segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Por que os pastores não entendem estas coisas?


Após ter lido o livro "A ordem de Deus" você diz ter sido esclarecido sobre muitos pontos relativos ao corpo de Cristo e se diz perplexo por estas verdades não serem compreendidas pelos pastores. O raciocínio lógico seria acreditar que por eles fazerem cursos de teologia deveriam estar cientes dessas coisas. Um resumo dos principais questionamentos do livro está neste link.



Cursos e faculdades de teologia são invenções humanas, e basta ver um dos títulos que elas outorgam para entender isso: "Doutor em Divindade". Alguém de sã consciência poderia aceitar um título assim, considerando-se um perfeito entendedor da Divindade?

1Co 8:2  E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.

Considerando que essas faculdades criam uma casta de homens considerados superiores em conhecimento aos cristãos comuns, isto acaba também entrando em conflito com passagens como:

Mat 11:25  Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.

1Co 2:4-5  A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. 

1Co 2:13-15  As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. 

Fica evidente que existe um abismo entre o "sistema de ensino" da sabedoria humana e o aprendizado das coisas de Deus, o qual só pode ocorrer mediante o Espírito Santo. Portanto, não é estudando arqueologia, história, antropologia ou línguas antigas que alguém chega ao conhecimento da verdade, mas pela aplicação, pelo Espírito, da Palavra de Deus no coração do crente.

Os evangelhos estão cheios de exemplos de pessoas incultas que reconheceram em Jesus o Messias prometido pelos profetas, enquanto os doutores da Lei e até mesmo os discípulos em algumas ocasiões não enxergavam isso. É instrutivo o capítulo 18 de Lucas, onde temos alguns contrastes evidentes entre aqueles que estão humanamente capacitados e aqueles que são capacitados pelo Espírito Santo.

Em Lucas 18:9-14 temos um fariseu cheio de si e de práticas religiosas, e um publicano humilhado diante de Deus. Qual conheciam melhor a Deus? Na sequência (Lucas 18:15-25) há um jovem rico e versado na Lei cuja bagagem de conhecimento e obediência aos mandamentos é colocada em contraste com os meninos dos quais Jesus diz ser o Reino. O que poderia saber uma criança quando comparada a um ilustre príncipe dos judeus?

Então vemos em Lucas 18:31-43 os discípulos perplexos com as afirmações de Jesus de que deveria ir a Jerusalém para ser morto e um pobre cego que, mendigando, nem precisou de seus olhos naturais para reconhecer que estava diante do Filho de Davi, título que dava a Jesus a ascendência real e o devido reconhecimento de ser ele o escolhido de Deus para o trono. Antes que ele tivesse sua visão natural curada, seus olhos da fé já tinham visto o que olhos de carne não podem ver.

As escolas e faculdades de teologia podem ter tido uma origem bem intencionada, mas não vejo na Palavra de Deus fundamento para elas. O objetivo do cristão é conhecer a Cristo, não esta ou aquela doutrina ou arqueologia, antropologia, línguas antigas etc. Se alguém quiser aprender estas coisas que frequente uma escola secular e aprenda, e se for cristão use esse conhecimento humano para a glória de Deus, como faz com o dinheiro, a profissão, os talentos naturais etc.

Não devemos nos esquecer de que as faculdades de teologia vêm de séculos e já existiam muito antes da reforma protestante. Aliás, no catolicismo elas eram até mais coerentes, pois tinham o objetivo de resguardar as doutrinas católicas - mesmo as equivocadas - e não fazer como as modernas escolas teológicas, que apresentam aos seus estudantes um cardápio do tipo "alguns creem em A, outros creem em B e outros em C", como se a verdade fosse uma questão de escolha do homem.

Alguém poderia alegar que 2 Timóteo 2:2 serve de aval para a fundação dessas escolas: "E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros". Este é realmente o papel de todo aquele que aprende da Palavra de Deus: ensinar a outros. Mas onde isto é feito de acordo com a Palavra de Deus? Posso encontrar algumas situações:

Nas reuniões da igreja, onde o ensino não é de um para muitos como no modelo denominacional católico ou protestante, mas de muitos para muitos:


1Co 14:31  Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados.


No lar: 

1Co_14:35  E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos 


2Tm 3:14-15  Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus.  


Tit 2:3-5  As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem; Para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada.  


Em cartas e livros: 

2Ts_2:15  Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa 


Col_4:16  E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia lede-a vós também.  

1Ts_5:27  Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos.  

1Jo_5:13  Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus. 

2Tm_4:13  Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos. 



No ministério daqueles que têm o dom (não o diploma) de ensinar: 


Ats 11:25-26  E partiu Barnabé para Tarso, a buscar Saulo; e, achando-o, o conduziu para Antioquia. E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.  

Alguém poderia alegar que este último exemplo é perfeito para indicar a validade das faculdades teológicas. Será? O que vemos neste e em outros casos são homens usados por Deus no exercício de seus dons - e Paulo era um caso singular  e não diplomados em escolas teológicas ministrando a alunos das mesmas escolas. É muito simples ver o absurdo disso: como alguém poderia considerar-se "diplomado" no conhecimento de Cristo? E como avaliar o aprendizado da Palavra de Deus usando métodos humanos de ensino, como provas escritas, notas, disciplinas etc.? É o conhecimento de Cristo que devemos buscar na Palavra, não de disciplinas como história ou geografia. 

