Há Pecado mais Grave que Outro?


Há algum tempo um grupo de jovens cristãos discutia sobre pecado. Com base no primeiro capítulo da Epístola de Paulo aos Romanos, tentavam chegar à conclusão de que não há pecado mais grave ou menos grave que outro, já que o apóstolo condena tanto o homossexualismo (1.26-27) como a injustiça, a avareza, a inveja, o homicídio, a contenda, a soberba, a calúnia e outros delitos (1.28-32).

É muito positivo que se chame honestamente o pe­cado de pecado. Porque as primeiras providências para superar o problema do pecado começam com o reco­nhecimento explícito dele. Mas é preciso tomar todo cuidado para não diminuir a gravidade de alguns peca­dos por uma questão de cultura e conveniência. Seja grave ou não, pecado ainda é "qualquer falta de confor­midade com a Lei de Deus e qualquer transgressão dessa Lei", como reza o Catecismo Menor, elaborado pela Assembléia de Westminster, que se reuniu em Londres, de 1643 a 1649.

Certamente há pecados mais graves que outros pecados. A Bíblia tanto fala de “grave aflição” (Ec 6.2), “causa grave” (Êx 18.22), “grave chuva de pedras” (Êx 9.18), “enfermidade grave” (2 Cr 16.12) e “defeito [físico] grave” (Dt 15.21) como de “grave delito” (Gn 26.10), “grave mal” (Ec 5.13), “pecado grave” (Am 5.13), “rebelião grave” (Lm 1.20) e “grave transgressão” (Ez 14.13). Uma das lamentações de Jeremias enfoca essa questão: “Jerusalém pecou gravemente, por isso se tornou repugnante; todos os que a honravam, a desprezam, porque lhe viram a nudez; ela também geme e se retira envergonhada” (Lm 1.8).

As Escrituras Sagradas chegam a mencionar o mais grave de todos os pecados. É o “pecado eterno” (Mc 3.29), o “pecado sem perdão” (Mt 12.32), o “pecado para morte” (1 Jo 5.l6). Trata-se do pecado da blasfêmia contra o Espírito Santo, o pecado da rejeição consciente do evangelho, o pecado da “negação total e persistente da presença de Deus em Cristo” (G. M. Burge), o pecado da impenitência final.

Mede-se a maior gravidade de um pecado sobre outro quando se leva em conta o seguinte: 1) o volume de transtornos que esse pecado provoca na vida do próprio pecador; 2) o número de vítimas inocentes atingidas pelo pecado individual; 3)a intensidade do risco de se cair naquele círculo vicioso de que “um abismo chama outro abismo” (Sl 42.7); 4) o tamanho do prejuízo que o pecado causa no testemunho da igreja de Deus.

Além disso é necessário ter em mente que quanto mais responsabilidade tem uma pessoa, mais grave se torna o seu pecado, seja ele qual for. O adolescente que rouba do supermercado uma barra de chocolate comete pecado. Mas o pastor que rouba um envelope de dízimo do gazofilácio comete pecado muito mais grave, que pode destruir por completo o seu ministério.

Um rapaz e uma jovem que entram em acordo para praticarem o amor livre estão em pecado à luz da lei de Deus, que prevê o saudável exercício sexual sob a proteção do matrimônio. Mas se o mesmo rapaz obriga a moça a se deitar com ele, seu pecado é muito maior.

O adultério mental é pecado, de acordo com o Sermão do Monte (Mt 5.27-28). Mas a efetivação do adultério é muito mais grave, pois envolve outra pessoa e fere profundamente o cônjuge e os filhos traídos. O mesmo se pode dizer da ira e do homicídio (Mt 5.21-22). O primeiro é muito menos grave que o segundo.

A prostituição é pecado, pois trata-se de uma profanação do corpo (1 Co 6.15-20) e de uma comercialização do sexo, mas a prática homossexual é mais grave, porque, além de ser uma relação ilícita, é contrária à natureza (Rm 1.26-27).

A classificação do pecado em grave e menos grave é inevitável e, até certo ponto, saudável. Porém este exercício exige um acentuado critério. Ninguém está livre para cometer pecados “leves”. Muito menos para cometer pecados graves, especialmente o “pecado para a morte”. Todos precisam se resguardar da tentação de considerar o pecado alheio como pecado grave e o pecado próprio como pecado não grave. A gravidade ou não de um pecado não pode ser avaliada por aquele esquema sutil e duvidoso de defesa pessoal e de cultura coletiva.

Fonte: Elben M. Lenz César

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