sábado, 15 de dezembro de 2012

EXPIAÇÃO. Charles Finney


Passamos agora à consideração de um aspecto muito importante do governo moral de Deus; a saber, a expiação. Ao discutir esse assunto, irei:

Chamar a atenção para alguns princípios bem estabelecidos de governo.

1. Já vimos que a lei moral não é fundamentada na mera vontade arbitrária de Deus ou de qualquer outro ser, mas que está fundamentada na natureza e relações dos agentes morais, aquela regra de ação ou propósito imposto a eles pela lei do próprio intelecto deles.

2. Assim como a vontade de nenhum ser pode criar a lei moral, também a vontade de nenhum ser pode repelir ou alterar a lei moral. Sendo exatamente aquela regra de ação agradável para a natureza e relações dos agentes morais, é tão imutável quanto essa natureza e relações.

3. Há uma distinção entre a letra e o espírito da lei moral. A letra diz respeito à vida externa; o espírito diz respeito ao motivo ou intenção do qual procede o ato. Por exemplo: o espírito da lei moral requer a benevolência desinteressada, sendo totalmente expresso em uma palavra -- amor. A letra da lei encontra-se nos mandamentos do decálogo e em diversos outros preceitos que dizem respeito a atos externos.

4. A letra da lei pode comportar muitas exceções, mas o espírito da lei moral não pode comportar exceção. Ou seja, o espírito da lei moral pode às vezes admitir e requerer que a letra da lei seja desconsiderada ou violada; mas o espírito da lei jamais deve ser desconsiderado ou violado. Por exemplo: a letra da lei proíbe todo trabalho no dia de sábado. Mas o espírito da lei muitas vezes requer o trabalho no sábado. O espírito da lei requer o exercício do amor universal e perfeito ou benevolência para com Deus e os homens, e a lei da benevolência muitas vezes requer que o trabalho seja executado no sábado; como ministrar aos doentes, ajudar o pobre, alimentar os animais e, em suma, tudo o que é obra evidente de necessidade ou misericórdia, num sentido tal que a benevolência iluminada o exija, é requerido pelo espírito da lei moral acerca do sábado, bem como de todos os outros dias. Isso é ensinado de modo explícito por Cristo, tanto por preceito como por exemplo. Assim, de novo, a letra da lei diz: "A alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18.20), mas o espírito da lei admite e requer que em certas condições, a serem examinadas no devido momento, a alma que pecar viva. A letra da lei é inexorável; ela condena e sentencia à morte todos os violadores de seus preceitos, sem considerar a expiação ou o arrependimento. O espírito da lei moral permite e requer que, desde que seja satisfeita a justiça pública e o pecador volte à obediência, ele viva e não morra.

5. Ao estabelecer um governo e promulgar a lei, o legislador é sempre compreendido como alguém que se torna apto para administrar as leis a fim de sustentar a ordem pública e promover a moral pública para o inocente, com seu favor e proteção, e punir o desobediente com a perda de sua proteção e favor.

6. As leis são propriedades públicas em que cada indivíduo do governo possui um interesse. Interessa a cada indivíduo obediente do governo que a lei seja apoiada e obedecida, e sempre que a lei é violada, cada indivíduo do governo é prejudicado, e seus direitos invadidos; e cada um e todos têm o direito de esperar que o governo seja apto para executar as penalidades da lei quando esta é violada.

7. Há uma importante distinção entre justiça retributiva e pública. A justiça retributiva consiste em tratar cada indivíduo do governo de acordo com seu caráter. Ela diz respeito ao mérito ou demérito intrínseco de cada indivíduo, lidando com ele de acordo com isso. A justiça pública, em seu exercício, consiste na promoção e proteção dos interesses públicos por uma legislação e administração da lei conforme exigidas pelo máximo bem do público. Ela implica a execução das penalidades da lei quando o preceito é violado, a menos que se faça outra coisa que garanta com a mesma eficácia os interesses públicos. Nesse caso, a justiça pública exige que a execução da penalidade seja dispensada pela extensão do perdão ao criminoso. A justiça retributiva não comporta exceções, antes, pune sem misericórdia em todos os casos de crime. A justiça pública comporta exceções, sempre que sejam permitidas ou requeridas pelo bem público. A justiça pública é idêntica ao espírito da lei moral e, em seu exercício, só considera a lei. A justiça retributiva apega-se à letra e não comporta exceções à regra. "A alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18.20).

