domingo, 8 de setembro de 2013

O solascriptura-tt.org e suas acusações (série 4 de 5)


Por André R. Fonseca

Este é o quarto artigo da série de cinco que estou escrevendo como contraponto aos artigos encontrados no site solascriptura-tt.org. Abordarei um questão importante que é simplesmente ignorada em toda essa discussão, tanto por quem acusa como por quem defende: precisamos aprender a separar a Crítica Textual da Teologia!

Quero primeiramente apontar para a falácia de acusar o Texto Crítico de "atacar" ou comprometer a divindade de Cristo ou esse e aquele conceito teológico quando algum versículo no Texto Crítico não condiz com a doutrina/teologia. Isso tomando sempre como base o Texto Recebido.

O texto grego de Erasmo de Roterdã foi o primeiro a ser impresso e, por isso, popularizado. Foi um domínio circunstancial que imperou por 300 anos, aproximadamente, até que alguns corajosos começaram a questionar o trabalho de Erasmo que havia sido por ele mesmo qualificado como: “mais precipitado do que editado”! Levando, ainda, em consideração que a filologia evoluiu com o passar do tempo, além da descoberta de muitos outros manuscritos do NT, a análise desses novos manuscritos foi simplesmente inevitável. E tudo veio a somar!

Como o Texto Recebido foi o primeiro a ser entregue em forma impressa e popularizado, as primeiras edições bíblicas impressas adotaram-no como base para tradução. Quem se preocuparia em coletar papiros e pergaminhos, fazer cópias à mão quando um exemplar, editado e bem impresso, estava à disposição e por um preço muito mais em conta? Eu mesmo, com meus próprios olhos, pude avaliar a qualidade da primeira edição de O Novo Testamento Grego de Erasmo impresso em 1516. A obra tem uma qualidade de impressão muito, muito boa. Não vejo porque alguém se importaria em ter o trabalho de buscar as fontes quando alguém já havia entrado na empreitada e distribuído os resultados de seu trabalho pelo meio impresso e por preço acessível. Por que alguém procuraria as fontes hoje e teria o trabalho minucioso da análise quando os Aland já nos entregaram tudo prontinho, mastigado, e com a experiência que nós não temos? O mesmo aconteceu naquela época.

Os defensores da ACF não editam suas próprias traduções, eles simplesmente confiam na tradução entregue a eles pela editora. A fé no trabalho de terceiros faz parte dessa realidade. É claro que há um julgamento da parte do leitor, limitado por seu próprio conhecimento do assunto, mas até onde se pode julgar, a decisão de confiar ou não é tomada. O mesmo aconteceu ao senhor Almeida. Ele confiou na obra de Erasmo, assim como os reformadores, os editores da King James etc. Foi isso o que aconteceu com a King James Version e a primeira Almeida. Naquela época, não havia dúvida de que o texto a ser consultado para tradução deveria ser o Texto Recebido.

Quando levamos em consideração a reforma protestante, adivinha sobre qual texto os reformadores se debruçaram para compor a teologia reformada? O Texto Recebido. É claro! Essa revolução quanto à crítica do texto só tomaria vulto dois séculos mais tarde por força das circunstâncias, a saber, avanços em matérias de análise de ordem linguística e a descoberta de muitos outros papiros e pergaminhos do NT.

Quando os reformadores criaram suas teologias, eles fizeram a exegese dos textos que cobriam aquelas palavras ou frases como constam no Texto Recebido e estão de fora do Texto Crítico que só entraria em cena mais tarde. Não tinha como ser diferente!

Quando a Crítica Textual questiona a presença de algum elemento de texto no Texto Recebido, sua intenção não é a de confrontar nenhum conceito teológico, como a divindade de Cristo; mas, sim, de questionar a obra "mais precipitada do que editada" do senhor Erasmo.

Com a popularidade inicial do Texto Recebido e seu domínio por aproximadamente 300 anos, além da hegemonia da KJV em língua inglesa, tanto o Texto Recebido como a KJV receberam o status de Palavra de Deus! A turma defensora da KJV atribui a esta versão o mesmo grau de inspiração da própria Escritura. E nossos tupiniquins, defensores da Almeida Corrigida e Fiel, não deixam por menos.

Irmãos, precisamos nos conscientizar de que a tradução bíblica já teve um passado bem sombrio promovido pela ignorância, radicalismo da fé fanática e disputa de poder.

