domingo, 10 de março de 2013

A Primazia da Glória de Deus


Por  Matt Chandler


Ao examinarmos o que é a criação, em toda sua maravilha e diversidade, e ponderarmos como essa criação veio a existir, temos de nos lembrar de que toda a complexidade e beleza do Universo não foi feita com a intenção de acabar em si mesma, mas sim, traçar sua origem ao Criador.

Deus criou tudo, e tudo que fez era bom, mas aquilo que criou para ser bom não era um fim em si mesmo, foi-nos dado como bom para que nós fôssemos impelidos a adorá-lo. Noutras palavras, quando você e eu tomamos um bocado de comida, isso deveria nos induzir à adoração – não da comida, claro, mas do Criador dos alimentos. Quando eu ou você sentimos o calor do abraço de nosso filho, isso deveria atiçar em nós a adoração. Ao sentir o calor do sol em nosso rosto, isso deveria criar adoração. Quando sentimos o cheiro da chuva, isso deveria fazer com que adorássemos quem a fez. Poderíamos continuar com exemplo após exemplo, sem fim. A bondade da criação não é para declarar a si mesma, mas agir como sinaleiro que aponte para o céu. Por esta razão é que Paulo podia dizer: "Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (1Co 10.31). Ele trabalha com o pressuposto de que qualquer coisa que façamos pode ser feito para a glória de Deus.

Afinal, nunca estamos em estado de não adoração. É fácil ver que fomos criados para adorar. Somos totalmente desesperados por isso. Desde o fanatismo nos esportes até os tablóides das celebridades, e todas as outras espécies devoyeurismos que hoje em dia são normais em nossa cultura, evidenciamos que fomos criados para olhar para algo além de nós mesmos e nos maravilharmos, desejarmos, gostarmos com zelo, amarmos com afeto. Nossos pensamentos, nossos desejos, nossos comportamentos são sempre orientados a alguma coisa, ou seja, sempre estamos adorando – atribuindo valor a algo. Se não for Deus, o alvo desse culto é algum ídolo. Mas de qualquer jeito, não há como desligar o interruptor de adoração de nossos corações. Tim Keller escreve:

Quando o seu significado na vida é endireitar a vida de outro, pode ser que chamem isso de "codependência", mas na verdade, é idolatria. Um ídolo é aquilo que você vê e diz no fundo do coração: se eu tiver isso, sentirei que minha vida tem propósito, saberei que tenho valor, obterei significado e segurança. Existem muitas maneiras de descrever essa espécie de relação com alguma coisa, mas talvez a melhor delas seja a palavra adoração.

Na verdade, cada vez que orientamos o âmago de nosso coração a alguma coisa, estaremos adorando essa coisa. O alvo das Escrituras é dirigir nossa adoração ao único Deus verdadeiro do Universo, e o próprio Universo foi projetado, não para ocupar nosso culto, mas para mover o mais íntimo de nosso coração a contemplar o seu Deus. Os céus, afinal, não proclamam a glória de si mesmos, mas a glória de Deus.

Sendo assim, a criação nos leva a olhar algo além de nós e nos maravilharmos disso. Toda a criação nos foi dada para que contemplássemos o tremendo Deus que tudo criou e o fez bom. João Calvino escreve:

Desde a criação do Universo, ele criou as insígnias pelas quais mostra-nos sua glória em todo tempo e todo lugar que lançarmos os olhos... Como a glória de seu poder e sabedoria brilham mais no alto, o céu muitas vezes é chamado de seu palácio... No entanto, onde quer que lancemos os olhos, não existe um único lugar no Universo onde não possamos discernir pelo menos algumas centelhas de sua glória.

Isso coloca sobre nós a responsabilidade de exercer domínio sobre a criação para a glória de Deus, não para nossa própria glória nem pela própria criação. Porque Deus declarou boa a criação, temos a responsabilidade, como mordomos, de cuidar bem dela, não como servos da criação, mas como servos de Deus. Isso torna o que muitas vezes chamamos de "cuidados da criação" um aspecto válido da responsabilidade de sermos bons mordomos da boa dádiva de Deus, mas torna a adoração da criatura ou criação algo totalmente fora dos limites aceitos por Deus. Assim, os que colocam o mundo natural, seja ela a flora ou fauna, em valor maior do que os seres humanos estão envolvidos em idolatria. Igualmente, quem coloca um objeto de culto – quer o chamem de deus ou deusa ou qualquer outra coisa – dentro da própria criação, está envolvendo idolatria. Dessa espécie de disfunção de adoração, temos desde a espiritualidade da Nova Era até o panteísmo e até o eco-terrorismo anárquico. Qualquer pessoa que quer queimar um prédio onde moram pessoas para salvar árvores, ou arpoar um marinheiro para salvar as baleias, está presa a uma adoração pervertida.

Contudo, fomos feitos para adorar, planejados para dar glória a algo bem maior que nós mesmos. Sendo assim, interagimos com a terra de modo a sempre mover o coração e mente quanto à bondade, beleza e graça de Deus naquilo que ele nos deu, desde sua criatividade na invenção de sabores até sua beneficência em dar-nos o calor do Sol. O testemunho consistente das Escrituras é este: a principal empreitada de Deus é para sua própria glória. Conforme aprendemos no primeiro capítulo, o ponto principal da Bíblia é o glorioso respeito devido a Deus. Assim, o propósito principal da vida humana deve ser considerar a glória de Deus.

Imagino que a maioria dos que leem este livro terá pelo menos três refeições no dia, ou no mínimo, poderia comer se quisesse. Perdemos de vista que a maior parte do resto do mundo não consegue fazer isso. Assim, em vez de fazer uma oração trivial de agradecimento a Deus pedindo que abençoe o alimento, por que não entrar em cheia e dizer: "Obrigado, Deus, porque o Senhor provê isso, e o fez de modo a requerer muito pouco esforço da minha parte, e porque o Senhor poderia tirar tudo isso em um único instante, mas não o faz"? Que tal gratidão pela provisão de Deus acima da gratidão pela glória criativa de Deus na criação de sabores e em como tudo combina?

É a razão da criação de Deus. A razão da bondade de sua criação. Nosso reconhecimento e prazer na glória de Deus.

Fonte: Trecho do livro "O Evangelho Explícito", publicado pela Editora Fiel em 2013
Tradução: Elizabeth Gomes
Revisão: Márcia Gomes
Divulgação: Bereianos