8. O desígnio das penalidades legais é garantir a obediência ao preceito. Esse é também o motivo para executá-las quando o preceito é violado. As sanções devem ser consideradas uma expressão das concepções do legislador a respeito da importância de sua lei; e a execução das penalidades é designada e calculada para evidenciar sua sinceridade ao promulgar os princípios de seu governo conforme revelados na lei, sua contínua adesão a elas e determinação de ater-se a elas; sua abominação de todo crime; sua consideração para com os interesses públicos e sua determinação inalterável em cumprir, sustentar e estabelecer a autoridade de sua lei.

9. E fato bem estabelecido pela experiência de todas as eras e nações que o exercício da misericórdia, ao pôr de lado a execução de penalidade, é uma questão de extrema delicadeza e perigo. A influência da lei, conforme se espera, depende muito da certeza que o indivíduo tem de que ela será devidamente executada. A experiência demonstra que o exercício da misericórdia em todo governo em que não há expiação enfraquece o governo, por gerar e promover uma esperança de impunidade na mente daqueles que são tentados a violar a lei. Tem-se asseverado que o mesmo ocorre quando se faz uma expiação e que, portanto, as doutrinas de expiação e conseqüente perdão tendem a encorajar a esperança de impunidade na comissão do pecado e, por esse motivo, são doutrinas perigosas, subvertendo a moralidade elevada e sadia. Devo examinar essa afirmação no devido momento.

10. Uma vez que a cabeça do governo empenha-se em proteger e promover os interesses públicos, por uma administração idônea da lei, se em algum caso em que o preceito for violado, ele dispensar a execução das penalidades, a justiça pública requer que ele cuide para que se providencie uma substituição da execução da lei ou que se faça algo que de fato garanta a influência da lei como o faria a execução da lei. Ele não pode abrir exceções ao espírito da lei. Ou a alma que pecou deve morrer, de acordo com a letra da lei, ou deve-se providenciar um substituto de acordo com o espírito da lei.

11. Qualquer coisa que evidencie plenamente a consideração do legislador por sua lei: sua determinação de sustentá-la e sua abominação de todas as violações de seus preceitos e, com isso, guarde com a mesma eficácia contra a inferência de que os violadores dos preceitos possam esperar escapar com impunidade, quanto ocorreria no caso da execução da penalidade, é uma satisfação plena da justiça pública. Quando essas condições são cumpridas e o pecador volta à obediência, a justiça pública não só admite, mas também exige de modo absoluto que a penalidade seja deixada de lado e o perdão seja estendido ao ofensor. O ofensor ainda merece a punição e, pelos princípios da justiça retributiva, deve ser punido de acordo com o que merece. Mas o bem público admite e requer que, preenchidas as condições acima, ele viva; assim, a justiça pública, de acordo com os interesses públicos e o espírito da lei do amor, o poupa e o perdoa.

12. Se a misericórdia ou o perdão deve ser estendido a qualquer um que violou a lei, isso deve ser feito de maneira tal e sob condições tais que resolvam a questão e estabeleçam a verdade de que a execução das penalidade não será dispensada só de acordo com a força do ofensor. Caso contrário, ele pode pensar que pode violar a lei e, ainda assim, ter certeza de escapar impunemente, ao cumprir as condições para ser perdoado, as quais, em sua suposição, estão todas em seu poder.

13. Assim, se a misericórdia for exercida, deve existir a condição de que não seja repetida. Aquilo que a justiça pública requer é que nada seja feito para minar ou perturbar a influência da lei. Assim, ela não pode consentir que seja dispensada a execução das penalidades, se houver alguma condição que incentive a esperança da impunidade. Assim, a justiça pública não pode consentir em perdoar o pecado, a menos que haja expiação e também a pressuposição de que a expiação não se repetirá nem estenderá seus benefícios além dos limites da raça por quem foi feita e de que só o fará por um tempo limitado. Se uma expiação fosse estender seus benefícios a todos os mundos e a toda a eternidade, isso anularia a própria influência dela e incentivaria a esperança universal da impunidade, no caso de serem violados os preceitos da lei. Isso seria indefinidamente pior que a ausência total da expiação; e a justiça pública também consentiria em ver exercida a misericórdia sem consideração alguma pela manutenção da autoridade e influência da lei.



