quinta-feira, 27 de junho de 2013

Agência de curas divinas e organizações paraeclesiásticas


Por Rev. Rogério da Silva Cardoso



Agência de curas divinas

A cura divina como tal, isto é, como objetivo único de um grupo ou de um líder carismático, não constitui Igreja, mas “movimento”. 

Os líderes carismáticos de cura divina estabelecem balcões de oferta de bens de religião a uma clientela flutuante e descompromissada na qual a relação do fiel com o sagrado ocorre na base do “dar para receber”. A prática dos grupos de cura divina avizinha-se das práticas de magia, e como afirmou E.Durkheim, não há Igreja mágica. Embora alguns desses grupos mantenham seu discurso nos parâmetros da fé cristã, sua prática às vezes se afasta dela, enquanto outros apresentam discurso e prática quase irreconhecíveis do ponto de vista do cristianismo ortodoxo.

A maior agência brasileira de cura divina é a Igreja Pentecostal “Deus é Amor”, de David Miranda, que tem numerosas similares em grandes ou pequenas salas espalhadas nas áreas deterioradas ou nas periferias pobres dos grandes centros urbanos. Seu público é a massa desesperada em busca dos bens mínimos de sobrevivência como saúde e emprego. É a religião da aflição, em palavras de Peter Fry. Atrai gente de muitas religiões e não exige das pessoas nenhum compromisso a não ser a contraparte das graças recebidas. Na cura divina o milagre é fim, e não percurso, como nas Igrejas pentecostais.

Diariamente afluem para a sede da “Igreja Pentecostal Deus é Amor”, um megatemplo construído no bairro do Glicério na cidade de São Paulo – Milhares de pessoas que participam dos cultos de cura divina. “Deus é Amor” já se faz presente em muitos estados da Federação.

Apesar do nome Igreja, entretanto, “Deus é Amor” ainda é apenas um movimento. Sua população é flutuante, e a relação fiel/liderança/sagrado ainda é contratual e descompromissada. É impossível falar em número de membros. O movimento atrai as massas trabalhadoras periféricas e pobres por causa da ênfase na cura no seu sentido mais amplo, isto é, saúde, emprego e problemas existências.

Sem entrar em valores religiosos, o pentecostalismo e o movimento de cura divina exercem papel social importante, promovendo a catarse dos conflitos do cotidiano que desabam sobre a classe trabalhadora pobre e periférica dos grandes centros urbanos e das áreas camponesas de trabalhadores assalariados.

Organizações paraeclesiásticas
Para o historiador K.S. Latourette, o período entre 1815 e 1914 constitui o “grande século” do cristianismo. Pelo menos para o protestantismo, o século XIX foi o período de formação de sua teologia e de sua grande difusão, no caminho aberto pela expansão dos impérios coloniais anglo-saxões. Mas ao mesmo tempo em que no interior dos grandes avivamentos formava-se a teologia prática do conversionismo, motor das missões protestantes, nos subterrâneos do Iluminismo gestava-se a teologia liberal que iria, no século XX, minar as próprias bases das missões. Acresça-se, ainda, que Igrejas e missões se fundamentaram no postulados do século XIX de que o cristianismo, no caso entendido como protestantismo, era a religião mais avançada do mundo e, como tal, representava também a civilização mais desenvolvida. Hoje o cenário mudou. Religiões e nações não-cristãs revitalizaram-se e puseram em xeque essa convicção. 

Há duas causas, portanto, para os recuos, perdas e crises do protestantismo missionário de 1914 para cá: a teologia liberal e a revitalização das nações não-cristãs. Carl Joseph Hahn entende que teólogos do século XIX, ao tentarem tornar o cristianismo aceitável à geração da “idade da razão”, fizeram concessões em demasia e tiraram da fé cristã o que é essencial ao trabalho missionário. Desde I.Kant, passando por F. Schleiermacher, G.F. Hegel, D. Strauss e B. Baur, até J. Wellhausen, a fé cristã foi sendo reduzida a uma questão de consciência, e não de revelação. Além disso, a historicidade de Jesus foi questionada, debatida e devassada, culminando com a clássica obra de Albert Schweitzer, de 1906, em que o teólogo e missionário retorna às teses de D. Strauss em A vida de Jesus, de 1835. A teologia liberal, cujo principal componente foi a crítica histórica, minou dois grandes pilares das missões protestantes: a inspiração da Bíblia e a cristologia.

