sábado, 21 de setembro de 2013

Predestinados para quê mesmo?!


Por Rev. Flavio Oliveira


A doutrina da predestinação é uma das mais controversas do cristianismo, ainda que o termo seja claramente usado nas Escrituras.

O maior problema está no desenvolvimento e na aplicação dessa doutrina. Geralmente a controvérsia gira em torno de assuntos relacionados a ela como: eternidade, vontade de Deus, liberdade humana, responsabilidade, etc. Dependendo da ênfase pode-se pensar em exclusivismo e elitismo; outras ênfases podem passar a ideia de uma vida cristã arrogante, passiva e indiferente.

Ao mesmo tempo, ignorar a doutrina é ignorar os próprios termos bíblicos que a apresentam. Também pode indicar arrogância e uma auto-suficiência que chega a ignorar a soberania e a ação de Deus na vida das pessoas.

Entretanto, o principal problema parece se encontrar mais nas discussões periféricas relacionadas à doutrina e sua aplicação, do que propriamente no que ela está claramente ensinando. Ou seja, preocupa-se mais com fatalismos, motivações e até etiqueta (“Deus é cavalheiro…”) da parte de Deus do que com seu amor soberano; e mais com livre arbítrio e autonomia humana do que sua carência e necessidade de relacionamento com Deus. Não que essas discussões não sejam importantes em algum momento, mas acabam tirando o foco da ênfase do texto bíblico e acabam mais causando controvérsia do que clareando o ensinamento. Creio que aqui também se deva tomar cuidado com “coar mosquitos e engolir camelos”, como disse Jesus.

Uma grande ênfase do ensino bíblico com relação à predestinação é que ela é sempre “para” alguma coisa, sempre aponta “para” um objetivo. É importante ressaltar que não encontramos tantas explicações claras sobre várias dúvidas que a doutrina acaba levantando, mas há clara aplicação e objetivo da mesma, o que, por vezes, é ignorado tanto por quem concorda quanto por quem discorda. Assim, se nos concentrarmos na aplicação e objetivo propostos pelo próprio texto bíblico, teremos mais segurança e direcionamento para partir para as outras questões suscitadas.

Logo percebemos que o objetivo dessa doutrina não é levar ao exclusivismo, arrogância ou mesmo comodismo, menos ainda como uma licença para uma vida desregrada, como alguns opositores sugerem.

A ênfase está em que a ação de Deus em direção ao homem vai levá-lo a responder positivamente ao seu propósito.

Assim, somos eleitos: 


Para uma nova vida 

de humildade (Ef 2.8,9)

A doutrina da predestinação ensina, acima de tudo, que Deus é quem toma a atitude em direção à pessoa. Assim, ninguém pode se arrogar de ter sido melhor que os outros para conquistar o favor de Deus, pelo contrário, deve ver sua salvação como um ato de Graça da parte de Deus e ser grato por isso.

Ao mesmo tempo, fica fora de cogitação o julgamento sobre alguém ser ou não ser alvo da ação divina. Não há lugar para exclusivismo ou elitismo, mas apenas para considerar os outros como prováveis alvos da graça de Deus, como também temos sido. O contexto, inclusive, fala sobre a quebra do muro que separava judeus de gentios (v. 14).

Que ninguém se glorie, apenas agradeça a Deus em humildade.

Em santificação para a Glória de Deus (Ef 1.4,5)

Fomos chamados para termos uma nova postura diante de Deus. Quando a Graça nos alcança, encontramos o verdadeiro tesouro da vida e, por isso, não pensamos duas vezes em abrir mão de nossas posses terrenas para o que realmente importa (cf. Mt 13.44-46). Nossa preocupação é sermos movidos pela nova realidade que conhecemos em Deus, deixando muitas atitudes e, principalmente, assumindo outras: isso se chama santificação.

Santificação significa separar-se para tornar-se exclusivo para Deus. Essa santificação é perante ele, o único que conhece os corações. Nosso objetivo é apenas responder ao que ele tem nos feito e deixar toda a Glória para ele. Essa santificação nunca pode se parecer com a ostentação do fariseu diante do publicano querendo exaltar a sua “santidade” (Lc 18.9-14).