O termo expiação

A palavra "expiação" vem do termo hebraico cofer. Trata-se de um substantivo do verbo caufar, cobrir. O cofer ou a cobertura era o nome da tampa ou cobertura da arca da aliança e constituía o que era chamado propiciatório. A palavra grega traduzida por expiação é katallage. Isso significa reconciliação com o favor ou, mais estritamente, os meios ou condições para que haja reconciliação com o favor; de katallasso, "mudar ou trocar". O significado estrito do termo é substituição. Um exame dessas palavras originais, no contexto em que se apresentam, mostrará que a expiação é a substituição governamental da punição dos pecadores pelos sofrimentos de Cristo. São os sofrimentos de Cristo cobrindo os pecados dos homens.



Os ensinos da teologia natural ou as afirmações a priori da razão acerca desse assunto.

A doutrina da expiação tem sido considerada doutrina pura da revelação, em medida tal que excluiria a suposição de que a razão poderia, a priori, fazer alguma afirmação a seu respeito. Considera-se em geral que esteja totalmente fora do âmbito da teologia natural, em tal sentido que, à parte da revelação, não se poderia fazer qualquer pressuposição, nem se permitiria qualquer conjectura razoável. Mas existem certos fatos na história deste mundo que tornam essa pressuposição por demais duvidosa. E verdade, decerto, que a teologia natural não poderia certificar e estabelecer o fato de que uma expiação foi feita ou que com certeza seria feita; mas se eu não estiver enganado, pode-se inferir de maneira razoável que, se o verdadeiro caráter de Deus for conhecido e pressuposto, seria feita uma expiação de algum tipo para ser coerente com suas relações com o universo a fim de estender a misericórdia aos habitantes culpados deste mundo. A manifesta necessidade de uma revelação divina é suposta para permitir um argumento provável de que tal revelação foi ou será feita. Pela benevolência de Deus, conforme afirmada pela razão e manifesta em suas obras e providência, é devidamente inferido, conforme suponho, que Ele tomaria medidas para garantir a santidade e salvação dos homens e, como condição desse resultado, que lhes concederia uma revelação complementar de sua vontade jamais dada na criação e na providência. O argumento é o seguinte:

1. Pela razão e pela observação, sabemos que este não é um estado de retribuição; e por todos os fatos que, neste caso, permanecem abertos à observação, este é evidentemente um estado de teste ou prova.

2. A providência de Deus neste mundo é manifestamente disciplinar, com o intuito de reformar a humanidade.

3. Esses fatos, considerados juntamente com a grande ignorância e escuridão da mente humana em assuntos morais e religiosos, permitem uma forte pressuposição de que o Criador benevolente fará para os habitantes deste mundo, ainda num estado tão evidente de prova, uma revelação complementar de sua vontade. Ora, se esse argumento é bom, com base nisso não vejo por que não possamos ir ainda mais longe, sem deixar de ser razoáveis.

- Assim, aceitos os fatos acima e também o fato de que quando o assunto é devidamente considerado, e quanto mais, melhor, há uma grande dificuldade manifesta de exercer misericórdia sem que se satisfaça a justiça pública; e uma vez que a benevolência de Deus não permitiria, por um lado, perdoar o pecado à custa da justiça pública nem, por outro lado, punir ou executar a penalidade da lei se isso puder ser evitado com sabedoria e coerência, compreendidos e admitidos esses fatos, é possível inferir naturalmente que a sabedoria e benevolência de Deus engendrariam e executariam algum meio para cumprir as exigências da justiça pública, tornando possível o perdão do pecado. Que a filosofia do governo tornaria isso possível nos é muito manifesto. Sei, aliás, que, com a luz que o Evangelho nos tem concedido, discernimos isso com muito mais clareza do que poderíamos, caso não tivéssemos outra luz, senão a da natureza. Qualquer que fosse o conhecimento dos antigos e daqueles que não possuem a Bíblia, penso que quando os fatos são anunciados pela revelação, podemos ver que tal expediente governamental não só era possível, como exatamente o que seria esperado da benevolência de Deus. Seria, evidentemente, impossível para nós percebermos ou conjecturarmosa priori pela razão, o plano adotado. Era tão pouco o conhecido ou cognoscível sobre o tema da trindade de Deus, sem revelação, que a teologia natural talvez não pudesse, em seu melhor estado, algo mais ensinar senão que, caso fosse possível, algum expediente governamental seria provido e estava em vista para a restauração completa da raça pecadora que, evidentemente, estava sendo até então poupada da execução da lei e colocada sob um sistema de disciplina.

Mas uma vez que o Evangelho anunciou o fato da expiação, parece que a teologia natural ou a filosofia governamental pode explicá-la de modo satisfatório; que a razão nela pode discernir a filosofia divina.