Diferente do que muitos acreditam, a King James Version não foi a primeira tradução da bíblia para o inglês. A Bíblia de Tindale foi a primeira; e, naquela época, Tindale tinha sido proibido de fazer a tradução. Precisou sair de seu país para realizar o trabalho. Sua preferência por algumas palavras para a tradução comprometeria o poderio politico da igreja, por exemplo, a ICAR responde à ameaça influenciando as autoridades a proibir a tradução da Bíblia para a língua inglesa, alegando que o inglês era um idioma pobre demais para transmitir o real significado do texto sagrado. As limitações da língua corromperiam o sentido original do texto. Tindale foi dedurado, preso e queimado vivo por traduzir a Bíblia para a língua inglesa!

A King James foi traduzida a partir dos originais. Mas em sua primeira edição já constava uma nota de reconhecimento da qualidade da tradução de Tindale. Especialistas dizem que a King James mais parece uma copia da Bíblia de Tindale com pequenos ajustes.  Basta, portanto, aprender um pouquinho mais de nossa própria história, que deveria ser obrigação de todos os cristãos, para perceber que essa insistência na preservação do texto pelo dogmatismo conduz a igreja por caminhos vergonhosos.

Os dogmas são afirmados com o amparo do texto bíblico, ou melhor, com o amparo de nossa compreensão do texto bíblico. Nem sempre o que entendemos é o que o texto bíblico diz! Se não fosse assim, não haveria tanta diferença entre uma denominação e outra. As diferenças são justamente reveladas pela compreensão diferenciada de certos textos bíblicos. Não foi isso o que causou a reforma a protestante?

Portanto, logo percebemos que não podemos deixar o texto bíblico como refém do dogmatismo para não acharmos que o nosso parecer é o correto e mandar queimar os outros. Se o dogmatismo estivesse acima do texto bíblico, a reforma não teria acontecidom, pois Lutero jamais poderia ter pensado ou interpretado de forma diferente. No caso de Lutero, percebemos que ele estava certo, e a ICAR estava realmente no caminho do erro. Mas o tempo provou que o dogmatismo que acendeu a lenha debaixo dos pés de Tindale estava completamente equivocado!

Dizer que o Texto de Erasmo é a Palavra de Deus inspirada não passa do mesmo dogmatismo bizarro! Ele mesmo, Erasmo, editou sua obra cinco vezes. Comparei as duas edições de 1516 e 1527 e pude perceber varias diferenças. A mais significativa é a comma joanina, que não faz parte do primeiro texto, mas aparece na edição de 1527. Percebi, durante o pouco tempo em que tive os exemplares originais nas mãos durante minha visita à Biblioteca Nacional, que havia muitas alterações nos artigos e no emprego do nomina sacra. Entre a primeira e a quinta edição, há alterações suficientes para mostrar que o texto não pode ser totalmente original, sofreu alterações regidas por critérios e metodologias semelhantes ao que encontramos no Texto Crítico e essas alterações no texto não batem com a precisão do conceito de inspiração que os proponentes do solascriptura-tt.org querem nos fazer engolir. Pois a principal queixa é: “não pode acrescentar nem retirar um "i" ou "til" do texto bíblico”. O próprio Erasmo - salve, salve e idolatrado - fez bem mais do que isso em apenas 11 anos! Querem alegar o que agora, que a primeira edição não era a Palavra de Deus inspirada, só a quinta edição era!? Vamos parar com as anedotas!

Precisamos aceitar a realidade, de uma vez por todas, que não temos os originais que saíram das mãos dos escritores. A Crítica Textual é uma ciência, sem compromissos com a teologia, de apenas buscar pelas evidencias o texto cópia mais próximo do original. Após trabalhar meus argumentos até este ponto na série de artigos, creio que apenas a crítica do texto pode nos permitir confiar no texto bíblico como palavra inspirada, livre da intromissão de copistas descuidados e tendenciosos, livre do dogmatismo que influenciou copistas a fazer ajustes aqui e ali... para que a nossa teologia possa, enfim, firmar os pés num texto limpo e preciso.

O próximo artigo será publicado no próximo dia 15 de agosto.

Autor: André R. Fonseca
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca
Fonte da imagem: http://blog.tyndaleusa.com/2013/07/26/recommendations-for-compliance-with-osha-1910-132-frc-flash-fire-memo/