No primeiro caso, transformou a Bíblia num livro condicionado pela história. No segundo, pôs em dúvida a historicidade de Jesus e, desse modo, seu papel de Salvador absoluto. A questão da revitalização de nações não-cristãs como Japão, China, países árabes e africanos pôs em dúvida a superioridade do cristianismo em relação às religiões ditas “pagãs”. 

Os fatores em questão exigiam, para a retomada da expansão protestante, ainda vista como garantia dos valores e do status quo das nações dominantes do capitalismo mundial, uma retomada da teologia conversionista e a revisão da estratégia missionária.

A teologia convercionista, componente da tradição missionária, repousa sobre o princípio de que convertendo-se os indivíduos a sociedade acabará se convertendo e mudando para melhor. Mas, ao contrário do que cria o Evangelho Social, a sociedade nunca será inteiramente justa a não ser no milênio. A mudança de estrutura social está fora de cogitação. A estrutura ideal é essa que está aí, que precisa apenas ser aperfeiçoada. O grande responsável pelos males e injustiças é pecado individual. Daí a ênfase na conversão o duplo papel de, ao mesmo tempo, reparar as brechas provocadas pela teologia liberal e prosseguir a ocupação ideológica do status quo.

Mas o veículo não podia ser mais a velha estrutura das Igrejas, que revelava certo cansaço e alguma relutância em aceitar missionários estrangeiros por causa do nacionalismo e do surgimento de liderança própria.

Neste cenário é que surgem as organizações paraeclesiásticas, justamente após a II Guerra Mundial, quando as nações vitoriosas dividem o mundo em dois blocos ideológicos distintos e quando o bloco ocidental busca estender sua hegemonia sobre nações subdesenvolvidas, tradicionalmente em sua periferia. Elas passaram a representar, no fim dos anos de 1950, uma nova estratégia missionária. 

Paraeclesiásticas são organizações missionárias diferentes das tradicionais. Elas não se ligam às juntas ou comitês das grandes Igrejas norte-americanas, mas se organizam independentemente delas com contribuições em dinheiro de membros das diversas Igrejas que assumem compromissos individuais de sustentação de missões ou missionários. No entanto, como não estão ligadas às grandes estruturas eclesiásticas, mas a compromissos individuais teoricamente precários, são chamadas “missões de fé”. 

As paraeclesiásticas agem em três diferentes níveis: evangelização de massa, acampamentos para juventude e literatura. A evangelização de massa, em que organizações paraeclesiásticas como a Visão Mundial esforçam-se por envolver as denominações em geral em campanhas evangelísticas de grande amplitude, inspira-se no “Pacto de Lausanne”, celebrado no Congresso Internacional de Evangelização realizado em Lausanne, Suíça, em 1974. O “Pacto de Lausanne” inspira-se no movimento “evangelical” do século XIX e procura mobilizar as Igrejas para a evangelização mundial.

Em 1983, em Belo Horizonte, a Visão Mundial realizou o Congresso Brasileiro de Evangelização em que os temas de Lausanne foram retomados e atualizados em termos de realidade brasileira.

Não se pode avaliar ainda o movimento quanto ao crescimento das Igrejas. Sob o ponto de vista da mobilização das Igrejas para o compromisso com a sociedade brasileira, é de crer que o conteúdo teológico muito conservador não as leve nessa direção. É possível, ao contrário, que convercionismo individualista e o messianismo de espera, tradicionais no protestantismo brasileiro, sejam reforçados e dificultem ainda mais a aproximação do protestantismo tradicional das realidades sociais do país.

Os acampamentos de juventude, cujo protótipo no Brasil é a organização Palavra da Vida, são estratégia para a conversão de jovens. Partem do princípio de que todos necessitam de conversão, mesmo os jovens fiéis das Igrejas tradicionais, que afluem em grande número aos seus retiros semanais de férias escolares. O resultado, pelo que se pode inferir dos testemunhos desses jovens que, em equipes, saem pelas Igrejas com o objetivo de atrair outros jovens, é uma sensível alienação em relação à família, à Igreja e à sociedade. 