A teologia natural pode ensinar:

1. Que a raça humana está numa situação decaída e que a lei do egoísmo, e não a lei da benevolência, é aquela à qual os homens não convertidos conformam a vida.

2. Ela pode ensinar que Deus é benevolente e, assim, que a misericórdia deve ser um atributo de Deus; e que esse atributo será manifestado no real perdão do pecado quando isso puder ser feito com segurança para o governo divino.

3. Por conseguinte, que nenhuma expiação seria necessária para satisfazer algum espírito implacável na mente divina; que Deus estaria suficiente e infinitamente disposto a estender o perdão ao penitente, caso isso pudesse ser feito com sabedoria, benevolência e segurança.

4. Também pode ensinar com abundância que há um grande perigo real no exercício da misericórdia sob um governo moral e supremamente grande sob um governo tão vasto e tão duradouro como o governo divino; que, sob tal governo, há um perigo muito grande de que o exercício da misericórdia seja compreendido como um incentivo para a esperança de impunidade na comissão do pecado.

5. Ela também pode mostrar a necessidade indispensável de uma administração tal do governo divino que garanta em todo o universo a máxima confiança na sinceridade de Deus em promulgar sua lei com suas tremendas penalidades e de uma adesão inalterável e determinação de seu espírito para não vacilar em exercer e garantir sua autoridade em todos os eventos. Que isso é indispensável para o bem-estar do universo é inteiramente manifesto.

6. Assim, é muito óbvio para a teologia natural que o pecado não pode ser perdoado, a menos que se faça algo para impedir a inferência, de outro modo natural; de que o pecado será perdoado sob o governo de Deus, bastando apenas que haja arrependimento, e, é claro, sob condições no âmbito da capacidade do próprio pecador. Deve ser manifesto que proclamar por todo o universo que o pecado seria perdoado de maneira universal, bastando apenas arrependimento, seria uma virtual rejeição da lei divina. Todas as criaturas perceberiam de imediato que ninguém precisa temer punição, em qualquer caso, uma vez que seu perdão estaria garantido, por mais que se menosprezasse a autoridade divina, bastando que fosse preenchida uma única condição que a própria vontade conseguiria preencher.

7. A teologia natural é mais que competente para mostrar que Deus não poderia ser justo para com a própria inteligência, justo para com o próprio caráter e, assim, justo para com o universo, ao dispensar a execução da lei divina, a menos que se providenciasse uma substituição de natureza tal que revelasse e inculcasse de maneira plena as lições que seriam ensinadas pela execução, tanto quanto ocorreria com a própria execução. O grande desígnio das penalidades é a prevenção, e isso, obviamente, é o desígnio da execução das penalidades. O cabeça de todo governo devota-se a suster a autoridade da lei por uma devida administração de prêmios e punições, e não possui o direito, em caso algum, de estender o perdão, a menos que isso de fato sustente a autoridade da lei, tanto quanto o faria a execução das penalidades. Nunca se considerou seguro ou mesmo possível sob governo algum fazer uma oferta universal de perdão a violadores da lei, bastando apenas o arrependimento, pela mui óbvia razão já apresentada: que isso seria uma virtual rejeição de toda a lei. A justiça pública, a que todo magistrado executivo no universo está obrigado, impede de modo firme e peremptório que a misericórdia seja estendida a qualquer réu, sem que algo equivalente seja rendido ao governo; isto é, que se faça algo que atenda plenamente como substituto da execução da penalidade. Deus aceita totalmente estar sob esse princípio; assim, Deus afirma que deu seu Filho para nEle tornar justo perdoar pecados. "Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus" (Rm 3.24-26).

8. Todas as nações têm sentido a necessidade de sacrifícios expiatórios. Isso se evidencia pelo fato de todas as nações os terem oferecido.

9. Os mais sábios dos filósofos pagãos que viram a ineficácia intrínseca dos sacrifícios animais sustentaram que Deus não podia perdoar o pecado. Isso serve como demonstração de que sentiram a necessidade de uma expiação ou de um sacrifício expiatório. E tendo também concepções por demais justas de Deus e de seu governo, para supor que sacrifícios animais ou meramente humanos poderiam ser eficazes sob o governo de Deus, foram incapazes de compreender os princípios pelos quais seria possível o perdoar o pecado.

