põe fim a inúmeros livros, pesquisas científicas e tudo quanto já foi compilado sobre este assunto. Está chave está contida nos dez mandamentos.

Os dez mandamentos são a expressão moral de Deus, pois revelam o Seu ser e instituem ao homem aquilo que ele deve cumprir. Todas, absolutamente todas as demais leis bíblicas - leis civis e cerimoniais, por exemplo - se encaixam em algum dos dez mandamentos. Para ilustrar, a autorização para se cobrar juros do estrangeiro, mas não cobrar do irmão em Cristo (Dt 23.20), tem como sustentáculo o décimo mandamento, o qual exorta a não cobiçar "coisa alguma do teu próximo" (Êx 20.17) e isto inclui o dinheiro - também o oitavo mandamento, "Não furtarás" (Êx 20.15), corrobora. A ordem para se construir uma habitação segura, tem com base o sexto mandamento ("Não matarás" - Êx 20.13), pois assim é relacionado: "Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela" (Dt 22.8 - grifo meu). A ordem para o povo de Deus construir o tabernáculo e posteriormente o templo, tudo conforme as medidas e especificações dadas pelo Senhor, possuía lastro no primeiro mandamento - "Não terás outros deuses diante de mim" (Êx 20.3), afinal, se o povo de Deus não deve ter outra deidade a qual adora, significa dizer que somente Deus deve ser obedecido.

Dentro dos dez mandamentos, há um que responde, então, a pergunta de nosso artigo. Assim lemos no quarto mandamento: "Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou" (Êx 20.8-11).

Este mandamento é como um grandioso raio iluminando as trevas do homem e pondo fim à toda discussão. O quarto mandamento (clique aqui para ler mais sobre como ele é aplicado no Novo Testamento) relaciona a obediência de se observar um dia em cada sete e isto com base na criação de Deus - "Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou". A razão pela qual os cristãos precisam obedecer este mandamento (ainda que Deus não precisasse se justificar de coisa alguma) não é fixada sobre algo temporal ou acerca de alguma característica do povo de Israel. O motivo é atemporal, não dependente de nada, exceto da vontade criativa de Deus.

Logo, se interpretação deste mandamento é de acordo com a criação, somente uma interpretação está correta: a literal.

Como poderia ser verdade os dias da criação representar "eras" ou "milênios"? Eis a conclusão lógica do que seria, caso fossem realmente eras ou milênios (ou alguma grandiosa ou inexata fração de tempo): os cristãos teriam que, após seis eras, por exemplo, descansar durante uma era e sem qualquer trabalho! Se isto fosse feito, a confusão estaria mais do que instaurada, pois quanto tempo seria esta era? Equivaleria a quantos anos? Note que seria necessário, caso os dias fossem contadas como milênios (essa interpretação é devida ao texto de 2Pe 2.8, o qual diz que "para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia"), observar um milênio inteiro e isso tudo sem trabalhar, porque o quarto mandamento inclui o descanso de todo o trabalho ordinário dos outros dias, não devendo qualquer pessoa buscar lucros, a venda ou a troca de qualquer coisa durante mil anos! Até mesmo os animais deveriam ficar mil anos sem trabalhar ("não farás nenhuma obra [...] nem o teu animal"), pois é isso que o mandamento exige.

Desta forma, de maneira inequívoca, se refuta esplendidamente toda a interpretação alegórica e que foge aos ditames da Santa Escritura. Pode-se, portanto, afirmar que a única e perfeita interpretação é a de dias literais, sendo grave heresia o defender qualquer coisa contrária.

Louvado seja o Senhor por Sua palavra e por nela temos as santas respostas.

Nota:
[1] CALVINO, João, As Institutas, Ed. Clássica, Livro I, Cap. XVI, pág. 194.