sábado, 9 de fevereiro de 2013

Por que os mansos são felizes?


Referência: Mateus 5.5

INTRODUÇÃO
1. Esta bem-aventurança está na contra-mão dos valores do mundo – O mundo rejeita os valores do Reino de Deus. A humanidade pensa em termos de força, de poderio militar, bélico, econômico, político. Quanto mais agressivo, mais forte. Esse é o pensamento do mundo. Jesus, porém, diz que não são os fortes e os arrogantes que são felizes; nem são eles que vão herdar a terra, mas os mansos. Ser cristão é ser totalmente diferente. Somos uma nova criatura. Temos um novo nome, uma nova vida, uma nova mente, um novo Reino.

2. O pregador frustra as expectativas do seu povo – Os judeus subjugados pelos romanos desde 63 a.C., esperavam um Messias político, guerreiro, que implantasse seu Reino pela força. Havia quatro grupos em Israel: 1) Os fariseus – eram os religiosos conservadores; eles queriam um Messias milagroso; 2) Os saduceus – eram os liberais; eles queriam um Messias materialista; 3) Os essênios – eram os místicos que viviam nas cavernas de Qumran, perto do Mar Morto; eles queriam um Messias monástico; 4) Os zelotes – eram os ativistas que queriam se insurgir contra Roma; eles queriam um Messias militar. Os próprios apóstolos pensaram num Reino político (At 1:6). Mas Jesus veio com outra proposta e o povo disse: Não queremos esse Messias. Fora com ele. Crucifica-o.

I. O QUE NÃO SIGNIFICA SER MANSO 
1. Ser manso não é um atributo natural
A mansidão não é apenas uma boa índole, uma pessoa educada socialmente. Não apenas algo externo, convencional, mas uma atitude interna, uma obra da graça no coração, fruto do Espírito. Spurgeon dizia que “ser manso não é virtude, é graça”. Ninguém é naturalmente manso. Só aqueles que reconhecem que nada merecem diante de Deus e choram pelos seus próprios pecados, podem ser mansos diante de Deus e dos homens.

2. Ser manso não é ser mole ou ficar impassivo diante dos problemas
Ser manso não é ser tímido, covarde, medroso, fraco, indolente. As pessoas mansas foram profundamente vigorosas e enérgicas. Elas tiveram coragem para se posicionar com firmeza contra o erro. Elas enfrentaram açoites, prisões e a própria morte por seus posicionamentos. Os mártires foram pessoas mansas.
Jesus era manso e humilde de coração, mas ele usou o chicote para expulsar os vendilhões do templo e teve coragem para morrer numa cruz, em nosso lugar.

3. Ser manso não significa manter a paz a qualquer preço
Ser manso não é ser conivente, ficar em cima do muro, tentar agradar a gregos e troianos, ser neutro, viver sem cor, sem sal, sem sabor, sem opinião própria. Ser manso não é ser passivo, indeciso.

4. Ser manso não é apenas controle emocional externo
Há pessoas que conseguem manter a calma, o domínio próprio diante de situações adversas, mas não conseguem abrandar as chamas da alma. São como um vulcão que estão sempre em ebulição por dentro. Elas não explodem, mas vivem cheias de fogo por dentro. Elas são apenas aparentemente calmas. Elas mantém as aparências diante dos homens, mas não são calmas aos olhos de Deus. Elas não falam mal, mas desejam mal. Elas não fazem o mal, mas alegram-se intimamente com o fracasso dos seus inimigos.

II. O QUE SIGNIFICA SER MANSO 
1. Uma pessoa mansa é submissa à vontade de Deus
Uma pessoa mansa não se rebela contra Deus, nem murmura. Ela aceita a vontade Deus de bom grado. Ela diz como Jó: “temos recebido o bem de Deus, porventura, não receberíamos também o mal?”.
Uma pessoa mansa é como Paulo, sabe viver contente em toda e qualquer situação. Ela dá sempre dando graças a Deus, sabendo que todas as coisas cooperam para o seu bem.

2. Uma pessoa mansa está debaixo do controle de Deus
O manso é aquele que foi domesticado. A palavra manso era empregada para descrever um animal domesticado. Um potro selvagem causa uma destruição. Um potro domado é útil. Uma brisa suave refresca e alivia. Um furacão mata. O manso morreu para si mesmo. Ele foi domesticado pelo Espírito. A mansidão é fruto do Espírito. Ele está sob autoridade e sob o controle. Ele obedece as rédeas.
O manso é aquele que tem a força sob controle. Ele tem domínio próprio. Mais forte é o que domina o seu espírito do que aquele que conquista uma cidade.
O manso é aquele que não reinvindica os seus próprios direitos. Jesus, sendo Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus.
O manso é aquele que está disposto a sofrer o dano. Como Paulo escreveu aos coríntios, numa demanda entre irmãos, ele está pronto a sofrer o dano em vez de buscar levar vantagem.

