quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O Discipulado na Missão da Igreja - 1/2


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I. Introdução

Uma das razões que nos estimula a escrever sobre o tema escolhido, é a crise por que passa a Igreja Evangélica Brasileira em seu âmbito eclesiástico, denominacional e geográfico com respeito a sua Missão.

Ao decorrer de meus anos de ministério pastoral e atualmente como professor e diretor de uma escola de treinamento missionário, sou levado a pensar que o momento da igreja brasileira em sua geração é por demais delicado. Isso porque, vemos as igrejas locais procurando ansiosamente meios de crescimento numérico, muitas delas, sinceramente, buscando cumprir o mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que em sua caminhada, tem abandonado princípios inegociáveis da Escritura Sagrada, resultando em uma situação de “stress” espiritual para a comunidade, a diluição da fé e o enfraquecimento qualitativo e orgânico dos crentes.

Que é mandamento de Nosso Senhor que cresçamos em número, ninguém duvida, contudo, seria pertinente levantarmos algumas ponderações:

• Qual a verdadeira motivação dos líderes das igrejas locais na busca ansiosa de um crescimento na igreja?
• Estamos observando um crescimento equilibrado nas igrejas locais?
• Qual o estilo de vida que Deus tem requerido de sua igreja na missão?
• Até que ponto podemos dizer que há um verdadeiro crescimento em nossas igrejas locais?

Nas palavras de um missiólogo norte-americano compreendemos muito bem o que a igreja evangélica brasileira está realizando em seus dias. Ele afirma que “a Igreja nasceu como um fato na Palestina, veio para a Grécia e tornou-se uma idéia, foi para Roma e tornou-se uma Instituição, foi para os Estados Unidos e tornou-se um empreendimento, veio para o Brasil e tornou-se um evento”.

Atualmente, a Igreja Brasileira está sofrendo, porque não acata o Discipulado como o verdadeiro estilo de vida cristão. Os crentes não são desafiados a fazer discípulos, e, por assim dizer, estão tranquilos com respeito a sua maneira de ser. Olhando para uma Teologia Bíblica Integral do Discipulado, quero levantar questões relevantes a respeito do Discipulado e ao mesmo tempo descobrir implicações práticas deste estilo de vida proposto por Jesus esquecido pelas nossas comunidades cristãs.

II. Definições gerais

Para que compreendamos o que vem a ser Discipulado, necessitamos recorrer à etimologia de algumas palavras que se nos apresentam nas Escrituras, com respeito a este fato. Necessitamos definir Discipulado em termos gerais e específicos, na busca dos vários significados que o original grego que no ajuda a discernir o assunto que desejamos tratar.

A primeira palavra que nos traz a mente a idéia de Discipulado é “Akoloutew” (Akolouteo). Traduzida por seguir, denota a ação de uma pessoa respondendo ao chamado do Mestre e cuja sua vida inteira é reformulada no sentido da obediência. A idéia no grego clássico era de alguém que seguia a Deus ou a Natureza como idéia filosófica, o mesmo se identificava mediante uma incorporação. Esta palavra no Antigo Testamento correspondia à “halak” que dava a conotação de “ir atrás de”. No Novo Testamento, Akolouteo é empregado 56 vezes nos Evangelhos Sinópticos e 14 vezes em João, 3 vezes em Atos, uma vez em Paulo e 6 vezes no Apocalipse. Embora sendo usada algumas vezes para denotar as multidões que “seguiam” a Jesus, ela somente terá uma importância maior quando atribuída ou vinculada a pessoas que estavam seguindo o Mestre.

Alguns textos, principalmente os que estão narrando o chamado vocacional dos discípulos por Jesus usam Akolouteo para evidenciar um convite muito mais desafiador do que diplomático.

Em Mt 9.9, Jesus chama a Mateus e diz “segue-me”. A mesma palavra é usada para o desafio colocado ao jovem rico, onde depois que ele vendesse todos os seus bens e desse aos pobres o mancebo deveria seguir ao Mestre. Quando Jesus fala realisticamente sobre o ser discípulo usa Akolouteo em Mt 8.22 para denotar a prioridade que os seus seguidores deveriam ter para com o seu projeto. O que nos chama a atenção é que “akolouteo” possui uma força muito grande, tanto historicamente como culturalmente para a época de Jesus.

