
Em outros escritos de João está claro que Jesus veio dar a sua vida somente para os seus. Aquele por quem Jesus sofreu e morreu são chamados de “minhas ovelhas” (Jo 10.11,15,26-30) e “meus amigos” (Jo 15.13); é por eles, e não pelo mundo, que Jesus roga ao Pai (Jo 17.9-20). Esse conceito se percebe também em outras partes do Novo Testamento: Jesus veio salvar “o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21): o que Deus comprou com seu sangue foi a sua igreja (At 20.28); de acordo com Paulo, “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25; cf. Rm 5.8-10).
Pode ser que nunca venhamos a ter uma solução inteiramente satisfatória para a tensão aparente entre esses dois grupos de versículos. Entretanto, não podemos aceitar qualquer solução que minimize a eficácia do sacrifício de Jesus ou que exclua o aspecto de abrangência universal do que ele fez, ainda que não o compreendamos inteiramente – rejeitamos obviamente o universalismo, que declara a salvação de cada homem e mulher que já viveu. Assim, provavelmente deveríamos preferir a abordagem reformada tradicional, que remonta a Agostinho, e afira que Cristo morreu pelo mundo apenas potencialmente, enquanto que, eficazmente, somente pelo o seu povo, os eleitos. E ainda, dentro dessa mesma abordagem, devemos procurar entender as palavras que apontam para uma extensão universal da obra de Cristo dentro de seus respectivos contextos. Assim, aqui em 2.2, não é impossível que João quis dizer que Cristo morreu não somente por ele e pelo os crentes a quem escreveu essa carta, mas também por outras pessoas de todas as nações do mundo, ou pessoas de todas as classes sociais. A palavra “mundo” é usada nesse sentido em vários lugares da Bíblia (cf. Mt 24.14; Mc 16.15; Rm 10.18). “A palavramundo algumas vezes se usa para indicar que o particularismo do Antigo Testamente pertence ao passado, e que abriu caminho ao universalismo do Novo Testamento” (Louis Berkhof).
Augustus Nicodemus Lopes, Interpretando o Novo Testamento: Primeira Carta de João/ São Paulo: Cultura Cristã, 2004. pag.48.
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