Semelhantes a Jesus (Rm 8.29)

No final das contas, somos chamados para ser como Jesus foi. Jesus não veio apenas morrer e ressuscitar, mas veio viver entre nós para que víssemos, de modo prático, o exemplo que temos a seguir. Vemos sua humildade, seu amor, sua coragem, firmeza, seu relacionamento com o Pai, etc. São os princípios que devem estar em nós também. Ele é nossa influência e nosso objetivo.

É estranho como alguns cristãos parecem demonstrar o seguinte pensamento: “já estou salvo, carimbei meu passaporte para o céu, agora só quero que o mundo se exploda e que Jesus volte logo”. Já notei esse pensamento tanto em pessoas que crêem na predestinação como em outras que não crêem. Seja qual for o caso, nenhum desses está preocupado em ser como Jesus no mundo.

Para uma Nova Missão

Proclamando as virtudes de Cristo (1 Pe 2.9)

Já vi muito esse versículo sendo usado mais para se exaltar o status de “raça eleita”, “nação santa” e “povo de propriedade exclusiva de Deus”, do que a ênfase em “proclamarmos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz”.

O item anterior falou sobre sermos como Jesus. Ser como Jesus é proclamar suas virtudes de maneira prática. Como ele mesmo disse: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem ao Pai que está nos céus” (Mt 5.16).

Deus tem uma obra para esse mundo e ele quer nos usar para isso, esse é o objetivo da eleição. É como um professor que escolhe alguns alunos mais motivados numa classe, para que esses possam auxiliar os outros no entendimento da matéria complicada, a qual será boa para todos.

Dando frutos permanentes (Jo 15.16)

Jesus também deixa isso bem claro aos seus discípulos, os quais haviam sido escolhidos nominalmente por ele. Eles foram chamados para serem seus discípulos e designados para que dessem bons frutos permanentes. Interessante que eles não foram chamados unicamente para serem salvos, como se Deus fosse salvar apenas eles, mas o chamado foi para que dessem frutos com base no amor. Foram chamados para serem seus amigos pelo conhecimento de sua palavra, para que suportassem o ódio que receberiam do mundo e para receberem o Espírito e testemunharem (como se encontra no contexto do versículo).

Fomos chamados e designados não para nosso próprio bem, mas para o bem do nosso próximo, para o amor. Esses são os frutos do Espírito.

Caminhando em boas obras (Ef 2.10)

O mesmo texto que diz para não nos gloriar pela salvação – pois esta é dom de Deus – é o mesmo que diz explicitamente para o que fomos criados: para as boas obras. Do mesmo modo que fomos eleitos por Deus antes que tomássemos qualquer atitude, ele também preparou as boas obras pelas quais queria que nós andássemos.

Deus conhece os problemas de mundo, sabe quais as obras necessárias e quer que andemos nelas. Em João 15.15 Jesus diz que chama seus discípulos de amigos – e não apenas de servos – porque ele lhes revelava a vontade de seu Pai, ou seja, eles não agiam na ignorância, mas sintonizados com o amor de Deus ao mundo (Jo 3.16).

Essas obras necessárias foram feitas por Cristo, nós somos seus discípulos e, assim, vivemos nele pelo Espírito Santo e proclamamos suas virtudes de modo prático, ou seja, pelas nossas boas obras.

"Como não é possível que Deus receba de nós algum benefício, como diz o profeta, ele não exige que façamos boas obras em seu benefício, mas nos concita à prática das boas obras em favor do nosso próximo." (João Calvino)

Finalmente

Se procedermos assim, estaremos confirmando nossa eleição e obedecendo ao chamado de Jesus.

Acredito também que as controvérsias com relação à doutrina da predestinação ficarão menores, pois gastaremos mais tempo colocando ela em prática que discutindo sobre suas dificuldades.

Que acima de tudo esteja o amor com que Deus nos amou e, por causa dele, o nosso amor prático pelos nossos irmãos.

"Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo e vir a seu irmão padecer necessidade e fechar-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?

Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade."
(1 João 3.16-18)

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Sobre o autor: Flavio Oliveira é Pastor da Igreja Presbiteriana do Jd Santana em Limeira/SP, formado pelo SPS em 2000, com validação do diploma no Mackenzie em 2007. Compõe e toca na banda "o Velho Profeta".
Fonte: Blog do autor