10. A justiça pública requeria ou que se fizesse uma expiação ou que a lei fosse executada sobre cada ofensor. Por justiça pública entende-se aquela administração adequada da lei que garanta, do melhor modo admitido pela natureza do caso, os interesses privados e públicos, estabelecendo a ordem e o bem-estar do universo. Ao estabelecer o governo do universo, Deus havia dado a garantia, tanto implícita como explícita, de que consideraria os interesses públicos e, pela devida administração da lei, garantiria e promoveria, ao máximo possível, a felicidade pública e individual.

11. Estritamente, a justiça pública só poderia requerer a execução da lei, pois Deus jamais garantiu, de maneira explícita ou implícita, fazer mais pela promoção da virtude e felicidade, senão pela administração dos devidos prêmios para os justos e da devida punição para os perversos. Ainda assim, uma expiação, conforme veremos, atenderia mais plenamente às necessidades do governo e atuaria de modo mais eficiente na prevenção do pecado e mais poderosa na persuasão à santidade do que seria a inflição da penalidade legal.

12. Uma expiação era necessária para a remoção dos obstáculos ao livre exercício da benevolência para com nossa raça. Sem uma expiação, a raça humana após a queda mantinha com o governo de Deus uma relação de rebeldia e marginalidade. E, antes que Deus, como o grande magistrado executivo do universo, pudesse manifestar sua benevolência para com ela, era preciso que se decidisse por uma expiação e isso fosse conhecido como o motivo que condicionaria seu tratamento favorável que lhes dispensaria.

13. Uma expiação era necessária para promover a glória e influência de Deus no universo. Falarei mais a respeito disso adiante.

14. Uma expiação era necessária para prover motivos irresistíveis para o arrependimento.

15. Uma expiação era necessária para que o perdão do pecador não fosse visto como conivência com o pecado.

16. Uma expiação era necessária para manifestar a sinceridade de Deus em seus decretos legais.

17. Uma expiação era necessária para tornar segura a oferta e promoção do perdão.

18. A teologia natural pode nos informar que, se o legislador condescendesse ou pudesse condescender o suficiente para negar-se a si mesmo, para atestar sua consideração para com sua lei e sua determinação de sustentá-la, sofrendo sua maldição, num sentido tal que fosse possível e coerente com seu caráter e relações, e assim por diante, com ênfase suficiente para inculcar a grande lição de que não basta um mero arrependimento para que o pecado seja perdoado em qualquer caso, e também para estabelecer a convicção universal de que a execução da lei não deve ser dispensada, mas que se trata de uma regra inalterável sob seu governo divino, de que onde existe o pecado é preciso que o sofrimento seja infligido -- isso seria uma satisfação tão completa da justiça pública, que o pecado poderia ser perdoado com segurança.



O fato da expiação

Essa é uma doutrina pura da revelação e, no estabelecimento dessa verdade, é preciso apelar só às Escrituras.

1. Todas as Escrituras judaicas e, em especial, toda a dispensação cerimonial dos judeus atestam sem o menor equívoco a necessidade de uma expiação.

2. O Novo Testamento é também igualmente inequívoco em seu testemunho quanto ao mesmo ponto.

Devo aqui tomar por assentado que Cristo era o próprio Deus "que se manifestou em carne" (1 Tm 3.16) e passar a citar algumas dentre uma multidão de passagens que atestam o fato de sua morte e também sua natureza viçaria; ou seja, que foi por nós e como satisfação da justiça pública em relação a nossos pecados, que seu sangue foi derramado. Primeiro citarei algumas passagens para mostrar que a expiação e a redenção, por meio dele, eram uma questão de entendimento e aliança entre o Pai e o Filho. "Fiz um concerto com o meu escolhido; jurei ao meu servo Davi: a tua descendência estabelecerei para sempre e edificarei o teu trono de geração em geração (Sela)" (Sl 89.3,4); "Todavia, ao SENHOR agradou o moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os dias, e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão. O trabalho da sua alma ele verá e ficará satisfeito; com o seu conhecimento, o meu servo, o justo, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Pelo que lhe darei a parte de muitos, e, com os poderosos, repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu" (Is 53.10-12); "Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai, que me enviou, é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último Dia" (Jo 6.37-39); "Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra. Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. E eu já não estou mais no mundo; mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós" (Jo 17.6, 9,11).

Em seguida cito algumas passagens para mostrar que se os pecadores devessem ser salvos, isso seria por meio da expiação. "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.12); "Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados" (At 13.38,39); "Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado" (Rm 3.19-20); "Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão" (Gl 2.16,21); "Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las. E é evidente que, pela lei, ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé. Ora, a lei não é da fé, mas o homem que fizer estas coisas por elas viverá. Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus, pela promessa, a deu gratuitamente a Abraão.

Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita, e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro. Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um. Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se dada fosse uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que, pela fé, fôssemos justificados" (Gl 3.10-12,18-21,24); "E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes" (Hb 9.22, 23).

Cito agora passagens que estabelecem o fato da morte viçaria de Cristo e da redenção por meio de seu sangue. "Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e, pelas suas pisaduras, fomos sarados. Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos" (Is 53.5-6); "Bem como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos" (Mt 20.28); "Porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados" (Mt 26.28); "E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3.14,15); "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer desse pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo" (Jo 6.51); "Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue" (At 20.28); "Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por Ele salvos da ira. Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos" (Rm 3.24-26,5.9-11,18,19); "Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras" (1 Co 5.7; 15.3); "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo e para que, pela fé, nós recebamos a promessa do Espírito" (Gl 2.20; 3.13,14); "Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. E andai em amor, como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave" (Ef 2.13, 5.2); "Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção. Porque, se o sangue dos touros e bodes e a cinza de uma novilha, esparzida sobre os imundos, os santificam, quanto à purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão. De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro; porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus; nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santuário com sangue alheio. Doutra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas, agora, na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação" (Hb 9.12-14,22-28); "Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. E assim todo sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar pecados; mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são san*:ificados" (Hb 10.10-14); "Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne" (Hb 10.19,20); "Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que, por tradição, recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado" (1 Pe 1.18,19); "Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados" (1 Pe 2.24); "Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito" (1 Pe 3.18); "Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado" (1 Jo 1.7); "E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado" (1 Jo 3.5); "Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está a caridade: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo 4.9-10).

Essas, como todo leitor da Bíblia deve saber, são apenas algumas das passagens que ensinam a doutrina da expiação e redenção pela morte de Cristo. É de fato maravilhoso como de várias maneiras essa doutrina é ensinada, pressuposta e implicada na Bíblia. Aliás, é enfaticamente o grande tema da Bíblia. Ela é expressa ou implícita em quase todas as páginas da inspiração divina.



A próxima indagação é o que constitui a expiação.

A resposta a essa indagação já foi, em parte, inevitavelmente adiantada. Sob esse cabeçalho mostrarei:

1. Que a obediência de Cristo à lei moral como a aliança de obras, não constitui a expiação.

(1) Cristo devia obediência à lei moral, como Deus e também como homem. Ele estava tão obrigado a ser perfeitamente benevolente quanto todos os agentes morais. Era-lhe, portanto, impossível realizar qualquer obra de super-rogação; ou seja, no que diz respeito à obediência à lei, Ele não podia, nem como Deus nem como homem, fazer algo mais que cumprir suas obrigações.

(2) Se tivesse obedecido por nós, não teria sofrido por nós. Se sua obediência substituísse nossa obediência, com certeza Ele não teria cumprido a lei por nós, como nosso substituto, sob uma aliança de obras e, ao mesmo tempo, sofrido como substituto, submetendo-se à penalidade da lei.

(3) Se Ele obedeceu à lei como nosso substituto, por que se insiste na nossa volta à obediência pessoal como sine qua non de nossa salvação?

(4) A idéia de que alguma parte da expiação consistia na obediência de Cristo à lei por nossa causa, em nosso lugar e em nosso favor indicaria que Deus requer:

(a) A obediência de nosso substituto;

(b) O mesmo sofrimento, como se nenhuma obediência fora prestada;

(c) Nosso arrependimento;

(d) Nosso retorno à obediência pessoal;

(e) E isso o mostraria, afinal, atribuindo nossa salvação à graça. Estranha graça essa que requer que um débito seja pago várias vezes, antes de cumprir-se a obrigação.

2. Devo mostrar que a expiação não foi uma transação comercial. Alguns consideram a expiação simplesmente à luz do pagamento de um débito; e representam Cristo adquirindo os eleitos do Pai e pagando em sua pessoa a mesma quantidade de sofrimento que a justiça teria exigido deles. A isso respondo:

(1) Isso é naturalmente impossível, uma vez que requereria a satisfação da justiça retributiva. Em termos estritos, a justiça retributiva jamais pode ser satisfeita, no sentido de que a culpa possa ser punida segundo a medida e o tempo que merece; pois isso implicaria que ele foi punido até cessar de ser culpado ou tornar-se inocente. Uma vez violada a lei, o pecador não pode fazer satisfação. Ele jamais consegue deixar de ser culpado ou de merecer punição e não há volume possível de sofrimento que o torne menos culpado ou menos merecedor de punição; assim, é impossível satisfazer a justiça retributiva.