3. Uma pessoa mansa reconhece diante dos homens aquilo que ela reconhece diante de Deus
Não temos nenhuma dificuldade de fazermos uma oração de confissão e dizer: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, porque eu sou um mísero pecador!”. Nós admitimos isso. Confessamos isso. Mas se alguém vier nos chamar de pecador, nós logo rechaçamos. Não admitimos ser diante dos homens aquilo que admitimos ser diante de Deus. Não aceitamos que os homens nos tratem da mesma maneira que admitimos ser para Deus.
O manso é aquele que não luta para defender sua própria honra. Aquele que já está no chão não tem medo da queda.
Ilustração: uma mulher mandou uma carta ao irmão André fazendo-lhe pesadas acusações. Ele chorou e pediu a Deus graça. Então, sentou e escreveu uma carta: Minha irmã, eu concordo com você. Eu sou muito pior do que você descreveu. Se você me conhecesse como Deus me conhece, certamente você teria sido muito mais forte nas suas acusações.

4. Uma pessoa mansa suporta injúrias
Uma pessoa mansa não é facilmente provocada. Um espírito manso não se inflama facilmente. Davi dá o seu testemunho: “Armam ciladas contra mim os que tramam tirar-me a vida; os que me procuram fazer o mal dizem cousas perniciosas e imaginam engano todo o dia. Mas eu, como surdo, não ouço e, qual mudo, não abro a boca” (Sl 38:12,13).
Há algumas coisas que se opõem à mansidão:

a) Precipitação – Uma pessoa precipitada, que fala antes de pensar, que age antes de refletir, que se destempera facilmente e perde o controle emocional não é uma pessoa mansa. Basílio comparava a ira à embriaguez e Jerônimo dizia que há mais pessoas embriagadas de paixão iracunda do que de vinho. A ira descontrolada suspende o uso da razão. Muitas pessoas são frias na expressão da sua fé, mas vivem em estado de ebulição quando se trata da ira.

b) Maldade – Uma pessoa mansa não faz o mal, não fala mal nem deseja o mal. A Bíblia diz que aquele que odeia o seu irmão é assassino (1 Jo 3:15) e quem o chamar de tolo está sujeito ao fogo do inferno (Mt 5:22).

c) Vingança – A Bíblia proíbe a vingança: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor”. A vingança é uma usurpação de uma ação exclusiva de Deus.

d) Falar mal – A Bíblia nos ordena a não falar mal uns dos outros. O pecado que mais Deus odeia é da língua que semeia contenda entre os irmãos. Tiago 3 diz a língua tem o poder de dirigir (freio e leme), o poder de destruir (fogo e veneno). Muitas pessoas não tiram a vida do próximo, mas destroem sua reputação com a língua. A língua torna-se um mundo de iniquidade, indomável e incoerente.

5. Uma pessoa mansa perdoa as injúrias
Jesus disse: “E, quando estiverdes orando, se tendes alguma cousa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11:25). Não adianta orar sem perdoar. Nós lembramos mais as injúrias do que as benevolências.
Ilustração: Certa mulher foi visitada pelo seu pastor no leito da morte: “Você está pronta a perdoar o seu inimigo? Ela respondeu: Eu não vou perdoá-lo, ainda sabendo que por isso, estou indo para o inferno.”
Jesus é o nosso modelo de homem manso. “Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entrega-se àquele que julga retamente” (1 Pe 2:23).
Como deve ser o perdão?

a) Real – Deus não mostra o seu perdão para nós e guarda o nosso pecado para si. Ele apaga os nossos pecados como a névoa e os lança no mar e deles nunca mais se lembra. Deus perdoa e esquece. Deus perdoa e não cobra mais. Deus perdoa e nunca mais lança o nosso pecado em nosso rosto. É assim que devemos perdoar, como Deus perdoa, de todo o coração.

b) Pleno – Deus perdoa todos os nossos pecados. “Ele perdoa todas as nossas iniquidades” (Sl 103:3). Se você é manso, você perdoa todas as injúrias. Uma pessoa que não é mansa, perdoa algumas ofensas, mas retém outras. Isso é apenas um meio perdão, isso não é completo perdão. Se Deus fizesse isso com você, como você estaria agora?

c) Constante – A Bíblia diz que Deus é rico em perdoar (Is 55:7). Até quantas vezes devemos perdoar? Até 
sete vezes? Não, até setenta vezes sete. Não há cristianismo sem perdão. Se você não perdoa você não pode adorar, ofertar, orar, ser perdoado. Se você não perdoa você não tem paz, fica doente, dominado, atormentado. Se você não perdoa o seu irmão, não é apenas a ele que você está ferindo, mas está ferindo também a Deus. Quem vive sem mansidão, morre sem misericórdia.