Com um pano de fundo histórico, “seguir” era fator preponderante para alguém se fazer aluno nas escolas peripatéticas, em que o discípulo se fazia “um com o seu mestre” mas, sobretudo, se identificava com o mesmo de tal maneira que o colocava em primeiro lugar, deixando todas as coisas para trás, despojando-as dos níveis mais elevados de compromisso. Aprender, era de fato uma questão de vida, de exclusividade e de cumplicidade. Este aprender significava perder tudo para ganhar a vida, fosse no aspecto filosófico ou no religioso. No aspecto espiritual, Jesus chamava seus discípulos com autoridade divina, como os próprios profetas eram chamados por Deus no Velho Testamento.

A segunda palavra encontrada é “Mathetes”, (maqhths) “discípulo”. É aquela pessoa que ouve o chamado do Mestre e se junta a ele. É um aprendiz. Raiz da palavra “mantano” (mantano), a palavra era, no tempo clássico, um verbo entendido por “adaptar-se”. Alguém era chamado de Mathetes, quando se vinculava a outra pessoa a fim de adquirir conhecimento prático e teórico. Já no Antigo Testamento, a palavra equivalente no hebraico, possuía uma conotação mais fraca. A ênfase recaía sobre Israel como povo de Deus, no sentido que ele deveria aprender de Deus e se voltar para Ele constantemente. Contudo, a relação entre o “talmid” (aluno) e o seu “moré” (professor) era muito forte especialmente no judaísmo rabínico. O relacionamento entre o aluno e o professor tornava-se uma instituição para o estudo detalhado da Torá.

No Novo Testamento Mathetes tornou-se a palavra para indicar total devoção a alguém. A palavra usada, possuía uma conotação muito forte, onde o discípulo convivia com o mestre, recebendo conhecimento e especialmente no Discipulado de Jesus, estaria disposto a servir.

Outra palavra relacionada ao Discipulado é “mimeomai” (mimeomai), “imitar”. O verbo enfatiza a natureza de um tipo especial de comportamento, modelado em outra pessoa. Segundo Brown, “mimeomai” se aplica a pessoas específicas que são obviamente exemplos vivos para a vida da fé. Mesmo sendo o apóstolo Paulo aquele que usa freqüentemente esta palavra para motivar seus discípulos a uma vida de imitação, jamais ele se incluía como alvo final a ser imitado (I Co 11.1). Pelo contrário, ele sempre apontava a Jesus que deveria ser a proposta final de imitação e exemplo.

Chegamos a conclusão que Discipulado tem a ver com o próprio fato de ser da igreja de Nosso Senhor. Se analisamos estas palavras, definimos tal ação como a que o Mestre se propôs em seu ministério: Discipular homens, para que os mesmos pudessem, ao final de Sua jornada aqui, fazer com que Seus ensinos e mandamentos fossem sabiamente repassados na perspectiva da obediência, tornando os discípulos seus “seguidores”. Contudo, este “seguir” jamais viria sem um compromisso de vida, de dedicação, de amor e de entrega de vida plena ao Mestre. Conjugado a isto, o Mestre seria o alvo maior, como exemplo e modelo a ser imitado. Já não seria um movimento, mas sim, um estilo de vida que todos os seus seguidores assumiriam diante do mundo e chamariam outros a vivenciarem uma mudança radical em prol da glória de Deus e satisfação de seus corações.

Waylon Moore afirma que “Discipulado é o processo de tomar novos convertidos, educá-los e levá-los a um estado de maturidade e adulta comunhão com Cristo e de serviço eficiente na Igreja”. E continua: “fazer discípulo de uma pessoa é levá-la a experiência de ter Jesus como Senhor e Centro de sua vida. Ser discípulo implica num ato de entrega e num processo de obediência. Um homem é discípulo de Cristo, quando permanece em sua palavra, glorifica ao Pai e dá frutos. ( João 8.31;15.8)”.

Sem dúvida, a experiência de ser encontrado por Cristo através da fé é condição sine qua non para que o discipulado se inicie na vida de uma pessoa e o processo de obediência é o resultado sadio de alguém que está caminhando na fé. Além disso, Robert Coleman afirma ao comentar o texto de Mateus 28.18-20, que o Discipulado se refere ao “ir, batizar e ensinar particularidades de uma ação maior, ao que Jesus chama de “fazer discípulos”. São responsabilidades que derivam da direção do “fazer aprendizes de Cristo”. Coleman chama a atenção da igreja, dizendo que discipular homens e mulheres é a prioridade acerca da qual nossas vidas deveriam ser orientadas.