(2) Mas, conforme vimos numa aula anterior, a justiça retributiva deve lhe ter infligido morte eterna. Supor, então, que Cristo sofreu em volume tudo o que cabia aos eleitos é supor que Ele sofreu uma punição eterna multiplicada pelo número total dos eleitos.

3. A expiação de Cristo tinha o propósito de satisfazer a justiça pública. A lei moral não se originou na vontade divina, mas é fundamentada em sua própria existência e natureza imutável. Assim, Ele não a pode repelir ou alterar. Para a letra da lei moral é possível haver exceções. Deus não pode repelir o preceito e, só por esse motivo, não pode pôr de lado o espírito das sanções. Pois dispensar as sanções seria uma virtual rejeição do preceito. Ele não pode, portanto, cancelar a execução da penalidade quando o preceito for violado, sem que se faça algo que cumpra as exigências do verdadeiro espírito da lei. "Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus" (Rm 3.24-26). Essa passagem assinala que a razão ou declara que o desígnio da expiação foi justificar a Deus no perdão do pecado ou na dispensa da execução da lei. "Todavia, ao SENHOR agradou o moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os dias, e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão. O trabalho da sua alma ele verá e ficará satisfeito; com o seu conhecimento, o meu servo, o justo, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Pelo que lhe darei a parte de muitos, e, com os poderosos, repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu" (Is 53.10-12).

Apresento alguns outros motivos pelos quais a expiação, no caso dos habitantes deste mundo, era preferível à punição ou à execução da lei divina. Já foram apresentados vários motivos a que acrescento os seguintes, alguns dos quais são revelados claramente na Bíblia; outros estão claramente implicados naquilo que a Bíblia revela; e outros ainda estão claramente implicados na própria natureza do caso.

(1) O amor de Deus, grandioso e desinteressado, pelos pecadores era uma razão importante para a expiação.

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3.16).

(2) Seu grande amor para com o universo em geral deve ter sido outra razão, uma vez que é impossível que a expiação não exerça uma influência impressionante sobre os seres morais, qualquer que seja o mundo em que possam existir e onde o fato da expiação possa ser conhecido.

(3) Outro motivo para substituir a perdição eterna dos pecadores pelos sofrimentos de Cristo é que um volume infinito de sofrimento deve ser evitado. A relação de Cristo com o universo tornou seus sofrimentos tão infinitamente valiosos e influentes, por um lado, como expressão da aversão de Deus pelo pecado, e, por outro, de seu grande amor para com seus súditos, que uma quantidade infinitamente menor de sofrimento nele do que seria infligido aos pecadores seria igualmente e, sem dúvida, muito mais influente na confirmação do governo de Deus do que seria a execução da lei contra eles.

Deve-se ter em mente que Cristo era o legislador, e seus sofrimentos em favor dos pecadores deve ser visto como o legislador e magistrado executivo sofrendo em favor e em lugar de uma província rebelde de seu império. Como um expediente governamental, é fácil ver o grande valor de tal substituto; que por um lado evidenciava plenamente a determinação do governante em não diminuir a autoridade de sua lei e, por outro, evidenciava seu amor grandioso e desinteressado por seus súditos rebeldes.

(4) Com essa substituição poder-se-ia obter a felicidade eterna de todos os que podem ser regenerados do pecado, juntamente com toda a felicidade aumentada daqueles que foram perdoados, que deve resultar dessa gloriosa revelação de Deus.

(5) Outra razão para preferir a expiação à punição dos pecadores deve ser que o pecado havia aberto a oportunidade para a máxima manifestação da virtude de Deus: a manifestação da longanimidade, misericórdia, abnegação e sofrimento pelos inimigos que estavam sob o próprio poder dEle e de quem Ele podia esperar retorno equivalente.

É impossível conceber uma ordem mais elevada de virtudes que as manifestadas na expiação de Cristo. Era imensamente desejável que Deus se aproveitasse de tal oportunidade para manifestar seu verdadeiro caráter e mostrasse ao universo o que estava em seu coração. A força e estabilidade de qualquer governo deve depender da avaliação que o soberano recebe de seus súditos. Era, portanto, indispensável que Deus aproveitasse a oportunidade para manifestar e fazer conhecido seu verdadeiro caráter e, assim, obtivesse a máxima confiança de seus súditos.