Maria assentada aos pés de Jesus encontrou a melhor parte sem frequentar nenhuma faculdade de teologia. 


Luc 10:39-42  E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.  


Pedro e João foram reconhecidos como detentores de um conhecimento que não vinha deles por terem estado com Jesus: 

Ats_4:13  Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus 


Mas vamos à sua dúvida que é sobre a razão de os pastores não entendem estas coisas que você aprendeu no livro "A ordem de Deus". A dificuldade de um pastor compreender é grande, porque a primeira coisa que ele precisaria fazer se entendesse seria abandonar sua posição, já que ela não existe nas Escrituras. Existe o dom de pastor e existe o ofício de presbítero, mas no primeiro caso trata-se de um dom dado pelo Senhor, não por uma junta de homens com poderes para ordená-lo, e não se trata de alguém que fique à frente de uma congregação, mas de um que tem um coração de cuidado para com as ovelhas. 

Além disso, os dons, como o de pastor, evangelista e mestre, não eram locais, mas universais. Ou seja, um pastor não era aquele responsável por uma congregação local, mas alguém ocupado com as ovelhas de Cristo onde quer que elas estivessem. Quanto aos presbíteros, eram sempre mais de um e divididos por cidades, não por denominações. Se quiser entender melhor isto sugiro que volte a ler os capítulos do próprio livro que leu onde é explicado o lugar de cada dom (como evangelistas, pastores e mestres) e de cada ofício (como presbíteros, bispos ou anciãos, que são tratados como sinônimos).




Como pode ver, está tudo errado no que os homens instituíram, e ao ler "A Ordem de Deus" isso salta aos olhos. Evidentemente, um clérigo, seja ele pastor, padre, presbítero ou qualquer título inventado pelos homens, ficará relutante em adotar a ordem bíblica pois isso significa em muitos casos "perder o emprego" e todas as regalias que o cargo traz, como o ser tratado como "o mais igual entre os iguais" (ouvi dizer que esta era uma expressão usada em monastérios católicos para designar o monge superior, por não poderem considerar ninguém superior de fato entre eles). 

Visitei o site que indicou (Mary Schultze), mas ela adota a posição de muitos cristãos (inclusive pastores) que é a crítica ao sistema e a permanência nele. Muitos fazem assim, se esquecendo da importância que Deus dá ao apartar-se do erro. Alguns pastores chegam a apartar-se, mas apenas para iniciar uma nova denominação ou até uma igreja sem denominação, da qual acabam sendo "o mais igual entre os iguais". 

Se tiver facilidade com o inglês sugiro este ótimo texto de C. H. Mackintosh: One-sided Theology. Dele seleciono uma parte que diz: 


He [God], blessed be His name, has not confined Himself within the narrow limits of any school of doctrine, high, low, or moderate. He has revealed Himself. He has told out the deep and precious secrets of His heart. He has unfolded His eternal counsels, as to the Church, as to Israel, the Gentiles, and the wide creation. Men might as well attempt to confine the ocean in buckets of their own formation as to confine the vast range of divine revelation within the feeble enclosures of human systems of doctrine. It cannot be done, and it ought not to be attempted. Better far to set aside the systems of theology and schools of divinity, and come like a little child to the eternal fountain of Holy Scripture, and there drink in the living teachings of God's Spirit.

Nothing is more damaging to the truth of God, more withering to the soul, or more subversive of all spiritual growth and progress than mere theology, high or low — Calvinistic or Arminian. It is impossible for the soul to make progress beyond the boundaries of the system to which it is attached. If I am taught to regard "the five points" as "the faith of God's elect," I shall not think of looking beyond them; and then a most glorious field of heavenly truth is shut out from the vision of my soul. I am stunted, narrowed, one-sided; and I am in danger of getting into that hard, dry state of soul which results from being occupied with mere points of doctrine instead of with Christ. A disciple of the high school of doctrine will not hear of a world-wide gospel — of God's love to the world — of glad tidings to every creature under Heaven. He has only gotten a gospel for the elect. On the other hand, a disciple of the low or Arminian school will not hear of the eternal security of God's people. Their salvation depends partly upon Christ, and partly upon themselves. According to this system, the song of the redeemed should be changed. Instead of "Worthy is the Lamb," we should have to add, "and worthy are we." We may be saved today, and lost tomorrow. All this dishonours God, and robs the Christian of all true peace.

We do not write to offend the reader. Nothing is further from our thoughts. We are dealing not with persons, but with schools of doctrine and systems of divinity which we would, most earnestly, entreat our beloved readers to abandon, at once, and for ever. Not one of them contains the full, entire truth of God. There are certain elements of truth in all of them; but the truth is often neutralized by the error; and even if we could find a system which contains, so far is it goes, nothing but the truth, yet if it does not contain the whole truth, its effect upon the soul is most pernicious, because it leads a person to plume himself on having the truth of God when, in reality, he has only laid hold of a one-sided system of man.

Then again we rarely find a mere disciple of any school of doctrine who can face scripture as a whole. Favourite texts will be quoted, and continually reiterated; but a large body of scripture is left almost wholly unappropriated. (C. H. Mackintosh - 1820-1896).


por Mario Persona