Ao creditar ao acampamento seu novo programa de vida, o jovem, no seu testemunho e nas suas ações, desqualifica a família, que não “soube conduzi-lo na religião”, a Igreja, que “não lhe deu o ambiente adequado à sua conversão”, e a sociedade, cujos valores ele repudia, incluindo a educação e o trabalho. Os jovens frequentadores de acampamentos tendem a formar, nas Igrejas, grupos separados, às vezes em clara oposição às lideranças. 

A literatura religiosa protestante é atualmente muito numerosa no Brasil. A qualidade das publicações, sob o ponto de vista da apresentação gráfica, é boa e relativamente barata. Os temas explorados pelas editoras dessa literatura – Betânia (extinta) e Vida Nova, por exemplo – são variados. No entanto, obtêm grande sucesso os livros que veiculam aquilo que em outro estudo chamamos de protestantismo positivo. O protestantismo positivo é a contrapartida da classe média ao pentecostalismo e à cura divina e se baseia na crença de que problemas existenciais e de saúde podem ser resolvidos mediante um programa devocional bem elaborado e seguido à risca.

Histórias reais de pessoas, em geral de outros países, que resolveram seus problemas seguindo este ou aquele método devocional encorajam os leitores a fazer o mesmo. O resultado é o fortalecimento de uma religiosidade individualista e solitária, tendente a enfraquecer o sentido de vida religiosa comunitária.

Em suma, as organizações paraeclesiásticas, todas de origem estrangeira, tendem a enfraquecer as Igrejas pelo menos em dois aspectos: primeiro, pela paralisação a que induzem pela teologia conservadora que programam e, segundo, pelo conformismo das Igrejas que acabam delegando às paraeclesiásticas os projetos que deveriam empreender: a formação de novas gerações. As paraeclesiásticas correm em pista própria e apagam o brilho das Igrejas tradicionais.

Considerações Finais

No cenário protestante brasileiro atual, composto de mais ou menos de 25 milhões de evangélicos – somados tradicionais e pentecostais, a balança pende negativamente para os protestantes tradicionais.

Esses talvez cheguem a somar 5 milhões, ficando o restante com as igrejas pentecostais. Em 1990, estimava-se que os pentecostais atingiriam 30 milhões até o final daquele século, porém não se contava com a “explosão neopentecostal”.

Alguns fatores considerados neste estudo, podem contribuir para uma nova explosão dos pentecostais frente a uma retração das Igrejas protestantes tradicionais.

As Igrejas tradicionais de origem missionária não conseguiram inserir-se na sociedade brasileira, mesmo depois de algumas terem se afastado das missões estrangeiras. Atualmente as paraeclesiásticas estão contribuindo para reforçar e prolongar o distanciamento dos membros dessas Igrejas em relação ao mundo circundante por meio de conceito de salvação individual e do messianismo de espera. Sendo Igrejas de classe média e propensa à manutenção do discurso lógico-teológico e intelectualizado, não atraem a massa de assalariados pobres, cada vez maior. Adicione-se a isso outro fator: o isolacionismo das comunidades protestantes tradicionais, que se assemelham a clubes fechados em que se entra mediante convite especial. Há um bom número de templos que mais se assemelham a capelas particulares, quase escondidos em fundos de terrenos arborizados, em ruas secundárias, às vezes sem saída, ou perdidas em meio a salões e salas de reuniões.

O elemento simbólico, importante em todas as religiões, foi praticamente perdido pelas Igrejas tradicionais de origem missionária.

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Referência Bibliográfica: 
MENDONÇA, A.G. e VESLASQUES Filho, P. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo. Edições Loyola, 1990, p. 55-59.

Sobre o autor: Rev. Rogério da Silva Cardoso é Pastor na Igreja Presbiteriana de Parque Terra Nova II - São Bernardo do Campo - SP. É formado em Teologia pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Durante sete anos foi missionário no Acre; É professor no Instituto Bíblico Ashbel Green Simonton.

Fonte: Aula dada em sala (História da Igreja no Brasil).