sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sinais e Maravilhas - F. B. Hole


Nos últimos anos um grande número de cristãos sinceros e devotos têm sido levados pela ocupação com certas práticas e manifestações, as quais eles reivindicam ser um reavivamento daqueles dons espirituais divinos e milagrosos que eram bastante comuns nos tempos apostólicos. Em 1 Coríntios 12:7-10 temos uma lista desses dons, mas as reivindicações de que esteja ocorrendo uma renovação ou reavivamento moderno ficam centralizadas principalmente em apenas dois deles, o "dom" de curar e o "dom" de línguas. 



Onde esses "dons" são exercitados ocorre sempre uma comoção, e isto fica bem mais evidente quando se trata do "dom" de curar. Grandes multidões se reúnem em campanhas de cura, o que não é de surpreender que aconteça, nem é de surpreender que muitos crentes zelosos sejam atraídos por isso. Ao sentirem intensamente a baixa condição espiritual da grande maioria de crentes, sem falar nas condições do imenso número de pessoas que são cristãs apenas de nome, eles naturalmente procuram por algo que sirva como um tônico espiritual; algo tão sobrenatural e divino que possa convencer os incrédulos e autenticar de novo o cristianismo aos olhos de um mundo cético. 

Eles acreditam ter encontrado nesses sinais e maravilhas da era moderna exatamente aquilo que suas almas buscavam. Mas será que encontraram? Esta é a questão. 

Não estamos entre aqueles que afirmam que os dons mencionados na carta aos Coríntios sejam totalmente impossíveis em nossos dias, pois quem somos nós para colocar limites no poder de Deus ou assumir a posição de quem é capaz de dizer o que Ele pode ou não fazer. Todavia somos responsáveis por discernir o verdadeiro caráter de tudo o que nos é apresentado como vindo de Deus. Ao examinar essas coisas à luz da Palavra de Deus, talvez encontremos fatos indubitáveis que, se compreendidos corretamente, nos colocarão em guarda contra elas, evitando que sejamos enganados e guiando-nos a dar crédito apenas àquilo que indubitavelmente venha de Deus. Vamos analisar alguns pontos indicados pelas Escrituras. 

Primeiro você já deve ter reparado no que é dito a respeito da maravilhosa manifestação de poderes miraculosos que caracterizavam o próprio Senhor. Pedro disse: "Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais" (At 2:22). Os homens desprezaram Jesus de Nazaré, mas Deus O aprovou e os milagres que marcaram todo o curso de seu ministério público eram um atestado de Deus quanto à Sua dignidade e daquilo que Ele afirmava ser, servindo, portanto, como o selo da aprovação de Deus sendo colocado sobre Ele. Este versículo é como uma chave para entendermos a verdadeira força e significado de todos os dons e sinais miraculosos. 

Em Gênesis, os únicos milagres mencionados são aqueles conectados diretamente a Deus ou ao Seu Anjo. Somente quando chegamos no livro de Êxodo e em Moisés é que encontramos milagres executados por um homem. Qual a razão disso? Porque até aquele ponto da história do mundo Deus não tinha feito qualquer intervenção através de um homem no sentido de revelar e estabelecer Sua Palavra. 

Ele fez isso enviando Moisés para corajosamente confrontar o mais poderoso monarca da terra, para organizar e liderar Seu povo oprimido e decaído para fora da servidão, e para representá-los como seu mediador da antiga aliança, a aliança da lei. Consequentemente as credenciais de Moisés foram atestadas por uma maravilhosa manifestação de dons miraculosos. 

Mais uma vez Deus interveio através de homens em questões de grande importância quando levantou Elias e Eliseu. Ambos foram amplamente credenciados por seus dons miraculosos. Na verdade foi na época deles e na época de Moisés que os milagres estiveram em maior evidência na história do Antigo Testamento. 

Depois de um longo período de silêncio apareceu João Batista, um dos maiores profetas, e mesmo assim "João não fez sinal algum" (Jo 10:41). Por quê? Porque, apesar de ser o grande homem que era ele era apenas o precursor de um infinitamente maior, o próprio Senhor. Foi então que os milagres vieram como nunca havia ocorrido antes, já que Deus estava colocando Sua aprovação sobre Jesus. Mesmo assim, e apesar dos milagres, Ele foi rejeitado. 

Porém Sua rejeição foi seguida de Sua ressurreição, Sua ascensão aos céus e a consequente descida do Espírito Santo, que resultou na formação da igreja. Era necessário que Deus mostrasse que tinha ido além dos frágeis e desprezíveis elementos do judaísmo, e que Sua presença já não seria mais encontrada no Templo de Jerusalém e nem em qualquer templo feito por mãos, mas na igreja que havia se tornado Sua casa. Portanto a era dos milagres se estendeu dos tempos do Senhor até a era apostólica. Desse modo o testemunho apostólico da ressurreição e glória do Cristo estava sendo totalmente aprovado por Deus aos olhos do povo. 

Portanto, o objetivo daquelas manifestações miraculosas, fossem elas curas ou línguas ou outras, não era para que os crentes pudessem desfrutar delas como se eles próprios tivessem algum privilégio especial, por assim dizer. Elas serviam de testemunho para o mundo, autenticando tudo o que estava relacionado ao testemunho de Deus em todas as ocasiões, como sendo algo que verdadeira e indiscutivelmente vinha do próprio Deus. Se entendermos isto não ficaremos surpresos ao reparar que as curas registradas em Atos dos Apóstolos eram todas de pessoas que ainda não eram crentes quando foram curadas. 