Já David Kornfield, trabalhando no Brasil, atualmente com pequenos grupos e Discipulado, em seu artigo Discipulado, a Verdadeira Grande Comissão, define Discipulado como “uma relação comprometida e pessoal em que um discípulo mais maduro ajuda outros discípulos de Jesus Cristo a se aproximarem mais dele e assim se reproduzirem” e argumenta: “se o Discipulado perder de vista o relacionamento comprometido e pessoal, deixa de ser um Discipulado bíblico”. A sua ênfase está nos relacionamentos. É no relacionamento pessoal e social que se descobre o verdadeiro valor do Discipulado. Se não há relacionamento interpessoal, então é impossível a realidade do Discipulado de Cristo.

Larry Richards, em seu livro Teologia do ministério pessoal comenta que “o Discipulado envolve a reformulação da vida do cristão em direção à obediência, a fim de que possa tornar-se como Jesus” e continua: “A missão da igreja não é simplesmente conseguir conversões, mas completar o processo da vida cristã fazendo discípulos”.

III. Bases Bíblicas e Históricas

Um dos maiores pecados da igreja, na sua missão é achar que Discipulado seja mais um método onde podemos implementar na igreja. Acredita a maioria dos líderes eclesiásticos que além dos vários programas que a igreja dispõe para atrair os convertidos, o Discipulado quando bem usado é um bom método para o crescimento da igreja. Muitos pastores e líderes quando discipulam tentam “incrementar” a igreja com mais este “programa”. Ao contrário do que se pensa, defendo Discipulado como um princípio geral que conduz os crentes a um estilo de vida. Longe da tentativa de forçar determinados textos, o Discipulado pelo pano de fundo histórico e contextual, fazia de Cristo o Mestre por excelência e seus discípulos como os que haviam deixado tudo e se propunham a caminhar com Cristo. Isto quer dizer que os mesmos decidiam mudar o seu próprio estilo de vida. Antes, senhores de suas próprias vidas, autores de seus projetos pessoais, agora, submissos e alunos da vida ao lado de Jesus. Quando olhamos para o contexto do treinamento rabínico, Richards citando Moses Aberbach, descreve o padrão de educação do discípulo. Diz ele:

“O padrão está ligado a um relacionamento pessoal entre aluno e professor. Embora o estudo pessoal não fosse desconhecido, era totalmente desaprovado, como passível de resultar em aberrações.
O treinamento recebido do mestre incluía muito mais do que o estudo acadêmico, estendendo-se para além da sala de aula. O discípulo passava a maior parte de tempo possível com o professor, muitas vezes vivendo com ele na mesma casa. Esperava-se que os discípulos não só estudassem a lei em todas as suas ramificações como também se familiarizassem com um estilo específico de vida, o que só podia ser feito mediante convivência constante com um mestre. Os rabinos ensinavam tanto pelo exemplo como por preceitos. Por esta razão o discípulo precisava anotar as conversas e hábitos diários do mestre, assim como o que ensinava.
Os alunos tratavam os professores com grande deferência e respeito. ‘‘Seguir’’ um mestre significava aceitar os seus ensinamentos, mas ao acompanhá-lo, esperava-se que os discípulos andassem literalmente atrás deles, de um lado ou de outro. Os alunos também serviam os professores de várias maneiras práticas que iam desde arrumar os bancos na sala de aula até fazer compras e cozinhar para eles. Ajudar o mestre na casa de banhos era um serviço tão comumente associado com o Discipulado que a frase: “Vou levar as roupas dele à casa de banhos“ tornou-se sinônimo, de ‘Vou ser seu discípulo”.

A despeito da subordinação e hábitos de respeito que caracterizavam o relacionamento mestre discípulo, este não era de forma alguma distante ou formal. O professor tentava educar os discípulos como filhos: cuidava deles, sustentava-os (no geral esta educação era financiada pelo rabino) e elogiava ou advertia os discípulos conforme o caso. Aberbach descreve a relação como um amor paternal-filial intenso.

O Velho Testamento nos relata discipulados significativos. Quando percorremos a História Bíblica, podemos nos lembrar do relacionamento de Moisés e Josué. O caráter da Missão de Moisés, quando recebera seu chamado no Monte Horebe, possuía essencialmente alguns objetivos: Retornar para o Egito, Libertar o seu povo do cativeiro, caminhar com este pelo deserto, sofrer as duras situações junto com o povo, partilhar das conquistas deste e estabelecê-lo na Terra Prometida. Porém, uma das marcas de sua liderança foi a formação e preparação de Josué para assumir a liderança do Povo de Israel. Seja em Êxodo ou Deuteronômio, observamos que havia uma ligação muito estreita entre ambos, a tal ponto de Deus depositar a mesma autoridade de Moisés sobre os ombros de Josué.

