sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Moderação evidente



Minha mente, contudo, é mui tranquila, a qual recebe tudo sem se ofender. 

Esta frase de Cicero, que fora citada por Calvino em seu comentário aos Filipenses, expressa boa parte do que Paulo quis dizer em Filipenses 4.5: Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor.

Mas, por que a frase de Cícero não está totalmente correta? Pelo fato de que a moderação não deve ser algo sentido interiormente, como se fosse somente uma paz intrínseca. O texto nos mostra dois motivos pelos quais devemos ser moderados. 


Primeiro, o que é ser moderado?

De acordo com o Dicionário Teológico do Novo Testamento, a palavra se refere a “aquilo que é correto e apropriado [...] Epieíkeiadenota um ato legal de “clemência” ou “leniência” [...] Paulo propõe a “humildade” de Cristo como o modelo. Como o rei, Cristo demonstra bondade [...] Os fracos procuram asseverar a sua dignidade. Cristo, tendo à majestade divina, mostra clemência salvífica”.[1]

A definição acima, tendo Cristo como o maior exemplo, expressa bem o que Paulo provavelmente quis dizer às irmãs Evódia e Sintique (v.2). Não sabemos ao certo qual foi à situação que essas duas irmãs se meteram, mas Paulo roga a elas para que pensem concordemente no Senhor [tenham a mesma mente no Senhor] (v.2). Os textos do verso 2-4 mostram que essa mente deve ser humilde e alegre[2], e agora, no verso 5, elas devem ser moderadas, moderadas como Cristo. Pois, Cristo sendo espancado por nossos pecados, cuspido na cara e crucificado não reagiu e disse: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Toda ira que Cristo poderia ter nesta hora - e poderia ter porque Ele é Deus - é revertida em intercessão. Intercessão essa que Cristo ensina aos seus discípulos:
Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” Mt 5.44
Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os injustos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai. Lc 6.35,36

Segundo, como eu devo fazer isso? 

Como deve ser a minha moderação? Esta moderação, conforme o texto é para ser conhecida diante de todos os homens (v. 2b). 

Os homens (as pessoas em nossa volta) devem ver a nossa conduta como pessoas redimidas pelo Santo Espirito de Deus. Quando pecamos, damos mau testemunho pecando contra Deus e desmoralizamos o nome de Cristo. Porque todas às vezes que a Igreja de Cristo é mencionada, na verdade, Cristo é o principal mencionado. Pois, quando pecamos não é só o nosso nome que está em jogo, juntamente com o nosso nome levamos o nome de Cristo. Por exemplo, quando Paulo perseguia os cristãos, Paulo na verdade perseguia a Cristo (At 9.5).

Nós, cristãos, devemos andar com boa conduta em sabedoria. E essa sabedoria, conforme Tiago 3.13, é mediante condigno proceder. Pedro, em sua primeira carta, disse:

Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem (2.12).

A nossa vida como testemunho pode dizer se cremos ou não em Deus. Paulo disse a Tito: Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” (1.16). As nossas ações, por mais que tenhamos adesivos, camisetas, livros e/ou Bíblias, as quais querem mostrar que somos crentes, elas podem mostrar nitidamente que não cremos em Deus porque o negamos com nosso testemunho. 

Mas, por que eu devo ser moderado?

O texto nos diz: Perto está o Senhor!” (v.5). A melhor forma de ser moderados é entender que o Senhor está perto. A frase “perto está o Senhor”, segundo F.F. Bruce, quer dizer que o Senhor está próximo de nós com a ideia de tempo e lugar[3]. O fato do Senhor estar perto isso nos traz pavor, mas também pode nos trazer conforto. 

O pavor é de que Deus vê todas as nossas ações e pensamentos, como diz Provérbios: Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons” (15.3; cf. Sl 33.13). O Senhor sabe cada passo que dou, não tem como fazer alguma coisa escondida de Deus. Isso deve fazer com que pensemos mais de duas vezes antes de cometer algum pecado.

Mas, a presença de Deus nos traz conforto porque o próprio Cristo disse que estaria conosco até a consumação dos séculos (Mt 28.20). A presença de Cristo é confortante, pois temos um repouso seguro.

E, assim, creio eu de que estes textos podem ser facilmente encaixados no que Paulo exorta:

Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito. – Sl 34.18
Tu estás perto, ó Senhor, e todos os teus mandamentos são a verdade.  Sl 119.151
Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade. – Sl 145.18

Conclusão

Como crentes devemos sempre ser moderados, não só a vista dos Homens, mas sabendo que o Senhor está do nosso lado, conforme o que disse o salmista: Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa;” Salmo 139.7-12. Ou seja, nenhum lugar e nada poderá nos esconder de Deus e esconder aquilo que fazemos. Por isso peçamos a Deus, o qual nos conhece por completo, que guie nossos passos em veredas direitas. 

Antes nós estávamos separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo (Ef 2.12), mas por intermédio de Cristo, o sangue vertido na cruz, fez com que chegássemos perto de Deus. A nossa moderação sincera expressa a realidade da obra de Cristo e nossas vidas.

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Notas:
[1] KITTEL, Gerhard. Dicionário teológico do Novo Testamento, Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich; condensado por Geoffrey W. Bromiley. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. p. 268
[2] "Rogo a Evódia, e rogo a Síntique, que sintam o mesmo no Senhor. E peço-te também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os meus outros cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida. Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos." Filipenses 4:2-4
[3] BRUCE, F. F. Comentário Bíblico Contemporâneo – Filipenses. Editora Vida, p. 151 

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Fonte: Bereianos