Ao afirmarmos isto não estamos nos esquecendo dos casos de Dorcas e de Êutico, e também de Paulo no episódio da víbora venenosa. Este último foi um caso de preservação milagrosa do mensageiro apostólico; os dois outros foram casos de ressurreição de entre os mortos, algo reservado apenas a crentes. Nenhuma pessoa não convertida jamais foi trazida de volta à vida neste mundo durante a época dos evangelhos, como se estivessem recebendo uma segunda chance de se converterem após terem morrido. Que aqueles que esperam por uma segunda chance após a morte fiquem bem cientes disto! 

Repare ainda que nas epístolas são mencionados vários casos de doenças ou enfermidades entre os crentes. Entre os coríntios, as mesmas pessoas onde podiam ser encontrados os dons de cura (1 Co 11:30), no próprio Paulo (2 Co 12:7-9; Gl 4:13), em Epafrodito (Fp 2:25-30), em Timóteo (1 Tm 5:23), em Trófimo (2 Tm 4:20), entre os crentes judeus dispersos (Tg 5:14-16), em Gaio (3 Jo 2), e todavia apenas na carta de Tiago encontramos uma palavra quanto ao modo de se obter cura, a saber, pela oração e confissão de pecados. Quando há enfermidade devemos orar uns pelos outros com confissão de pecados, e se os anciãos da igreja puderem orar em fé pelo doente, tendo-o ungido com azeite, ele deve ser curado. O que está em questão é a fé dos que oram, não do que está enfermo. 

Fica evidente que ao findar a era apostólica esses dons mencionados em 1 Coríntios 12 cessaram. O apóstolo Paulo indicava em 1 Coríntios 13:8 que isso ocorreria, do mesmo modo como haviam cessado os milagres dos dias de Moisés e de Elias. O que aconteceu quando os apóstolos partiram? O mesmo que aconteceu quando Moisés partiu e quando Elias e Eliseu partiram: uma rápida decadência. Se a função dos sinais era a de autenticar um povo e uma mensagem como sendo genuinamente de Deus, o que poderia acontecer quando tanto o povo quanto a mensagem fossem corrompidos? Obviamente Deus tiraria Sua autenticação. Assim os sinais foram tirados de uma igreja mundana e de um evangelho corrompido por não serem mais aprovados por Deus. 

Neste ponto afirmamos que, apesar de existir fidelidade aqui e ali, e possivelmente alguma “pouca força” (Ap 3:8) em determinadas áreas, aquilo que pode ser chamado de “a igreja” nunca esteve tão mundano quanto em nossos dias, e o evangelho nunca foi mais corrompido e de forma mais pública e flagrante. Se assim é, será que Deus iria escolher este momento para um reavivamento, em qualquer escala que fosse, daqueles dons que identificavam a igreja no princípio quando estava nos dias de seu primeiro amor? A resposta é óbvia. É altamente improvável que isto aconteça. 

Observe outro fato bíblico relacionado a este assunto. Apesar de não existir uma previsão para que os sinais e maravilhas de Deus fossem restaurados no fim desta era, existe uma previsão de que haveria uma obra de Satanás exatamente neste sentido. 

“E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade” (2 Ts 2:8-12). 

Esta passagem evidentemente refere-se ao tempo após o Senhor ter vindo para tirar os Seus santos da terra, e depois da retirada da resistência ao mal exercida pelo Espírito Santo que habita neles. Mesmo assim, com frequência ocorre que antes que algum mal ou sistema de poder atingir o seu clímax e completa expressão, surjam várias manifestações preliminares de sua atuação. Cremos ser exatamente este o tipo de coisa que está acontecendo diante de nossos olhos hoje. No início do século 19, em conexão com um movimento conhecido como “Irvingnismo”, iniciaram-se sinais e maravilhas na forma daquilo que era visto como falar em línguas estranhas e profecias “inspiradas”. Porém um dos principais personagens daquele movimento confessaria depois que o poder sob o qual ele estava não vinha de Deus. Desde os dias do Invingnismo até agora tem ocorrido uma sucessão de fatos semelhantes, até chegarmos a uma verdadeira epidemia disso, particularmente na forma de curas que, em alguns casos estão conectadas a ensinos não muito corretos, e em outros a ensinos completamente malignos, como é o caso da religião chamada “Ciência Cristã”. Não hesitamos em dizer que o que acontecia no início do século 19 é o mesmo que acontece hoje, ou seja, que a grande maioria dessas manifestações não vem de Deus. 

Temos algo mais a acrescentar, e isto é que a grande maioria desses “sinais e maravilhas” não é genuína. O tempo e os supostos resultados dessas grandes campanhas de curas acabam sendo depois verificados como sendo falsos, após toda a excitação e furor esfriarem. Invariavelmente o número de curas consideradas reais é minúsculo ou até inexistente. 

Realmente cremos que ocasionalmente apraz a Deus intervir em favor do enfermo de maneiras sobrenaturais, dentro daquilo que vemos em Tiago 5:14-16. Cremos que mesmo em nossos dias ocorram casos de vítimas de poderes demoníacos originárias do mundo pagão que foram libertadas pela fé, oração e jejum de devotos servos de Deus. Estas coisas ocorrem como fruto do modo secreto de Deus sempre tratar, porém não da forma tão comum quanto ocorria nos dias apostólicos. Mas também cremos que as falsas religiões podem nos apresentar uma lista de maravilhas comprovadas, especialmente na forma de curas, que de modo algum vêm de Deus. Basta ver, por exemplo, as curas católicas que ocorrem no santuário de Lourdes e as praticadas pela Ciência Cristã. 

Dentre os dons miraculosos em Corinto havia um chamado de “dom de discernir os espíritos” (1 Co 12:10). Se este dom tivesse sido restaurado não veríamos tantos sendo levados por essas loucuras modernas. A palavra para hoje é: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento” (1 Co 14:20).