Quando voltamos os olhos para a época de Eli e Samuel, especialmente em seu chamado muito precoce para o profetismo de Israel (1 Sm 3), nota-se ali que Samuel convivia muito de perto com o Sacerdote Eli. A idéia era de fato um aperfeiçoamento através de um sistema relacional. A mesma situação acontecia entre Samuel e Natã, Elias e Eliseu, Eliseu e a Escola de Profetas. Exemplos onde a Escritura registra que o princípio do Discipulado estava latente neste período, contudo ainda não o era de forma patente na época e a partir de João Batista . No período do Novo Testamento iremos ver de fato o Discipulado sendo a busca da Igreja do Novo Testamento como um princípio de vida.

Seria importante falar sobre João Batista e seu ministério. Quando Jesus já desenvolvia seu ministério particular com seus discípulos, encontram-se várias declarações dos evangelistas a respeito dos discípulos de João Batista. Em alguns casos eram investigadores a mando do próprio profeta (Mt 11.2), ou então manifestavam práticas como a do jejum entre eles (Mc 2.18). Em outra situação, os discípulos de João Batista expressaram maior dedicação ao seu mestre do que os próprios discípulos do Senhor, pois nos diz Mc 6.29, que após o martírio do profeta, eles mesmos foram e sepultaram o seu mestre. Em Jo 1.37, nos parece que André e Pedro já eram discípulos de João, e que ao chamado do Mestre, não titubearam, mas preferiram Jesus a João. Tal atitude poderia expressar a fidelidade de João Batista em ensinar e preparar os seus seguidores acerca da vida e obra do Messias, da qual o próprio dizia que “não era digno de desatar-lhe as correias das alparcas”.

Se olharmos mais profundamente, concluiremos que o estilo de Jesus era pautado por alguns princípios. O sistema de Discipulado de Jesus baseava-se muito mais no relacionamento do que na absorção de conhecimento acadêmico ou intelectual. A idéia de Discipulado para Jesus como princípio não era a de transmissão de puro conhecimento. Quando olhamos para Marcos 3.14, o texto nos diz que na escolha dos discípulos, Jesus “designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar”, isto é, estar com Jesus seria, sobretudo, a marca do treinamento destes discípulos. Deste momento em diante ficava claro que o ensino de Jesus seria o da convivência pessoal. O estilo ou um modo de vida de Cristo seria impregnado na vida e no relacionamento daqueles discípulos. Tudo o que convergisse para Cristo no que se diz respeito a sua vida, seu ministério, suas obras, seus milagres, eles estariam testificando e provando. Quando vemos o testemunho do apóstolo João no início de sua primeira carta, ele declara: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam com respeito ao Verbo da vida” (I Jo 1.1).

Isto confirma que o Discipulado era muito mais que absorção de conhecimento intelectual, e sim um estilo de vida que marcaria para sempre a vida dos discípulos. Essa “pessoalidade” do ensino de Jesus, era sentido em todos os níveis. A proposta do Mestre era além da vivência relacional (Mc 3.8), a descoberta pelos próprios discípulos dos mistérios do Reino de Deus através das parábolas (Mt 13.1-52), o conhecimento de uma intimidade jamais declarada por Jesus às multidões, mas somente aos discípulos como no monte da transfiguração (Mt 17.1-8). Além disto a prática de ministério também era um ponto forte. Os discípulos necessitavam ser confrontados até mesmo com os endemoninhados (Mt 17.14-21). A prática da oração era algo essencial (Mt 26.36-46) e conjugado com esta, o próprio Jesus mantinha um ministério pastoral entre os mesmos, expressado especialmente no último contato com Simão Pedro (Jo 21.15-23). Mas o que aprendemos acerca do Discipulado em Jesus é de que seu trabalho com os discípulos era eminentemente pessoal. Jesus sempre manifestava interesse por pessoas em primeiro lugar.

