segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

John Wesley, Armínio e o arcanjo Miguel


Recentemente foi lançado um livro chamado Calvinismo Recalcitrante. Neste livro o autor procura refutar alguns dos pontos da doutrina Reformada usando o velho argumento ad hominem. Um desses argumentos é a acusação que ele faz ao reformador genebrino, João Calvino, de que o reformador cria na mesma heresia dos Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia.

Essas duas religiões pregam que Miguel era o outro nome de Jesus Cristo antes de vir à terra. Veja esses dois links, das duas religiões:

          • Testemunhas de Jeová
          • Adventistas do Sétimo Dia

A acusação do autor é: 
Claro que os calvinistas também rechaçam isso como uma heresia, mas relutam em admitir qualquer questionamento na doutrina 'tulipiana' dos pontos Soteriológicos de João Calvino. Quando os remonstrantes (arminianos) quiseram e solicitaram, para reavaliar as conjecturas da doutrina, foram enxovalhados e pejorativamente adjetivados de sectários (alguns até foram mortos e queimados como hereges). Desde então, os calvinistas têm se colocado em uma posição jactanciosa diante de uma questão que é teologicamente complexa ante a magnitude do tema. Assim como ele errou em comparar Jesus a um anjo, com certeza outros pontos precisam ser reavaliados sem medo e pela simplicidade da Palavra.” [1]

Então, se a acusação deste "apologista" é de que, se Calvino errou na interpretação de Daniel 10.13,12; 12.1 dizendo que Miguel é Jesus, e assim, todas as outras doutrinas estão erradas, creio que este escritor não sabe pesquisar sobre o arminianismo que ele mesmo crê. Por que?

Vamos ver o que Arminio diz sobre Calvino:

Depois da leitura das Escrituras..., e mais do que qualquer outra coisa,... eu recomendo a leitura dos Comentários de Calvino ... Pois afirmo que na interpretação das Escrituras Calvino é incomparável, e que seus Comentários são mais valiosos do que qualquer coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais — tanto assim que atribuo a ele um certo espírito de profecia no qual ele se encontra em uma posição distinta acima de outros, acima da maioria, na verdade, acima de todos." [2]

Vejamos, Armínio diz que a interpretação de Calvino das Escrituras é: incomparável, valiosos do que qualquer coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais, espirito de profecia e acima de todos.


Pois bem, na época de Armínio o comentário de Daniel já havia sido escrito e se Armínio recomendava ler os comentários de Calvino, depois de todos aqueles adjetivos, é porque Armínio não repudiava a interpretação de Calvino sobre Miguel e Jesus. 

Vamos ver outro arminiano, pai do metodismo e do arminianismo wesleyano, John Wesley, como ele interpretava a questão: 

Daniel 10.13 [...] e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes.
Wesley comenta: Supõe-se comumente que Miguel aqui quer dizer Cristo.
Daniel 10.21 Miguel, vosso príncipe.

Wesley comenta: Miguel - Cristo é o protetor de sua igreja. [3]

E naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo... Daniel 12:1

Wesley comenta: portanto, haverá ainda uma maior libertação para o povo de Deus, quando Miguel seu príncipe, o Messias deve aparecer para a sua salvação. [4]

Não estou aqui para falar que Calvino, Armínio e John Wesley eram hereges por causa deste ponto, até porque, os recursos que temos hoje, os reformadores não tinham. Mas diante do que colocamos aqui neste breve artigo, eu faço a mesma afirmação que este apologista fez:

Assim como Wesley e Armínio (que recomendou a leitura dos comentários de Calvino) erraram em comparar Jesus a um anjo, com certeza os outros pontos de suas doutrinas, também, precisam ser reavaliados sem medo e pela simplicidade da Palavra!

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Notas:
[1] http://www.cacp.org.br/calvino-e-o-arcanjo-miguel/
[2] Carta escrita a Sebastian Egbertsz, publicada em P. van Limborch e C. Hartsoeker, Praestantium ac Eruditorum Virorum Epistolae Ecclesiasticae et Theologicae [Amsterdam, 1704], nº 101.