6. Uma pessoa mansa recompensa o mal com o bem
Amar os inimigos, fazer o bem a eles e orar por eles é a marca de uma pessoa mansa (Mt 5:44). A Bíblia diz que se o nosso inimigo tiver fome, demos dar ele de comer (Rm 12:20). O apóstolo Pedro diz: “não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança” (1 Pe 3:9).
Pagar o mal com o mal é agir como um selvagem. Pagar o bem com o mal é agir como um demônio. Mas pagar o mal com o bem é agir como um cristão, como uma pessoa mansa.
Davi dá o seu testemunho: “Pagam-me o mal pelo bem, o que é desolação para a minha alma. Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito” (Sl 35:12-13).

III. RAZÕES PARA SERMOS MANSOS 
1. Nós devemos ser mansos porque Jesus, o nosso supremo modelo foi manso
Jesus é o homem perfeito. E ele foi manso e humilde de coração. Quando ele era ultrajado, não revidava com ultraje. As palavras de seus inimigos foram mais amargas do que o fel que lhe deram na cruz, mas as palavras de Cristo foram mais doces do que o mel, foram palavras de perdão e salvação.
Ele orou e chorou pelos seus inimigos. Ele perdoou os seus inimigos e nos convida: “Aprendei de mim, porque sou manso” (Mt 11:29).
Cristo não nos exorta a aprender com ele a fazer milagres, a abrir os olhos aos cegos, a levantar os mortos, mas ele nos exorta a aprendermos com ele a sermos mansos. Se nós não imitarmos sua vida, não seremos salvos pela sua morte.

2. Nós devemos ser mansos porque os servos de Deus do passado também foram mansos

a) Abraão – Abraão abriu mão dos seus direitos e deu a Ló a oportunidade de escolher primeiro. Uma pessoa mansa abre mão, não briga pelos seus próprios direitos.

b) Moisés – Números 12:3 diz que Moisés foi o homem mais manso da terra. Quantas injúrias ele sofreu! Quando o povo de Israel murmurava contra ele, em vez de se irar contra o povo, ele caia de joelhos em oração pelo povo (Ex 15:24,25). As águas de mara não foram tão amargas como o espírito do povo, mas Moisés reage não com amargura, mas com oração.

c) Davi – Saul perseguia loucamente a Davi, e este, algumas vezes, teve a vida de Saul em suas mãos, mas ele não se vingou (1 Sm 26:7,12,23). Simei amaldiçoou Davi e este não permitiu que sua vida fosse tirada (2 Sm 16:11). Um homem manso não defende sua própria causa, sua própria reputação.

3. A mansidão é o caminho para derreter e conquistar o coração dos próprios inimigos
A palavra dura suscita a ira, mas a resposta branda (mansa), desvia o furor (Pv 15:1).
A brandura de Davi com Saul, derreteu seu coração mais do que a bravura de Davi (1 Sm 24:16,17).
A mansidão é como ajuntar brasas vivas na cabeça do seu inimigo. A ira faz um amigo tornar-se inimigo, mas a mansidão, faz um inimigo tornar-se amigo.

IV. QUAL É O RESULTADO DA MANSIDÃO 
1. Uma profunda e gloriosa felicidade
Jesus diz que os mansos são felizes, bem-aventurados. A palavra Macarios era usada pelos gregos para descrever a felicidade dos deuses. É uma felicidade plena, completa, independente das circunstâncias, baseada num relacionamento íntimo e permanente com o Deus vivo.

2. A herança da terra no tempo
Mesmo sendo estrangeiro na terra (Hb 11:37), os mansos são aqueles que herdam a terra. Eles comem o melhor dessa terra. O ímpio tem a posse temporal da terra, mas o manso usufrue as benesses da terra.
Nesse sentido, os mansos já são herdeiros da terra, na vida presente. Ele é uma pessoa satisfeita. Sente-se contente. Ele nada tem, mas possui tudo. Paulo diz: “entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Co 6:10). Paulo diz: “Eu aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Eu tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4:11-13).
O manso é cidadão do céu. O manso é filho de Deus. O manso é herdeiro de Deus e co-herdeiro com Cristo. Do Senhor é a terra e a sua plenitude. Tudo que pertence ao Pai, pertence ao filho (1 Co 3:21-23). Os mansos são os verdadeiros herdeiros de tudo o que é do Pai. Receberemos a herança original de domínio sobre a terra que Deus deu a Adão. É a reconquista do paraíso.
Eles conquistam a terra não pelas armas, não pela força, mas por herança. O manso herda as bênçãos da terra. O ímpio pode ter abundância de dinheiro, mas o manso tem abundância de paz (Sl 37:11). O ímpio não tem o que parece ter. Ele tem propriedades, terras, mas não pode levar nada, não herda nada. Mas o manso, mesmo desprovido agora, tem a herança, a posse eterna de tudo o que é do Pai.

3. A herança da nova terra e do novo céu na eternidade
O manso desfrutará da terra restaurada, redimida do seu cativeiro. Ele habitará no novo céu e na nova terra (Ap 21:2-3). Ele reinará com Cristo sobre a terra.
O manso não apenas herda a terra, mas também o céu. O manso tem a terra apenas como a sua casa de inverno, mas tem no céu uma mansão permanente, eterna, casa feita não por mãos, eterna no céu.