Mesmo fora do Discipulado, quando Jesus evangelizava, especialmente no Evangelho de João vemos seus contatos pessoais de forma que produzia transformação na vida de todos que mantinham algum contato com o Mestre, isto é um verdadeiro nascer de novo. Isto se deu claramente com o Fariseu Nicodemus (Jo 3), com a mulher Samaritana (Jo 4) e com o paralítico (Jo 5). Até as expressões fortes de Jesus também tinham lugar em seu Discipulado, que geravam ira e abandono de Seu projeto por alguns discípulos (Jo 6). Jesus tinha por necessidade enfocar a realidade do pecado para as pessoas, mas nunca as deixava só. Seu Discipulado tinha a ver com a misericórdia, justamente tornado muito pessoal nas suas palavras para a mulher adúltera (Jo 8). O tratamento das moléstias físicas como no caso do cego de nascença foi um momento importante para pregar o evangelho do reino (Jo 9). Em todos os casos, Jesus sempre enfocava seu ministério discipulador de maneira muito pessoal e relacional.

A questão da relação de Jesus com os doze é sentida bem claramente a partir do capítulo 13 de João, em que o Ministério de Cristo, chamado de Ministério Particular acontece de maneira mais efetiva. As bases do Discipulado são lançadas a partir deste ponto. Jesus ensina aos seus discípulos que acima de tudo eles deveriam ter a pessoa de Jesus como ponto de referência, em que o modelo da Sua vida, deveria ser um alvo para eles. A humildade, a consciência do servir, era básico em seu estilo de vida (Jo 13). Os seus ensinos sobre a convicção da vida futura e sua doutrina são lançados a partir da realidade contextual que viviam, isto é, mesmo que passassem pela tribulação, Jesus seria para eles o exemplo maior da vitória sobre o mundo. Por isto a esperança e a certeza da vida eterna deveria satisfazê-los plenamente. (Jo 14). A necessidade da frutificação passaria pela realidade de estarem em íntima comunhão o Mestre, era como a videira e os seus discípulos os ramos. O assunto Discipulado aqui é bem explanado pelo Mestre e quanto mais fossem eles trabalhados e forjados por Deus, maiores frutos estariam dando (Jo 15).

Acima de tudo, o Discipulado tem a ver com encorajamento, o “falar ao coração” (Is 40.1,2) e o consolo, demonstrando que os discípulos deveriam esperar a consumação final. A esperança viva que os aguardava, encheria os seus corações de destemor, pois o Consolador seria dado a eles. Jesus nunca jamais os abandonaria.

Mas o Discipulado de Jesus não apenas tratava de questões relacionais ou questões da vida. O Discipulado do Mestre visava também proteção. O outro aspecto do Discipulado era o que podemos chamar de Doutrinação. Mesmo quando ele se separa das multidões, o treinamento especial era oferecido aos discípulos de maneira bem privada. O sermão do monte, por exemplo, é o reflexo disto. Durante todo este ensino específico Jesus trata também de doutrinar seus discípulos até mesmo em relação aos falsos mestres e falsos profetas. (Mt 7.15-20)

Outra questão tratada por Jesus freqüentemente era acerca da Cruz no plano de Deus, e que esta seria uma realidade na vida do Mestre e de seus discípulos. Tomar a Cruz era a resposta do crente para o mundo. Vários textos enfatizam o tomar a cruz e morrer para o mundo. Lucas 9.14, registra as palavras do Mestre como sinal de que o discípulo verdadeiro seria aquele que tomaria a sua cruz, assim como Mestre e determinantemente morreria pelos seus ideais. No mesmo evangelho no capítulo 14, versos 25 a 33, Jesus orienta seus discípulos quanto “as despesas” que os mesmos teriam com respeito ao Discipulado, e que o compromisso com Ele, começaria quando houvesse a renúncia e a doação de suas vidas em favor do reino de Deus. Portanto, dentro do plano divino, a cruz viria somente depois que seu Filho tivesse preparado homens para proclamar as boas novas de salvação ao mundo. Com isto, Jesus gasta três anos e meio para treinar e discipular pessoalmente aqueles que ficariam para dar continuidade a seu ministério.

Acima de tudo Jesus discipula com a Vida. Jesus sabia que sua vida exemplar seria tão importante quanto as suas palavras. O viver de Jesus era para os discípulos o fator preponderante para os incitar ao compromisso. As altas exigências, bem como sua própria maneira de viver marcaria profundamente a vida daqueles homens. Quando observamos toda a vida e obra de Cristo, chegamos a conclusão que todos os objetivos de Jesus foram alcançados. Contudo Lawrence Richards afirma que uma das propostas de Cristo dentro do Discipulado era a “comunicação de semelhança” (Lc 6.40). O mesmo acontecerá com a vida de seus seguidores e com a igreja cristã primitiva posteriormente.