(6) Na expiação, Deus considerou a própria felicidade e a própria glória. Negar a si mesmo em favor da salvação dos pecadores fazia parte de sua própria felicidade infinita, sempre intentada por Ele e, portanto, sempre teve prazer nela. Isso não era para Ele egoísmo, uma vez que o valor de seu bem-estar é infinitamente maior que o de todo o universo além; assim Ele o deve considerar e tratar, por causa de seu valor supremo e intrínseco.

(7) A expiação apresentaria às criaturas os mais elevados motivos possíveis para a virtude. Um exemplo é a máxima influência moral que pode ser exercida. Se Deus ou qualquer outro ser fosse tornar os outros benevolentes, precisaria manifestar Ele próprio a benevolência. Se a benevolência manifestada na expiação não subjuga o egoísmo dos pecadores, o caso deles é perdido.

(8) As circunstâncias de seu governo tornaram necessária a expiação, uma vez que a execução da lei, na realidade, não era suficiente para prevenir o pecado. A aniquilação dos perversos não responderia aos propósitos do governo. Uma revelação plena da misericórdia, combinada com uma manifestação tal de justiça era exigida pelas circunstâncias do universo.

(9) Para confirmar os seres santos. Nada podia ser mais bem calculado para estabelecer e confirmar a confiança, amor e obediência dos seres santos, senão essa manifestação desinteressada de amor pelos pecadores e rebeldes.

(10) Para confundir seus inimigos. Que mais poderia ser tão bem calculado para silenciar todos os sofismas e para calar todos as bocas e para sempre fechar todos os lábios contrários, senão tal exibição de amor e disposição de fazer sacrifícios pelos pecadores?

(11) O fato de que a execução da lei de Deus contra os anjos rebeldes não havia detido, não podia ter detido, o progresso da rebelião no universo prova que algo mais precisava ser feito para sustentar a autoridade da lei, à parte da execução de sua penalidade contra os rebeldes. Embora a execução da lei possa ter uma forte tendência de prevenir um início de rebelião entre súditos leais e limitar os próprios rebeldes; ainda assim as inflições penais não conseguem, de fato, subjugar o coração sob governo algum, quer humano, quer divino.

Na realidade, a lei estava apenas exasperando os rebeldes, sem confirmar os seres santos. Paulo afirmou que a ação da lei sobre a própria mente dele, enquanto impenitente, era gerar nele todo tipo de concupiscência. Uma grande razão para outorgar a lei era desenvolver a natureza do pecado e mostrar que a mente carnal não se sujeita nem pode sujeitar-se à lei de Deus. A lei foi, portanto, dada para que a ofensa abundasse, para que com isso fosse possível demonstrar que, sem uma expiação, não poderia haver salvação para os rebeldes sob o governo de Deus.

(12) A natureza, grau e execução da penalidade da lei deram tal proeminência à santidade e à justiça de Deus, que elas absorveram muita atenção pública, sendo por isso afetadas. Aqueles aspectos de seu caráter foram revelados em tamanha plenitude pela execução de sua lei contra os anjos rebeldes, que a tomada do mesmo curso de ação com os habitantes deste mundo, sem a oferta da misericórdia, poderia ter e, sem dúvida tem tido, uma influência danosa no universo, por criar mais temor que amor por Deus e por seu governo. Assim, uma revelação mais plena do amor e da compaixão de Deus era necessária para guardar contra a influência de um temor em profusão.

Seu ato de assumir a natureza humana e obedecer até a morte sob tais circunstâncias constituíram um bom motivo para sermos tratados como justos. É prática comum nos governos humanos, e prática também baseada na natureza e leis da mente, premiar um serviço público eminente conferindo favores aos filhos daquele que prestou tal serviço e tratando-os como se eles mesmos o tivessem prestado. Isso é tanto benevolente como sábio. Sua importância governamental, sua sabedoria e excelente influência têm sido abundantemente atestadas na experiência das nações. Como uma transação governamental, esse mesmo princípio prevalece e, pelo mesmo motivo, sob o governo de Deus. Todos os que são filhos de Cristo e pertencem a Ele são recebidos por causa dEle, tratados com favor, e as recompensas da justiça são concedidas a eles por causa de Cristo. E o serviço público que Ele prestou ao universo ao entregar a vida para sustentar o governo divino torna eminentemente sábio que todos os que estejam unidos a Ele pela fé sejam tratados como justos por causa dEle.